O presbytério da montanha

António Feliciano de Castilho · Capítulo 50 de 78

Páginas do PDF

O presbytério da montanha

O Domingo Gordo dos Montanhezes ou a Matta de S. Sebastião

VIII

 

O DOMINGO GORDO DOS MONTANHEZES

 

OU

 

A MATTA DE S. SEBASTIÃO

 

Versos na plantação de uns carvalhos junto á egreja de S. Mamede

da Castanheira do Vouga pelos rapazes solteiros da freguezia

no Domingo do Carnaval de 183...

 

I

 

N'este dia, em que o povo tumultuando

nos casaes, nas aldeias, nas cidades,

troca a enxada, o tear, o livro, a agulha,

por copos, danças, máscaras, e risos

nas saturnaes christans; quando se espraia, desde o seio de Roma aos fins da terra,

de um praser contagioso alta vertigem;

¿por que retreme ao golpe das enxadas

sob os meus pés a solitaria encosta?

 

*

¡Saude a vós, a vós louvor. Bemvindos,

montanhezes, fieis aos priscos usos!

O cântaro do estylo ahi está coroado,

risonho e prestes a inundar os copos;

o prémio á vista vos redobre as forças.

 

*

Rasgae co'o duro ferro a terra dura;

de vossos paes a matta veneranda

em torno de seu santo antigo dono

se accrescente por vós. Plantae, que é tempo, no chão, sagrado de suor devoto,

ó presente annual, que o Ceo prospére.

 

*

Onde quer que elle jaz, abençoemos

as cinzas do homem bom, lá d'essas eras que a pia usança introduziu primeiro.

¡Quanto a sua virtude era risonha!

—«Cada solteiro plantará n'este ermo

mais uma arvoresinha de anno em anno, que lá em cima encontrará seu premio.»

¡Oh! estes rogos, sim, este pedido,

doce e desint'ressado, uncção respira;

manda mais do que as Leis; morrer não deve.

 

*

Produz, produz a miudo, ó Natureza,

por teu bem, por bem nosso, homens como esse. Haja quem diga ao joven par, que ás aras

sobe apenas amante, e desce esposo:

—«Hoje, que são já fruto esp'ranças de hontem, entrae sorrindo pelo chão da vida;

plantae, plantae um'arvore que o lembre.»

 

*

Quando a cabana festival se enrama,

se enflora a meza, e os aldeãos visinhos

veem festejar na casa um filho novo,

a mão paterna, de praser tremendo,

orne de um novo tronco o prédio avito.

 

*

¿Depois de suspirada e curta ausencia

volve um irmão das terras estrangeiras?

¿Convalesce um parente? ¿Em bem se acaba suado, volumoso, eterno pleito,

que empobreceu o avô, o filho, e o neto? ¿Fizestes o adversario amigo vosso?

¿Sorriu-vos a ventura? ¿É farto o anno?

A sêrdes Reis, alçáreis monumentos;

¿que vale um monumento? O homem dos campos melhores pode erguer a menos custo:

plante sobre o caminho arvores férteis.

Por elle o passageiro ardendo em calma

ache a sombra hospedeira que o recreie. Por elle o pobre, que seu pão mendiga

de casal em casal, de monte em monte,

que não vê ceo, nem lar onde se aqueça, nem feno onde descance, e em todo o mundo só tem por património a caridade,

ache a fruta a pender em curvos ramos,