Os Irmãos Karamázov
Capítulo 41
— Mas sim, foi Gregório. Ficou desmaiado depois de ter sido golpeado por Dimítri Fiódorovitch, depois levantou-se e, vendo a porta aberta, foi matar Fiódor Pávlovitch.
— Mas por quê, por quê?
— Sob o império duma obsessão. Voltando a si, depois de ter sido golpeado na cabeça, a obsessão fê-lo cometer aquele crime. Ora, diz ele que não matou, talvez não se lembre. Somente veja você, será bem melhor que Dimítri Fiódorovitch haja matado. É bem isto, embora fale de Gregório, foi certamente Dimítri, e isto é melhor, muito melhor. Não que eu aprove o assassínio dum pai por um filho; os filhos, pelo contrário, devem respeitar os pais, no entanto, vale mais que seja ele, porque então não terão vocês de ficar desolados, uma vez que ele matou inconscientemente, ou antes conscientemente, mas sem saber como a coisa ocorreu. Deve-se absolvê-lo; será humano, ver-se-ão os benefícios da justiça nova, eu não sabia de nada, dizem que isso é já coisa antiga; desde que o soube, ontem, fiquei tão impressionada que queria mandar chamar 588
você; e se o absolverem convidá-lo-ei para jantar imediatamente, reunirei conhecidos e beberemos à saúde dos novos juizes. Não acho que seja perigoso, aliás haverá gente, poder-se-á sempre levá-lo, se ele se mostrar furioso; mais tarde, poderá ele noutra parte ser juiz de paz ou alguma outra coisa, porque os melhores juizes são aqueles que sofreram também desgraças. Sobretudo, quem não tem sua obsessão agora? Você, eu, todo mundo, e quantos exemplos! Um indivíduo está cantando uma romança, de repente algo lhe desagrada, pega uma pistola, mata o primeiro que encontra e absolvem-no. Li-o recente, todos os doutores confirmaram-no.
Confirmam tudo, agora. Pense pois, Lisa tem uma obsessão, fez-me chorar ontem e anteontem; hoje adivinhei que era simplesmente uma obsessão.
Oh! Lisa causa-me tanta pena! Creio que perdeu o juízo. Por que mandou chamá-lo? Ou então veio você espontaneamente?
— Ela mandou chamar-me e vou ter com ela — declarou Aliócha, levantando-se com ar resoluto.
— Ah! caro Alieksiéi Fiódorovitch, eis talvez o essencial —
exclamou a Senhora Khokhlakova, chorando. — Deus é testemunha de que lhe confio sinceramente Lisa, e não tem importância o haver mandado chamá-lo, sem que eu o soubesse. Quanto a seu irmão Ivã, desculpe-me, mas não lhe posso confiar tão facilmente minha filha, muito embora o considere sempre como o rapaz mais cavalheiresco. Imagine que veio visitar Lisa e eu não sabia de nada.
— Como? O quê? Quando? — perguntou Aliócha, estupefato. Não se havia tornado a sentar.
— Vou contar-lhe, talvez o tenha mandado chamar para isso, não me lembro mais. Ivã Fiódorovitch veio ver-me duas vezes, depois de seu regresso de Moscou; a primeira, para fazer-me uma visita na qualidade de conhecido; a segunda, recentemente. Cátia encontrava-se aqui em minha casa e ele entrou sabendo disso. Bem entendido, não pretendia eu frequentes visitas da parte dele, conhecendo suas complicações, vous comprenez, cette affaire et Ia
mort terrible de votre papa, 41 mas venho a saber de repente que ele veio de novo, não aos meus aposentos, mas aos de Lisa, há seis dias, ficou uns cinco minutos. Soube-o três dias depois por Glafira, 41 Você compreende, esse caso e a morte terrível de seu papai.
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isto chocou-me. Chamo logo Lisa, que se põe a rir: "Pensava", disse ela,
"que a senhora estava dormindo e veio pedir-me notícias suas". Foi isto, decerto. Somente, Lisa, Lisa, meu Deus, que pena me causa! Imagine que, uma noite, há quatro dias, depois de sua visita, teve ela uma crise de nervos, gritos, gemidos. Por que nunca tenho eu crises de nervos? No dia seguinte, e no outro dia, novo ataque, e, ontem, essa obsessão. Ela grita para mim de repente: "Detesto Ivã Fiódorovitch, exijo que a senhora não o receba mais, que lhe proíba a entrada nesta casa!" Fiquei estupefata e repliquei-lhe: "Por que razão despedir um jovem tão cheio de mérito, tão instruído e além do mais tão infeliz, porque todas essas histórias são antes uma desgraça que uma felicidade, não é mesmo?" Ela desatou a rir às minhas palavras, duma maneira ferina. Fiquei contente, pensando tê-la divertido e que as crises cessariam. Aliás, queria eu mesma despedir Iva Fiódorovitch por causa de suas estranhas visitas sem meu consentimento e pedir-lhe explicações. Esta manhã, eis que, ao despertar, Lisa zangou-se com Iúlia e, imagine, bateu-lhe «na cara. Ora, é monstruoso, trato de
"você" minhas criadas de quarto. Uma hora depois, abraçava ela Iúlia e beijava-lhe os pés. Mandou dizer-me que não viria aqui, que não queria vir mais aqui aos meus aposentos, doravante, e, quando me arrastei até o seu qurato, cobriu-me de beijos, chorando, depois empurrou-me para fora sem dizer uma palavra, de modo que nada pude saber. Agora, caro Alieksiéi Fiódorovitch, ponho toda a minha esperança em você, meu destino está sem dúvida em suas mãos. Rogo-lhe que vá ver Lisa, que esclareça tudo isso, como só você sabe fazê-lo, e vir contar-me, a mim, a mãe, porque você comprende, morrerei deveras, se isto tudo continua, ou fugirei desta casa. Não posso mais, tenho paciência, mas posso perdê-la e então... então será terrível. Ah! meu Deus, enfim, Piotr Ilitch! — exclamou a Senhora Khokhlakova, radiante, vendo entrar Piotr Ilitch Pierkhótin. —
Você chegou atrasado, atrasado! Pois bem, sente-se, fale, decida a sorte, que diz esse advogado? Aonde vai você, Alieksiéi Fiódorovitch?
— Ao quarto de Lisa.
— Ah! sim. Não se esquecerá, não se esquecerá do que lhe pedi?
Trata-se de meu destino!
— Decerto que não, se todavia fôr possível... mas estou tão atrasado... — murmurou Aliócha, retirando-se.
— Não, venha sem falta e não, como diz, se fôr possível, senão 590
morrerei! — gritou às costas dele a Senhora Khokhlakova, mas Aliócha já havia desaparecido.
III
UM DIABINHO
Encontrou Lisa semi-estendida na poltrona onde a carregavam, quando ainda não podia ela andar. Não se levantou à entrada dele, mas seu olhar penetrante atravessou-o. Aquele olhar estava um tanto aceso, a tez amarelada; ficou Aliócha impressionado com a mudança que se operara nela naqueles três dias, havendo mesmo emagrecido. Não lhe estendeu ela a mão. Ele lhe aflorou os dedos finos, imóveis sobre seu vestido, e sentou-se diante dela, sem dizer nada.
— Sei que tem você pressa de ir à prisão — declarou bruscamente Lisa. — Mamãe reteve-o duas horas, acaba de falar-lhe de Iúlia e de mim.
— Como o sabe?
— Escutei. Que tem de me olhar? Se me agrada, escuto, não há mal nisso. Não peço perdão.
— Há alguma coisa que a perturbe?
— Pelo contrário, sinto-me muito bem. Ainda há pouco, pensava pela décima vez em como fiz bem em retomar a palavra dada e não me tornar sua mulher. Você não convém como marido; se casar com você e encarregá-lo de levar um bilhete a um apaixonado por mim, você o faria e traria mesmo a resposta. E aos quarenta anos ainda levaria tais bilhetes.
Pôs-se a rir.
— Há em você algo de mau e, ao mesmo tempo, de ingênuo — disse Aliócha, sorrindo.
— É por ingenuidade que não tenho vergonha diante de você. Não somente não tenho vergonha, mas não quero tê-la, justamente diante de você. Aliócha, por que é que não o respeito? Amo-o muito, mas não o respeito. Senão, não lhe falaria sem nenhuma vergonha, não é?
— Com efeito.
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— Acredita que não tenho vergonha diante de você?
— Não, não acredito.
Lisa riu de novo nervosamente; falava depressa.
— Mandei bombons para seu irmão, Dimítri Fiódorovitch, na prisão.
Aliócha, sabe que você é muito gentil? Eu o amarei muito por me ter permitido tão depressa não amá-lo.
— Por que mandou chamar-me, hoje, Lisa?
— Queria dar-lhe parte dum desejo. Quero que alguém me faça sofrer, que case comigo, depois me torture, me engane e me abandone.
Não quero ser feliz.
— Enamorou-se da desordem?
— Ah! quero a desordem. Quero pôr fogo na casa. Imagino a coisa: irei às ocultas, absolutamente às ocultas, tratar de pôr fogo.
Procuram apagá-lo, a casa arde. Sei e me calo. Ah! que coisa estúpida! que horror!
Fez um gesto de desgosto.
— Você vive na riqueza — disse Aliócha, em voz baixa.
— Será que vale mais viver pobremente?
— Sim.
— Era seu defunto monge quem lhe contava isso. Não é verdade.
Que eu seja rica e todos os outros pobres, comerei bombons, beberei creme e não darei a ninguém! Ah! não fale, não diga nada (fez um gesto, se bem que Aliócha não tivesse aberto a boca), você já me disse tudo isso antes, sei-o de cor. É aborrecido. Se sou pobre, matarei alguém, talvez mesmo mate sendo rica. Por que me constranger?... Sabe duma coisa? Quero segar, segar os trigos. Serei sua mulher, você tornar-se-á mujique, um verdadeiro mujique; teremos um poldrinho, quer? Conhece Kolgánov?
— Sim.
— Ele sonha, andando. Diz: "De que serve viver? Na verdade, é melhor sonhar". Podem-se sonhar as coisas mais alegres, mas a vida é o tédio. Ele se casará em breve, fez, também a mim, uma declaração. Sabe chicotear pião?
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— Sim.
— Pois bem! ele parece um pião: é preciso pô-lo em movimento, atirá-lo, chicoteá-lo. Se casar com ele, lançá-lo-ei a vida inteira. Não tem você vergonha de ficar comigo?
— Não.
— Você está muito zangado porque não falo das coisas santas. Não quero ser santa. Que se faz no outro mundo para o maior pecado? Você deve saber ao certo.
— Deus condena — disse Aliócha, olhando-a fixamente.
— É o que quero. Chegaria, condenar-me-iam, riria bem na cara de todos. Quero absolutamente pôr fogo na casa, Aliócha, em nossa casa, não me acredita?
— Por que, afinal? Há crianças, aos doze anos, que têm muita vontade de pôr fogo em alguma coisa e o fazem. É uma espécie de doença.
— Não é verdade, não é verdade. Há mesmo crianças, mas não falo disso.
— Você toma o mal pelo bem, é uma crise passageira que provém talvez de sua antiga doença.
— Mas você me despreza! Não quero fazer o bem, muito simplesmente, quero fazer o mal, não há nenhuma doença.
— Por que fazer o mal?
— Porque não resta nada em parte alguma. Ah! como seria bom!
Sabe, Aliócha, penso por vezes em fazer muito mal, coisas vis, durante muito tempo, às ocultas, e de repente todos ficarão sabendo. Todos me cercarão e me mostrarão com o dedo e eu os encararei. É muito agradável.
Por que é tão agradável, Aliócha?
— À toa. A necessidade de esmagar algo de bom, ou, como você dizia, de pôr fogo. Isto acontece também.
— Não me contentarei com dizê-lo, fá-lo-ei.
— Acredito-o.
— Ah! como o amo por causa dessa palavras: acredito-o. Com efeito, 593
você não mente. Mas pensa talvez que lhe digo tudo isso de propósito, para irritá-lo?
— Não, não penso... se bem que haja talvez também um pouco dessa necessidade.
— Um pouco, sim. Não minto nunca diante de você — declarou ela com um clarão nos olhos.
O que impressionava sobretudo Aliócha era a seriedade dela; não havia sombra de malícia nem de brincadeira em seu rosto, muito embora outrora a alegria e a jovialidade não a deixassem nos seus momentos mais sérios.
— Há momentos em que o homem ama o crime — declarou Aliócha, com ar pensativo.
— Sim, sim, você exprimiu minha idéia, amam-no, todos o amam, sempre, e não por momentos. Sabe? Há como que uma convenção geral de mentira a este respeito, todos mentem desde então. Pretendem odiar o mal e todos o amam dentro de si mesmos.
— E você continua a ler maus livros?
— Sim. Mamãe oculta-os debaixo de seu travesseiro, mas os surripio.
— Será que não tem você consciência de que se está destruindo?
— Quero destruir-me. Há aqui um rapaz que ficou deitado entre os trilhos durante a passagem de um trem. Felizardo! Escute, julgam agora seu irmão por ter assassinado seu pai, e todo mundo está contente porque ele o matou.
— Estão contentes porque ele matou meu pai?
— Sim, todos estão contentes. Dizem que é horrível, mas, dentro de si mesmos, estão muito contentes. Eu sou a primeira.
— Nas suas palavras, há um pouco de verdade — disse docemente Aliócha.
— Ah! que idéias tem você! — exclamou Lisa, entusiasmada. — E é um monge! Não pode você crer quanto o respeito, Aliócha, porque você nunca mente. Ah! é preciso que lhe conte um sonho ridículo: vejo por vezes, em sonho, diabos; é à noite, estou no meu quarto com uma vela; de 594
repente, diabos surgem em todos os cantos, debaixo da mesa, abrem a porta, há uma multidão deles que quer entrar para agarrar-me. E já avançam, agarram-me. Mas benzo-me, e todos eles recuam, tomados de pavor; mas não desaparecem completamente; ficam a esperar na porta e nos cantos. De repente, sinto uma vontade louca de me pôr a blasfemar em voz alta; começo, ei-los que avançam em multidão, muito contentes; agarram-me de novo, de novo me persigno... e então vão-se todos eles. É
algo muito divertido; tanto que até se perde a respiração.
— Eu também já tive sonho igual — disse Aliócha.
— Será possível? — gritou Lisa, espantada. — Escute, Aliócha, não ria, é muito importante: pode acontecer que duas pessoas tenham o mesmo sonho?
— Decerto.
— Aliócha, digo-lhe que é muito importante — prosseguiu Lisa, no auge da surpresa. — Não é o sonho que importa, mas o fato de haver você podido ter o mesmo sonho que eu. Você nunca mente, não minta agora: é verdade? Não está troçando?
— É verdade.
Lisa, atordoada, calou-se um instante.
— Aliócha, venha ver-me, venha mais vezes — proferiu ela num tom suplicante.
— Virei sempre à sua casa, toda minha vida — respondeu ele, com firmeza.
— Falo a você só — continuou Lisa. — Falo a mim só e ainda a você.
Senão a você, no mundo inteiro. E falo-lhe mais voluntariamente do que a mim. E não sinto nenhuma vergonha diante de você, Aliócha, nenhuma.
Por que isso? Aliócha, é verdade que na Páscoa os judeus roubam as crianças e as degolam?
— Não sei.
— Tenho um livro em que se fala dum processo; conta-se que um judeu primeiro cortou os dedos de uma criança de quatro anos, depois crucificou-a numa parede com pregos; declarou ao tribunal que a criança morrera rapidamente, ao fim de quatro horas. É rápido, com efeito! Não 595
cessava de gemer e ele ali permanecia a contemplá-la. Muito bem!
— Bem?
— Sim. Penso por vezes que fui eu quem a crucificou. Está pendurada e geme, sento-me diante dela e como compota de abacaxi. Gosto muito disso. E você?
Aliócha contemplava em silêncio Lisa, cujo rosto dum amarelo pálido alterou-se de repente, seus olhos flamejaram.
— Sabe? Depois de ter lido essa história, solucei a noite inteira. Creio ouvir a criança gritar e gemer (aos quatro anos, compreende-se) e essa idéia da compota não me deixa. De manhã, enviei uma carta pedindo a alguém que viesse sem falta ver-me. Veio, contei-lhe tudo a respeito da criança e da compota, tudo, e disse: "Muito bem!" Pôs-se a rir e achou que, com efeito, estava bem. Depois partiu ao fim de cinco minutos. Será que me desprezava? Fale, Aliócha, fale, desprezava-me, sim ou não?
Ergueu-se em seu divãzinho, com os olhos cintilantes.
— Diga-me — proferiu Aliócha, agitado —, você mesma mandou chamar esse "alguém"?
— Eu mesma.
— Enviou-lhe uma carta?
— Sim.
— Precisamente para pedir-lhe isso, a propósito da criança?
— Não, absolutamente. Mas quando entrou, perguntei-lhe. Respondeu, pôs-se a rir, depois retirou-se.
— Agiu como homem honesto para com você — disse mansamente Aliócha.
— Mas desprezou-me? Riu.
— Não, porque ele mesmo crê talvez na compota de abacaxi. Está também muito doente agora, Lisa.
— Sim, assim o crê! — disse Lisa, com os olhos cintilantes.
— Ele não despreza ninguém — prosseguiu Aliócha. — Somente, 596
não crê em ninguém. Se não crê, é bem certo que despreza.
— Por conseguinte a mim também? A mim?
— A você também.
— Está bem — disse Lisa, com raiva. — Quando ele saiu rindo, senti que o desprezo tinha algo de bom. Ter os dedos cortados como aquela criança é boa coisa; ser desprezada é boa coisa igualmente...
E soltou uma risada má, olhando para Aliócha.
— Sabe, Aliócha, quereria... Salve-me! — ergueu-se, inclinou-se para ele, abraçou-o. — Salve-me! — gemeu ela quase. — Disse a alguém no mundo o que acabo de dizer-lhe? Sim, disse a verdade, a verdade! Matar-me-ei, porque tudo me desgosta! Não quero mais viver! Tudo me inspira desgosto, tudo! Aliócha, por que você não me ama, de modo algum?
— Mas não, eu a amo! — respondeu Aliócha, com ardor.
— Será que você chorará por mim?
— Sim.
— Não porque recusei ser sua esposa, mas em geral?
— Sim.
— Obrigada! Só tenho necessidade de suas lágrimas. E que os outros me torturem, me pisem aos pés, todos, todos, sem exceção de ninguém!
Porque não amo ninguém. Está ouvindo? Ninguém! Pelo contrário, odeio-os! Vá ver seu irmão, Aliócha, já é tempo! — e largou-o.
— Como deixá-la assim? — disse ele, quase aterrorizado.
— Vá ver seu irmão, a prisão será fechada. Vá, eis aqui seu chapéu! Abrace Mítia, vá, vá!
Empurrou Aliócha quase à força para a porta. Ele a olhava numa dolorosa perplexidade, quando sentiu na sua mão direita um bilhete dobrado, lacrado. Leu o endereço: "Ivã Fiódorovitch Karamázov". Lançou um olhar rápido a Lisa. O rosto dela era quase ameaçador.
— Não deixe de lho entregar! — ordenou, com exaltação, toda tremente. — Hoje, imediatamente! Senão, envenenar-me-ei! Foi por isso que o chamei!
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E bateu a porta. Aliócha pôs a carta em seu bolso e dirigiu-se para a escada, sem entrar nos aposentos da Senhora Khokhlakova, a quem havia mesmo esquecido. Assim que ele se afastou, Lisa entreabriu à porta, meteu seu dedo na fenda e apertou-o com todas as suas forças, fechando-a.
Ao fim de alguns segundos, tendo retirado sua mão, foi lentamente sentar-se na poltrona, examinou com atenção seu dedo enegrecido e o sangue que havia brotado por baixo da unha. Seus lábios tremiam e ela murmurou rapidamente:
— Miserável! Miserável! Miserável! Miserável!
IV
O HINO E O SEGREDO
Já era tarde (e os dias são curtos em novembro), quando Aliócha tocou à porta da prisão. Caía a noite. Mas sabia que o deixariam entrar sem dificuldade. Na nossa cidadezinha, é o mesmo que em toda parte. No começo, sem dúvida, uma vez terminada a instrução preparatória, as entrevistas de Mítia com seu parentes ou algumas outras pessoas eram cercadas de certas formalidades necessárias, mas, posteriormente, fizeram exceção para certos visitantes. Chegou a ponto de, por vezes, realizarem-se quase a sós as entrevistas com o prisioneiro. Aliás, esses privilegiados eram pouco numerosos: somente Grúchenhka, Aliócha e Rakítin. O
isprávnik Mikhail Makárovitch estava muito favorável à jovem. O velho lamentava ter gritado contra ela em Mókroie. Em seguida, uma vez ao corrente, mudara completamente de opinião a seu respeito. E, coisa estranha, se bem que estivesse persuadido da culpabilidade de Mítia, desde sua prisão tornava-se mais indulgente para com ele: "Era talvez uma boa natureza, mas a embriaguez e a desordem perderam-no!" Uma espécie de compaixão havia sucedido nele ao horror do começo. Quanto a Aliócha, o isprávnik gostava muito dele e conhecia-o desde muito tempo, e Rakítin, que tomara o costume de visitar frequentemente o prisioneiro, estava muito ligado com "as meninas do isprávnik", como as chamava, e não se passava dia que não estivesse em casa delas. Dava lições na casa do inspetor da prisão, velhote bonachão, mas militar severo. Aliócha conhecia bem e desde muito tempo esse inspetor, que gostava de conversar com ele a respeito da "suprema sabedoria". O velhote respeitava 598
e até mesmo temia Ivã Fiódorovitch, sobretudo seus raciocínios, muito embora fosse ele próprio grande filósofo, à sua maneira, bem entendido.
Mas sentia por Aliócha uma simpatia invencível. Havia um ano vinha estudando os Evangelhos apócrifos e dava parte a cada instante de suas impressões a seu jovem amigo. Outrora, ia mesmo vê-lo no mosteiro e discutia horas inteiras com ele e com os religiosos. Em suma, se Aliócha chegava atrasado à prisão, bastava passar em casa dele e a coisa se arranjava. Além do mais, o pessoal, até o derradeiro guarda, estava acostumado com ele. A sentinela não fazia naturalmente dificuldades, contanto que se tivesse uma autorização. Quando chamavam Mítia, descia este de sua cela e ia ao parlatório. Ao entrar, Aliócha encontrou Rakítin, que se despedia de Mítia. Ambos falavam em voz alta. Mítia, despedindo-se dele, ria muito, e Rakítin parecia resmungar. Sobretudo nos últimos tempos, não gostava. Rakítin de encontrar Aliócha, não lhe falava, cumprimentava-o mesmo com secura. Vendo Aliócha entrar, franziu o cenho, desviou a vista, mostrou-se muito preocupado em abotoar seu sobretudo quente de gola de pele. Depois pôs-se a procurar seu guarda-chuva.
— Contanto que não esqueça nada! — falou, para dizer alguma coisa.
— Especialmente, não esqueças o que não te pertence! — disse Mítia, rindo. Rakítin esquentou-se imediatamente.
— Recomenda isto a teus Karamázovi, raça de exploradores, e não a Rakítin! — exclamou ele, tremendo de cólera.
— Que é que te deu? Estava brincando... São todos assim — disse Mítia a Aliócha, apontando Rakítin, que saía rapidamente. — Ria, estava alegre, e ei-lo que se arrebata! Nem mesmo te cumprimentou. Estão brigados? Por que vens tão tarde? Esperei-te com impaciência a manhã inteira. Não importa. Vamos tirar o atraso.
— Por que vem ele ver-te tantas vezes? Estás ligado a ele?
— Ligado a Mikhail? Não, precisamente. Aliás, é um porco! Toma-me por um miserável. Sobretudo, não entende uma brincadeira. É uma alma seca, lembra-me os muros da prisão, tais como os vi ao chegar. Mas é inteligente. Pois bem! Alieksiéi, estou perdido agora!
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Sentou-se num banco, indicou um lugar, junto dele a Aliócha.
— Sim, é amanhã o julgamento. Não tens na verdade nenhuma esperança, irmão?
— De que falas? — perguntou Mítia, com o olhar vago. — Ah! sim, do julgamento. Ao diabo! Bagatelas tudo isso. Falemos do essencial. Sim, julgam-me amanhã, mas não é isto que me faz dizer que estou perdido.
Não temo pela minha cabeça, somente o que há dentro dela é que está perdido. Por que me olhas com ar desaprovador?
— De que falas, Mítia?
— Idéias! idéias! A ética! Que é a ética?
— A ética? — disse Aliócha, surpreso.
— Sim, uma ciência, qual?
— Há, com efeito, uma ciência com esse nome... somente... não posso explicar-te, confesso-o.
— Rakítin sabe. É muito culto. Que o diabo o carregue! Não se fará monge. Quer ir para Petersburgo fazer crítica, mas de tendência moral.
Pois bem! pode ser útil, tornar-se alguém. É um ambicioso! Ao diabo a ética! Estou perdido, Aliócha, homem de Deus! Amo-te mais do que a todos. Meu coração bate, quando penso em ti. Quem é Carl Bernard?
— Carl Bernard?
— Não, Carl não, Claude Bernard. Um químico, não?
— Ouvi dizer que é um sábio, não sei de mais nada a seu respeito.
— Ao diabo! Também eu nada sei. É provavelmente algum canalha, são todos canalhas. Mas Rakítin irá longe. Mete-se em toda parte, é também um Bernard. Oh! esses Bernard! Pululam.
— Mas que tens, afinal?
— Quer ele escrever um artigo a meu respeito e estrear assim na literatura, eis por que vem ver-me, ele mesmo o declarou. Um artigo de tese: "Tinha de matar, é uma vítima do meio", etc. Haverá, diz ele, um matiz de socialismo. O diabo o carregue! Quanto a mim, pouco me importa! Não gosta de Ivã, detesta-o, tu também não lhe és simpático. Não 600