O presbytério da montanha

António Feliciano de Castilho · Capítulo 48 de 78

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O presbytério da montanha

(Fragmento achado entre os manuscritos de Castilho)

 

A minha primavera emfim renasce.

Té n'este horror selvatico dos montes

roupas traja nupciaes a Natureza.

O ceo azul, o ar morno, as aguas puras,

tudo nos diz «amor»; dizem-n-o as aves

chalreando ao florir das alvoradas;

bala o rebanho alegre; armento o muge;

na folha nova zéphiro o cicia;

a camponeza em meio de mil flores,

que lh'o exhalam balsamico, o suspira,

e ao viçoso tapiz, á sombra vasta

macia e tentadora lança os olhos.

Em quanto o rouxinol, Orpheu plumoso,

enleva a fonte e as arvores nocturnas,

cantando amor, da lua ao raio incerto,

lições que mais de um ente ao longe estuda (e pratica talvez); em sons de lyra,

solitario eu tambem, lições de affectos

de cá te envio ao centro da cidade.

N'esse ruidoso vórtice de povo,

de vãos praseres, de negocios futeis,

a geral rotação te arrasta ás cegas;

é dever da amisade erguer-te aos olhos

luz, salvadora luz. Náufrago entre ondas

pode não ver a táboa ás vezes perto;

pode a praia ignorar, e tel a em face.

Táboa amor te lançou da praia firme;

ledo e fausto Hymeneu te está chamando. ..........................................................