O presbytério da montanha
Capítulo II
Como todo o meu fim em fazer versos não era outro senão o fazel-os, de todo o modo me nasciam bem. Não tinham de apparecer entre gente; não os educava; não os corrigia; não lhes punha galas e arrebiques. Assim sahiram, assim ficaram, e assim os esqueci.
Revi-os depois de tornado ao mundo, aonde já cuidei que não tornasse; achei-os os mesmos que os tinha deixado: sinceros, mas incultos e semi-silvestres, como nados e creados que eram por entre troncos e penedos, longe de olhos e de ouvidos, que fazem por fora o mesmo que por dentro faz a consciencia.
Vieram-me tentações de os enjeitar; mas... eram filhos; contavam já annos: recordavam-me tempo de saudades; eram me saudades elles proprios; reconheci-os; dei-lhes o meu nome; com elle os apresento.
II
Todos os autores, ainda os que mais intimos se nos figuram, cuido eu que se compõem para o Publico; e, bem hajam elles!: não levam á praça senão o que teem averiguado que por lá se deseja e se procura; põem de parte, quanto podem, a sua pessoa, para servirem ao interesse ou gosto alheio.
Nada d'isso tenho eu n'estas paginas.
Não sou eu que vou para os leitores; são os leitores que teem de vir para mim, se as quizerem ler. Hão-de deixar a sua cidade, pelo meu ermo; as suas occupações, pelo meu ocio; a sua polidez, pela minha rudeza; os seus, pelos meus costumes; a historia ou o romance da sua vida, pelo recantinho domestico onde a minha correu, como uma fonte desconhecida e pura, que mana gotta a gotta n'uma cova, só vista de cima pelo ramo de tojo que a sombreia, ou pela nuvem, ou pela andorinha cujo ventre branco ella retrata no seu vôo. Pelo que, bem entendido deve ficar desde aqui (a fim de que não venham depois obrigar-me por divida que eu não contraio), que a unica deleitação que esta leitura pode dar, se pode dar alguma, será a que naturalmente se tem, penetrando no interior da casa alheia, e nos segredos do visinho.
É o que faz com que, por mais futeis que pareçam as memorias, que alguns escrevem de suas vidas, e as correspondencias epistolares, quando por acaso vão dar ao prelo sem terem sido ordenadas para elle, commummente são lidas com interesse.
É o que faz, tambem, ser muitas vezes mais aprasivel que as achadas de antigos monumentos publicos, o desenterro fortuito de uma antiga vivenda particular ou casa rustica, onde os vasos e utensís do viver quotidiano veem logo suscitar na phantasia os costumes, o trato, e o ser intimo, da gente que ali houve.
Os monumentos só dizem do povo; mas a pedra da lareira, ou o ladrilho do forno, o gancho da candeia, ou a aza da amphora vinaria dos banquetes, dizem da familia. Em de redor de cada coisa d'estas ressurgem tambem uns eccos de vozes enterradas ha muitos seculos; confusos, mas a todos intelligiveis e suaves, de donas, de donzellas, de velhos e meninos, dos animaes caseiros, dos passarinhos e virações do ceo, do sussurro das plantas, dos sons, em summa, de tudo que n'esses tempos apartados foi, e feneceu, deixando de si menos v Os monumentos só dizem do povo; mas a pedra da lareira, ou o ladrilho do forno, o gancho da candeia, ou a aza da amphora vinaria dos banquetes, dizem da familia. Em de redor de cada coisa d'estas ressurgem tambem uns eccos de vozes enterradas ha muitos seculos; confusos, mas a todos intelligiveis e suaves, de donas, de donzellas, de velhos e meninos, dos animaes caseiros, dos passarinhos e virações do ceo, do sussurro das plantas, dos sons, em summa, de tudo que n'esses tempos apartados foi, e feneceu, deixando de si menos vestigio, que a humilde talha do vinho, e a lampada que allumiou calada os prazeres ou os somnos de seus senhores.
Os monumentos são artificiaes, e artificiosos; são estudados, e emphaticos; a historia que elles resam é fria. Mas cá, o romance que engenhamos, ageitado ás memorias e saudades do nosso mesmo passado, é todo perfumado de Natureza; a mentir nos diz verdades.
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As impressões de viagens estão sendo ao presente um genero de Literatura mixta mui usado e mui querido.
Não admira: para os autores é facil; para os leitores, recreativo quando menos. Satisfaz-se o humor cosmopolita, que todos temos muito ou pouco; sem cançasso nem más poisadas por terra; sem enjôo nem temporaes por aguas do mar; sem desabrimento de estações; sem saudades do que lá fica para traz; ou, havendo-as, com bom remedio para desandar, que é repetir algumas paginas; e emfim, sem o aborrimento, que a pessoa a viajar em corpo e alma tantas vezes deve de sentir em chegando aonde ninguem a espera, nem festeja, nem conhece, e onde não ouve pelas ruas palavra nem som da sua creação.
A viagem escrita, sem custo de nenhuma especie se faz por uns caminhos atmosphericos tão suaves, que a todas as partes nos levam, com a nossa casa e familia, sem até nos demovermos do nosso quarto nem da nossa cama, se como Ovidio somos, que punha entre os regalos da vida o de ler deitado.
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Ora digo eu: se o attractivo commum de taes viagens é o gosto de conhecer sitios, gentes, e costumes, que nos são extranhos, e não medir as distancias que nol os apartam, que esse, pelo contrario, é o maior desconto do peregrinar, ¿por que se apeteceriam mais as viagens á França, á Inglaterra, á Suissa, á Italia, ás margens do Rheno, á Russia, ao Egypto, á China, ou ainda á Lua, do que a um qualquer monte da nossa terra, só conhecido de seus moradores e visinhos?