O presbytério da montanha
O Presbyterio da Montanha
O Presbyterio
da
Montanha
VOLUME I
LISBOA
E H P
Sociedade Editora
LIVRARIA MODERNA TYPOGRAPHIA
Rua Augusta, 95 45, Rua Ivens, 47
1905
Advertencia dos Editores
Em 1846 principiou Castilho a colligir, entre os seus manuscritos antigos, alguns dos que lhe tinham nascido na estudiosa solidão de mais de sete annos de homisio na serra do Caramulo. A esses manuscritos, que ia publicar com o titulo de O Presbyterio da montanha, escreveu um prologo extenso, descriptivo, altamente pittoresco, onde, a dôze annos de distancia, desafogou as lembranças d'aquelles logares, e as saudades de um irmão, o melhor dos irmãos, o já então fallecido Abbade de S. Mamede da Castanheira do Vouga, no Bispado de Aveiro. O prologo concluiu-se, imprimiu-se na sua maxima parte, mas não chegou a publicar-se.
O natural desleixo do Poeta a respeito do que era seu, as vicissitudes da sua atormentada vida, a sahida para S. Miguel, e outras causas, fizeram com que as folhas impressas se sumissem, nem sabemos dizer como; e os pouquissimos exemplares que existem, e se apontam a dedo, são hoje considerados espe O natural desleixo do Poeta a respeito do que era seu, as vicissitudes da sua atormentada vida, a sahida para S. Miguel, e outras causas, fizeram com que as folhas impressas se sumissem, nem sabemos dizer como; e os pouquissimos exemplares que existem, e se apontam a dedo, são hoje considerados especies bibliographicas de primeira raridade.
Castilho possuia um, que vimos, e desappareceu; a Bibliotheca Nacional de Lisboa possue outro; o distinto colleccionador, bibliógrapho, e escritor, o snr. Annibal Fernandes-Thomaz, outro; a fallecida snr. a D. Maria Peregrina de Sousa, poetisa portuense, possuia outro, que parece ter levado caminho; Innocencio no Tomo I do Supplemento do seu immortal Diccionario, não declara se era dono de algum; menciona a obra, apenas.
Quanto á parte poetica do livro projectado, essa, não impressa, desappareceu em parte. Só algumas poucas peças encontrámos, umas inteiras outras incompletas; materiaes truncados da collecção. Salvando esses versos, cumprimos um dever moral, e outro literario.
O prologo de Castilho é pois o brilhante pórtico de um edificio ainda em construcção, e já em ruinas; é inquestionavelmente uma das obras mais curiosas e instructivas que elle deixou. A chorographia, a fauna, a historia, a lenda, os costumes, a paizagem, as antigualhas, o folk-lore, d'aquella região alpestre, tão portugueza, mas tão desconhecida, tudo isso é tratado com amor, com o cuidadoso amor de um archeologo-poeta.
Appareceu tambem uma Introducção em verso sôlto a certo poema intitulado O Sepulcro, historia de uma noite de S. João, projectado pelo nosso autor; poema original, muito vivido, muito phantastico, infelizmente por concluir. Entendemos não menos intercalar essa curiosa Introducção, no seu logar chronologico, por varios motivos: dá-nos Castilho sob uma feição poetica diversa da sua habitual, e pinta-nos o estado da sua alma aos trinta annos, quando absorvia soffregamente o ar, a vida, os usos populares da montanha. O Sepulcro é pois optimo contribuinte d'este truncado banquete literario, e fôra imperdoavel, apesar de incompleto, despresal-o aqui. Do borrão original, que possuimos pela letra do amoravel secretario Augusto Frederico, para esta licção actual, ha leves divergencias, que foram pelo proprio autor ditadas em 1864.
Além do Sepulcro, outras peças, portuguezas e latinas, já impressas nas Excavações, teriam logar aqui, pelo seu nascimento, pela sua data, pela sua indole; mas o autor preferiu collocal-as n'aquelle seu volume. Facil é ao leitor intelligente o procural-as.
Á