O presbytério da montanha

António Feliciano de Castilho · Capítulo 12 de 78

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O presbytério da montanha

Capítulo IX

 

Explorámos as convisinhanças do templo e residencia. Estendâmos agora os olhos até ás fronteiras da terra por onde se dilata o seu pacifico senhorio.

*

D'este centro, a meio quarto de legua a nor-noroeste, esconde-se o logar das Maçadas, com cincoenta almas, sua ermida de S. João Baptista, e sua fonte muito fresca.

Para o norte, a outro meio quarto de legua, a antiga villa da Castanheira, com as suas entradas, cobertas de parreiral, vangloriosa com os seus cento e oitenta e sete moradores, e com a sua capella do Espirito Santo, mas dando-se-lhe pouquissimo com o telegrapho, que desde as ultimas guerras lhe ficou até hoje a pantomimar no alto do seu oiteiro. Pelos gestos d'aquelle activo surdo-mudo passam, de extrema a extrema do Reino, quantas noticias o revolvem, sem que a boa da villa, nem outro algum dos logares que entram na sua abençoada confederação de rustica ignorancia, as adivinhem, nem suspeitem, nem cubicem.

A tres quartos de legua para nor-nordeste, dá-se com a humilde póvoa de Falgarinho, de não mais que oito visinhos.

Subindo d'ali mais um quarto de legua contra o nordeste, encontra-se, n'uma quebrada da mesma crista, a Serra-de-cima, com vinte e tres pessoas.

Descendo para o sul pelo seu ameno valle bordado de frutiferas arvores, e a pequena distancia, se dá de improviso com a vistosa e agradavel quinta da Serra-de-baixo, de sete almas, e sua capella de Nossa Senhora do Livramento.

Nas faldas d'estas fragosas montanhas, junto ao rio de S. João do Monte, que a seus pés corre, está em amphitheatro o Avelal-de-cima, de vinte e quatro almas, a tres quartos de legua a les-nordeste da egreja.

Voltando pela direita ao tortuoso rio por caminhos pouco transitaveis, a meio quarto de legua está para o nordeste o Avelal-de-baixo, logarejo de quarenta e sete almas, e uma capella de Nossa Senhora da Conceição.

Deixando a margem do rio, atravessando um desfiladeiro, e subindo bojudas lombas, reverte-se ao nosso ponto fixo de observação.

Para o nascente, descendo até á Cruzinha, e d'ahi toda a costa dos Ferreiros, passa-se o rio de S. João do Monte, junto ao seu

confluente Alcafaz (nome arabe, que significa «o salto») nome que para ali está, ha mais de setecentos annos, soando em bocca de christãos sem renegar a sua origem, nem se corromper.

Para a esquerda do S. João do Monte, se descortina a nossa Talhada, de honrada memoria, berço de um Cardeal, de um fundador de capellas, e de um namorado de lei; tres celebridades para um ninho hoje de quatorze almas, coberto de loisas e colmo, e coroado de sarças e medronheiros; dista-nos um quarto de legua para nordeste.

Vadeando segunda vez o rio, e a pouca distancia d'elle, o S. Mamede (que toma este nome na juncção dos dois afluentes) se atravessa na ponte de pau que já sabeis, e onde eu agora, 30 de Julho ao meio dia, me tomára a apanhar á fresca.

Subindo um pouco espaço a costa, atravez de alcantiladas rochas, toma-se a les-nordeste, seguindo tortuosa e mal aberta senda, que em travessia da montanha, sobre a esquerda do rio, leva até ao casal do Fontão, de onze almas, sito na margem do Alcafaz, na raiz do cabeço de Santa-Cruz, a quarto e meio de legua para nós.

Revertendo-se onde se largou o caminho, se continua serpeando a encosta; e no cimo se encontra a povoação de Falgozelhe, de setenta e uma almas, posta a um quarto de legua da egreja, a les-sueste, quasi na extremidade occidental de um ramo do Caramulo. O nome da sua casa de oração é o que á sua altura melhor convinha: Santa-Cruz.

Tomando-se o rumo do sul, e atravessando o rio Agadão por outra ponte de pau, e serpeando ingreme ladeira, no cimo está o pequeno e vistoso logar da Falgarosa, de trinta e seis moradores, com uma sua ermida da Senhora da Boa-Morte, a tres quartos de legua ao sul; terra que se ufana com o delicioso de seus pomares de caroço e de espinho, com a annosa matta de sobreiros que a abriga pelo nascente, norte, e noroeste; e sobre tudo, com ter dado á luz o instruido e virtuoso Pastor, que hoje rege aquelle rebanho.