O presbytério da montanha

António Feliciano de Castilho · Capítulo 40 de 78

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O presbytério da montanha

Capítulo IV

a perder noites, e a estrompar as ventas. Aqui está por que eu digo que este mundo é coisa muito celebre! uns ovitos

e uma pinga de mel fizeram tudo.

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*

¡Brava! ¿não ouve uns sinos que repicam? ¡olhe um foguete! ¡truz! ¡Viva o Vinagre!

¡e viva a ceia e a cama que estão perto!

 

IV

 

Com effeito, assim era; a poucos passos

já se ouvia tambor, gaita de folles,

risadas, bombas. Apressando as mulas

na direcção dos sons e da fogueira,

descemos uma encosta, a cujas abas,

entre uns poucos de antigos castanheiros, uns cinco ou seis pastores se occupavam a abobadar de murta uma fontinha.

Interromperam logo o seu trabalho

para nos vir saudar; mostraram pena

de ouvir que nos perdêramos no monte,

off'recendo á porfia os seus albergues.

Não findara a benevola contenda,

se um d'elles agarrando o freio á mula

me não posesse a andar; agradecendo

os desejos dos mais que inda ficavam,

segui affoitamente o nosso guia.

*

Uma ponte de pau que atravessámos

coberta de chorões, nos poz á borda

de um trigo já maduro e sussurrante,

contiguo ao seu casal. ¡Quanto eu folgara de descrever tudo isto! Uma casinha

plantada ahi como risonha ilhota

n'um vasto mar de tremulas searas,

e clara como a neve, ou como a lua

que a espreitava do ceo por entre as folhas de um esquivo parreiral. Junto ás paredes, de rosas e limeiras revestidas,

canapés de cortiça apresentavam

a imagem do descanço e a do convite.

Não era necessario entrar a porta,

para já conhecer o domicilio

da hospedage e da paz; que as proprias auras, como que em tão poeticas folhagens

se ouviam sussurrar: ¡«Bemvindo o estranho!»

 

*

Não longe lhe ficava a sua aldeia

na c'roa de um oiteiro; pensarieis,

vendo-as tão perto, e um bosque a separal-as, a aldeia tão brilhante de fogueiras

e esta casa tão só mas tão alegre,

pensarieis, como eu, ver n'uma festa

moça ausente e feliz, amante e amada,

que entre o prazer commum não quer nem deve ir desfazer seus pensamentos doces.

 

*

Visinho seu mui proximo era o templo,

aos valles do arredor alardeando

na sua torre branca um Anjo de oiro,

e a um lado a Residencia, occulta em parte n'um ramilhete de altas cerejeiras.

 

*

Nunca mão de pintor juntou n'um quadro

objectos mais simpathicos. Tal como

trépido arroio em tacita espessura

das copas bebe a sombra, e envia ás copas, do sol reflexo voadores raios,

do casal a presença alegra o templo;

a presença do templo está lançando

sobre o casal o sério da virtude.

Tudo isto sob um ceo de fertil benção,

sobre um chão de abundancia, e no ar mais puro! —¡Meu Pae,!—grita o pastor entrando á pressa— minhas irmans! ¡um hospede!—

 

*

A tal nome,

como se fosse á voz de alguma fada,

com repentina luz nos apparecem

creanças folgasans, esbeltas moças,

um ancião, e uma velha. Imagináreis

ver Graças, ver Amores, ver Napêas,

trajados de aldeãos, e honrando os lares de Baucis e Philémon, que o parecem

na edade e na virtude os meus dois velhos.

*

 

Não mora entre seáras a etiqueta;

mas sobre herdada meza de pinheiro

em troco adeja a cordeal franqueza,

o bom desejo adubo da abundancia,

e a amisade dos bons, filha do instincto,

que nasce qual relampago, mas dura.

Deu-se o primeiro instante ao comprimento, logo o segundo aos commodos;

o resto á conversa, e ao bulicio de tal noite.

 

*

Vem-nos do forno, envolto co'as risadas,

vital perfume de mellifluos bolos,

que em molles virações traz a alegria.

Aquella vai e vem compondo a meza;

esta afervora a ceia, e a cada instante

corre á janella que descobre a aldeia.

Juntam-se á bulha os sinos da parochia,

que o sacristão na vespera do Orago

jurou provar seu zelo aos Ceos e á terra. O festivo repique exalta as mentes,

os meninos não param, correm, gritam,

repartem bombas, furtam-se valverdes,

e rindo ameaçam fogo á pipa velha.

A boa annosa mãe ralha do estrondo,

e o faz inda maior; o esposo enfia

uma sobre outra historias do seu tempo.

O avito candieiro de tres lumes

cobre da meza o centro, e chama á ceia; a sôlta sociedade eis se lhe aggrega.

Não foi longo o festim, mas cada copo

lhe augmentava o praser. ¡Salve tres vezes, ó dos tres lumes candieiro avito!

¡quanto amor, quanta paz, que bens, que festas não tens visto florir em tua casa!

¡quantas mãos tão felizes como puras

te hão accendido em noite igual! ¡quem sabe que de memorias para ti conservas!

¡Em premio da hospedage aqui te accendam longas eras em noites semelhantes

dignos de seus avós contentes netos!

 

*

Iria a muda apostrophe adiante,

mas ouviu-se o zabumba.—¡Ahi veem! ¡são elles!— dizem todos, e todos saem pulando.

—Olhae; olhae; ¡nem uma luz na aldeia!

este anno veio tudo. ¡Que alegria

terá o nosso Parocho!

—Maria,

dá cá o meu chapéo.

—¡Corre, Pedrinho!

—¿Onde está meu irmão?

—¡Não se demorem!

—Vamos dançar.

—Perdi as alcaxofras.

—Vinde por cá; passemos-lhes adiante;

que rancho que lá vem!.....................

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........................... Golgan, que eu fosse,

não pintara a estrondosa miscellanea

que vôa do cazal ao Presbyterio.

Lavra nos proprios velhos o alvoroço;

vão co'os mais quasi a par; lavra em mim mesmo, estranho á festa. O pateo illuminado