Os Irmãos Karamázov
Capítulo 4
Visitei-o. Ê interessante, no seu gênero. Interrompe a monotonia. Por desgraça, só se encontram ali russas, nem uma francesa. Poder-se-ia tê-las, não faltam fundos para isso. Quando o souberem, virão. Aqui, não há mulheres, mas duzentos monges. Jejuam conscientemente. Convenho...
Hum! Com que então, queres fazer-te monge? Causas-me dó> Aliócha; na verdade, tinha-te criado afeição... Aliás, eis uma boa ocasião: reza por nós, pecadores de consciência sobrecarregada. Tenho muitas vezes perguntado a mim mesmo: quem rezará um dia por mim? Meu querido rapaz, sou totalmente ignorante a este respeito, talvez o saibas, não? Totalmente. Mas vês, malgrado minha estupidez, reflito por vezes; penso que os diabos me arrastarão com toda a certeza com seus ganchos, após a minha morte. E
digo a mim mesmo: donde vêm esses ganchos? De que são? De ferro?
Onde os forjam? Será que eles possuem uma fábrica? Os religiosos, por exemplo, estão convencidos de que o inferno tem teto. Ora, tenho muita vontade de acreditar no inferno, mas sem teto, é mais delicado, mais iluminado, como entre os luteranos. No fundo, não será a mesma coisa, com ou sem teto? Eis a dificuldade! Ora, se não há teto, então não há ganchos. Mas seria incrível: quem me arrastaria então, com ganchos?
Porque, se não me arrastarem, onde estaria a justiça neste mundo? Seria preciso inventar esses ganchos, especialmente para mim, para mim só. Se soubesses, Aliócha, que descarado sou eu!...
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— Não há ganchos lá — declarou Aliócha, em voz baixa, olhando seriamente para seu pai.
— Ah! só há sombras de ganchos. Sei, sei. Era assim que um francês descrevia o inferno. Vai vu Vombre d'un cocher qui, avec
Vombre d*une brosse, frottait Vombre d'un carrosse 4 . Donde sabes tu, meu caro, que não há ganchos? Uma vez entre os monges, mudaras de tom. Mas, afinal, parte, vai destrinçar a verdade e vem informar-me. Será mais fácil ir para o outro mundo sabendo o que lá se passa. Será mais conveniente para ti estar entre os monges do que em minha casa, velho bêbedo, com mulheres... se bem que estejas, como um anjo, acima de tudo isso. Talvez o mesmo aconteça lá e, se te deixo ir, é que conto com isso. Não és tolo. Teu ardor se extinguira e voltarás curado. Quanto a mim, esperar-te-ei, porque sinto que és o único neste mundo que não me censurou, meu querido rapaz, não posso deixar de senti-lo!...
E pôs-se a choramingar. Estava sentimental. Sim, era mau e sentimental.
V
OS "STÁRTSI"
O leitor imaginará talvez que o meu herói fosse um indivíduo doentio e extático, um pálido sonhador, macilento, atacado de tuberculose.
Pelo contrário, Aliócha, que tinha então dezenove anos, era um jovem bem feito, de faces vermelhas, de olhar límpido, transbordante de saúde.
Era mesmo bastante belo, de talhe esbelto, cabelos castanhos, rosto regular, embora um pouco alongado, olhos dum cinzento-escuro, brilhantes, rasgados, pensativo e parecendo bastante calmo. Dir-se-á talvez que faces vermelhas não impedem de ser fanático ou místico; ora, parece-me que Aliócha era, mais que qualquer outra pessoa, realista. Oh! bem decerto, no 4 "Vi a sombra de um cocheiro que, com a sombra de uma escova, esfregava a sombra de uma carruagem" Versos tirados de uma paródia do Livro VI da Eneida pelos irmãos Perrault, em 1646.
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convento cria perfeitamente nos milagres, mas, na minha opinião, os milagres jamais perturbarão o realista. Não são eles que o levam a crer.
Um verdadeiro realista, se é incrédulo, encontra sempre em si a força e faculdade de não crer mesmo no milagre e, se este último se apresenta como um fato incontestável, duvidará de seus sentidos em vez mesmo de admitir o fato. Se o admitir, será como um fato natural, mas desconhecido dele até então. No realista, a fé não nasce do milagre, mas o milagre da fé.
Se o realista adquire a fé, deve necessariamente, em virtude de seu realismo, admitir também o milagre. O apóstolo Tome declarou que não acreditaria enquanto não visse; em seguida, diz: "Meu Senhor e meu Deus!" Fora o milagre que o obrigara a crer? Muito provavelmente não, mas ele acreditava unicamente porque desejava crer; talvez tivesse já a fé inteira nas dobras ocultas de seu coração, mesmo quando declarava: "Só acreditarei depois que tiver visto.
Dir-se-á talvez que Áliócha era obtuso, pouco desenvolvido, que não terminara seus estudos. Este último fato é exato, mas seria bastante injusto dizer que fosse ele obtuso ou estúpido. Repito o que já disse: escolhera aquela via unicamente porque somente ela o atraia então e representava a ascensão ideal para a luz de sua alma desprendida das trevas. Além disso, era aquele rapaz da época mais recente, isto é, leal, ávido de verdade, procurando-a cora fé, e, uma vez encontrada, querendo dela participar com toda a força de sua alma, querendo realizações imediatas e pronto a tudo sacrificar com este fim, até mesmo sua vida. Entretanto, esses rapazes não compreendem, desgraçadamente, que sacrificar sua vida é a coisa mais fácil em muitos casos, ao passo que consagrar, por exemplo, cinco ou seis anos de sua bela mocidade ao estudo e à ciência — não fosse senão para decuplicar suas forças, a fim de servir à verdade e atingir o fim proposto — é um sacrifício que os ultrapassa. Aliócha só fizera escolher a via oposta a todas as outras, mas com a mesma sede de realização imediata. Logo que se convenceu, após sérias reflexões, de que Deus e a imortalidade existem, disse a si mesmo, naturalmente: "Quero viver para a imortalidade, não admito compromissos'*. Igualmente, se tivesse concluído que não há nem Deus nem imortalidade, ter-se-ia tornado imediatamente ateu e socialista (porque o socialismo não é apenas a questão operária ou do quarto Estado, mas é sobretudo a questão do ateísmo, de sua encarnação contemporânea, a questão da torre de Babel, que se construiu sem Deus, não para atingir os céus da terra, mas para 22
abaixar os céus até a terra). Parecia estranho e impossível a Aliócha viver como antes. Está dito: "Abandona tudo quanto tens e segue-me, se queres ser perfeito". Aliócha dizia a si mesmo: "Não posso dar um lugar de "tudo'
2 rublos e em lugar de 'segue-me' ir somente à missa". Entre as recordações de sua tenra infância, lembrava-se talvez de nosso mosteiro, aonde sua mãe talvez o levara para assistir aos ofícios. Talvez tivesse ali sofrido a influência dos raios oblíquos do sol poente diante da imagem para a qual o voltava sua mãe, a endemoniada. Chegou entre nós pensativo, unicamente para ver se se tratava aqui de tudo ou somente de 2
rublos, e encontrou no convento aquele stáriets.
Era o stáriets Zósima, como já o expliquei acima; seria preciso dizer algumas palavras a propósito dos stártsi nos nossos mosteiros e lamento não ter, neste domínio, toda a competência necessária. Tentarei, no entanto, fazê-lo a grandes traços. Os especialistas competentes asseguram que a instituição dos stártsi apareceu nos mosteiros russos em época recente, há menos de um século, quando, em todo o Oriente ortodoxo, sobretudo no Sinai e no Monte Atos, existe ela desde bem mais de mil anos. Pretende-se que os stártsi existiam na Rússia em tempos bastante antigos, ou que deveriam ter existido, mas que, em conseqüência das calamidades que sobrevieram, o jugo tártaro, as perturbações, a interrupção das antigas relações com o Oriente, após a queda de Constantinopla, essa instituição se perdeu entre nós e os stártsi desapareceram. Foi ressuscitada por um dos maiores ascetas, Paísi Vielitchkóvski, e por seus discípulos, mas até o presente, após um século, existe ela em muito poucos conventos e foi mesmo, ou pouco faltou, alvo de perseguições, como uma inovação desconhecida na Rússia. Florescia sobretudo no famoso Eremitério de Kózilhskaia Optínaia, Ignoro quando e por quem foi ela implantada em nosso mosteiro, mas já se haviam sucedido ali três stártsi, dos quais Zósima era o último. Estava quase a sucumbir à fraqueza e às doenças e não se sabia por quem substituí-lo.
Para nosso mosteiro, era essa uma séria questão, porque, até o presente, nada o havia distinguido; não possuía nem relíquias santas nem ícones miraculosos, ligando-se as tradições gloriosas à nossa história. Faltavam-lhe igualmente os altos fatos históricos e os serviços prestados à pátria.
Tornara-se florescente e famoso em toda a Rússia, graças a seus stártsi, que os peregrinos vinham em multidão ver e ouvir de todos os pontos da Rússia, a milhares de verstas. Que é um stáriets? O stáriets é aquele que 23
absorve vossa alma e vossa vontade nas suas. Tendo escolhido um stáriets, vós abdicais de vossa vontade e lha entregais com toda a obediência, com inteira resignação. O penitente submete-se voluntariamente a essa prova, a essa dura aprendizagem, na esperança de, após um longo estágio, vencer-se a si mesmo, dominar-se a ponto de atingir, afinal, depois de ter obedecido toda a sua vida, a liberdade perfeita, isto é, a liberdade para consigo mesmo, e evitar a sorte daqueles que viveram sem se encontrar a si mesmos. Esta invenção, isto é, a instituição dos stártsi, não é teórica, mas tirada, no Oriente, de uma prática milenar. As obrigações para com o stáriets são bem diversas da "obediência** habitual que sempre existiu igualmente nos mosteiros russos. Lá, a confissão de todos os militantes ao stáriets é perpétua, e o elo que liga o confessor ao confessado, indissolúvel.
Conta-se que, nos tempos antigos do cristianismo, um noviço, depois de haver deixado de cumprir um dever prescrito pelo seu stáriets, abandonou o mosteiro para dirigir-se a outro país, da Síria ao Egito. Ali, praticou atos sublimes e foi por fim julgado digno de sofrer o martírio pela fé. Já a Igreja ia enterrá-lo, reverenciando-o como um santo, quando o diácono proferiu:
"Que os catecúmenos saiam!*', o caixão que continha o corpo do mártir foi arrancado de seu lugar e projetado fora do templo três vezes em seguida.
Soube-se por fim que aquele santo mártir havia infringido a obediência e abandonado o seu stáriets e que, por conseqüência, não podia ser perdoado sem o consentimento deste último, malgrado sua vida sublime.
Mas quando o stáriets, chamado, o desligou da obediência, pôde-se enterrá-lo sem dificuldade. Sem dúvida, não passa isso de uma antiga lenda, mas eis um fato recente. Um religioso cuidava de sua salvação no Monte Atos, ao qual queria de toda a sua alma, como um santuário e um retiro tranqüilo, quando seu stáriets lhe ordenou,, de repente, que partisse para ir primeiro a Jerusalém, visitar os Lugares Santos,, depois voltar ao norte, na Sibéria. "Lá é que é teu lugar e não aqui.'* Consternado e desolado, o monge foi procurar o patriarca em Constantinopla e suplicou-lhe que o libertasse da obediência, mas o chefe da Igreja respondeu-lhe que não somente ele, patriarca, não podia desligá-lo, mas não havia nenhum poder no mundo capaz de fazê-lo, exceto o stáriets do qual ele dependia. Vê-se dessa forma que, em certos casos, os stártsi estão investidos duma autoridade sem limites e incompreensível. Eis por que, em muitos de nossos mosteiros, essa instituição foi a princípio quase perseguida. No entanto o povo testemunhou imediatamente grande 24
veneração pelos stártsi. Por isso o povinho e as pessoas mais distintas vinham em multidão prosternar-se diante dos stártsi de nosso mosteiro e lhes confessavam suas dúvidas, seus pecados, seus sofrimentos, implorando conselhos e direções. Vendo o que, os adversários dos stártsi lhes censuravam, entre outras acusações, envilecerem arbitrariamente o sacramento da confissão, se bem que as confidencias ininterruptas do noviço ou dum leigo ao stáriets não tivessem de modo algum o caráter dum sacramento. Seja como for, a instituição dos stártsi manteve-se e implanta-se pouco a pouco nos mosteiros russos. É verdade que esse meio experimentado e já milenar de regeneração moral, que faz o homem passar da escravidão à liberdade, aperfeiçoando-o, pode também tornar-se uma arma de dois gumes: em lugar da humildade e do domínio de si mesmo, pode desenvolver um orgulho satânico e fazer um escravo em lugar de um homem livre.
O stáriets Zósima tinha 65 anos; descendia duma família de proprietários; na sua mocidade servira no Exército como oficial, no Cáucaso. Sem dúvida, Aliócha ficou impressionado por certa qualidade especial da alma dele. Vivia na mesma cela do stáriets, que muito o amava e o mantinha a seu lado. Ê preciso notar que, vivendo no mosteiro, não estava Aliócha preso por nenhum laço; podia ir aonde bem quisesse, dias inteiros, e, se usava batina, era voluntariamente, para não se distinguir de ninguém no mosteiro. Talvez a imaginação juvenil de Aliócha tivesse sido muito impressionada pela força e pela glória que cercavam seu stáriets como uma auréola. A propósito do stáriets Zósima, muitos contavam que, à força de acolher, desde numerosos anos, todos aqueles que vinham expandir seu coração, ávidos de seus conselhos* e de suas consolações, havia, para o fim, adquirido grande perspicácia. Ao primeiro olhar lançado sobre um desconhecido, adivinhava o motivo de sua vinda, o que lhe era preciso e até mesmo o que lhe atormentava a consciência. O-penitente ficava espantado, confuso e por vezes mesmo apavorado por sentir-se penetrado, antes de ter proferido uma palavra. Aliócha notara que muitos daqueles que vinham pela primeira vez entreter-se em particular com o stáriets entravam em seu aposento com temor e inquietação; quase todos saíam radiantes e o rosto mais sombrio iluminava-se de satisfação. O que o surpreendia também é que o stáriets, longe de ser severo, parecia mesmo satisfeito. Os monges diziam dele que se ligava aos mais pecadores e os estimava na proporção de seus pecados.
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Mesmo para o fim de sua vida, contava o stáriets, entre os monges, inimigos e invejosos, mas seu numero diminuía, se bem que figurassem nele personalidades importantes do convento. Tal era um dos mais antigos religiosos, por demais taciturno e jejuador extraordinário. No entanto, a grande maioria era partidária do stáriets Zósima e muitos o amavam sinceramente, de todo o seu coração; alguns lhe eram mesmo ligados quase fanàticamente. Estes diziam, mas em voz baixa, que era um santo, decerto, e, prevendo seu fim próximo, aguardavam imediatos milagres que espalhariam grande glória sobre o mosteiro. Alieksiéi cria cegamente na força miraculosa do stáriets, da mesma maneira que acreditava no relato do caixão projetado fora da igreja. Entre as pessoas que levavam ao stáriets crianças ou parentes doentes, para que ele lhes impusesse as mãos ou rezasse uma oração em sua intenção, via Aliócha muitos voltarem em breve, por vezes no dia seguinte, para agradecer-lhe de joelhos o ter-lhes curado seus doentes. Havia cura ou somente melhoria natural do estado deles? Aliócha nem sequer fazia a si mesmo a pergunta, porque acreditava absolutamente na força espiritual de seu mestre e a glória dele era como o seu próprio triunfo. Batia-lhe o coração e ficava radiante, sobretudo quando o stáriets saía a ter com a multidão dos peregrinos que o esperavam nas portas do eremitério, pessoas do povo vindas de todos os pontos da Rússia pura vê-lo e receber sua bênção.
Prosternavam-se diante dele, choravam, beijavam seus pés e o lugar onde ele se achava, lançando gritos; as mulheres estendiam para ele seus filhos; traziam possessos. O stáriets falava-lhes, fazia uma curta oração, dava-lhes sua bênção, depois mandava-os embora. Nos derradeiros tempos, a doença havia-o de tal modo enfraquecido que mal podia ele deixar sua cela e os peregrinos aguar-» davam sua saída para o mosteiro, por vezes dias inteiros. Aliócha não perguntava a si mesmo absolutamente por que eles o amavam tanto, por que se prosternavam diante dele com lágrimas de enternecimento, vendo seu rosto. Oh! Compreendia perfeitamente que para a alma resignada do simples povo russo, vergado sob o trabalho e o pesar, mas sobretudo sob a injustiça e o pecado contínuos — o seu e o do mundo — não há maior necessidade e consolo do que encontrar um santuário ou um santo, cair de joelhos, adorá-lo: "Se o pecado, a mentira, a tentação são nossa partilha, há no entanto em alguma parte do mundo um ser santo e sublime; possui a verdade, conhece-a; portanto, ela descerá um dia até nós e reinará sobre a terra inteira, como foi pro* metido". Aliócha 26
sabia que é assim que o povo sente e até mesmo raciocina; compreendia isto, mas que o stáriets fosse precisamente esse santo, esse depositário da verdade divina aos olhos do povo, estava disso persuadido tanto quanto aqueles mujiques e aquelas mulheres doentes que lhe estendiam seus filhos. A convicção de que o stáriets, após sua morte, atrairia uma glória extraordinária para o mosteiro reinava na sua alma mais forte talvez do que entre os monges. Desde algum tempo, seu coração aquecia-se sempre mais à labareda dum profundo entusiasmo interior. Não o perturbava absolutamente nada ver no stáriets um indivíduo isolado: "Dá no mesmo, há no seu coração o mistério da renovação para todos, esse poder que instaurará por fim a verdade na terra e todos serão santos, amar-se-ao uns aos outros; não haverá mais nem ricos nem pobres, nem elevados nem humilhados; todos serão como os filhos de Deus e será isto o advento do reino do Cristo". Eis com que sonhava o coração de Aliócha.
Parece que impressionou fortemente a Aliócha a chegada de seus dois irmãos, que ele não conhecia absolutamente até então. Ligara-se mais a Dimítri, se bem que este tivesse chegado mais tarde. Quanto a Ivã, interessava-se muito por ele, mas os dois jovens permaneciam estranhos um ao outro e, no entanto, dois meses se haviam passado durante os quais viam-se bastante freqüentemente. Aliócha era taciturno; além disso, parecia esperar não se sabia o que, ter vergonha de alguma coisa; muito embora tivesse notado no começo os olhares curiosos que lhe lançava seu irmão, cessou Ivã em breve de prestar-lhe atenção. Aliócha sentiu por isso alguma confusão. Atribuiu a indiferença de seu irmão à desigualdade de sua idade e de sua instrução. Mas tinha uma grande idéia. O pouco interesse que lhe testemunhava Ivã podia provir de uma causa que ele ignorava. Parecia este absorvido por algo de importante, como se visasse um alvo muito difícil, o que teria explicado sua distração a respeito dele.
Alieksiéi perguntou igualmente a si mesmo senão havia naquilo o desprezo de um ateu sábio por um pobre noviço. Não podia sentir-se ofendido com tal desprezo, se é que ele existia, mas aguardava com um vago alarma, que ele próprio não explicava a si mesmo, no momento em que seu irmão queria aproximar-se dele. Seu irmão Dimítri falava de Ivã com o mais profundo respeito, num tom circunspecto. Contou a Aliócha os detalhes do importante negócio que havia aproximado estreitamente os dois mais velhos. O entusiasmo com que Dimítri falava de Ivã impressionava tanto mais Aliócha quanto, comparado a seu irmão, 27
Dimítri era quase um ignorante; o contraste da personalidade deles e de seus caracteres era tão vivo que se teria dificilmente imaginado dois seres tão diferentes.
Foi então que teve lugar a entrevista, ou antes, a reunião, na cela do stariets, de todos os membros daquela família mal harmonizada, reunião que exerceu influência extraordinária sobre Aliócha. O pretexto que a motivou era na realidade mentiroso. O desacordo entre Dimítri e seu pai, a respeito da herança de sua mãe e das contas da propriedade, atingia então seu auge. As relações tinham-se envenenado a ponto de tornar-se insuportáveis. Foi Fiódor Pávlovitch quem sugeriu, por brincadeira, que se reunissem todos na cela do stariets Zósima; sem recorrer à sua intervenção, poderiam eles entender-se mais decentemente, sendo capazes a dignidade e a pessoa do stariets de impor a reconciliação. Dimítri, que jamais estivera em casa dele e jamais o vira, pensou que quisessem amedrontá-lo daquela maneira; mas, como ele próprio se censurava secretamente de muitas explosões bastante bruscas em sua querela com seu pai, aceitou o desafio. É preciso notar que não residia, como Ivã, em casa de seu pai, mas na outra extremidade da cidade. Piotr Alieksándrovitch Miúsov, que morava então em nossa cidade, agarrou-se a essa idéia. Liberal dos anos 40 e 50, livre-pensador e ateu, tomou neste caso uma parte extraordinária, por tédio, talvez, ou para se divertir.
Tomou-o subitamente a fantasia de ver o mosteiro e o "santo". Como seu antigo processo contra o mosteiro durasse ainda — o litígio tinha por objeto a delimitação de suas terras e certos direitos de pesca e de corte —, apressou-se em aproveitar essa ocasião, sob o pretexto de entender-se com o padre abade, a fim de dar por terminado aquele negócio amigavelmente.
Um visitante animado de tão boas intenções podia ser recebido no mosteiro com mais atenções que um simples curioso. Estas considerações fizeram com que se insistisse junto ao stariets, o qual, desde algum tempo, não deixava mais sua cela e recusava mesmo, por causa de sua doença, receber os simples visitantes. Deu seu consentimento e foi marcado o dia.
"Quem me encarregou de decidir entre eles?*', declarou ele somente a Aliócha, com um sorriso.
Ao saber dessa reunião, ficou Aliócha muito perturbado. Se algum dos adversários em luta podia tomar aquela entrevista a sério, era seguramente seu irmão Dimítri, e somente ele; os outros iriam com intenções frívolas e talvez ofensivas para o stariets. Aliócha o compreendia 28
bem. Seu irmão Ivã e Miúsov para ali se dirigiam levados pela curiosidade e seu pai para fazer o papel de palhaço, se bem que guardando silêncio.
Conhecia-o a fundo. Repito-o, aquele rapaz não era tão ingênuo como todos o acreditavam. Aguardava com ansiedade o dia marcado. Sem dúvida levava muito em questão ver cessar por fim o desacordo na sua família. Mas preocupava-se sobretudo com o stariets; tremia por ele, pela sua glória, temendo as ofensas, particularmente as finas zombarias de Miúsov e as reticências do erudito Ivã. Queria mesmo tentar prevenir o stariets, falar-lhe a respeito daqueles visitantes eventuais, mas refletiu e calou-se. Na véspera do dia marcado, mandou dizer a Dimítri que o amava muito e esperava dele o cumprimento de sua promessa. Dimítri, que procurou em vão lembrar-se de ter prometido alguma coisa, respondeu-lhe por carta que faria tudo para evitar uma baixeza. Embora cheio de respeito pelo stariets e por Ivã, via naquilo uma armadilha ou uma comédia indigna. "Entretanto, preferirei engolir minha língua a faltar ao respeito ao santo homem que veneras", dizia Dimítri, terminando sua carta. Aliócha nem por isso ficou reconfortado.
LIVRO II
UMA REUNIÃO INTEMPESTIVA
I
A CHEGADA AO MOSTEIRO
Estava um dia magnífico, quente e claro. Era no fim de agosto. A entrevista com o stáriets fora marcada para imediatamente depois da última missa, às 11h30. Os nossos visitantes chegaram quase no fim da cerimônia, em duas carruagens. A primeira, uma elegante caleça puxada por dois cavalos de preço, estava ocupada por Piotr Alieksán-drovitch Miúsov e um parente afastado, Piotr Fomitch Kolgánov, de vinte anos de idade. Este rapaz preparava-se para entrar na universidade. Miúsov, de quem era ele hóspede, propunha-lhe levá-lo ao estrangeiro, a Zurique ou a Iena, para ali acabar seus estudos, mas ele não havia ainda tomado decisão. Pensativo e distraído, tinha um aspecto agradável, uma constituição robusta, a estatura bastante elevada. De olhar estranhamente 29
fixo, o que é próprio das pessoas distraídas, olhava-nos por vezes muito tempo sem ver-nos; taciturno e algo embaraçado, acontecia-lhe —
somente na intimidade — mostrar-se de repente bastante loquaz, veemente, jovial, rindo só Deus sabe de quê. Mas sua imaginação não passava de um fogo de palha, assim que se acendia logo se apagava.
Andava sempre bem vestido e até mesmo com apuro. Possuidor de certa fortuna, tinha ainda mais em perspectiva. Entretinha com Aliócha relações amigáveis.
Fiódor Pávlovitch e seu filho tinham tomado lugar em uma caleça de aluguel bastante estragada, mas espaçosa, atrelada a dois velhos cavalos malhados de preto e branco, que seguiam a uma distância respeitável. Dimítri tinha sido prevenido na véspera da hora da entrevista, mas estava atrasado. Os visitantes deixaram suas carruagens perto da cerca, na hospedaria, e transpuseram a pé as portas do mosteiro. Exceto Fiódor Pávlovitch, os três outros jamais tinham visto o mosteiro e Miúsov havia trinta anos que não entrava numa igreja. Olhava com certa curiosidade, assumindo um ar desenvolto. Mas o interior do mosteiro, de parte a igreja e as dependências, aliás bastante banais, nada oferecia a seu espírito observador. Os derradeiros fiéis que saíam da igreja benziam-se de gorros nas mãos. Entre o povinho viam-se também pessoas de uma posição mais elevada: duas ou três damas, um velho general, todos hospedados na pousada. Mendigos cercaram nossos visitantes, mas ninguém lhes deu esmola. Somente Pietrucha Kolgánov tirou JO copeques de seu porta-moedas e, acanhado Deus sabe por que, introduziu-os rapidamente na mão de uma mulher* murmurando: "Reparta-os".
Nenhum de seus companheiros lhe fez qualquer observação, o que teve como resultado aumentar-lhe a confusão.
Coisa estranha: deveriam deveras esperá-los e até mesmo testemunhar-lhes algumas atenções; um deles acabava de fazer um donativo de 1000 rublos, o outro era um proprietário bastante rico, que mantinha os monges mais ou menos sob sua dependência, no que dizia respeito à pesca, de acordo com o rumo que tomasse o processo. No entanto, nenhuma personalidade oficial se encontrava lá para recebê-los. Miúsov contemplava com ar distraído as lápides tumulares em redor da igreja e quis fazer a observação de que os ocupantes daqueles túmulos deviam ter pago bastante caro o direito de ser enterrados em um lugar tão "santo**, mas manteve-se em silêncio: sua ironia de liberal dava lugar à irritação.
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— A quem, diabo, devemos dirigir-nos nesta casa onde todos mandam?... Seria preciso sabê-lo, porque o tempo passa — murmurou ele, como consigo mesmo.
De repente, aproximou-se deles uma personagem calva, de idade madura, numa ampla veste de verão e de olhos ternos. De chapéu na mão, apresentou-se, ceceando, como o proprietário de terras Maksímov, do governo de Tula. Deu-se conta imediatamente do embaraço daqueles senhores.
— O stáriets Zósima mora no eremitério, à parte, a quatrocentos passos do mosteiro; é preciso atravessar o bosquezinho...
— Sei bem — respondeu Fiódor Pávlovitch. — Não nos lembramos bem da estrada, pois faz muito tempo que não venho por aqui.
— Passem por aquela porta, depois sigam diretamente pelo bosquezinho. Permitam-me que os acompanhe... eu mesmo... por aqui. por aqui...
Saíram da cerca e meteram-se no bosque. O proprietário Maksímov, de uns sessenta anos de idade, caminhava, ou antes, corria ao lado deles, examinando-os a todos com uma curiosidade incômoda. Esbugalhava os olhos.
— Fique o senhor sabendo que nós vamos à casa desse stáriets para tratar de um negócio pessoal — observou friamente Miúsov. —
Obtivemos, por assim dizer, "uma audiência" dessa personagem; de modo que, malgrado nossa gratidão, não lhe propomos que entre conosco.
— Já estive ali... Un chevalier parfait — declarou, dando um piparote no ar, o proprietário.
— Quem é ce chevalier? — perguntou Miúsov.
— O stáriets, o famoso stáriets. .. a glória e a honra do mosteiro, Zósima. Aquele stáriets, vejam...
Sua tagarelice foi interrompida por um monge, com capuz, de pequena estatura, pálido e desfeito, que alcançou o grupo. Fiódor Pávlovitch e Miúsov pararam. O monge saudou-os com grande polidez e lhes disse:
— Senhores, o padre abade convida-os a todos a jantar, depois da visita ao eremitério. É à 1 hora em ponto. O senhor também — disse ele a Maksímov.
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— Não haverei de faltar — exclamou Fiódor Pávlovitch, encantado pelo convite. — O senhor sabe que todos prometemos portar-nos decentemente... E o senhor virá, Piotr Alieksándrovitch?
— Como não? Por que estou aqui, senão para observar os costumes deles? Uma só coisa me embaraça, Fiódor Pávlovitch, é encontrar-me agora com o senhor.
— Sim, Dimítri Fiódorovitch ainda não chegou.
— Seria perfeito se ele faltasse; acredita o senhor que seja isso uni prazer para mim, essa estória dos senhores e o senhor ainda de quebra?
Estaremos lá para o almoço; agradeça ao padre abade — disse ele ao monge.
— Perdão, tenho de conduzi-los à casa do stáriets — respondeu este.
— Neste caso vou diretamente à casa do padre abade, sim, vou durante este tempo à casa do padre abade — gorjeou Maksímov.
— O padre abade está muito ocupado neste momento, mas será como o senhor quiser... — disse o monge, perplexo.
— Que sujeito cacete esse velho! — observou Miúsov, quando Maksímov voltou ao mosteiro.
— Parece-se com Von Sohn — declarou, de repente, Fiódor Pávlovitch.
— É tudo quanto o senhor sabe... Em que se parece ele com Von Sohn? O senhor mesmo já o viu?
— Vi-lhe a fotografia. Se bem que as feições não sejam idênticas, há qualquer coisa de indefinível. É totalmente o sósia de Von Sohn.
Reconheço-o apenas pela fisionomia.
— Ah! Talvez seja o senhor entendido nisso. Todavia, Fiódor Pávlovitch, o senhor acaba de lembrar que prometemos portar-nos decentemente; não se esqueça disto. Digo-lhe que se contenha. Se o senhor começa a fazer-se de palhaço, não tenho eu a intenção de ser metido no mesmo cesto que o senhor. Veja esse homem — disse ele dirigindo-se ao monge —, tenho medo de ir com ele à casa de pessoas distintas.
Um pálido sorriso, não desprovido de astúcia, apareceu nos lábios 32
exangues do monge, que, no entanto, nada respondeu, deixando ver claramente que se calava pela consciência de sua própria dignidade.
Miúsov franziu ainda mais o cenho.
"Oh! Que o diabo leve a todas essas criaturas de exterior plasmado pelos séculos, mas cujo íntimo não é senão charlatanismo e absurdo!", dizia ele entre si.
— Eis o eremitério, chegamos — gritou Fiódor Pávlovitch, que se pôs a fazer grandes sinais-da-cruz diante dos santos pintados por cima e de lado do portal.
— Cada qual vive como lhe agrada — declarou ele. — E o provérbio russo diz com razão: "A monge duma outra ordem não imponhas tua regra". Há aqui 25 bons padres que tratam de sua salvação, contemplam-se uns aos outros e comem couves. E nem uma mulher transpôs esse portal, eis o que é espantoso. No entanto, ouvi dizer que o stáriets recebia senhoras — disse ele ao monge.
— As mulheres do povo esperam-no lá embaixo, perto da galeria, veja, estão sentadas no chão. Para as senhoras da sociedade prepararam dois quartos na própria galeria, mas fora da cerca, veja aquelas janelas; o stáriets ali chega por um corredor interno, quando sua saúde lho permite.
Há uma Senhora Khokhlakova, proprietária em Khárkov, que quer consultá-lo a respeito de sua filha, atacada de fraqueza. Teve de prometer vir vê-las, se bem que nestes últimos tempos esteja muito fraco e não se mostre em público.
— Há, pois, no eremitério uma porta entreaberta do lado das senhoras. Não estou fazendo mau juízo, meu padre! No Monte Atos, o senhor deve saber, não somente são proibidas as visitas femininas, mas não se tolera nenhuma mulher, nem fêmea, galinhas, peruas, bezerras...
— Fiódor Pávlovitch, vou-me embora e deixo-o sozinho. Vão mandá-lo embora a braços, sou eu que lho predigo.
— Em que é que eu o incomodo, Piotr Alieksándrovitch? Olhe! —
exclamou ele, de repente, uma vez transposta a cerca. — Veja em que vale de rosas eles moram!
Efetivamente, se bem que não houvesse então rosas, via-se uma profusão de flores outonais, magníficas e raras. Mãos experimentadas 33
deviam cuidar delas. Havia canteiros em redor das igrejas e entre os túmulos. Flores cercavam ainda a casinha de madeira, um rés-do-chão, precedido duma galeria, onde se encontrava a cela do stáriets.
— Era assim também no tempo do stáriets precedente, Varsonófi?
Dizem que ele não gostava da elegância, arrebatáva-se e recebia mesmo as senhoras às bengaladas — observou Fiódor Pávlovitch, subindo o patamar.
— O stáriets Varsonófi parecia por vezes, com efeito, um pobre de espírito, mas exagera-se muito a este respeito. Nunca bateu em ninguém com o báculo — respondeu o monge. Agora, senhores, um minuto, vou anunciá-los.
— Fiódor Pávlovitch, pela derradeira vez lho digo, comporte-se bem, do contrário, ai do senhor! — murmurou ainda uma vez Miúsov.
— Gostaria bem de saber o que o comove dessa maneira — observou Fiódor Pávlovitch, zombeteiro. — São seus pecados que o ame-drontam? Porque dizem que, com um simples olhar, adivinha ele com quem está tratando. Mas como pode fazer tal caso da opinião deles o senhor, um parisiense, um progressista? Palavra, o senhor me espanta!
Miúsov não teve oportunidade de responder a este sarcasmo: convidavam-nos a entrar. Sentiu ligeira irritação. "Pois bem! Sei de antemão que, nervoso como estou, irei discutir, acalorar-me... rebaixar-me, a mim e a minhas idéias", disse a si mesmo.
II
UM VELHO PALHAÇO