Os Irmãos Karamázov
Capítulo 45
sonho é encarnar-me, mas definitivamente, em algum comerciante obeso e partilhar de todas as suas crenças. Meu ideal é ir à igreja e lá acender uma vela, de todo o coração, palavra! Então meus sofrimentos terão fim. Gosto também dos remédios de vocês; na primavera, havia uma epidemia de varíola, fui vacinar-me. Se soubesses como estava eu contente! Dei 10
rublos para "nossos irmãos eslavos"!... Não me ouves. Não estás no teu estado normal, hoje... — O cavalheiro fez uma pausa. — Sei que foste ontem consultar aquele médico... pois bem! como vais? Que te disse ele?
— Imbecil!
— Em compensação, tens tanto espírito! Invectivas de novo. Não é por interesse que te perguntava isso. Podes não responder. Eis meus reumatismos que se apoderam de mim de novo.
— Imbecil!
— Continuas? Lembro-me ainda de meus reumatismos do ano passado.
— O diabo com reumatismo?
— Por que não? Se me encarno, tenho de suportar todas as con
seqüências. Satanas sum et nihil humani a me alienum, puto45 — Como, como? Satanas sum et nihil humani. .. Não está mal para o diabo!
— Sinto-me feliz por ver que afinal te causo satisfação.
— Isto não aprendeste de mim — disse Ivã, surpreso —, isto jamais me ocorreu. Ê estranho...
— Cest du nouveau, n'est-ce pas? 46 Desta vez agirei lealmente e te explicarei a coisa. Escuta. Nos sonhos, sobretudo durante os pesadelos que provêm dum desarranjo de estômago ou de outra coisa, o homem tem por vezes visões tão belas, cenas da vida real tão complicadas, atravessa tal sucessão de acontecimentos, de peripécias inesperadas, desde as manifestações mais altas até as menores bagatelas, que, juro-te, o próprio Liev Tolstói não as imaginaria. Entretanto, esses sonhos ocorrem não aos 45 Sou Satanas e nada do que é humano reputo alheio a mim.
46 É novidade, não é?
653
escritores, mas a pessoas comuns: funcionários, jornalistas, popes... Um ministro chegou a confessar-me que suas melhores idéias lhe vinham quando dormia. É o mesmo agora; digo coisas originais, que nunca te vieram ao espírito, como nos pesadelos, entretanto, não sou senão tua alucinação.
— Mendes. Teu fim é persuadir-me de que existes e eis que tu mesmo pretendes ser um sonho.
— Meu amigo, escolhi hoje um método particular que te explicarei em seguida. Espera um pouco, onde estava eu? Ah! sim! Resfriei-me, mas não entre vocês, lá mesmo...
— Lá mesmo, onde? Dize, pois, demorarás ainda muito tempo? — exclamou Ivã, quase desesperado. Parou, sentou-se sobre o divã, pegou de novo a cabeça entre as mãos. Arrancou o guardanapo molhado e atirou-o fora com despeito.
— Estás com os nervos doentes — observou o cavalheiro com ar displicente, mas amigável. — Estás com raiva de mim porque me resignei, entretanto aconteceu da maneira mais natural. Corria eu para uma festa diplomática, em casa duma grande dama de Petersburgo, que manejava a seu gosto os ministros. De casaca, gravata branca, enluvado, no entanto estava ainda Deus sabe onde, e para chegar à terra era preciso transpor o espaço. Decerto, não é senão um instante, mas a luz do sol leva oito minutos e, imagina, de casaca e de colete aberto. Os espíritos não gelam, mas quando me encarnei... em suma, agi descuidadamente e aventurei-me; no espaço, no éter, na água... faz um frio, nem se pode mesmo chamar isso de frio, imagina: 150 graus abaixo de zero. Conhece-se a brincadeira de jovens aldeãs: quando gela a 30 graus, propõem a algum simplório lamber um machado; a língua gela instantaneamente, o simplório arranca a pele e são apenas 30 graus. A 150 graus, bastaria, penso, tocar um machado com um dedo para que este desapareça... se pelo menos houvesse um machado no espaço...
— Mas será possível? — interrompeu distraidamente, Ivã Fiódorovitch. Lutava com todas as suas forças para resistir ao delírio e não afundar na loucura.
— Um machado? — repetiu o visitante com surpresa.
654
— Mas sim, que será feito dele lá? — exclamou Ivã com uma obstinação colérica.
— Um machado no espaço? Quelle idéel Se se encontrar bem longe da terra, penso que se porá a girar em torno sem saber por que, à maneira de um satélite. Os astrônomos calcularão quando se levantará e quando se porá. Gatsuk pô-lo-á no seu almanaque, eis tudo.
— És estúpido, horrivelmente estúpido! Prega mentiras mais espirituosas, ou não te darei ouvidos. Queres convencer-me pelo realismo de teus processos, persuadir-me de tua existência] Não creio nela!
— Mas não estou mentindo, tudo isso é verdade. Infelizmente, a verdade quase nunca é espirituosa. Vejo que esperas de mim algo de grande, talvez de belo. É lamentável, porque só dou o que posso...
— Não me venhas com filosofia, pedaço de asno!
— Como posso eu filosofar, quando estou com todo o lado direito paralisado, obrigando-me a gemer? Consultei a Faculdade; sabem diagnosticar maravilhosamente, explicam-nos a doença, mas são incapazes de curar. Havia lá um estudante entusiasta: "Se o senhor morrer", dizia ele,
"conhecerá exatamente a natureza de seu mal!" Têm a mania de dirigir-nos a especialistas: nós nos limitamos a diagnosticar, vá ver fulano, ele o curará. Não se encontra mais absolutamente o médico à moda antiga, que tratava todas as doenças. Agora só há especialistas, que fazem publicidade.
Para uma doença no nariz enviam a gente a Paris, ao consultório de um especialista europeu. Ele examina o nariz da gente. "Não posso", diz ele,
"curar senão a narina direita, porque não trato as narinas esquerdas, não é minha especialidade. Vá a Viena; há lá um especialista para as narinas esquerdas. " Que fazer? Recorri aos remédios de curandeiras, um médico alemão aconselhou-me que esfregasse no corpo, após o banho, mel e sal.