Os Irmãos Karamázov

Fiódor Dostoiévski · Capítulo 9 de 50

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Os Irmãos Karamázov

Capítulo 9

— Que é isso? Como? — ressoaram vozes no grupo dos religiosos.

— Partamos! — gritou Piotr Alieksándrovitch, dirigindo-se a Kolgánov.

— Não, com licença! — atalhou Fiódor Pávlovitch, dando mais um passo para dentro da sala. — Deixem-me acabar. Lá, na cela do stariets, os senhores me censuraram por haver, supostamente faltado ao respeito falando dos cadozes. Piotr Alieksándrovitch Miúsov, meu parente, gosta de que haja no discurso plus de

noblesse que de sin-cérité; 8 eu, pelo contrário, gosto de que meu discurso tenha plus de sincérité que de noblesse e tanto pior para a nobtesse. Não é, Von Sohn? Permita-me, padre abade, se bem que seja eu um palhaço e mantenha esse papel, sou um cavalheiro de honra e quero demonstrá-lo. Sim, sou um cavalheiro de honra, ao passo que Piotr Alieksándrovitch só tem... um arraigado amor-próprio e nada mais. Vim aqui talvez, ainda há pouco, para ver e explicar-me. Meu filho Alieksiéi procura aqui sua salvação; sou pai, preocupo-me com sua sorte e é isto o meu dever. Enquanto me oferecia em espetáculo, escutava tudo, olhava tudo sem ter ar de o fazer, e agora quero oferecer-lhes o derradeiro ato da representação. Que se passa entre nós? Entre nós, o que cai fica estendido. Uma vez caído, caído fica por todos os séculos. É verdade! Mas 8 Mais nobreza que sinceridade.

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não, eu quero reerguer-me. Santos padres, estou indignado pela vossa maneira de agir. A confissão é um grande sacramento que eu venero e diante do qual estou pronto a prosternar-me; ora, lá, na cela, todos se ajoelham e se confessam em voz alta. Ê permitido confessar-se em voz alta?

Os santos padres instituíram a confissão auricular; neste caso, somente, é a confissão um sacramento e isto desde toda a antigüidade. Ora, como explicaria eu, diante de toda gente, que eu, por exemplo, eu... isto e aquilo, enfim, os senhores compreendem, não é? Por vezes é indecente falar. Não é um escândalo? Não, meus padres, convosco pode-se ser arrastado para a seita dos

khristi... 9 Na primeira ocasião, escreverei ao Sínodo e retirarei meu filho de vossa casa.

Uma explicação se faz precisa. Fiódor Pávlovitch ouvira cantar o galo, mas não sabia onde. Haviam corrido outrora boatos malévolos que chegaram aos ouvidos do bispo (não somente a propósito de nosso mosteiro, mas de outros), segundo os quais prestava-se aos stártsi um respeito exagerado, em prejuízo da dignidade do abade, abusando-se, entre outras coisas, do sacramento da confissão, etc. Acusações ineptas, que caíram por si mesmas, a seu tempo, entre nós e por toda parte. Mas o demônio, que se havia apoderado de Fiódor Pávlovitch e o arrebatava mais longe a um abismo de vergonha, soprara-lhe essa acusação, da qual ele próprio não compreendia a primeira palavra. Aliás, não soubera formulá-la convenientemente, tanto mais que desta vez, na cela do stáriets, ninguém se havia ajoelhado nem se confessado em voz alta. Fiódor Pávlovitch não pudera pois ver nada de semelhante e baseava-se unicamente nos antigos boatos e comadrices de que se lembrava mais ou menos. Mas, tendo lançado essa tolice, sentiu-lhe o absurdo e quis logo provar a seus auditores, e sobretudo a si mesmo, que nada havia dito de absurdo. E, muito embora soubesse perfeitamente que tudo quanto diria não faria senão agravar aquele absurdo, não pôde conter-se e escorregou como sobre uma ladeira.

— Que baixeza! — gritou Piotr Alieksándrovitch.

— Desculpe — disse de repente o padre abade. — Foi dito outrora: 9 Adeptos da seita dos khristi (cristos) ou, por zombaria, dos khlisti ou khlistóvstvo (flagelantes), que apareceu na Rússia no século XVII. Tiveram seus profetas e praticaram exageradamente seus ritos, entre eles o da chicotada, dai o nome pejorativo que lhes deram.

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"Começaram a falar muito de mim e mesmo a falar mal. Depois de ter escutado tudo, digo a mim mesmo: é um remédio enviado por Jesus para curar minha alma vaidosa". Deste modo nós lhe agradecemos humildemente, caríssimo hóspede.

E fez uma profunda saudação a Fiódor Pávlovitch.

Ora, ora, ora. Beatice tudo isso. Velhas frases e velhos gestos.

Velhas mentiras e formalismo das saudações até o chão! Nós conhecemos essas saudações! "Um beijo nos lábios e um punhal no coração", como em Os Bandidos, de Schiller. Não gosto da falsidade, meus padres, quero a verdade. Mas a verdade não está nos cadozes e eu a proclamei!

Monges, por que jejuais? Porque esperais uma recompensa nos céus!

Então, para tal recompensa, também eu irei jejuar! Não, santo monge, sê virtuoso na vida, serve a sociedade sem encerrar-te num mosteiro, onde és custeado de tudo e sem esperar recompensa lá em cima. Eis o que será mais difícil. Sei também fazer frases, padre abade. Que prepararam eles? — continuou ele aproximando-se da mesa. — Vinho velho do Porto, Médoc, da casa dos irmãos Elissiéievi. Ah! Meus padres, isto já não se parece com os cadozes. Vejam-se essas garrafas, ah! ah! Mas quem vos arranjou tudo isto? É o mujique russo, o trabalhador que vos traz sua oferta ganha com suas mãos calosas, arrebatada à sua família e às necessidades do Estado! Reverendos padres, vós explorais o povo!

— É na verdade indigno de sua parte — proferiu o Padre Iósif.

O Padre Paísi mantinha um silêncio obstinado. Miúsov lançou-se para fora da sala acompanhado por Kolgánov.

— Pois bem, meus padres, eu sigo Piotr Alieksándrovitch! Não voltarei mais, ainda que me pedísseis de joelhos, nunca mais. Enviei-vos 1000 rublos e vós arregalastes os olhos, ah! ah! Mas não acrescentarei nada.

Vingo minha juventude passada e as humilhações sofridas. — Deu um murro sobre a mesa, num acesso de indignação fingida. — Este mosteiro desempenhou um grande papel na minha vida! Quantas lágrimas amargas verti por causa dele! Vós virastes contra mim minha mulher, a endemoniada. Cumulastes-me de maldições, desacreditastes-me na vizinhança! É demais, meus padres, nós vivemos numa época liberal, no século dos barcos a vapor e dos caminhos de ferro. Vós não tereis nada de mim, nem 1000 rublos, nem 100, nem 1.

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Explico de novo. Jamais o nosso mosteiro tivera tal lugar na vida dele e não o fizera verter lágrimas amargas, mas ele se havia de tal modo deixado levar por essas lágrimas imaginárias que esteve um momento quase a ponto de acreditar nelas; teria chorado de enternecimento, mas sentiu logo que era tempo de dar marcha à ré. Diante de sua odiosa mentira, o padre abade inclinou a cabeça e declarou de novo num tom grave:

— Está de novo escrito: "Suporta pacientemente a calúnia de que és vítima e não te perturbes, nem aborreças aquele que é o autor dela".

Agiremos de conformidade com isto.

— Ora, ora, ora, o belo palavreado! Continuai, meus padres, eu vou-me embora. Retomarei definitivamente meu filho Alieksiéi, em virtude de minha autoridade paterna; Ivã Fiódorovitch, meu respeitosíssimo filho, permita-me que lhe ordene que me siga! Von Sohn, de que serve ficar aqui!

Vem à minha casa, na cidade. Ninguém se aborrece em minha casa. Fica a 1 versta daqui, quando muito; em lugar de óleo de linhaça, darei um leitão recheado de trigo mourisco; jantaremos, oferecerei conhaque, depois licores, há uma bonita mulher... Ah! Von Sohn, não deixes passar tua felicidade!

Saiu gritando e gesticulando. Foi nesse momento que Rakítin o avistou e apontou-o a Aliócha.

— Alieksiéi — gritou-lhe seu pai, de longe —, vem hoje instalar-te em minha casa definitivamente, pega teu travesseiro, teu colchão e que nada teu fique aqui.

Aliócha parou como que petrificado, observando atentamente aquela cena, sem dizer uma palavra. Fiodor Pávlovitch subiu à caleça, seguido de Ivã Fiódorovitch, silencioso e sombrio, que nem mesmo se voltou para cumprimentar Aliócha. Mas passou-se então uma cena de saltimbanco, quase inverossímil, para coroamento de tudo. De repente, apareceu perto do estribo o proprietário rural Maksímov. Corria sem fôlego, para chegar a tempo. Tal era sua pressa que, na sua impaciência, colocou uma perna no estribo onde se encontrava ainda a de Ivã Fiódorovitch e, agarrando-se ao assento, tentou subir.

— Eu também o sigo! — gritou ele, saltitando, com um riso alegre, um ar de beatitude e pronto a tudo. — Leve-me com o senhor!

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— Pois é, não dizia eu que era Von Sohn? — exclamou Fiódor Pávlovitch, encantado. — O verdadeiro Von Sohn ressuscitado dentre os mortos! Como saíste de lá? Que é que fabricavas lá e como pudeste renunciar ao jantar? Porque é preciso ter testa de bronze! Eu tenho uma testa assim, mas a tua me causa admiração, camarada. Salta, salta mais depressa. Deixa-o subir, Vânia, a gente se divertirá. Que se estenda aí, a nossos pés, ouviu, Von Sohn? Ou então vamos instalá-lo na boléia com o cocheiro! Salta na boléia, Von Sohn.

Mas Ivã Fiódorovitch, que já tomara lugar, sem dizer palavra, repeliu, com um forte empurrão no peito, Maksímov, que recuou uns 2

metros. Se não caiu, foi mero acaso.

— A caminho! — gritou, com raiva, ao cocheiro, Ivã Fiódorovitch.

— Como! Que fazes, que fazes? Por que tratá-lo assim? — objetou Fiódor Pávlovitch, mas a caleça já havia partido. Ivã Fiódorovitch não respondeu nada.

— Só se vendo como és! — continuou Fiódor Pávlovitch, após um silêncio de dois minutos, olhando seu filho de través. — Porque foste tu que imaginaste essa visita ao mosteiro, que a provocaste e aprovaste. Por que te zangas agora?

— Basta de dizer estupidezas! Repouse um pouco pelo menos, agora — replicou num tom rude Ivã Fiódorovitch. Fiódor Pávlovitch calou-se ainda dois minutos.

— Seria bom agora beber conhaque — observou ele, sentenciosamente. Mas Ivã Fiódorovitch nada respondeu.

— Quando chegarmos, beberás também?

Ivã Fiódorovitch não pronunciava uma palavra sequer. Fiódor Pávlovitch esperou ainda dois minutos.

— No entanto, retirarei Aliócha do mosteiro, se bem que isto lhe seja bastante desagradável, respeitoso "Karl von Moor".

Ivã Fiódorovitch ergueu desdenhosamente os ombros, voltou-se e pôs-se a olhar a estrada. Não trocaram mais uma palavra até a casa.

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LIVRO III

OS SENSUAIS

I

NA ANTECÂMARA

A casa de Fiódor Pávlovitch Karamázov estava situada bastante longe do centro da cidade, mas não totalmente na periferia. Achava-se bastante deteriorada, mas tinha um exterior agradável; de um só andar, com um sótão, pintada de cinzento e de telhado vermelho de ferro. Aliás, podia durar ainda muito tempo, era espaçosa e confortável. Havia nela muitos corredores, recantos e escadas ocultas. Os ratos pululavam, mas Fiódor Pávlovitch não se inquietava muito com isto: "Com eles as noites não são tão enfadonhas, quando se fica só!" Tinha, com efeito, o hábito de mandar os criados passarem a noite no pavilhão e fechava-se ele mesmo na casa. Esse pavilhão, situado no pátio, era vasto e sólido. Fiódor Pávlovitch instalara ali a cozinha, embora houvesse uma na casa; não gostava dos odores de cozinha e traziam os pratos através do pátio, tanto no inverno quanto no verão. Essa casa fora construída para uma grande família e ter-se-ia podido nela alojar cinco vezes mais senhores e criados.

Mas, por ocasião de nossa narrativa, o corpo principal só era habitado por Fiódor Pávlovitch e seu filho Ivã, e o pavilhão da criadagem, somente por três criados: o velho Gregório, sua mulher Marfa e o jovem criado Smierdiákov. Teremos de falar mais detalhadamente desses três personagens. Já se tratou do velho Gregório Vassílievitch Kutúzov. Era um homem firme e inflexível, indo a seu alvo com uma retitude obstinada, contanto que esse alvo se lhe oferecesse, em virtude de quaisquer razões (muitas vezes espantosamente ilógicas), como uma verdade infalível.

Numa palavra, era honesto e incorruptível. Sua mulher, Marfa Tgnátievna, se bem que cegamente submetida toda a sua vida à vontade de seu marido, havia-o atormentado, logo depois da libertação dos servos, para deixar Fiódor Pávlovitch e ir estabelecer uma casinha de comércio em Moscou (tinham economias); mas então Gregório decidiu, duma vez por todas, que sua, mulher não tinha razão, todas as mulheres são sempre 95

desleais. Não deviam deixar seu antigo senhor, qualquer que ele fosse,

"porque era o dever deles agora".

— Compreendes tu o que é o dever? — perguntou a Marfa Tgnátievna.

— Compreendo-o, Gregório Vassílievitch, mas em que é dever nosso ficar aqui? Eis o que não compreendo absolutamente — respondeu com firmeza Marfa Ignátievna.

— Que o compreendas ou não, será assim! Doravante, cala-te.

Foi o que aconteceu; ficaram, e Fiódor Pávlovitch lhes marcou modestos ordenados pagos regularmente. Mais ainda, sabia Gregório que exercia sobre seu patrão uma influência incontestável. Ele o sentia e era justo; palhaço astucioso e obstinado, Fiódor Pávlovitch, de caráter muito firme "em certas coisas da vida", segundo sua expressão, era, para seu próprio espanto, pusilânime em algumas outras "coisas da vida". Ele próprio sabia quais e experimentava bastantes temores. Em certos casos era preciso manter-se de sobreaviso, não se podia passar sem um homem seguro; ora, Gregório era de uma fidelidade a toda prova. Por várias vezes, no curso de sua carreira, Fiódor Pávlovitch correu o risco de ser batido, e até mesmo cruelmente, mas foi sempre Gregório que o tirou de apuros, sem deixar de repreendê-lo todas as vezes. Mas os golpes somente não teriam amedrontado Fiódor Pávlovitch; havia casos mais salientes, por vezes mesmo bastante delicados e complicados, em que ele próprio teria sido incapaz de definir a necessidade extraordinária de alguém seguro e íntimo que se apoderava bruscamente dele, sem que soubesse por quê.

Eram quase casos patológicos: visceralmente corrompido e muitas vezes luxurioso até a crueldade, tal como um inseto malfazejo, Fiódor Pávlovitch, em minutos de embriaguez, sentia de súbito uma apreensão, uma comoção moral, que tinham um contragolpe quase físico sobre sua alma. "Parece então que minha alma palpita na minha garganta", dizia ele por vezes. Era naqueles momentos que gostava de ter a seu lado, no seu círculo imediato, um homem devotado, firme, não corrompido como ele e que, muito embora testemunha de seu mau procedimento e ao corrente de seus segredos, tolerasse tudo isso por devotamento, não se lhe opusesse e, sobretudo, não lhe fizesse censuras, não o ameaçasse com nenhum castigo, quer neste mundo, quer no outro, mas que o defendesse em caso de necessidade — contra quem? Contra algo desconhecido, mas temível e 96

perigoso. Tratava-se de ter perto de si um outro homem, devotado de longa data, para chamá-lo, num minuto de angústia, somente a fim de contemplar seu rosto, trocar talvez algumas palavras, mesmo completamente estranhas: se o via de bom humor, sentia-se aliviado, ao passo que a tristeza aumentava, se estava ele irritado. Acontecia (bastante raramente, aliás) a Fiódor Pávlovitch ir de noite ao pavilhão acordar Gregório, para que esse fosse ficar um momento junto dele. Gregório chegava, seu patrão falava a respeito de insignificantes bagatelas e o despedia em breve, por vezes mesmo com pilhérias e brincadeiras, depois metia-se na cama e dormia então o sono de um justo. Algo de análogo se passara por ocasião da chegada de Aliócha. Aliócha "traspassava o coração" de Fiódor Pávlovitch, porque "ouvia, via tudo e não censurava nada". Mais ainda, trazia consigo algo de inaudito: a ausência completa de desprezo para com ele, velho; pelo contrário, uma afabilidade constante e um apego totalmente natural e sincero, quando ele o merecia tão pouco.

Tudo isto tinha sido, para o velho debochado sem família, uma surpresa completa, totalmente inesperada para ele, que, até então, não havia amado senão a "sujeira". Com a partida de Aliócha, teve de confessar a si mesmo que compreendera alguma coisa que não quisera compreender até então.

Já mencionei, no começo de minha narrativa, que Gregório detestava _ Adelaide Ivânovna, a primeira mulher de Fiódor Pávlovitch e a mãe de seu primeiro filho, Dimítri, e que, ao contrário, defendera a segunda esposa dele, a possessa Sofia Ivânovna, contra seu próprio patrão e contra aqueles que tivessem tido a idéia de pronunciar a seu respeito uma palavra malévola ou sem consideração. Sua simpatia por aquela infeliz tornara-se alguma coisa de sagrado, a ponto de, vinte anos- depois, não suportar que ninguém fizesse uma alusão malévola a seu respeito sem imediatamente replicar ao ofensor. No seu aspecto exterior, era Gregório um homem frio e grave, pouco falador, proferindo palavras ponderadas, isentas de frivolidades, À primeira vista, não se podia adivinhar se amava ou não sua mulher, doce e submissa, não obstante a amasse verdadeiramente e ela o compreendesse sem dúvida. Essa Marfa Ignátievna, longe de ser estúpida, era talvez mais inteligente que seu.

marido, em todo caso mais judiciosa nos negócios da vida; entretanto, era-lhe cegamente submissa, desde o começo de seu casamento, e respeitava-o sem contradição pela sua altitude moral. É preciso notar que trocavam muito poucas palavras, somente a propósito das coisas indispensáveis da 97

vida corrente. O grave e majestoso Gregório meditava sempre sozinho seus negócios e suas preocupações, de sorte que Marfa Ignátievna compreendera desde muito tempo que não tinha ele de modo algum necessidade de seus conselhos. Sentia que seu marido apreciava seu silêncio e via nisso uma prova de espírito. Ele nunca lhe batera, salvo uma vez, e não seriamente. No primeiro ano do casamento de Adelaide Ivânovna e de Fiódor Pávlovitch, no campo, as moças e as mulheres da aldeia, então ainda servas, tinham-se reunido no pátio dos patrões para dançar e cantar. Entoou-se a canção "Sobre o prado, sobre o prado", e de súbito Marfa Ignátievna, que, então, era jovem, veio colocar-se diante do coro e executou a dança russa, não como as outras, à moda rústica, mas como a executava, quando era arrumadeira em casa dos ricos Miúsovi, no teatro da propriedade deles, onde um mestre de dança vindo de Moscou ensinava sua arte aos atores. Gregório vira os passos de sua mulher e, uma hora depois, de volta à isbá, deu-lhe uma lição, puxando-lhe um pouco os cabelos. Mas os golpes se limitaram a isto e não se renovaram uma vez sequer em toda a vida deles; de resto, Marfa Ignátievna prometeu a si mesma não mais dançar dali por diante.

Deus não lhes havia dado filhos, exceto um que morreu. Via-se que Gregório gostava de crianças, não o ocultava, aliás, isto é, não se envergonhava de mostrá-lo. Quando Adelaide Ivânovna fugiu, recolheu Dimítri Fiódorovitch, de três anos de idade, e tomou cuidado dele quase um ano inteiro, penteando-o e dando-lhe banho na gamela. Mais tarde, ocupou-se também com Ivã Fiódorovitch e Alieksiéi, o que lhe valeu uma bofetada, mas já narrei tudo isto; seu próprio4 filho só o alegrou pela esperança da expectativa, quando Marfa Ignátievna estava grávida.

Quando ele nasceu, foi tomado de pesar e de horror, porque aquele menino tinha seis dedos, vendo o que ficou Gregório tão acabrunhado que não somente guardou silêncio até o dia do batizado, mas foi expressamente calar-se no jardim. Estava-se na primavera; durante três dias, ficou cavando na horta. Tendo chegado a hora do batizado, já havia Gregório imaginado alguma coisa. Entrando na isbá, onde se haviam reunido o clero, os convidados e por fim Fiódor Pávlovitch, vindo na qualidade de padrinho, anunciou que "não se deveria de modo algum batizar o menino", isto em voz baixa, lacônica-mente, mal articulando uma palavra após a outra, fixando o padre com um ar idiota.

— Por que isto? — informou-se o padre com uma surpresa divertida.

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— Porque é... um dragão... — murmurou Gregório.

— Como um dragão, que dragão? Gregório calou-se algum tempo.

— Produziu-se uma confusão da natureza... — murmurou ele duma maneira bastante confusa, mas muito firme, e via-se que não desejava estender-se em palavras.

Houve risos e, bem entendido, o pobre menino foi batizado. Gregório rezou com fervor perto das fontes batismais, mas persistiu na sua opinião a respeito do recém-nascido. De resto, não se opôs a nada; somente, durante as duas semanas em que viveu esse menino doentio quase não olhou para ele; não queria mesmo vê-lo e ausentava-se freqüentemente da isbá. Mas, quando o bebê morreu de aftas ao fim de duas semanas, ele mesmo o pôs no caixão, contemplou-o com profunda angústia e, uma vez enchida de terra a pequena cova, pôs-se de joelhos e prosternou-se até o chão. Posteriormente, durante muitos anos, não falou jamais de seu filho; por seu lado Marfa Ignátievna jamais fazia alusão a ele em sua presença e, se lhe acontecia conversar com alguém a respeito de seu "filhinho", falava em voz baixa, muito embora Gregório Vassílievitch não estivesse presente. De acordo com a observação de Marfa lgnátievna, depois daquela morte interessou-se ele de preferência pelo "divino", leu as Vidas dos Santos, a maior parte das vezes sozinho e em silêncio, pondo de cada vez seus grandes óculos redondos de prata. Lia raramente em voz alta, quando muito durante a Quaresma. Gostava extremamente do Livro de Jó, arranjara uma coletânea das palavras e sermões de "nosso Santo Padre Isaac, o Sírio", que se obstinou em ler durante anos, quase sem nada compreender daquilo, mas por esta razão talvez apreciasse e amasse aquele livro acima de tudo. Nos últimos tempos, prestou ouvidos à doutrina dos khlisti, tendo tido a ocasião de aprofundá-la na vizinhança; ficou visivelmente abalado, mas não se decidiu a adotar a fé nova. Essas piedosas leituras tornavam naturalmente sua fisionomia ainda mais grave.

Talvez fosse ele inclinado ao misticismo. Ora, como fato expresso, a vinda ao mundo e a morte de seu filho de seis dedos coincidiram com outro caso bastante estranho, inesperado e original, que deixou em sua alma, como o disse ele uma vez mais tarde, "uma marca". Na noite que se seguiu ao enterro do bebê, tendo Marfa lgnátievna despertado, creu ouvir o choro de um recém-nascido. Ficou amedrontada e acordou seu marido.

Este, prestando ouvido, notou que eram antes gemidos, * "dir-se-iam de 99