Os Irmãos Karamázov
Capítulo 50
— Ah! mais, c'est bete enfin! 50 — exclamou o outro, erguendo-se vivamente e enxugando as gotas de chá que lhe caíram na roupa;
lembrou-se do tinteiro de Lutero! 51 Quer ver em mim um sonho e lança copos contra um fantasma! Isso é digno duma mulher! Bem suspeitava de que fingias tapar os ouvidos e que estavas escutando...
Nesse momento, bateram na janela com insistência. Ivã Fiódorovitch levantou-se.
— Estás ouvindo? Abre então — exclamou o visitante. — É teu irmão Aliócha que vem anunciar-te uma notícia das mais inesperadas, garanto-te!
— Cala-te, impostor, sabia antes de ti que era Aliócha, pressentia-o, e decerto não vem à toa, traz evidentemente uma "notícia" — exclamou Ivã exaltado.
— Abre então, abre-lhe. Está lá fora uma tempestade de neve e é teu irmão quem bate. Monsieur sait-il le temps qu'il fait? Cest à ne
pas mettre un chien dehors. .. 52
Continuavam a bater. Ivã quis correr à janela, mas sentiu-se como que paralisado. Esforçava-se por partir os laços que o prendiam, mas em vão. Batiam cada vez com mais força. Por fim os laços se romperam e Ivã Fiódorovitch levantou-se. As duas velas acabavam de consumir-se, o copo que havia atirado contra seu visitante estava sobre a mesa. Sobre o divã, ninguém. As pancadas na janela persistiam, mas bem menos fortes do que lhe tinham parecido, bem discretas até.
— Não é um sonho! Não, juro que não era um sonho, tudo isso acaba de ocorrer.
Ivã correu à janela e abriu o postigo.
— Aliócha, eu te havia proibido de vir — gritou ele, com raiva a seu irmão. — Em duas palavras: que queres? Em duas palavras, ouves-me?
— Há uma hora Smierdiákov enforcou-se — disse Aliócha.
50 Ah! mas é estúpido, afinal!
51 Martinho Lutero acreditava ter visto muitas vezes o diabo, atirando-lhe certo dia com um tinteiro à cabeça.
52 O senhor sabe que tempo está fazendo? Nem um cachorro se deve pôr lá fora..
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— Sobe o patamar, vou abrir a porta — disse Ivã.
X
"FOI ELE QUEM O DISSE!"
Aliócha contou a Ivã que uma hora antes Maria Kondrátievna fora à casa dele para informá-lo de que Smierdiákov acabava de suicidar-se.
"Entro no quarto dele para retirar o samovar e vejo-o pendurado de um prego grande na parede. " Perguntando-lhe Aliócha se fizera ela sua declaração a quem de direito, respondeu que viera diretamente à casa dele, correndo. Tremia como uma folha. Tendo-a acompanhado à isbá, havia Aliócha encontrado Smierdiákov ainda pendurado. Em cima da mesa, um papel com estas palavras: "Ponho fim a meus dias voluntariamente. Não acusem ninguém de minha morte". Deixando esse bilhete em cima da mesa, dirigiu-se Aliócha à casa do isprávnik, "e dali à tua casa", concluiu, olhando fixamente para Ivã, cuja expressão o intrigava.
— Meu irmão — disse de repente —, deves estar muito doente!
Olhas-me sem ter o ar de compreender o que te digo.
— Foi bom teres vindo — disse Ivã com ar preocupado e sem prestar atenção à exclamação de Aliócha. — Sabia que ele se tinha enforcado.
— Por intermédio de quem o sabias?
— Não lembro por intermédio de quem, mas sabia-o. Sabia-o? Sim, ele mo disse. Dizia-mo ainda há pouco...
Ivã mantinha-se no meio do quarto, com o ar sempre absorto, olhando para o chão.
— Ele, quem? — perguntou Aliócha com uma olhadela involuntária em redor.
— Esquivou-se.
— Ivã ergueu a cabeça e sorriu mansamente.
— Teve medo de ti, da pomba. És um puro "querubim". Dimítri assim te chama: querubim... O grito formidável dos serafins! Que é um serafim? Talvez toda uma constelação, e essa constelação não é talvez 666
senão uma molécula química... Existe a constelação do Leão e do Sol, sabes?
— Meu irmão, senta-te — disse Aliócha espantado —, senta-te no divã, suplico-te. Deliras, apóia-te na almofada, assim. Queres um guardanapo molhado sobre a cabeça? Isso te aliviaria.
— Dá-me o guardanapo que está em cima da cadeira, atirei-o ali ainda há pouco.
— Não, não está ali. Não te inquietes, ei-lo aqui — disse Aliócha encontrando num canto, perto do lavatório, um guardanapo limpo, ainda dobrado. Ivã examinou-o com olhar estranho. Pareceu voltar-lhe a memória.
— Espera — disse ele, levantando-se. — Há uma hora apliquei à minha cabeça esse mesmo guardanapo molhado, depois joguei-o ali...
como pode estar ele seco? Não havia outro.
— Aplicaste esse guardanapo na cabeça?
— Mas sim, e andei pelo quarto há uma hora... Por que as velas estão consumidas? Que horas são?
— Em breve será meia-noite.
— Não, não, não! — exclamou Ivã. — Não era um sonho! Ele estava aqui, neste divã. Quando tu bateste na janela, atirei-lhe um copo... aquele...
Espera um pouco, não é a primeira vez... mas não são sonhos, é realidade: ando, falo, vejo... dormindo. Mas ele estava aqui, neste divã... É muito estúpido ele, Aliócha, muito estúpido. — Ivã pôs-se a rir e a caminhar pelo quarto.
— Quem é estúpido? De quem falas, meu irmão? — perguntou ansiosamente Aliócha.
— Do diabo! Ele vem ver-me. Veio duas ou três vezes. Irrita-me, pretendendo que lhe quero mal por não ser ele senão o diabo, em lugar de Satã, com asas avermelhadas, cercado de trovões e raios. Não passa de um impostor, um mau diabo de baixa classe. Vai aos banhos. Se lhe tirassem a roupa, haveriam de encontrar nele certamente uma cauda fulva, do comprimento de 1 archin, lisa como a de um cão dinamarquês... Aliócha, estás enregelado, coberto de neve, queres chá? Está frio, vou pôr a 667
funcionar o samovar... Cest à ne pas mettre un chien dehors. ..
Aliócha correu ao lavatório, molhou o guardanapo, persuadiu Ivã a tornar a sentar-se e aplicou-lho à cabeça. Sentou-se ao lado dele.
— Que é que me dizias há pouco a respeito de Lisa? — prosseguiu Ivã. (Tornava-se bastante loquaz. ) Lisa me agrada. Falei-te mal dela. É
falso, ela me agrada. Tenho medo amanhã, por causa de Cátia sobretudo, pelo futuro. Ela me abandonará amanhã e me espezinhará. Crê que perco Mítia por ciúme, por causa dela, sim, ela crê isto! Mas não! Amanhã, será a cruz e não a forca. Não, não me enforcarei. Sabes que não poderei jamais me matar, Aliócha? Será por baixeza? Não sou um covarde. É por amor à vida! Como sabia eu que Smierdiákov se enforcara? Sim, foi "ele" quem mo disse...
— E estás persuadido de que alguém veio aqui?
— Neste divã, no canto. Foste tu que o afugentaste. Sim, foste tu que o puseste em fuga, desapareceu à tua chegada. Gosto de teu rosto, Aliócha.
Sabias disto? Mas "ele" sou eu, Aliócha, eu mesmo. Tudo quanto há em mim de baixo, de vil, de desprezível! Sim, sou um "romântico", ele o notou... no entanto, é uma calúnia. Ele é horrendamente estúpido, mas por isso é que logra êxito. É astuto, bestialmente astuto, sabe muito bem levar-me ao extremo. Zombava de mim, dizendo que eu creio nele, foi assim que me obrigou a escutá-lo. Mistificou-me como a uma criança. Aliás, disse a meu respeito muitas verdades, coisas que eu jamais teria dito a mim mesmo. Sabes, Aliócha, sabes — acrescentou Ivã, num tom confidencial — que eu gostaria bem que fosse realmente "ele", e não eu?
— Ele fatigou-te — disse Aliócha, olhando para seu irmão com compaixão.
— Irritou-me, sabes, e bem habilmente: "A consciência, que é isso?
Fui eu que a inventei. Por que se tem remorsos? Por hábito. Hábito que tem a humanidade há 7 000 anos. Desfaçamo-nos do hábito e seremos deuses". Foi ele quem o disse!
— Mas não tu, não tu? — exclamou malgrado seu Aliócha, com um olhar luminoso. — Pois bem! Deixa-o, esquece-o então! Que ele leve consigo tudo quanto maldizes agora e que não volte mais!
— Ele é mau, zombou de mim. É um insolente, Aliócha — disse Ivã, 668
fremindo à lembrança da ofensa. — Caluniou-me a muitos respeitos, caluniou-me em minha própria cara. "Oh! vais praticar uma nobre ação, declararás que foste tu o assassino responsável, que o lacaio matou teu pai por instigação... "
— Meu irmão, contém-te; não foste tu que mataste. Não é verdade!
— Foi ele que o disse e ele o sabe: "Vais praticar uma ação virtuosa e, contudo, não crês na virtude, eis o que te irrita e te atormenta". Eis o que ele me. disse, e ele é perito nisso...
— És tu que dizes, e não ele! E falas em delírio!
— Não, ele sabe o que diz: "É por orgulho que vais dizer: 'Fui eu que matei, por que estais tomados de espanto? Mentis! Desprezo vossa opinião, zombo do vosso espanto'". Dizia ainda: "Sabes? queres que te admirem; é um criminoso, um assassino, dirão, mas que sentimentos nobres! Para salvar seu irmão, acusou-se!" Mas é falso, Aliócha —
exclamou Ivã, com os olhos cintilantes. — Não quero a admiração dos alarves. Juro-te que ele mentiu. Foi por isso que lhe atirei um copo, que se quebrou no focinho dele!
— Meu irmão, acalma-te, deixa de...
— Não, é um sábio torcionário, e cruel — prosseguiu Ivã, que não havia ouvido. — Sabia bem por que ele vinha. "Pois seja", dizia ele, "tu querias ir por orgulho, mas guardando a esperança de que Smierdiákov seria desmascarado e enviado ao presídio, que absolveriam Mítia e que te condenariam moralmente apenas (ouves, ele riu neste ponto!), enquanto outros te admirariam. Mas Smierdiákov está morto, quem te acreditará agora no tribunal? Tu somente? No entanto, vais, decidiste ir. Com que objetivo, afinal?" É estranho, Aliócha, não posso suportar semelhantes perguntas. Quem tem a audácia de mas fazer?