O presbytério da montanha
Capítulo V
¿Qual de vós, repoisando n'esta cama
de folhas mortas, qual de vós, no meio
d'esses troncos musgosos, seculares,
não viaja com o espirito espraiado
por esse mundo antigo e antigos homens? Sim, vossa alma se apraz, phantasiando
de lhe restituir quanto houve d'elles:
uma vida, uma choça, herdade e patria.
Deslembram cans; rugosas faces riem;
reviveis n'um minuto annos de infancia
sob a affeição de um pae, de um pae nos lares; sem cuidados, sem prole, e sem temores, entrais folgando o limiar da vida.
¡Podesse n'este ponto o pensamento,
como ave em ramo flórido e viscoso,
deter-se a recordar, ficar pregado!
¿Vós suspirais?!... desfaz-se-vos o sonho, e a extincta geração recai nas campas.
*
¿Mas quê? ¿d'esses antigos plantadores nada mais resta além de uns troncos mudos n'este universo movediço e instavel?
¿nem uma só lembrança, um dito, um nome? Tudo passou sem mínimo vestigio,
como os sons leves de um descante ao longe. ................................................................
V
Bons aldeões, estas sombras regaladas
vos falam nos avós; porém comigo,
comigo, extranho, e novo em meio d'ellas, conversam no aureo tempo a que assistiram; recordam-me as edades do Universo,
e os varios povos, e os paizes varios,
contemporaneos do nascente mundo.
*
Intonsas, invioladas, venerandas,
outras selvas, como esta que nos fecha,
fecharam do homem a primeira origem.
Sob as verdes abóbadas immensas
as velhas tradições nol-os descrevem
pobres e alegres, nús e satisfeitos,
saboreando em ocio a glande e a fonte,
dormindo sobre a folha, e sem pedirem
outra casa, outro templo, outra cidade.
*
A pouco e pouco o numero crescia,
minguando a pouco e pouco a singeleza. Infecta o vicio á terra; os ceos se mudam; a um Maio eterno as estações succedem; o ar se gela e accende, alaga e silva;
já bravejam leões, já bramam tigres;
o homem se acoita ao seio das cavernas.
*
Vós, troncos, até ali seus companheiros,
acudís a servil-o; ¡e em quantos modos!
lá, crepitais em rútila fogueira;
aqui, das feras prohibís a entrada;
dais uma clava ao caçador valente;
na serviçal cortiça um berço aos filhos;
leitos a amor, assentos á velhice,
aos enxames um lar, um copo ás festas.
*
Das precisões ao grito, o engenho acorda; lá surgem povoações, curraes, tugúrios,
e uma capella ás rusticas deidades.
Lá rompe o novo arado a terra dura;
lá geme, a transportar enormes pezos,
o carro, e sulca atónitos caminhos.
O genio excita o genio; o exemplo, o exemplo; a rudeza se pule; as artes crescem;
a especie racional das mais triumpha.
*
As gerações do ceo, do mar, da terra,
tudo é já seu; os campos lhe obedecem;
faltava o Oceano; affoita quilha o rasga.
*
Então foi, que estas arvores, tão uteis
no patrio continente, abriram vôo
sobre o liquido abysmo a novos climas.
*
¿E em que parte do globo, arvore excelsa, te podes presentar, que não recordes
uma façanha, um culto, um grão successo?
*
¿Na Grecia? Mas o Grego inda hoje conta que foste invicta clava em mão de Alcides; vê-te, suspira, bate o chão raivando
de achar-se escravo, e de não ter-lhe as forças. ¿Na Grecia? Mas o Grego inda hoje conta do arvoredo Dodónio as mil respostas,
o passado e o porvir patente a todos,
e o livro do destino aberto ao mundo.
*
¿Na Ausónia? Mas Cybelle amou teus ramos; Roma os sagrou a Jove; e, fulminada,
eras tremendo agoiro a todo o Imperio.
¿Em Roma? ¿E a c'rôa civica?
*
¿Nos campos?
¿E Phílémon, o justo, o caro aos deuses?
*
¿Nas Gallias? em seus barbaros oiteiros
tu, só, eras o altar, o deus, e o templo.
*
¿Na Caledonia, em Morven, junto aos lagos, sobre os cumes, á beira das torrentes?
Lá tu viste Tremnor, Fingal, e os bravos,
reunidos na vespera do sangue
em nocturno festim que allumiavas,
quando na harpa dos bardos reviviam
os feitos dos heroes do antigo tempo.
*
¡Salve, eleito Israel! Eis-nos em campos
de Sichem. Vejo os principes e os velhos, os juizes, as tribus, apinhar-se
em torno ao tabernáculo de Sila.
Por cima d'este mar ondeado e vivo
reina de praia em praia alto silencio.
Sublime como o cedro do deserto,
se levanta Josué, braço do Eterno,
em nome do Senhor, que o manda e inspira; os favores do Ceo recorda ao povo;
renasce a Fé; os idolos se arrazam;
—«¡Gloria ao Deus de Israel!—vozeia a turba— ¡ao Deus dos nossos paes, dos nossos netos! —Erga-se um monumento,—exclama o chefe— que, se infieis um dia os esquecerdes,
vos envergonhe, e acorde os votos de hoje.» E a monumento põe no logar santo
enorme pedra á sombra de um carvalho,
que abrigava co'a copa o santuário.[7] Despede o Povo, e em paz contente expira; em paz, que já não vê perjúrios novos.
*
Escrava de Madian a plebe expia,
na miseria e no opprobrio, os males torpes que fez ante o Senhor. Mas inda existe
um justo, a quem Deus fie o libertal-a:
é Gedeão, é o Josué segundo.[8] Este, em quanto seu pae lança aos caminhos medroso olhar á espera do inimigo
para fugir com elle, ajunta á pressa
o trigo que limpou.
Vê de repente
um Anjo, que debaixo do carvalho
se assenta, e lhe repete a lei do Eterno.
Esse mesmo carvalho é testemunha
da belleza do alado mensageiro,
da voz de salvação mandada ao Povo,
e do holocausto acceito e posto em cinzas, e do altar, a quem Paz foi dada em nome.
*
E este, que tão frondoso opáca os valles, ¿por que o rodeia um bando taciturno
dos fortes de Galaad? as suas armas
jazem quebradas; sua dor vai funda;
dos olhos tristes para o ceo voltados
pelo rosto amarello lhes escorre
grosso pranto, que alaga as f'ridas frescas.