O presbytério da montanha
Capítulo V
Não poude ser o acaso, quem tantos acêrtos concertou.
V
Era a residencia, quando a ella chegámos, decrépita e caduca: apparencia de choça fabricada de pedra ensôssa, escura e descommoda no interior; por fora negra, com alpendres a aluir-se para o pateo apoquentado de inuteis e desgraciosos compartimentos. A velhice do derradeiro possuidor a havia em parte feito, em parte deixado, chegar áquelle estado.
A transformação foi rapida e completa. Os alpendres desappareceram. Na casa remoçada entrou por vidraças abundancia de luz. O pateo desafrontado foi revestido, como a frontaria do edificio, primeiro de cal bem candida, logo de roseiras e limeiras bem viçosas. Um cedro n'elle plantado começou de levantar-se animoso e gentil; e sei que n'esta hora, em quanto de seus dois plantadores um já não existe na terra, o outro declina para o occaso, elle, medrando ainda, é já, como lh'o eu augurára nos meus versos, brasão do presbyterio; tem no seu tronco cinco
palmos de circumferencia, e perto de quarenta de altura. [2]
O novo Prior, o Rev. do snr. Padre Antonio José Rodrigues de Campos, a quem Deus dilate a vida para felicidade do rebanho, varão de virtude, e espirito cultivado por Letras, filho d'aquellas boas terras, e amigo nosso que sempre foi, como ainda hoje o é do nosso nome, conserva e zéla tudo aquillo com amor.
É para mim delicia o considerar, que á sombra grande d'aquelle cedro, que eu regava todos os dias, quando um menino de tres annos o poderia ainda arrancar sem custo, lerá talvez, depois do seu Breviario, este livrinho das minhas memorias, em que deposíto o seu nome mollemente reclinado entre tantas outras saudades minhas.