O presbytério da montanha
Capítulo XVIII
¡Pobre mocinha! ¡Dezasseis primaveras!... Até já as suas ovelhas se esqueceriam d'ella. Dissipou-se como um sonho de poesia. Não deixou mais vestigios sobre a terra, do que aos eccos haviam deixado os seus poemas. Se ainda canta... já não é a terra quem a ouve. Remontou o vôo muito mais alto que o da cotovia sua mestra; engolfou-se por entre as scismadoras estrellas, que tantas coisas em segredo lhe ensinavam; e virgem entre os Anjos, irman entre seus irmãos, entretece a sua voz immortal no cantico sem limite
XVIII
Com a Poesia da montanha, releva fazer tambem menção da sua Musica.
É esta quasi toda antiga; antiquissima podéramos dizer de muita; e conserva puro e extréme o primitivo sabor. Condiz com a Linguagem, com o trajar, com os costumes; seria excellente oráculo para consultarem os modernos compositores de operas nacionaes. Assim se temperariam para os nossos ouvidos, os quaes, posto que affeitos de annos para cá a peregrinas melodias de muito mais altos quilates, ainda comtudo se ageitam e conchegam melhor com as toadas sentidas e singelas da nossa creação.
Nas boas horas fique a musica italiana, pois que entrou, e nos cahiu, e o merece; mas, porque bizarros agazalhamos a digna hóspeda, não se diga que aposentámos nos sótãos a parenta velha, bondosa, e amiga, por trazer vasquinha e falar chão.
Rossinem, Bellinem, e Donizettem quanto quizerem; façam-n-o até (se já não pode ser por menos), façam-n-o a frouxo e a granel por essas comedias e farças, em que fala gente do nosso sangue e dos nossos nomes. Mas uma vez ou outra ( al de menos por cortezia, como dizem os meus serranos), deixem-nos ouvir em boccas patricias coisa que nos alembre das cantilenas de nossas amas, cantilenas que, ainda depois de apagadas da memoria, lá se ficam algures no coração, com quanto basta de vida para ressurgirem ao primeiro aceno.
Ponha-nos alguem degradados em terra extranha, entre mil arvores e arbustos exóticos da mais admiravel louçania; mostre-nos lá, emboscadinho na herva, o malmequer da nossa primeira adolescencia, a papoila retinta, que nos ria d'entre o verde da seára, quando meninos; a papoila e o malmequer muito mais nos hão-de conversar com o coração um só minuto, que todas ess'outras flores mais soberbas em toda uma primavera.
Se é vergonha... seja; curtil-a-hei; mas sempre digo que muita vez n'esses theatros, por ahi, me estão lembrando com saudades os descantes da serra.
Uma ária opulenta, refeita de sciencia, espinhada de difficuldades, a dominar o temporal desfeito da orchestra que se lhe revolve aos pés, a sumir os seus píncaros florídos e trémulos pelas nuvens, admiro-a, applaudo-a, e esqueço-a. Abalou-me tudo, a fora o coração.
Porém certas cantigas que eu sei... não as applaudi, não as admirei quando as ouvi, mas senti-as repassar-me até ás fibras intimas; assimilaram-se-me com os humores; converteram-se-me para logo em substancia propria; ficaram-se-me cantando per si, sem voz, no meio do silencio.
Eram faceis e pobres; seriam; mas eram do meu Portugal, dos meus ares, da minha terra. Conheciam-me, e conhecia-as eu, ainda antes de as ter encontrado.
E tambem, ¡que melodiosas, que engraçadas não são algumas, até para orelhas forasteiras, quanto mais para as do seu molde!
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¡Oh! ¡se a penna fôra varinha de condão! ¡Se, em vez de vos falar do que por vocábulos se não exprime, podesse apresentar-vos lá de subito, a beberdes com aquelles ares bonissimos aquellas cantorias agrestes, sem cultura, sem enxerto, luxuriantes de natureza, macias, avelludadas, rescendendo a amor e contentamento!
Comigo ficáreis todos, que eram minas, as quaes, lavradas por mãos perítas, nos podiam abastar de muito oiro, que a Arte, batendo-o e cunhando-o a seu modo, poria em facil giro com geral proveito.
O Musico portuguez de alma, que se fosse vagabundo por essas solidões, edificaria como Amphião novas Thebas, attrahindo e congregando com a sua lyra penedias e florestas.
¿Mover-se-ha algum a tental-o? moverá a final. Mas por ora, o thermómetro do patriotismo assignala graus para baixo de zero.
Para a Poesia nacional antiga e popular já alguns olhos se teem voltado; e viu-se o proveito. Na Musica ha de ser o mesmo, querendo Deus; ¿mas quando? sabe-o Elle.
Dos que por ahi a professam, nenhum dá visos de querer levantar-se. Fizera-o eu, se tivera a sciencia, o engenho, o fogo, que se admiram em alguns d'elles. ¡Oh que o fizera! e com bem pequeno custo, bem farta corôa grangeára.
¿Que digo «custo»? ¿Onde ha ahi delicia como é o viajar caçador de Artes, por toda a parte bem vindo, banquetear-se á farta com agradecimento dos que o regalam, e deixar saudades e fama em desconto dos thesoiros que se tomam?
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Uma qualidade que eu notei muito notada no cantar frequente pelos meus espaçosos ermos, e que lhe dava uma particular feição de melancolia mui suave, era a extensão das notas, o prolongamento, sobretudo, das finaes a perder de fôlego. É donosa coisa; mórmente pela noite, e ao longe...
A explicação d'esta singular maneira deve ser, segundo me parece, o costume de cantarem muitas vezes a sós por lombas descampadas e cumes de oiteiros, d'onde a voz tem de correr, e correr, primeiro que tope com ouvido em que se hospéde. Outras vezes é ao-pé de estrépito de aguas, que a afogariam a lhe faltar perseverança. Outras, em paragens de eccos, nas quaes uma fala aprasivel folga de se estar a si mesma namorando.
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De cabeço para cabeço, bem arredados um do outro por estirado valle, ouvi eu muita vez estarem duas guardadoras conversando por cantoria; e, graças a este methodo de irem fiando cada syllaba... comprida... comprida... entendiam-se (podendo apenas enxergar-se), como se estiveram assentadas mão por mão, e muito manas, á soalheira no seu aido.
Sustentam-se estas entoadas conversações, em prosa inteiramente desatada de rithmo, e não obstante rimada, rimada por um modo tão insólito como facil.
Exemplo:
¿Quer uma convidar a outra? dir-lhe-ha: