O presbytério da montanha
Capítulo III
¿Que sabeis vós mais da serra do Caramulo, em cujas faldas está assentado S. Mamede da Castanheira do Vouga, como um neto no regaço de sua avó triste e taciturna, que do monte Ararat, em cujo cume parou e se abriu a arca depois do diluvio? Nem mais, nem por ventura tanto.
Viréis pois ás raizes do Caramulo conversar montanhezes, agrestes porém bons; e tão bons, que, d'entre os seus oiteiros mal sombreados e mal productivos, nos seus paupérrimos tugurios cobertos de loisa ou colmo, e pendurados á laia de ninhos pela escarpa dos precipicios, entalados nos córregos, ou inclinados a scismar tristezas sobre algum rio fundo e triste, nunca se lembraram de vos invejar a vós outros as vossas cidades opulentas e festivas.
Estes, com falarem portuguez, são para vós estrangeiros, ou quasi. Como taes, não vos despraza conhecel-os, despendendo algumas poucas horas com quem por entre elles demorou annos, e de boa-mente lá iria agora enterrar os restos cançados da vida ao-pé do sepulcro de um Pae, que lhe lá ficou em quieto desterro para todo
sempre. [1]
III
A 23 de Outubro de 1826, entrava por aquella serrana região o novo Prior, meu sempre e em tudo irmão, e agora saudade minha continuada e sem remedio, Augusto Frederico de Castilho, com a sua pequena familia, de que era eu parte inseparavel.
Coimbra, d'onde iamos, fôra a terra dos nossos annos mais florídos; Lisboa, a do nosso berço e da nossa infancia. Uma e outra me chamariam pelos affectos em qualquer parte do mundo em que eu estivesse; e não houvera eu valído a resistir-lhes. Mas para aquelle ermo, que então cuidavamos nos durasse a vida toda, entranhavamo-nos elle e eu, por nos sentirmos um como o outro tão encantados com o nosso futuro, já palpado e colhido ás mãos, que alegres, sobre resignados, esqueciamos todos os outros sitios por aquelle, renunciavamos quaesquer outras delicias, mais amenas ou mais vívidas, por aquellas gentilezas incultas e mais poeticas de uma natureza quasi primitiva.
*
Passámos n'uma bateirinha remada por uma velha moleira da margem, o viçoso rio de Bolfiar, a que deu nome, hoje corrupto, segundo a tradição, o bom fiar de certa moça mui santa, que junto d'elle vivia n'uma choupaninha pobre, e esmolando a todos os pobres com o trabalho da sua roca; se não quizerdes antes que dos Moiros lhe viesse o appellido, significando pepinal, ou rio das terras dos pepinos; pacifico rio, que então ia grosso e desmandado por entre as suas duas ribas altas e verdejantes, em cujos cimos nenhum passageiro deixou nunca de se deter enlevado na amenidade de tal painel.
Começam a estender-se-nos diante, profusas e desmedidas para um e outro cabo, arripiadas gândaras de carqueja e urzes, só de longe a longe interruptas de um sovereiro torcido e mal posto, ou de um rebanho; terreno boleado e ondeado como um lago, que em meio de tempestades se houvesse petrificado por encanto. São já fronteiras do Caramulo.