O presbytério da montanha

António Feliciano de Castilho · Capítulo 15 de 78

Páginas do PDF

O presbytério da montanha

Capítulo XII

São luxos de toucador para dias de festa, feiras, ou romagens, quando calçam, com meias brancas, tamanquinhos de pregaria doirada com sua meia palla de marroquim vermelho, vestem roupinhas de pano burel fino, ou chita, põem gorjetes de filó, ou lenços de cassa bem pregados, e capoteiras de pontas compridas debruadas de fitas. Para a egreja, as mais ricas e senhoras teem mantilhas e sapatos.

 

XII

 

A educação apenas desbasta. Parca e imperfeita como a cultura do solo ingrato, só põe mira no essencial: em desenvolver os sentimentos naturaes e religiosos, o afferro á justiça e á verdade, os differentes amores de que se tece a paz das familias e a harmonia dos visinhos, o respeito á velhice e ao infortunio.

As polidezes requintadas do trato são lhes desconhecidas. Esses discursos de cortezãos, mosaicos de phrases brilhantes, que ora deslumbram, ora entreteem, ainda quando nada representam, inspirar-lhes-hiam compaixão. Pensam o que dizem, e dizem-n-o como o pensam.

Das artes de seduzir, não cultivam nenhuma. Aprendem para ser bons lavradores, boas pastoras e tecedeiras, e bons paes, e boas mães, depois de terem sido bons filhos e boas filhas; e n'isso limitam a sua ambição.

Se ha festas, cantam e dansam como sabem; e sabem quanto basta para folgarem, mais de veras que damas e cavalheiros ao som de orchestras, em saraus esplendidos.

Não falam extranhas Linguas, como nós, mas falam a nossa, que é melhor.

Fora da casa de algum Ecclesiastico, não se desencantaria um só livro em toda a freguezia; mas os louvores da sua moralidade dariam com que encher mais de um livro para nos envergonhar.

A egualdade quasi fraternal por ali reina, por um modo, que a todo o coração bem nascido dará gosto. A mercê e o vós de nossos maiores são tratamentos para os raros casos em que não cabe o tu.

Os logarejos são todos amigos, e em grande parte parentes um dos outros. O mais pobre vai sentar-se festejado ao serão ou á meza do mais rico; isto é, do que na sua tulha tem centeio ou milho para todo o anno; e o abastado interrompe a sua lavoira, para ir fazer com os seus bois a geirasinha do indigente que a não pode pagar; e lhe leva pendurado na canga do arado o sacco da semente, para que elle tenha tambem, lá para o verão, que ceifar para seus filhos; porque toda esta boa gente sabe, por instinto, que as lagrimas, no meio da alegria geral, são mais amargosas para quem as verte, e auspiciam mal o contentamento a quem as presenceia.

É um povo agricola, que ainda não aprendeu a envergonhar-se do seu parentesco chegado com a terra. Entre elles se diz «lavrador», e «trabalhador», como em Londres «fabricante», ou «lord», em Roma «cardeal», ou «monsenhor», em Paris «sabio», ou «homem de Letras», e em Lisboa «deputado», ou «millionario».

As Armas da sua nobreza poderiam ser a charrua e o podão, com o seu paquife de pâmpanos e espigas, e a letra Ut operaretur terram, de qua sumptus.

 

*

¡Que impressão, a principio de espanto, logo de respeito, e a final de amor, me não fez o presenciar, como, ao revéz da pragmatica das cidades, o trabalho das mãos era ali ennobrecimento, e a ociosidade a maior vergonha!!

Conheci, entre estes montanhezes, quem, havendo em outro tempo vertido o sangue pela Patria, e cingido uma banda, madrugava (como as andorinhas do seu beirado para o trabalho do ninho), para se ir, em pernas e mal roupido, carrear o adubío para a sua fazenda, ou levar do enxadão na roça dos mattos entre os seus operarios. A estes, ¿que os poderia admirar na vida dos Cincinatos, dos Curios, e dos Camillos, se alguem lh'a lesse, a não ser a admiração dos historiadores?

 

*

As irmans, as esposas, e as filhas de taes homens não poderiam deixar de ser mais varonís do que os homens de muitas outras terras, e de todas as deliciosas.

Para a maioria d'ellas, o fuzo, a lançadeira, e a agulha, com o seu costumado cortejo de cantigas, rezas, e contos tradicionaes, que vão formando semelhante á precedente a geração seguinte, só são passatempos do serão, á luz da candeia, das pinhas bravas, ou da fogueira, que allumia e alegra os penates afumados. Madrugam como a aurora para os trabalhos fortes. Os bois conhecem a sua voz, e se deixam pacificamente jungir e guiar pelas suas mãos. Na vindima, carregam á cabeça cestos, que seriam inamoviveis (como as pyramides do Egypto) para as mãos alvas e beijadas de uma duzia de senhoritas. Nas ceifas, transportam á cabeça montanhas de espigas, tão leves e ufanas sob o pezo como uma cortesan sob o seu chapeo de flores de seda chegado de Paris, ou sob a sua grinalda de brilhantes, cada polegada da qual se poderia resolver em bemaventurança para dez familias. Nas renques dos saxadores e dos roçadores, vel-as-heis brandindo um alvião não mais leve, deixal-os muitas vezes para traz, e envergonhal-os com seu riso de triumpho.