Os Irmãos Karamázov

Fiódor Dostoiévski · Capítulo 45 de 50

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Os Irmãos Karamázov

Capítulo 47

Fui aos banhos só por prazer e me besuntei em pura perda. Em desespero de causa, escrevi ao Conde Mattei, de Milão; enviou-me um livro e umas bolinhas. Que Deus lhe perdoe! Imagina que o extrato de malte de Hoff curou-me. Tinha-o comprado por acaso, tomei um frasco e meio e tudo desapareceu radicalmente. Estava resolvido a publicar uma declaração nos jornais, porque a gratidão falava dentro de mim, mas foi outra história, nenhuma redação a aceitou! "É demasiado reacionária", dizem, "ninguém acreditará nisso, le diable n'existe point. Publique isso anonimamente. " Mas 655

de que vale uma declaração anônima? Brinquei com os redatores: "Ser reacionário", dizia-lhes, "é crer em Deus em nossa época, mas eu, eu sou o diabo". "Decerto, toda gente crê no diabo, contudo é impossível, poderia isso prejudicar o nosso programa. Talvez... sob uma forma humorística... "

Mas então, pensei, não seria espirituoso. E minha declaração não apareceu.

Isto ficou-me pesando no coração. Os melhores sentimentos, tais como a gratidão, estão formalmente proibidos para mim, por causa de minha posição social.

— Voltas a cair na filosofia? — disse Ivã, de dentes cerrados.

— Deus me livre! Mas a gente não pode impedir-se de queixar-se por vezes. Sou caluniado. Tu me tratas a todo momento de imbecil. Vê-se bem que és um homem jovem. Meu amigo, só há o espírito. Recebi da natureza um coração bom e alegre, "também compus

vaudevilles". 47

Tomas-me, creio, por um velho Khlestakov, mas meu destino é bem mais sério. Por uma espécie de decreto inexplicável, tenho por missão "negar", e no entanto sou visceralmente bom e inapto para a negação. "Não! tens de negar! Sem negação, não há crítica, e que seria das revistas sem a crítica?