O presbytério da montanha

António Feliciano de Castilho · Capítulo 53 de 78

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O presbytério da montanha

Capítulo V

¿Qual de vós, repoisando n'esta cama

de folhas mortas, qual de vós, no meio

d'esses troncos musgosos, seculares,

não viaja com o espirito espraiado

por esse mundo antigo e antigos homens? Sim, vossa alma se apraz, phantasiando

de lhe restituir quanto houve d'elles:

uma vida, uma choça, herdade e patria.

Deslembram cans; rugosas faces riem;

reviveis n'um minuto annos de infancia

sob a affeição de um pae, de um pae nos lares; sem cuidados, sem prole, e sem temores, entrais folgando o limiar da vida.

¡Podesse n'este ponto o pensamento,

como ave em ramo flórido e viscoso,

deter-se a recordar, ficar pregado!

¿Vós suspirais?!... desfaz-se-vos o sonho, e a extincta geração recai nas campas.

 

*

¿Mas quê? ¿d'esses antigos plantadores nada mais resta além de uns troncos mudos n'este universo movediço e instavel?

¿nem uma só lembrança, um dito, um nome? Tudo passou sem mínimo vestigio,

como os sons leves de um descante ao longe. ................................................................

 

V

Bons aldeões, estas sombras regaladas

vos falam nos avós; porém comigo,

comigo, extranho, e novo em meio d'ellas, conversam no aureo tempo a que assistiram; recordam-me as edades do Universo,

e os varios povos, e os paizes varios,

contemporaneos do nascente mundo.

 

*

Intonsas, invioladas, venerandas,

outras selvas, como esta que nos fecha,

fecharam do homem a primeira origem.

Sob as verdes abóbadas immensas

as velhas tradições nol-os descrevem

pobres e alegres, nús e satisfeitos,

saboreando em ocio a glande e a fonte,

dormindo sobre a folha, e sem pedirem

outra casa, outro templo, outra cidade.

 

*

A pouco e pouco o numero crescia,

minguando a pouco e pouco a singeleza. Infecta o vicio á terra; os ceos se mudam; a um Maio eterno as estações succedem; o ar se gela e accende, alaga e silva;

já bravejam leões, já bramam tigres;

o homem se acoita ao seio das cavernas.

 

*

Vós, troncos, até ali seus companheiros,

acudís a servil-o; ¡e em quantos modos!

lá, crepitais em rútila fogueira;

aqui, das feras prohibís a entrada;

dais uma clava ao caçador valente;

na serviçal cortiça um berço aos filhos;

leitos a amor, assentos á velhice,

aos enxames um lar, um copo ás festas.

 

*

Das precisões ao grito, o engenho acorda; lá surgem povoações, curraes, tugúrios,

e uma capella ás rusticas deidades.

Lá rompe o novo arado a terra dura;

lá geme, a transportar enormes pezos,

o carro, e sulca atónitos caminhos.

O genio excita o genio; o exemplo, o exemplo; a rudeza se pule; as artes crescem;

a especie racional das mais triumpha.

 

*

As gerações do ceo, do mar, da terra,

tudo é já seu; os campos lhe obedecem;

faltava o Oceano; affoita quilha o rasga.

 

*

Então foi, que estas arvores, tão uteis

no patrio continente, abriram vôo

sobre o liquido abysmo a novos climas.

*

¿E em que parte do globo, arvore excelsa, te podes presentar, que não recordes

uma façanha, um culto, um grão successo?

 

*

¿Na Grecia? Mas o Grego inda hoje conta que foste invicta clava em mão de Alcides; vê-te, suspira, bate o chão raivando

de achar-se escravo, e de não ter-lhe as forças. ¿Na Grecia? Mas o Grego inda hoje conta do arvoredo Dodónio as mil respostas,

o passado e o porvir patente a todos,

e o livro do destino aberto ao mundo.

 

*

¿Na Ausónia? Mas Cybelle amou teus ramos; Roma os sagrou a Jove; e, fulminada,

eras tremendo agoiro a todo o Imperio.

¿Em Roma? ¿E a c'rôa civica?

 

*

¿Nos campos?

¿E Phílémon, o justo, o caro aos deuses?

*

¿Nas Gallias? em seus barbaros oiteiros

tu, só, eras o altar, o deus, e o templo.

 

*

¿Na Caledonia, em Morven, junto aos lagos, sobre os cumes, á beira das torrentes?

Lá tu viste Tremnor, Fingal, e os bravos,

reunidos na vespera do sangue

em nocturno festim que allumiavas,

quando na harpa dos bardos reviviam

os feitos dos heroes do antigo tempo.

 

*

¡Salve, eleito Israel! Eis-nos em campos

de Sichem. Vejo os principes e os velhos, os juizes, as tribus, apinhar-se

em torno ao tabernáculo de Sila.

Por cima d'este mar ondeado e vivo

reina de praia em praia alto silencio.

Sublime como o cedro do deserto,

se levanta Josué, braço do Eterno,

em nome do Senhor, que o manda e inspira; os favores do Ceo recorda ao povo;

renasce a Fé; os idolos se arrazam;

—«¡Gloria ao Deus de Israel!—vozeia a turba— ¡ao Deus dos nossos paes, dos nossos netos! —Erga-se um monumento,—exclama o chefe— que, se infieis um dia os esquecerdes,

vos envergonhe, e acorde os votos de hoje.» E a monumento põe no logar santo

enorme pedra á sombra de um carvalho,

que abrigava co'a copa o santuário.[7] Despede o Povo, e em paz contente expira; em paz, que já não vê perjúrios novos.

 

*

Escrava de Madian a plebe expia,

na miseria e no opprobrio, os males torpes que fez ante o Senhor. Mas inda existe

um justo, a quem Deus fie o libertal-a:

é Gedeão, é o Josué segundo.[8] Este, em quanto seu pae lança aos caminhos medroso olhar á espera do inimigo

para fugir com elle, ajunta á pressa

o trigo que limpou.

Vê de repente

um Anjo, que debaixo do carvalho

se assenta, e lhe repete a lei do Eterno.

Esse mesmo carvalho é testemunha

da belleza do alado mensageiro,

da voz de salvação mandada ao Povo,

e do holocausto acceito e posto em cinzas, e do altar, a quem Paz foi dada em nome.

 

*

E este, que tão frondoso opáca os valles, ¿por que o rodeia um bando taciturno

dos fortes de Galaad? as suas armas

jazem quebradas; sua dor vai funda;

dos olhos tristes para o ceo voltados

pelo rosto amarello lhes escorre

grosso pranto, que alaga as f'ridas frescas.