O presbytério da montanha

António Feliciano de Castilho · Capítulo 13 de 78

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O presbytério da montanha

Capítulo X

Voltando para o rio, passa-se n'uma bateira um pouco a baixo, depois de se terem abraçado os dois afluentes Agadão e S. Mamede.

Subindo-se até ao vizo, está o logar da Redonda, de cincoenta almas, com sua capella de S. Gonçalo, a quarto e meio de legua a sudoeste da egreja. Redonda se chama, por estar á borda de um leito semi-circular.

 

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Fechemos a topographia do nosso pequeno reino, com as suas confrontações externas.

Parte a freguezia de S. Mamede: pelo norte, com a do Préstimo; pelo poente, com a de Agueda; pelo sul, com as da Aguada de cima, e Balazaima; pelo nascente, com a de Agadão, filial, ou annexa, que aínda então era, á de S. Mamede, e parochia hoje sobre si; paiz ainda por ventura mais serrano e variado, mas que eu não cheguei a descobrir.

 

X

 

O territorio de S. Mamede é o extremo occidental de um corpulento ramo do Caramulo, ramo appellidado serra de Alcoba, que em voz de Moiros quer dizer «abobada», ou montanha boleada á feição d'ella.

Do Caramulo, como tronco d'onde bracejam dispartidos este e outros ramos, alguma coisa quizera eu dizer, á conta do muito que merece. Mas, sobre que nunca o visitei, apesar de tão visinho, recearia apoucar-lhe a veneranda majestade, apertando n'um ou dois paragraphos as vagas noticias que d'elle tive.

Em summa: é uma bizarra montanha rude e silvestre, dominando d'entre as nuvens meio Portugal, larga em fontes e penedias, poderosa em tempestades, em frutos magra, mas opíma em homens e mulheres de antiga tempera: activos, pacientes da penuria, do frio, da fome, e da nudez; é um paiz de selvagens christãos, para o qual as rudes terras do meu S. Mamede estão, em polidez e florescencia, como para os Lacedemonios poderia estar a antiga Attica.

 

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Dois monumentos accrescentam veneração ao Caramulo, quanto o podem mesquinhas obras humanas ás grandiosas moles naturaes.

N'um dos seus cabeços mais alterosos foi erguido, nos principios d'este seculo, uma especie de zimborio de doze palmos de altura, pouco mais ou menos, de pedra muito bem lavrada e argamassada. Para quê, não dizem; mas dizem que por um engenheiro francez; rasão por que, os povos da circumvisinhança, por occasião da guerra peninsular, commetteram demolil-o; mas só lhe poderam fazer pelo norte um pequeno estrago. Dura em pé, e só é accessivel do nascente por uma vereda estreita e tortuosa.

O outro monumento não é menos enigmatico, e deve estar farto de ver passar seculos e desfazer-se gerações.

N'uma arremeçada crista, a duzentos passos da egreja do Espirito Santo de Arca, se alevanta elle, com o titulo immemorial de «Pedra de Arca». É uma desconforme loisa inteiriça, horizontalmente aguentada nos ares por esteios de pedra; quatro em numero a principio, hoje só tres, havendo sido um arrancado para as obras da visinha egreja.

Tem esta lágea de comprido vinte palmos, e de largura dezasseis; de grossura, pelo nascente tres polegadas, pelo norte quatorze, pelo poente onze, e outras onze pelo sul. Os pilares contam de altura doze palmos, só da flor da terra para cima; de largura, um que fica para o poente apresenta nove palmos, tendo de grossura pelo poente palmo e meio, e pelo nascente um palmo. Um, que diz para o sul, tem de largura, por baixo quatro palmos e meio, e por cima tres, e de grossura um palmo de cada lado. O ultimo, que está para o norte, tem de largura, por baixo cinco palmos e polegada, e por cima quatro palmos e polegada.

¿Com que possantes machinas, por que mãos, em que eras, e para que fim, se alevantou ali aquella, que á phantasia se figura bruta meza de gigantes silvestres? ¿Sería obra de fortificação n'um systema de guerra desconhecido? Quasi que nem possibilidades o abonam. Uso agrícola, industrial, ou civil, nem a imaginação mais inventiva lh'o rastreia. Memoria de algum varão ou feito insigne, já a poderia ser. Mas então, ¡a que rudes tempos a não havemos de referir, visto como nem data, nem letra, nem escultura tôsca, nem vestigio algum de arte nem de architectura, mas só uma bruta mechanica, ali se admira!

Religiosa fabrica de alguma gentilidade parece logo aquella; e mais, quando se adverte na semelhança que tem com os altares druidicos, ainda hoje conservados em varias partes do que foram Gallias e Germania.

Verdade é, que por estas nossas terras não rezam as Historias, que se estendesse aquella abominavel seita de sacrificadores de humanas victimas; mas nenhuma repugnancia ha, em que, perseguidos, como o vieram a ser, pelos Imperadores romanos, alguns druidas se refugiassem para este Occidente, e aqui, em retiros montesinhos, menos accessiveis a pesquizas e perseguições, professassem e mantivessem o seu culto, do qual (se duas coisas mal conhecidas podem ser sem temeridade comparadas) não muito discreparia talvez a religião do Endovélico lusitano.