Os Irmãos Karamázov
Capítulo 42
o ponho para fora, ele tem espírito, mas que orgulho! Dizia-lhe eu ainda há pouco: "Os Karamázovi não são canalhas, são filósofos, como todos os verdadeiros russos; mas tu, malgrado teu saber, não és um filósofo, não passas de um labrego". Riu-se maldosamente. E
eu acrescentei: de opinionibus non est disputandum. 42 Também sou clássico — concluiu Mítia, disparando a rir.
— Mas por que estás perdido? Disseste ainda há pouco.
— Por que estou perdido? Hum, no fundo... se se toma a coisa em conjunto, lamento Deus, eis tudo.
— Que queres dizer?
— Imagina, na cabeça, isto é, no cérebro, há nervos... esses nervos têm fibras e desde que elas vibram... vês, olho alguma coisa, assim, e elas vibram, essas fibras... e assim que elas vibram forma-se uma imagem, não imediatamente, mas ao fim dum instante, dum segundo, e forma-se um momento, isto é, não um momento — que o diabo o leve! — mas um objeto ou uma ação; eis como se efetua a percepção, o pensamento vem em seguida... porque tenho fibras, e não porque tenho uma alma e fui criado à imagem de Deus; que bobagem! Mikhail explicava-me isto, ainda ontem, e enchia-me de ardor. Que bela coisa a ciência, Aliócha! O homem se transforma, compreendo-o... No entanto, lamento Deus!
— Já é uma boa coisa — disse Aliócha.
— Lamentar eu Deus? A química, irmão, a química! Não há nada a fazer. Vossa Reverendíssima, afaste-se um pouco, é a química que passa!
Rakítin não ama Deus. Oh! não, não o ama! É o ponto fraco deles todos!
Mas ocultam-no, mentem. "Pois bem! exporás essas idéias na rubrica da crítica?", perguntei-lhe. "Não, não me deixarão fazê-lo", continuou ele, rindo. "Mas então, que se tornará o homem, sem Deus e sem imortalidade?
Tudo é permitido, por conseqüência, tudo é lícito?" "Não o sabias? Para um homem de talento, tudo é permitido, sabe sempre tirar-se de apertos.
Mas tu, tu mataste, tu te deixaste apanhar e agora apodreces em cima da palha. " Eis o que ele me disse, o porco. Outrora, punha para fora indivíduos como esse, agora os escuto. Aliás, diz ele coisas sensatas e 42 Opiniões não se discutem.
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escreve bem. Começou, há oito dias, a ler-me um artigo; tomei nota de três linhas, espera, ei-las.
Mítia tirou vivamente de seu bolso um papel e leu: "Para resolver essa questão, é preciso pôr sua pessoa em oposição à sua atividade".
— Compreendes ou não?
— Não, não compreendo — disse Aliócha. Olhava Mítia e escutava-o com curiosidade.
— Eu tampouco. Não é claro, mas tem espírito. "Todos", diz ele,
"escrevem assim, atualmente, vem do meio ambiente... " Faz também versos, o tratante. Cantou os pés da Khokhlakova, ah! ah! ah!
— Ouvi falar disso — disse Aliócha.
— Sim? Mas conheces os versos?
— Não.
— Tenho-os, vou ler-tos. Não sabes, mas é uma verdadeira história!
Canalha! Há três semanas, imaginou ele mexer comigo: "Deixaste-te apanhar como um imbecil, por 3 000 rublos, mas eu vou recolher 150 000, caso com uma viúva e comprarei uma casa de pedra em Petersburgo, começarei a publicar um jornal". E a boca se lhe enche de água, não por causa da Khokhlakova, mas dos 150 000 rublos. Estava seguro de si, vinha ver-me todos os dias: "Ela está cedendo", dizia ele, radiante. E eis que o põem para fora; Pierkhótin, Piotr Ilitch passou-lhe a perna, viva! Beijarei de boa vontade aquela perua por havê-lo despachado. Foi na ocasião em que havia ele escrito esses versos. "Pela primeira vez", diz ele, "rebaixo-me a escrever versos, para seduzir, portanto com um fim útil. De posse do capital duma idiota, posso tornar-me útil à sociedade. " A utilidade pública serve de desculpa a essa gente para todas as baixezas! "E, no entanto", diz ele, "escrevi coisa melhor que Púchkin, porque soube exprimir, em versos brincalhões, minha tristeza cívica. " Compreendo o que diz ele de Púchkin. Por que limitar-se a descrever pés, se tinha verdadeiramente talento? Como estava orgulhoso de seus versos! Ah! o amor-próprio dos poetas! "Pelo restabelecimento do pé do objeto amado", eis o título que aquele pândego imaginou!
Seu encantador pèzinho Não vou seu pé lamentar,
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Inchou, lhe dói um pouquinho. Púchkin o há de cantar, Vêm doutores torturá-lo, Lamento-lhe a cabecinha.
Todos no afã de curá-lo. A toda idéia durinha.
Já começava a entender Quando o pé veio a doer. Que o pé se restabeleça E entre a idéia na cabeça.
Um verdadeiro porco, mas seus versos são divertidos, patife! E mis-turou-lhes deveras uma tristeza cívica. Estava furioso por ter sido despedido. Rangia os dentes.
— Já se vingou — disse Aliócha. — Escreveu um artigo a respeito da Senhora Khokhlakova.
E Aliócha contou-lhe o que aparecera no jornal Boatos.
— Foi ele, é bem dele! — confirmou Mítia, franzindo o cenho. —
Esses artigos... eu sei... quantas infâmias já foram escritas a respeito de Grúchenhka, por exemplo!... e a respeito de Cátia, também... Hum!
Pôs-se a andar pelo quarto com ar preocupado.
— Irmão, não posso ficar muito tempo — disse Aliócha, após um silêncio. — Amanhã é um dia terrível para ti. Vai-se cumprir o julgamento de Deus... e admira-me que em lugar de coisas sérias fales de bagatelas...
— Não, não te espantes. Devo falar daquele cão fedorento? Do assassino? Conversamos de sobra a respeito dele! Que não se fale mais de Smierdiákov, aquele fedorento filho de uma fedorenta! Deus o castigará, hás de ver!
Aproximou-se de Aliócha, beijou-o com emoção. Seus olhos cintilavam.
— Rakítin não compreenderia isto, mas, tu, tu compreendes tudo: por isso esperava-te com impaciência. Vês, queria desde muito tempo dizer-te muitas coisas, entre estas paredes degradadas, mas calava o essencial, o momento não parecia ter ainda chegado. Esperei a derradeira hora para expandir-me. Meu irmão, senti nascer em mim, desde minha prisão, um novo ser; um homem novo ressuscitou! Existia em mim, mas nunca se teria revelado se o rato não o tivesse atingido. Que me importa a mim cavoucar durante vinte anos nas minas? Isto não me amedronta, mas 603
temo outra coisa agora: que esse homem ressuscitado se retire de mim!
Pode-se encontrar também nas minas, em um forçado e em um assassino, um coração de homem e entrar em entendimento com ele, porque ali também se pode amar, viver e sofrer! Pode-se reanimar o coração entorpecido de um forçado, cuidar dele, trazer afinal da cova para a luz uma alma grande, regenerada pelo sofrimento, ressuscitar um herói! Ora, há centenas deles e somos todos culpados para com eles. Por que pensei então no nenê, em tal momento? Era uma profecia. Irei por causa do nenê.
Porque todos são culpados para com todos. Todos são nenês, há crianças grandes e pequenas. Irei por causa delas, é preciso que alguém se devote por todos. Não matei meu pai, mas aceito a expiação. Foi aqui, entre estas paredes degradadas, que tive consciência de tudo isso. Há muitos, centenas sob a terra, de martelo na mão. Sim, estaremos acorrentados, privados de liberdade, mas em nossa dor ressuscitaremos para a alegria, sem a qual o homem não pode viver nem Deus existir, porque é ele que a dá. Este é o seu grande privilégio. Senhor, que o homem se consuma na oração! Como viverei sob a terra sem Deus? Rakítin mente; se expulsam Deus da terra, nós o reencontraremos sob a terra! Um forçado não pode passar sem Deus, ainda menos que um homem livre! E então nós, os homens subterrâneos, cantaremos das entranhas da terra um hino trágico ao Deus da alegria! Viva Deus e sua alegria divina! Eu o amo!
Ao declamar essa tirada estranha, Mítia estava quase sufocado. Empalidecera, seus lábios tremiam, lágrimas lhe corriam dos olhos.
— Não, a vida está cheia, a vida extravasa mesmo sob a terra! Não podes crer, Aliócha, como quero viver agora, a que ponto a sede da existência apoderou-se de mim, precisamente entre estas paredes degradadas! Rakítin não compreende isto, só pensa em construir uma casa, em pôr nela locatários, mas eu te esperava. Que é o sofrimento? Não o temo, fosse ele infinito. Outrora o temia. Pode acontecer que não responda a nada no tribunal... Com a força que sinto em mim, creio-me em condições de dominar todos os sofrimentos, contanto que possa dizer a mim mesmo a cada instante: existo! Em meio dos tormentos, crispado pela tortura, existo! Amarrado ao pelourinho, existo ainda, vejo o sol, e, se não o vejo, sei que ele luz. E saber isto é já toda a vida. Aliócha, meu querubim, a filosofia me mata, que o diabo a leve! Nosso irmão Ivã...
— Que há com Ivã? — interrompeu Aliócha, mas Mítia não ouviu.
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— Vês, outrora, não tinha todas essas dúvidas, ocultava-as dentro de mim. Foi justamente talvez porque idéias desconhecidas referviam em mim que eu me embriagava, batia-me, arrebatava-me; era para dominá-las, esmagá-las. Nosso irmão Ivã não é como Rakítin, oculta seus pensamentos; é uma esfinge, cala-se sempre. Mas Deus me atormenta, não penso senão nisso. Que fazer se Deus não existe? Rakítin tem razão de pretender que é uma idéia forjada pela humanidade? Neste caso, o homem seria o rei da terra, do universo. Muito bem! Somente, como será ele virtuoso sem Deus?
Pergunto a mim mesmo. Com efeito, a quem amará o homem então? A quem cantará hinos de reconhecimento? Rakítin ri, diz que se pode amar a humanidade sem Deus. Aquele fedelho pode afirmar isso, eu não posso compreendê-lo. A vida é fácil para Rakítin: "Ocupa-te antes", dizia-me hoje, "com estender os direitos cívicos ou impedir a alta da carne; dessa maneira, servirás. melhor a humanidade e a amarás mais que com toda a tua filosofia". Ao que lhe respondi: "Tu mesmo, não acreditando em Deus, elevarás o preço da carne se houver oportunidade, e ganharás 1 rublo em vez de 1 copeque". Zangou-se. Com efeito, que é a virtude? Responde-me, Alieksiéi. Não me represento a virtude como um chinês, é pois uma coisa relativa? Ou então, não é relativa? Questão insidiosa! Não rirás se te disser que isto me impediu de dormir durante duas noites? Admira-me que se possa viver sem pensar nisto. Vaidade! Para Ivã, não há Deus. Ele tem uma idéia. Uma idéia acima de meu alcance. Mas não a diz. Penso que ele é franco-maçom. Interroguei-o, não me deu resposta. Teria querido beber da água de sua fonte, ele se cala. Uma vez somente falou.
— Que disse?
— Perguntava-lhe: "Então, tudo é permitido?" Ele franziu a testa:
"Fiódor Pávlovitch, nosso pai", disse ele, "era um porco, mas raciocinava certo". Eis suas palavras. É mais claro que Rakítin.
— Sim — disse Aliócha, com amargura.
— Voltaremos a isto. Quase não te tenho falado de Ivã até o presente.
Esperei até o fim. Uma vez terminada a peça e pronunciada a sentença, contar-te-ei tudo. Há uma coisa terrível, para a qual serás meu juiz. Mas agora, nem mais uma palavra a respeito. Falas do julgamento de amanhã, acreditarias? não sei de nada.
— Falaste àquele advogado?
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— De que serve? Contei-lhe tudo. Um manso velhaco da capital, um Bernard! Não crê uma palavra do que lhe digo. Pensa que sou culpado, imagina, vejo-o bem! "Então, por que veio defender-me?", perguntei-lhe.
Pouco me importa essa gente! E os médicos quereriam fazer-me passar por louco. Não o permitirei! Catarina Ivânovna quer cumprir "seu dever"
até o fim. Com rigor! (Mítia sorriu amargamente. ) É cruel como uma gata.
Sabe que eu disse em Mókroie que tinha ela grandes cóleras! Contaram-lhe. Sim, os depoimentos multiplicaram-se ao infinito. Gregório mantém o que disse; é honesto, mas imbecil. Há muitas pessoas honestas por imbecilidade. É uma idéia de Rakítin. Gregório me é hostil. Valeria melhor ter tal pessoa por inimiga que por amiga. Digo isto a propósito de Catarina Ivânovna. Tenho muito medo de que ela fale no tribunal da saudação até o chão que ela me fez, quando lhe emprestei os 4 500 rublos!
Há de querer pagar até o derradeiro vintém. Não quero seus sacrifícios!
Terei vergonha disso no tribunal! Vai vê-la, Aliócha, pede-lhe que não fale disso. Ou então será impossível? Que diabo, não importa, agüentarei! Não a lastimo. É ela que o quer. O ladrão só terá aquilo que merece. Farei um discurso, Alieksiéi. (Sorriu de novo, amargamente. ) Somente, somente, há Grúchenhka, Senhor! Por que sofre ela tanto, agora? — exclamou ele, com lágrimas. — Pensar nela é o que me mata. Estava aqui, ainda há pouco.
— Contou-me. Causaste-lhe muito pesar hoje.
— Sei. Que o diabo me leve por causa de meu gênio! Fiz-lhe uma cena de ciúmes. Estava arrependido, quando ela partiu, beijei-a. Mas não lhe pedi perdão.
— Por quê?
Mítia pôs-se a rir alegremente.
— Que Deus te preserve, meu caro, de pedir alguma vez perdão a uma mulher amada! Sobretudo a uma mulher amada, e quaisquer que sejam teus agravos a ela! Porque a mulher, meu irmão, quem diabo sabe o que é? Eu, em todo o caso, conheço as mulheres! Tenta pois reconhecer teus erros: "É culpa minha, perdão, desculpa-me", sofrerás uma saraivada de censuras! Jamais um perdão franco, simples; começará por humilhar-te, envilecer-te, censurar-te-á agravos imaginários, e então somente te perdoará. E ainda é a melhor dentre elas! Não perdoará as menores coisas.
Tal é a ferocidade de todas, sem exceção, desses anjos sem os quais não 606
poderíamos viver! Vês tu, meu caríssimo, digo-o francamente: todo homem decente deve estar sob a chinela duma mulher. É minha convicção, ou antes, meu modo de sentir. O homem deve ser generoso; isto não rebaixa. Mesmo um herói, mesmo César. Mas nunca peças perdão, a nenhum preço. Lembra-te desta máxima, -vem de teu irmão Mítia, a quem as mulheres botaram a perder. Não, repararei meus agravos a Grúchenhka, mas sem pedir-lhe perdão. Venero-a, Alieksiéi, mas não o nota ela; pensa que nunca a amo bastante. Faz-me sofrer com esse amor.
Antes, sofria eu com suas sinuosidades pérfidas, agora formamos uma só alma e por ela tornei-me um homem. Ficaremos juntos? Se não, morrerei de ciúme... Já penso nisso cada dia... Que te disse ela de mim?
Aliócha repetiu-lhe o que Grúchenhka dissera. Mítia escutou atentamente e ficou satisfeito.
— Então, não está zangada pelo fato de ser eu ciumento! Eis bem a mulher! "Também eu tenho um coração duro. " Gosto dessas naturezas, se bem que não suporte o ciúme! Brigaremos, mas a amarei sempre. Será que os forçados podem casar-se? Não posso viver sem ela...
Mítia andou pelo quarto, com os supercílios franzidos. Já quase não se enxergava. De repente, pareceu preocupado.
— Então, diz ela que há um segredo? Uma conspiração a três contra ela, com Cátia? Pois bem! não, não é isto. Grúchenhka enganou-se como uma tola. Aliócha querido, tanto pior... Vou revelar-te nosso segredo.
Mítia olhou para todos os lados, aproximou-se de Aliócha, pôs-se a falar-lhe em voz baixa, se bem que na realidade ninguém pudesse ouvi-los; o velho guarda dormitava sobre um banco, os soldados de serviço estavam bastante afastados.
— Vou-te revelar nosso segredo — disse ele à pressa. —- Iria fazê-lo depois, porque posso eu tomar uma decisão sem ti? És tudo para mim. Ivã nos é superior, mas tu vales mais que ele. Somente tu decidirás. Talvez sejas mesmo superior a Ivã. Vês, é um caso de consciência, um negócio tão importante que não posso resolvê-lo eu mesmo, sem teu conselho. No entanto, é ainda demasiado cedo para um pronunciamento, é preciso esperar o julgamento. Tu decidirás em seguida de minha sorte. Agora, contenta-te em escutar-me, mas não digas nada. Expor-te-ei somente a idéia, deixando de parte os detalhes. Mas nada de perguntas, não te mexas, 607
está entendido? E teus olhos, que eu esquecia! Lerei neles tua decisão, mesmo que não fales. Oh! tenho medo! Escuta, Aliócha: Ivã propõe que eu fuja. Passo por cima dos detalhes; tudo está previsto, tudo pode arranjar-se. Cala-te. Na América, com Grucha, porque não posso viver sem ela... E
se não a deixam seguir-me? Será que os forçados podem casar-se? Ivã diz que não. Que farei sem Grucha, debaixo da terra, com um martelo?
Só serviria para partir com ele minha cabeça! Mas, por outro lado, a consciência. Furto-me ao sofrimento, desvio-me da via de purificação que se oferecia a mim. Ivã "diz que na América, com boa vontade, pode a gente ser mais útil que nas minas. Mas que virá a ser então de nosso hino subterrâneo? A América é ainda vaidade! E há também, eu penso, muita desonestidade em partir para a América. Escapo à expiação! Eis por que te digo, Aliócha, só tu podes compreender isso; para os outros, tudo quanto te disse do hino são tolices, delírio. Tratar-me-ão de louco ou de imbecil.
Ora, não sou uma coisa nem outra. Ivã também compreende o hino, decerto, mas cala-se. Não crê nele. Não fales, não fales: vejo pelo teu olhar que já decidiste. Poupa-me, não posso viver sem Grucha, espera até o julgamento.
Mítia acabou com ar desvairado. Segurava Aliócha pelos ombros, fixava-o com seu olhar ávido, ardente.
— Podem os forçados casar-se? — repetiu ele pela terceira vez, com voz suplicante.
Aliócha, muito comovido, escutava com profunda surpresa. — Dize-me — perguntou ele —, é verdade que Ivã insiste muito? Quem teve primeiro essa idéia?
— Foi ele. Ele insiste! Não o via, veio de repente, há uma semana, e começou por aí. Não propõe, ordena. Não duvida de minha obediência, se bem que lhe tenha eu aberto meu coração como a ti e falado do hino.
Expôs-me seu plano, reuniu as informações, mas voltarei a isso. Ele o quer ardentemente. E, sobretudo, oferece dinheiro: 10 000 rublos para fugir, 20
000 na América; pretende que se pode muito bem organizar a fuga com 10
000 rublos.
— E recomendou-te que não me falasses?
— A ninguém e sobretudo a ti. Tem medo de que sejas como a 608
minha consciência viva. Não lhe digas que te pus a par, rogo-te!
— Tens razão, é impossível decidir antes da sentença. Depois do julgamento, verás tu mesmo; haverá em ti um homem novo que decidirá.
— Um homem novo, ou um Bernard, que decidirá como Bernard!
Assim, parece-me ser eu mesmo um vil Bernard — disse Mítia, com um sorriso amargo.
— Será possível, meu irmão, que não esperes justificar-te amanhã?
Mítia ergueu os ombros, abanou a cabeça negativamente.
— Aliócha — disse de repente —, está na hora de ires. Acabo de ouvir o inspetor no pátio; vai chegar aqui, estamos atrasados, é desordem.
Beija-me depressa, faze sobre mim o sinal-da-cruz para o calvário de amanhã...
Abraçaram-se e beijaram-se.
— E Ivã, que me propõe a fuga, ele próprio acredita que eu matei.
Triste sorriso desenhou-se em seus lábios.
— Perguntaste-lhe?
— Não. Queria perguntar-lhe, mas não tive coragem. Aliás, comprendi-o pelo seu olhar. Então, adeus!
Beijaram-se de novo. Aliócha ia sair, quando Mítia o chamou.
— Fica assim diante de mim, assim.
Pegou de novo Aliócha pelos ombros. Seu rosto tornou-se muito pálido, seus lábios se contraíram, seu olhar sondava seu irmão.
— Aliócha, dize-me toda a verdade, como diante de Deus. Crês que eu matei? A verdade inteira, não mintas!
Aliócha cambaleou, teve um aperto de coração.
— Basta! Que dizes?... — murmurou como desvairado.
— Toda a verdade, não mintas!
— Jamais cri um só instante que sejas um assassino — exclamou com voz trêmula Aliócha, que levantou a mão como para tomar a Deus por testemunha. Uma expressão de felicidade pintou-se no rosto de Mítia.
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— Obrigado — disse, suspirando, como depois de um desmaio. —
Restituíste-me a vida... Acreditas? Até agora temia perguntar-to, a ti, a ti!
Vai-te, agora, vai-te! Tu me fortificaste para amanha, que Deus te abençoe!
Retira-te, ama Ivã!
Aliócha saiu todo choroso. Semelhante desconfiança da parte de Mítia, mesmo para com ele, revelava um desespero que ele jamais suspeitara que fosse tão profundo em seu desgraçado irmão. Infinita compaixão apoderou-se dele. Estava profundamente magoado. "Ama Ivã!" Lembrou-se de súbito desta derradeiras palavras de Mítia. Ia precisamente à casa de Ivã, a quem queria ver desde a manhã. Ivã inquietava-o tanto quanto Mítia, e agora mais do que nunca, após aquela entrevista.
V NÃO FOSTE TU!
Para ir à casa de seu irmão, tinha de passar diante da casa onde morava Catarina Ivânovna. As janelas estavam iluminadas. Parou e resolveu entrar. Não havia visto Catarina desde mais de uma semana e pensou que Ivã estivesse talvez em casa dela, sobretudo na véspera dum tal dia. Na escada, fracamente iluminada por uma lanterna chinesa, cruzou com um homem em quem reconheceu seu irmão.
— Ah! és tu? — disse secamente Ivã Fiódorovitch. — Adeus. Vais à casa dela?
— Sim.
— Não to aconselho. Está agitada, tu a pertubarás ainda mais.
— Não, não — gritou uma voz no alto da escada. — Alieksiéi Fiódorovitch, acaba de vê-lo?
— Sim, vi-o.
— Manda ele dizer-me alguma coisa? Entre, Aliócha, e você também, Ivã Fiódorovitch, volte sem demora. Estão ouvindo?
A voz de Cátia era tão imperiosa que Ivã, após um instante de hesitação, decidiu-se a subir de novo com Aliócha.
— Ela estava escutando! — murmurou ele, agitado, consigo mesmo, mas Aliócha o ouviu.
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— Permita-me que conserve meu sobretudo — disse Ivã, ao entrar no salão. — Ficarei apenas um minuto.
— Sente-se, Alieksiéi Fiódorovitch — disse Catarina Ivânovna, que ficou de pé. Não havia mudado, mas seus olhos sombrios brilhavam com um clarão mau. Aliócha lembrou-se mais tarde de que ela lhe parecera particularmente bela naquele instante.
— Que me manda ele dizer?
— Somente isto — disse Aliócha, olhando-a de frente: — Que a senhora se poupe e não fale no tribunal do que (hesitou um pouco)... se passou entre vocês... por ocasião do primeiro encontro.
— Ah! de minha saudação até o chão por causa do dinheiro? —
disse ela, com um riso amargo. — Teme por si ou por mim? Quer que eu poupe a quem, afinal? A ele ou a mim? Fale, Àlieksiéi Fiódorovitch.
Aliócha olhava-a atentamente, esforçando-se por, compreendê-la.
— À senhora e a. ele.
— É isto — disse ela com maldade, e corou. — Você não me conhece ainda, Àlieksiéi Fiódorovitch. Eu tampouco me conheço. Talvez venha a detestar-me, depois do interrogatório de amanhã.
— A senhora deporá com lealdade — disse Aliócha. — É o que é preciso.
— A mulher nem sempre é leal. Há uma hora, temia o contato daquele monstro como o de um réptil... entretanto, é ele sempre um ser humano para mim. Mas é um assassino? Foi ele quem matou? —
exclamou ela, voltando-se para Ivã. Aliócha compreendeu logo que ela já lhe havia feito aquela pergunta antes de sua chegada, pela centésima vez talvez, e que haviam brigado. — Fui à casa de Smierdiákov... Foste tu que me persuadiste de que ele é um parricida. Acreditei em ti!
Ivã sorriu constrangido. Aliócha estremeceu, ouvindo aquele "em ti".
Não suspeitava de tal intimidade.
— Pois bem! Basta — cortou Ivã. — Vou-me embora. Até amanhã.
Saiu, dirigindo-se para a escada. Catarina Ivânovna agarrou imperiosamente as mãos de Aliócha.
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— Siga-o! Alcance-o! Não o deixe só um instante. Está louco. Não sabe que ele ficou louco? Está com febre nervosa. O médico mo disse, vá, corra...
Aliócha precipitou-se atrás de Ivã Fiódorovitch, que não havia dado ainda cinquenta passos.
— Que queres? — disse ele, voltando-se para Aliócha. — Ela te mandou seguir-me, porque eu estou louco. Sei isso de cor — acrescentou ele, irritado.
— Ela se engana, decerto, mas diz com razão que estás doente.
Examinava-te ainda há pouco, tens o rosto desfeito, Ivã.
Ivã continuava andando, Aliócha seguia-o.
— Sabes, Àlieksiéi Fiódorovitch, como é que se fica louco? —
perguntou Ivã, num tom calmo, em que transparecia curiosidade.
— Não, ignoro-o, penso que há muitos gêneros de loucura.
— Pode uma pessoa perceber por si mesma que está ficando louca?
— Penso que a pessoa não pode observar-se em semelhante caso —
respondeu Aliócha, surpreso. Ivã calou-se um instante.
— Se queres conversar comigo, mudemos de conversa — disse ele, de repente.
— Com medo de esquecê-la, eis aqui uma carta para ti — disse timidamente Aliócha, estendendo-lhe a carta de Lisa. Aproximavam-se dum lampião. Ivã reconheceu a letra.
— Ah! é daquela diabinha! — Deu uma risada má e, sem abri-la, rasgou a carta em pedaços, que se dispersaram ao vento.
— Ainda não tem dezesseis anos e já se oferece — disse, num tom cheio de desprezo.
— Como se oferece ela? — exclamou Aliócha.
— Ora essa, como as mulheres corrompidas.
— Que estás dizendo, Ivã? — protestou Aliócha, cheio de dor. — É
uma criança, tu insultas uma criança! Ela também está muito doente, talvez também se torne louca. Tinha de entregar-te sua carta... Queria eu, 612
pelo contrário, que me explicasses... para salvá-la.
— Nada tenho a explicar-te. Se é uma criança, não sou eu sua babá.
Cala-te, Alieksiéi, não insistas. Nem mesmo penso nisso.
Houve novo silêncio.
— Ela vai rezar à Virgem todas as noites para saber o que deve fazer amanhã — continuou ele, num tom maldoso.
— Tu... falas de Catarina Ivânovna?
— Sim. Aparecerá ela para salvar Mítia ou para perdê-lo? Rezará para ser esclarecida. Não sabe ainda, vê, não tendo tido ainda tempo de se preparar. Outra ainda que me toma por ama-de-leite, quer que eu a acalente.
— Catarina Ivânovna te ama, meu irmão — disse tristemente Aliócha.
— É possível. Mas a mim ela não agrada.
— Ela sofre. Por que então dizer-lhe... por vezes, palavras que lhe dão esperança? — prosseguiu timidamente Aliócha. — Sei que o fizeste, perdoa-me se falo assim.
— Não posso fazer o que seria preciso, romper e falar-lhe de coração aberto! — disse Ivã, com arrebatamento. — É preciso esperar que o assassino seja julgado. Se romper com ela agora, botará a perder amanhã, por vingança, aquele desgraçado, porque ela o odeia e tem consciência disso. Aqui, é mentira sobre mentira! Enquanto ela conservar esperança, não botará a perder aquele monstro, sabendo que eu quero salvá-lo. Ah!
quando será pronunciada essa maldita sentença!
As palavras "assassino" e "monstro" tinham impressionado dolorosamente Aliócha.
— Mas como poderia ela perder o nosso Mítia? Em que é de temer o seu depoimento?
— Não o sabes ainda. Tem em suas mãos um documento escrito por Mítia e demonstrando que foi ele quem matou Fiódor Pávlovitch.
— É impossível! — exclamou Aliócha.
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— Impossível, como? Eu mesmo o li.
— Não pode existir semelhante documento! — repetia Aliócha com ardor. — Não pode existir, porque não foi Mítia o assassino. Não foi ele quem matou nosso pai.
Ivã parou.
— Quem então o matou, na tua opinião? — perguntou ele friamente.
Havia arrogância na sua voz.
— Tu mesmo sabes quem — disse mansamente e num tom
penetrante Aliócha.
— Quem? Essa fábula a respeito daquele idiota epiléptico, Smierdiákov?
— Tu mesmo sabes quem... — deixou Aliócha escapar, já sem forças.
Ofegava, tremia.
— Mas quem então, quem? — gritou Ivã cheio de raiva. Não era mais senhor de si.
— Só sei uma coisa — disse Aliócha, em voz baixa: "Não foste tu"
que mataste o pai. Estou certo disso.
— Que queres dizer com estas palavras: "Não foste tu"? — perguntou Ivã, estupefato.
— Não foste tu que mataste, não foste tu! — repetiu com firmeza Aliócha. Houve um silêncio.
— Mas sei bem que não fui eu, estás delirando? — disse Ivã, pálido, com um sorriso que era mais uma careta. Encarava Aliócha. Encontravam-se de novo perto de um lampião.
— Não, Ivã, disseste a ti mesmo várias vezes que eras tu o assassino.
— Quando o disse?... Estava em Moscou... Quando o disse? —
repetiu Ivã perturbado.
— Tu o disseste a ti mesmo muitas vezes, quando ficavas sozinho, durante aqueles dois terríveis meses — disse Aliócha brandamente. Dir-se-ia que falava, malgrado seu, obedecendo a uma ordem imperiosa. —
Tu te acusaste, reconheceste que o assassino não era outro senão tu. Mas 614
enganas-te, não és tu, tu me entendes? não és tu! É Deus quem me envia para dizer-to.
Ambos se calaram durante um minuto. Pálidos, fitavam-se bem nos olhos. De súbito, Ivã estremeceu, agarrou Aliócha pelo ombro.
— Estavas em minha casa! — cochichou ele, com os dentes cerrados. — Estavas em minha casa, à noite, quando ele veio... Confessa-o...
Viste-o?
— De quem falas... de Mítia? — perguntou Aliócha, que não compreendia.
— Dele não... ao diabo o monstro! — vociferou Ivã. — Será que sabes que ele veio ver-me? Como o soubeste? Fala!
— "Ele", quem? Ignoro a quem te referes — disse Aliócha, aterrorizado.
— Não, tu sabes... senão como é que tu... não podes deixar de saber...
Mas conteve-se. Parecia meditar. Um sorriso estranho pregueava-lhe os lábios.
— Meu irmão — prosseguiu Aliócha, com voz trêmula —, disse-te isto porque crês na minha palavra, eu o sei. Disse-to duma vez para sempre: "Não foste tu!" Ouves? Duma vez para sempre. E foi Deus quem me inspirou, ainda que tenhas de odiar-me doravante.
Mas Ivã voltara a dominar-se.
— Alieksiéi Fiódorovitch — disse ele, com um sorriso frio —, não gosto nem dos profetas nem dos epilépticos; sobretudo dos enviados de Deus, você bem o sabe. Desde agora, rompo com você e sem dúvida para sempre. Rogo-lhe que me deixe nesta encruzilhada. De resto, aqui está a rua que leva à sua casa. Sobretudo, evite vir à minha casa hoje, ouviu?
Voltou-se e afastou-se a passos firmes, sem se voltar.
— Meu irmão — gritou-lhe Aliócha —, se te acontecer alguma coisa hoje, pensa em mim!...
Ivã não respondeu. Aliócha ficou na encruzilhada, perto do lampião, até que Ivã desapareceu na escuridão. Retomou então lentamente o caminho de sua residência. Nem ele nem Ivã tinham querido morar na 615
casa solitária de Fiódor Pavlovitch. Aliócha alugava um quarto mobiliado em casa de particulares. Ivã Fiódorovitch ocupava um apartamento espaçoso e bastante confortável na ala duma casa que pertencia a uma senhora abastada, viúva de um funcionário. Tinha para servi-lo apenas uma velha surda, entrevada de reumatismo, que se deitava e se levantava às 6 horas. Ivã Fiódorovitch tornara-se muito pouco exigente durante aqueles dois meses e gostava muito de ficar sozinho. Ele mesmo arrumava seu quarto e ia raramente às outras peças. Tendo chegado ao portão e já segurando o cordão da sinêta, parou. Sentia-se sacudido por um arrepio de cólera. Largou o cordão, cuspiu, e dirigiu-se bruscamente para o outro extremo da cidade, para uma casinha de madeira em penada, a 2 verstas de sua residência. Era ali que morava Maria Kondrátievna, a antiga vizinha de Fiódor Pávlovitch, que ia à casa dele buscar sopa e à qual Smierdiákov cantava canções, acompanhando-se na guitarra. Vendera sua casa e vivia com sua mãe numa espécie de isbá; Smierdiákov, doente e quase moribundo, instalara-se em casa delas. Era para lá que se dirigia agora Ivã Fiódorovitvh, cedendo a um impulso súbito, irresistível.
VI
PRIMEIRA ENTREVISTA COM SMIERDIÁKOV
Era a terceira vez que Ivã Fiódorovitch ia conversar com Smierdiákov, desde seu regresso de Moscou. Vira-o após o drama, no primeiro dia de sua chegada, depois visitou-o duas semanas após. Mas havia mais de um mês não voltara à casa de Smierdiákov e não sabia quase nada dele.
Ivã Fiódorovitch voltara de Moscou cinco dias somente após a morte de seu pai, enterrado na véspera. Com efeito, ignorando Aliócha o endereço de seu irmão em Moscou, recorrera a Catarina Ivânovna, que telegrafou a suas parentas, na idéia de que Ivã Fiódorovitch fora visitá-las assim que chegara. Mas só as visitou quatro dias mais tarde e, depois de ter lido o telegrama, regressou a toda a pressa para a nossa cidade. Conversou em primeiro lugar com Aliócha, ficando surpreso por vê-lo afirmar a inocência de Mítia e designar Smierdiákov como o assassino, contrariamente à opinião geral. Depois de ter visto o isprávnik e o procurador, tomou conhecimento, com detalhes, da acusação e do interrogatório, ficou mais espantado ainda e atribuiu a opinião de Aliócha 616
unicamente ao seu extremo afeto fraternal, à compaixão que Mítia lhe inspirava. A este propósito, expliquemos de uma vez por todas os sentimentos de Ivã por seu irmão Dimítri Fiódorovitch: decididamente não gostava dele, a compaixão que ele lhe inspirava misturava-se a muito desprezo, indo até à aversão. Mítia era-lhe totalmente antipático, até mesmo fisicamente. Quanto ao amor de Catarina Ivânovna por ele, causava indignação a Ivã. Vira Mítia no primeiro dia de sua chegada, e essa entrevista, longe de enfraquecer sua convicção de culpabilidade, havia-a fortificado. Seu irmão estava então inquieto, numa agitação doentia, falava muito, mas distraído e desorientado, exprimia-se com brusquidão, acusava Smierdiákov, atrapalhava-se terrivelmente. Falava sobretudo dos 3 000 rublos "roubados" pelo defundo. "Aquele dinheiro me pertencia", afirmava Mítia. "Mesmo se eu o tivesse roubado, teria sido justo. " Não respondia quase às acusações que se elevavam contra ele e se discutia os fatos em seu favor era duma maneira confusa, canhestra, como se não quisesse mesmo justificar-se aos olhos de Ivã; pelo contrário, zangava-se, desdenhava as acusações, invectivava, acalorava-se. Zombava do testemunho de Gregório relativo à porta aberta, assegurava que era "o diabo quem a tinha aberto". Mas não podia explicar esse fato de uma maneira plausível. Havia mesmo ofendido Ivã, por ocasião dessa primeira entrevista, declarando-lhe bruscamente que não cabia aos que sustentavam que "tudo é permitido" suspeitar dele e interrogá-lo. Em suma, mostrara-se bastante pouco amável com Ivã Fiódorovitch. Este, após sua entrevista com Mítia, foi logo ter com Smierdiákov.
Ainda no vagão, pensava constantemente em Smierdiákov e na sua derradeira conversa na véspera de sua partida. Muitas coisas o perturbavam, pareciam-lhe suspeitas. Mas no seu depoimento ao juiz de instrução, havia Ivã provisoriamente guardado segredo a respeito. Esperava avistar-se com Smierdiákov, que se encontrava então no hospital. O
Doutor Herzenstube e o médico do hospital Varvínski responderam categoricamente às perguntas de Ivã Fiódorovitch que a epilepsia de Smierdiákov estava certificada e pareceram mesmo surpresos de que ele lhes perguntasse se não houvera simulação no dia do drama. Deram-lhe a entender que era uma crise extraordinária, que se repetira durante vários dias, pondo em perigo a vida do doente. Agora, graças às medidas tomadas, podia-se afirmar que ele escaparia, mas talvez, acrescentou o Doutor Herzenstube, sua razão ficasse perturbada, se não para sempre, 617
pelo menos por muito tempo. Insistindo Ivã Fiódorovitch em saber se ele estava louco no momento, responderam-lhe que, sem estar ainda completamente louco, apresentava certas anomalias. Ivã Fiódorovitch resolveu dar-se conta disso* pessoalmente. Foi imediatamente admitido à presença de Smierdiákov, que se encontrava num quarto separado, deitado. Um segundo leito era ocupado por um hidrópico que só poderia durar um ou dois dias e não iria atrapalhar a conversa. Smierdiákov mostrou um sorriso desconfiado à vista de Ivã Fiódorovitch, pareceu mesmo intimidado no primeiro momento, pelo menos teve Ivã essa impressão. Mas isso só durou um instante e Smierdiákov espantou-o quase pela sua calma no resto do tempo. À primeira vista, pôde Ivã Fiódorovitch convencer-se da gravidade de seu estado; estava muito fraco, falava lentamente, penosamente, emagrecera muito e amarelecera. Durante os vinte minutos que durou a entrevista, queixava-se sem cessar de dores de cabeça e de lassidão em todos os membros. Seu rosto chupado de eunuco havia-se encolhido, com os cabelos revoltos nas têmporas. Somente uma mecha delgada erguia-se à guisa de topete. Mas o olho esquerdo, piscante e parecendo fazer alusão, lembrava o antigo Smierdiákov: "Dá gosto falar com um homem de espírito", lembrou-se logo Ivã Fiódorovitch. Sentou-se a seus pés, num tamborete. Smierdiákov mexeu-se, gemendo, mas guardou silêncio, não tinha ar de muita curiosidade.
— Podes falar-me? Não te fatigarei demais.
— Decerto — murmurou Smierdiákov, com voz fraca. — Há muito tempo que o senhor chegou? — acrescentou com condescendência, como para encorajar o visitante constrangido.
— Hoje somente... para esclarecer a trapalhada de vocês.
Smierdiákov suspirou.
— Que tens de suspirar? Sabias então — perguntou Ivã.
— Como não o teria sabido? — disse Smierdiákov, após um silêncio. — Era claro, de antemão. Mas como prever que aquilo acabaria assim?
— Acabaria o quê? Nada de rodeios! Por que predisseste que terias uma crise logo que descesses à adega? Designaste abertamente a adega.
— Disse isso no seu depoimento? — perguntou Smierdiákov, com 618
fleuma.
— Ainda não, mas o direi decerto. Deves-me explicações, meu amigo, e fica sabendo, meu caro, que não permitirei que brinques comigo!
— Por que brincar com o senhor, quando minha esperança está toda no senhor, como que em Deus? — proferiu Smierdiákov, sem se comover.
— Em primeiro lugar, sei que não se pode prever uma crise de epilepsia. Tomei informações, portanto é inútil fingir. Como, pois, fizeste, para me predizer o dia, a hora e até mesmo o lugar? Como podias saber de antemão que terias uma crise justamente naquela adega, se não simulaste?
— De toda maneira teria eu de ir à adega várias vezes por dia —
respondeu lentamente Smierdiákov. — Foi assim que caí do celeiro, há um ano. Bem decerto não se podem prever o dia e a hora duma crise, mas pode-se ter sempre um pressentimento.
— Ora, tu predisseste o dia e a hora!
— No que concerne à minha doença, senhor, informe-se antes junto aos médicos para saber se ela era natural ou fingida; nada mais tenho a dizer-lhe a este respeito.
— Mas a adega? Como previste a adega?
— Essa adega o atormenta! Quando ali desci, tinha medo, desconfiava, tinha medo porque, uma vez ausente o senhor, não havia mais ninguém para me defender. Pensava: "Vou ter um ataque, cairei ou não?"
E essa apreensão provocou o espasmo na garganta... vim abaixo. Tudo isso, bem como nossa conversa, na véspera, no portão, quando lhe dava parte de meus temores, inclusive a adega, eu o expus com detalhes ao Senhor Doutor Herzenstube e ao juiz de instrução, Nikolai Parfiénovitch; ficou tudo constando dos autos. O médico do hospital, Varvínski, explicou particularmente que a apreensão mesma havia provocado a crise e o fato foi notado.
Como que esgotado pela lassidão, Smierdiákov respirou com dificuldade.
— Então, já fizeste essas declarações? — perguntou Ivã Fiódorovitch um tanto desconcertado. Queria amedrontá-lo, ameaçando-o com a di-619
vulgação de sua conversa, mas o outro tomara a dianteira.
— Que tenho a temer? Devem eles conhecer toda a verdade — disse Smierdiákov, com segurança.
— E contaste também exatamente nossa conversa perto do portão?
— Não, não exatamente.
— Disseste também que sabes simular uma crise, como disso te gabavas diante de mim?
— Não.
— Dize-me agora: por que me mandavas para Tchermachniá?
— Temia que o senhor fosse para Moscou. Tchermachniá é mais perto.
— Mentes, foste tu que instaste comigo para partir; "Afaste-se do pecado", dizias.
— Foi unicamente por amizade, por devotamento, pressentindo uma desgraça, e para poupá-lo. Mas minha segurança passava além da do senhor. De modo que lhe disse: afaste-se do pecado, para fazê-lo compreender que aconteceria alguma coisa e que o senhor deveria ficar para defender seu pai.
— Deverias ter-me falado francamente então, imbecil!
— Como poderia fazê-lo? O medo dominava-me e o senhor poderia ter-se zangado. Podia temer, com efeito, que Dimítri Fiódorovitch fizesse escândalo e arrebatasse aquele dinheiro que considerava como propriedade sua, mas quem teria crido que aquilo acabaria por um assassinato? Pensava que ele se contentaria com furtar aqueles 3 000 rublos ocultos sob o colchão, num envelope, mas ele assassinou. Como adivinhar, senhor?
— Então, se dizes tu mesmo que era impossível, como podia eu adivinhar e ficar? Não está claro.
— O senhor podia adivinhar pelo fato de enviá-lo eu a Tchermachniá em lugar de Moscou.
— Que é que isso prova?
620
Smierdiákov, que parecia muito cansado, calou-se de novo.
— O senhor podia compreender que se eu o aconselhava a ir a Tchermachniá é que desejava tê-lo por perto, porque Moscou é longe.
Sabendo que o senhor estava nas proximidades, Dimítri Fiódorovitch teria hesitado! O senhor poderia, se preciso, acorrer e defender-me, porque eu lhe havia informado que Gregório Vassílievitch estava doente e eu receava uma crise. Ora, explicando-lhe que se poderia, por meio de sinais, penetrar em casa do defunto, e que Dimítri Fiódorovitch os conhecia graças a mim, pensei que o senhor adivinharia por si mesmo que ele se entregaria decerto a violências e que, longe de partir para Tchermachniá, o senhor ficaria.
"Ele fala sensatamente", pensava Ivã, "se bem que titubeie; por que dizia Herzenstube que tem ele o espírito transtornada?"
— Estás com astúcias comigo. O diabo te carregue! — exclamou ele, zangado.
— Francamente, cria então que o senhor havia adivinhado — replicou Smierdiákov, com o ar mais ingênuo.
— Neste caso, teria eu ficado!
— Isto mesmo! Eu pensava que o senhor partia apesar de tudo para salvar-se, porque o senhor tinha medo.
— Acreditavas que todos são tão covardes com tu?
— Desculpe, pensava que o senhor era como eu.
— Decerto, era preciso prever; aliás, eu previa uma vilania de tua parte. Mas tu mentes, mentes de novo — exclamou ele, impressionado por uma lembrança. — Hás de lembrar-te de que, no momento de minha partida, disseste-me: "Dá gosto conversar com um homem de espírito".
Estavas, pois, contente com a minha partida, uma vez que me cumprimentavas.
Smierdiákov suspirou várias vezes e pareceu corar.
— Estava contente — disse ele com esforço —, mas unicamente porque o senhor se decidia por Tchermachniá em lugar de Moscou. É sempre mais perto; e minhas palavras não eram um cumprimento, mas uma censura. O senhor não compreendeu.
621
— Que censura?
— Muito embora pressentindo uma desgraça, o senhor abandonava seu pai e recusava-se a defender-nos, porque podia eu ser suspeitado de ter furtado aqueles 3 000 rublos.
— Que o diabo te leve! Um instante; falaste aos juizes a respeito dos sinais, daquelas pancadas?
— Expliquei-lhes tudo, sem faltar nada. Ivã Fiódorovitch admirou-se de novo.
— Se pensei então em alguma coisa foi numa infâmia de tua parte; aliás, esperava isso. Dimítri podia matar, mas acreditava-o incapaz de roubar. Tu me disseste que sabias simular as crises. Por que disseste isso?
— Por ingenuidade. Jamais simulei a epilepsia, foi simplesmente pa-ra me gabar, por estupidez. Gostava muito do senhor então e conversava com toda- a simplicidade.
— Meu irmão te acusa, diz que foste tu que mataste e roubaste.
— Decerto, que outra coisa poderá dizer? — Smierdiákov sorriu amargamente. — Mas quem acreditará em tais acusações dele? Gregório Vassílievitch viu a porta aberta. É concludente. Enfim, que Deus o perdoe!
Ele tenta salvar-se e tem medo.
Smierdiákov pareceu refletir, depois acrescentou:
— É sempre a mesma coisa; quer atirar esse crime sobre mim, já o ouvi dizer, mas teria eu prevenido o senhor de que sei simular a epilepsia, se me preparasse para matar seu pai? Meditando esse crime, poderia eu ser tão tolo a ponto de revelar de antemão tal prova e, ainda por cima, ao filho da vítima! Pense nisso! É verossímil? Neste momento, ninguém ouve nossa conversa, exceto a Providência, mas se o senhor a comunicasse ao procurador e a Nikolai Parfiénovitch, serviria isto para minha defesa, porque um celerado não pode ser tão ingênuo. Todos raciocinarão assim.
— Escuta — disse Ivã Fiódorovitch levantando-se, impressionado por esse último argumento. — Não suspeito de ti absolutamente. Seria ridículo acusar-te... agradeço-te mesmo teres-me tranqüilizado. Vou-me embora, mas voltarei. Adeus. Restabelece-te. Tens necessidade de alguma coisa?
622
— Agradeço-lhe. Marfa Ignatiévna não me esquece e, sempre boa, me vem em auxílio quando preciso. Pessoas de bem vêm ver-me todos os dias.
— Adeus. Aliás, não direi que sabes simular uma crise... aconselho-te também a não falar disso — disse Ivã sem saber por quê.
— Compreendo bem. Se o senhor não disser, não repetirei tampouco toda a nossa conversa junto ao portão...
Ivã Fiódorovitch saiu. Apenas dera uns dez passos no corredor, deuse conta de que a derradeira frase de Smierdiákov tinha algo de ferino.
Queria já arrepiar caminho, mas ergueu os ombros e "saiu do hospital.
Sentia-se tranqüilizado pelo fato de que o culpado não era Smierdiákov, mas seu irmão Mítia, conquanto devesse ser isso precisamente o contrário, parece. Não queria procurar a razão disso, sentindo repugnância em analisar suas sensações. Tinha pressa de esquecer. Nos dias que se seguiram, convenceu-se definitivamente da culpabilidade de Mítia, estudando mais a fundo as acusações que pesavam sobre ele. Pessoas inferiores, tais como Fiénia e sua mãe, tinham prestado depoimentos per-turbadores. Inútil falar de Pierkhótin, do botequim, da loja dos Plótnikovi, das testemunhas de Mókroie. Os detalhes sobretudo eram esmagadores. A história das pancadas misteriosas havia impressionado o juiz e o procurador quase tanto quanto o depoimento de Gregório a respeito da porta aberta. Marfa Ignátievna, interrogada por Ivã Fiódorovitch, declarou-lhe que Smierdiákov passara a noite atrás do biombo, "a três passos de nosso leito", e que, muito embora dormisse ela profundamente, despertara muitas vezes ouvindo-o gemer: "Gemia o tempo todo".
Conversando com Herzenstube, Ivã Fiódorovitch deu parte de suas dúvidas a respeito da loucura de Smierdiákov, a quem achava simplesmente fraco, mas o velho sorriu com finura: "Sabe em que ele se ocupa agora? Aprende de cor palavras francesas escritas em letras russas num caderno, eh! eh! eh!" As dúvidas de Ivã Fiódorovith desapareceram, afinal. Já não podia pensar mais em Dimítri senão com desgosto. No entanto, havia uma coisa estranha: a persistência de Aliócha em afirmar que o assassino não era Dimítri, mas "muito provavelmente" Smierdiákov.
Ivã sempre fizera grande caso da opinião de seu irmão e aquilo o tornava perplexo. Outra coisa estranha, notada por Ivã: Aliocha nunca era o primeiro a falar de Mítia, limitando-se a responder às perguntas dele, Ivã.
623
Aliás, tinha Ivã bem outra coisa na cabeça no momento; desde seu regresso de Moscou, estava loucamente apaixonado por Catarina Ivânovna. Não é aqui o lugar para descrever essa nova paixão de Ivã Fiódorovitch, que influiu em toda a sua vida; formaria isto matéria dum outro romance que escreverei talvez um dia. Devo assinalar, em todo caso, que quando ele declarou a Aliócha, ao sair da casa de Catarina Ivânovna:
"A mim ela não agrada", como o contei acima, mentia a si mesmo; amava-a loucamente, ao mesmo tempo que a odiava por vezes, a ponto de ser capaz de matá-la. Isto ligava-se a muitas causas; transtornada pelo drama, voltara-se para Ivã Fiódorovicht, que de novo estava a seu lado, como para um salvador. Estava ofendida, humilhada nos seus sentimentos. E eis que reaparecia o homem que a amava tanto antes — ela bem o sabia — e cuja inteligência e coração sempre apreciara. Mas a severa moça não se dera totalmente, malgrado a impetuosidade de seu amoroso, digna dos Karamázovi, e a fascinação que ele exercia sobre ela. Ao mesmo tempo, atormentava-se sem cessar por ter traído Mítia e, por ocasião de suas frequentes discussões com Ivã, declarava-lhe isso francamente. Era o que, falando a Aliócha, chamara ela de "mentira sobre mentira". Havia, com efeito, muita mentira nas relações deles, o que exasperava Ivã Fiódorovitch.,. mas não antecipemos. Em suma, por algum tempo, esqueceu-se ele quase de Smierdiákov. No entanto, duas semanas após sua primeira visita, as mesmas idéias estranhas recomeçaram a atormentá-lo. Perguntava a si mesmo muitas vezes por que, na derradeira noite, na casa de Fiódor Pávlovitch, antes de sua partida, saíra de mansinho para a escada, como um ladrão, para escutar o que fazia seu pai no rés-do-chão.
Posteriormente, lembrou-se disso com desgosto. Sentiu-se de súbito angustiado no dia seguinte pela manhã em viagem e, ao aproximar-se de Moscou, dizia a si mesmo: "Sou um miserável!" Por que isso? Pensava mesmo uma vez que essas idéias penosas podiam fazer que esquecesse Catarina Ivânovna, quando encontrou Aliócha na rua. Deteve-o logo e perguntou-lhe:
— Lembras-te daquela tarde em que Dimítri irrompeu em casa de nosso pai e bateu nele? Disse-te mais tarde no pátio que me reservava "o direito de desejar". Dize-me, pensaste então que eu desejava a morte de nosso pai?
— Sim — disse mansamente Aliócha.
624
— Aliás, não era difícil adivinhar. Mas não pensaste também que eu desejava que os répteis se devorassem mutuamente, isto é, que Dimítri matasse nosso pai o mais depressa possível... e que eu mesmo o ajudaria nisso?
Aliócha empalideceu, olhou em silêncio para seu irmão, fitando-o bem nos olhos.
— Fala! — exclamou Ivã. — Quero saber o que pensaste. É-me precisa toda a verdade!
Sufocava e olhava de antemão Aliócha com um ar cheio de maldade.
— Perdoa-me, pensei isso também — murmurou Aliócha, sem acrescentar "circunstância atenuante".
— Obrigado — disse secamente Ivã, que prosseguiu seu caminho. Desde então, notou Aliócha que seu irmão o evitava e lhe testemunhava aversão, tanto que cessou suas Visitas. Logo depois desse encontro, voltara Ivã Fiódorovitch a ver Smierdiákov
VII
SEGUNDA ENTREVISTA COM SMIERDIÁKOV
Smierdiákov havia saído do hospital. Residia naquela casinha empe-nada que se compunha de duas peças reunidas por um vestíbulo. Maria Kondratievna e sua mãe habitavam uma, a outra era ocupada por Smierdiákov. Não se sabia exatamente a que título se instalara ele em casa delas; mais tarde, supôs-se que vivia como noivo de Maria Kondratievna e não pagava nada no momento. A mãe e a filha estimavam-no muito e consideravam-no superior a elas. Depois de ter batido, Ivã, segundo as indicações de Maria Kondratievna, entrou diretamente à esquerda na peça ocupada por Smierdiákov. Uma estufa de faiança desprendia um calor intenso. As paredes estavam ornadas de papel azul, mas rasgado, sob* o qual, nas fendas, formigavam as baratas, das quais se ouvia o barulho contínuo. O mobiliário era insignificante: dois bancos contra as paredes e duas cadeiras perto da mesa muito simples, coberta por uma toalha de ramagens côr-de-rosa. Sobre as janelas, gerânios; a um canto, imagens 625
santas. Sobre a mesa, um pequeno samovar de cobre, fortemente amassado, uma bandeja e duas xícaras. Mas estava apagado, Smierdiákov já havia tomado o chá... Estava sentado sobre um banco e escrevia num caderno. Ao lado dele, achavam-se um pequeno tinteiro e uma vela num candelabro de ferro fundido. Olhando Smierdiákov, teve Ivã a impressão de que estava ele completamente restabelecido. Tinha o rosto mais fresco, menos magro, os cabelos empomadados, um roupão de quarto pintalgado, forrado de algodão e bastante usado. Trazia óculos, o que era novidade para Ivã Fiódorovitch. Esse detalhe irritou-o: "Semelhante criatura usar óculos!" Smierdiákov ergueu lentamente a cabeça, fixou o visitante através de seus óculos; tirou-os, depois levantou-se displicentemente, menos em atitude de respeito do que para cumprir estrita polidez. Ivã notou tudo isso num piscar de olhos e sobretudo o olhar malévolo e mesmo orgulhoso de Smierdiákov. "Que vens fazer aqui? Já nos entendemos", parecia ele dizer. Ivã Fiódorovitch mal se continha.
— Faz calor aqui — disse, ainda de pé, desabotoando seu sobretudo.
— Tire-o — sugeriu Smierdiákov.
Ivã Fiódorovitch tirou seu sobretudo, pegou uma cadeira com suas mãos trêmulas, aproximou-a da mesa e sentou-se. Smierdiákov já havia retomado seu lugar.
— Em primeiro lugar, estamos sós? — perguntou severamente Ivã Fiódorovitch. — Não poderão ouvir-nos?
— Ninguém. O senhor viu que há um vestíbulo.
— Escuta, então. Que é que insinuavas quando te deixei, no hospital, dizendo que se eu não falasse de tua habilidade em simular epilepsia, tu não relatarias ao juiz toda a nossa conversa junto do portão? Que significa esse "toda"? Que entendias com isso? Era uma ameaça? Existe um acordo entre nós? Tenho medo de ti?
Ivã Fiódorovitch falava com cólera, dava claramente a entender que desprezava os rodeios, jogava cartas na mesa. Smierdiákov lançou um olhar mau, seu olho esquerdo pôs-se a piscar, como para dizer, com sua reserva habitual: "Queres ir diretamente ao caso, pois seja!"
— Queria dizer então que, prevendo o assassinato do seu próprio pai, o senhor deixou-o sem defesa. Era uma promessa de calar-me para 626
impedir julgamentos desfavoráveis de seus sentimentos ou mesmo de outra coisa.
Pronunciou Smierdiákov estas palavras sem se apressar, parecendo senhor de si, mas num tom áspero, provocante. Fixou Ivã Fiódorovitch com ar insolente.
— Como? O quê? Estás em teu bom senso?
— Estou em todo o meu bom senso.
— Estava eu então a par do assassinato? — exclamou Ivã, dando um formidável murro sobre a mesa. E que significa "de outra coisa"? Fala, miserável!
Smierdiákov calava-se, com a mesma insolência no olhar.
— Fala, pois, canalha infecto, dessa outra coisa!
— Pois bem! Queria eu dizer com aquilo que o senhor mesmo, talvez, desejasse vivamente a morte de seu pai.
Ivã Fiódorovitch levantou-se e bateu com todas as suas forças no ombro de Smierdiákov; este cambaleou até perto da parede, lágrimas inundaram-lhe o rosto. "É vergonhoso, senhor, bater em um homem sem defesa!"
Cobriu o rosto com seu sujo lenço de quadrados azuis e pôs-se a soluçar.
— Basta! Pára com isso! — disse imperiosamente Ivã, que tornou a sentar-se. — Não me leves aos extremos!
Smierdiákov descobriu seus olhos. Seu rosto enrugado exprimia vivo rancor.
— De modo que, miserável, acreditavas que, de conluio com Dimítri, queria eu matar meu pai?
— Não conhecia os seus pensamentos e foi para sonda-lo que o detive no corredor.
— Quê? Sondar o quê?
— Suas intenções. Se o senhor desejava que seu pai fosse prontamente assassinado!
627
O que exasperava Ivã Fiódorovitch era o tom altivo e impertinente de que não queria desistir Smierdiákov.
— Foste tu que o mataste! — exclamou ele, de repente. Smierdiákov sorriu, desdenhoso.
— O senhor sabe perfeitamente que não fui eu, e teria crido que um homem inteligente não insistiria nisso.
— Mas por que tiveste tal suspeita a meu respeito?
— Como o senhor sabe, é por medo. Porque estava em tal situação que desconfiava de todo mundo. Quis também sondá-lo porque, pensei, se o senhor estivesse de acordo com seu irmão, estaria eu perdido.
— Não falavas assim, há duas semanas.
— Subentendia a mesma coisa no hospital, supondo que o senhor compreenderia por meias palavras e que evitava uma explicação direta.
— Vejam só! Mas responde então, insisto: como pude inspirar em tua alma vil essa ignóbil suspeita?
— Matar pessoalmente, não era o senhor capaz disso, mas desejava que outrem o fizesse.
— Com que fleuma ele fala! Mas por que tê-lo-ia eu querido?
— Como? Por quê? E a herança? — disse perfidamente Smierdiákov. — Após a morte de seu pai, devia receber 40 000 rublos cada um, se não mais. Se Fiódor Pávlovitch, porém, tivesse desposado aquela senhora, Agrafiena Alieksándrovna, teria ela logo transferido o capital para seu nome, porque não é tola, de sorte que nada teria restado para os senhores três. Esteve isso por um fio; bastava que ela dissesse uma palavra e ele a teria acompanhado à igreja, todo enamorado. Ivã Fiódorovitch mal se podia conter.
— Está bem — disse por fim —, vês? nem te bati, nem te matei.
Continua. Então, na tua opinião, encarregara eu meu irmão Dimítri dessa tarefa, contava com ele?
— Certamente. Assassinando, perdia ele todos os seus. direitos, era degradado e deportado. Seu irmão Alieksiéi Fiódorovitch e o senhor herdariam a parte dele, e não seriam 40 000 rublos para cada um, mas 60
628
000 que lhes caberia. O senhor contava certamente com Dimítri Fiódorovitch.
— Pões minha paciência à prova! Escuta, patife, se tivesse contado naquele momento com alguém, seria contigo, e não com Dimítri, e, juro-o, pressentia alguma infâmia de tua parte... então... lembro-me de minha impressão!
— Eu também cri um instante que o senhor contava comigo — disse ironicamente Smierdiákov —, de sorte que o senhor se desmascarava ainda mais, porque se partia malgrado aquele pressentimento, isto re-vertia em dizer: podes matar meu pai, não me oponho a isso.
— Miserável! Havias compreendido isso.
— Pense um pouco: o senhor ia partir para Moscou, recusava, malgrado os rogos de seu pai, dirigir-se a Tchermachniá. E consente, de repente, a uma palavra minha! Que é que o levava àquela Tchermachniá?
Para partir assim sem razão, a meu conselho, era preciso que esperasse o senhor alguma coisa de mim.
— Não, juro que não — gritou Ivã, rangendo os dentes.
— Como não? O senhor deveria ter-me, pelo contrário, o senhor, o filho da casa, por causa daquelas palavras, conduzido à polícia e mandado chicotear-me... pelo menos surrar-me ali mesmo. Em lugar de zangar-se, segue conscienciosamente meu conselho, parte, coisa absurda, porque deveria ter ficado para defender seu pai... Que devia eu concluir?
Ivã tinha o ar sombrio, com os punhos crispados sobre os joelhos.
— Sim, lamento não te ter surrado então — disse, com um sorriso amargo. — Não podia levar-te à polícia, não me teriam acreditado sem provas. Mas surrar-te... ah! lamento não ter pensado nisso; muito embora as agressões físicas sejam proibidas, ter-te-ia amassado devidamente o focinho.
Smierdiákov observava-o quase com volúpia.
— Nos casos ordinários da vida — declarou ele, num tom satisfeito e doutorai, como quando discutia sobre a fé com Gregório Vassílievitch em casa de seu amo —, as agressões físicas estão realmente proibidas pela lei, renunciaram a tais brutalidades. mas nos casos excepcionais, entre nós 629
como no mundo inteiro, até mesmo na República Francesa, continuam a atacar-se violentamente como no tempo de Adão e Eva, e será sempre assim. No entanto, o senhor, mesmo num caso excepcional, não ousou.
— São palavras francesas que estás aprendendo ali? — perguntou Ivã, designando um caderno sobre a mesa.
— Por que não? Completo minha instrução com a idéia de que um dia talvez visitarei também eu aquelas felizes regiões da Europa.
— Escuta, monstro — disse Ivã, que tremia de cólera —, não temo tuas acusações, depõe contra mim tudo quanto queiras. Se não te matei, ainda há pouco, foi unicamente porque suspeito de ti como autor desse crime e quero entregar-te à justiça. Eu te desmascararei.
— Na minha opinião, o senhor faria melhor calando-se. Porque, que pode o senhor dizer contra um inocente e quem o acreditará? Mas se o senhor me acusar, contarei tudo. Preciso bem defender-me!
— Pensas que tenho medo de ti agora?
— Admitamos que a justiça não acredite em minhas palavras; em compensação o público acreditará e será uma vergonha para o senhor.
— Isto quer dizer que "dá gosto falar com um homem de espírito", não é? — perguntou Ivã, rangendo os dentes.
— O senhor o disse. Dê prova de espírito.
Ivã Fiódorovitch levantou-se, fremente de indignação, vestiu seu sobretudo e, sem mais responder a Smierdiakov, sem mesmo olhá-lo, precipitou-se para fora da isbá. O vento fresco da noite refrescou-o. Fazia luar.
As idéias e sensações turbilhonavam nele. "Ir denunciar agora Smierdiakov? Mas que dizer? Ele é, contudo, inocente. Será ele quem me acusará, pelo contrário. Com efeito, por que parti então para Tchermachniá? Com que fim? Certamente, esperava eu alguma coisa, ele tem razão... " Pela centésima vez, lembrava-se de como, na derradeira noite passada em casa de seu pai, se mantinha ele na escada, à escuta, e isto lhe causava tal sofrimento que chegou mesmo a parar, como que traspassado:
"Sim, esperava aquilo, então, é verdade! Quis o assassinato! Eu o quis mesmo? Preciso matar Smierdiakov!... Se não tiver a coragem disso, não vale a pena viver!... " Ivã seguiu diretamente para a casa de Catarina Ivânovna, que ficou espantada com o ar desvairado dele. Repetiu-lhe toda 630
a sua conversa com Smierdiakov, até a mínima palavra. Se bem que se esforçasse ela por acalmá-lo, andava ele para lá e para cá, proferindo frases incoerentes. Sentou-se afinal, pôs os cotovelos sobre a mesa, com a cabeça entre as mãos e fez uma reflexão estranha:
— Se não foi Dimítri, mas Smierdiakov, sou seu cúmplice, porque fui eu que o impeli ao crime. Impéli-o eu mesmo? Não o sei ainda. Mas se foi ele que matou e não Dimítri, sou também um assassino.
A estas palavras, Catarina Ivânovna levantou-se em silêncio, foi à sua escrivaninha e tirou de uma caixinha um papel que colocou diante de Ivã. Era o. documento a respeito do qual falara mais tarde a Aliócha como duma prova formal da culpabilidade de Dimítri. Era uma carta escrita a Catarina ivânovna por Mítia, em estado de embriaguez, na noite de seu encontro com Aliócha, quando este voltava ao mosteiro depois da cena em que Grúchenhka insultara sua rival. Depois de tê-lo deixado, correu Mítia à casa de Grúchenhka, não se sabe se ele a viu, mas acabou a noite no botequim A Capital, onde se embriagou completamente. Nesse estado pediu uma pena, papel e rabiscou um documento importante. Era uma carta prolixa, incoerente, digna de um bêbado. Dir-se-ia um ébrio, que, de volta à sua casa, conta com animação à sua mulher ou aos que o cercam que um canalha acaba de insultá-lo, a ele, homem decente, mas que haverá de arrancar-lhe o couro; o homem fala a mais não poder, pontuando de murros sobre a mesa sua narrativa incoerente, comovido até as lágrimas. O panei de carta que lhe tinham dado no botequim era uma folha grosseira, suja, trazendo nas costas uma conta. Faltando espaço para aquele falatório de bêbado, Mítia enchera as margens e escrevera as derradeiras linhas atravessando o texto. Eis o que dizia a carta:
Cátia fatal, amanhã arranjarei dinheiro c te restituirei os teus 3 000 rublos.
Adeus, mulher rancorosa, adeus também, meu amor! Acabemos com isso!
Amanhã, irei pedir dinheiro a todo mundo, se me recusarem, dou-te minha palavra de honra de que irei à casa de meu pai, quebrar-lhe-ei a cabeça e me apoderarei do dinheiro debaixo de seu travesseiro, contanto que Ivã tenha partido.
Irei parar no presídio, mas restituir-te-ei os teus 3 000 rublosf Adeus. Saúdo-te até o chão, em comparação contigo sou um miserável. Perdoa-me. Ou antes, não, não me perdoes; estaremos mais à vontade, tu e eu! Prefiro o presídio ao teu amor, por que amo outra, tu a conheces demasiado desde hoje. Como poderias perdoar?
Matarei aquele que me despojou! Abandonarei vocês todos para partir para o 631
Oriente, não mais ver ninguém, "ela" tampouco, porque não és a única a me fazer sofrer. Adeus!
P. S. Eu te amaldiçôo, e contudo adoro-te! Sinto meu coração bater, resta nele uma corda que vibra por ti. Ah! Ê preferível que ele rebente! Eu me matarei, mas matarei em primeiro lugar o monstro, arrancar-lhe-ei os 3 000 rublos e os atirarei a teus pés. Serei um miserável a teus olhos, mas não um ladrão! Aguarda os 3 000. Estão na casa do cão maldito, debaixo de seu colchão, amarrados por uma fita côr-de-rosa. Não sou eu o ladrão, matarei o homem que me roubou. Cátia, não me desprezes. Dimítri é um assassino, mas não é um ladrão! Matou seu pai e se perdeu, para não ter de suportar o teu orgulho. E para não te amar.
PP. S. Beijo-te os pés, adeus!
PP. SS. Cátia, roga a Deus para que me dêem dinheiro. Então não derramarei sangue, mas, se mo recusarem, eu o derramarei. Mata-me!
Teu escravo e teu inimigo.
D. KARAMÁZOV
Depois de ter lido esse "documento", Ivã ficou convencido. Fora seu irmão quem matara e não Smierdiákov. Se não fora Smierdiákov, não fora pois ele, Ivã. Aquela carta constituía a seus olhos uma prova categórica.
Para ele, não podia mais haver dúvida alguma sobre a culpabilidade de Mítia. A propósito, Ivã jamais suspeitara de uma cumplicidade entre Mítia e Smierdiákov, isto não concordava com os fatos. Estava completamente tranqüilizado. No dia seguinte, só se lembrou com desprezo de Smierdiákov e de suas zombarias. Ao fim de alguns dias, admirou-se mesmo de ter podido ofender-se tão cruelmente com as suspeitas dele.
Resolveu esquecê-lo totalmente. Passou-se assim um mês. Soube por acaso que Smierdiákov estava doente de corpo e espírito. "Esse indivíduo ficará louco", dissera a respeito dele o jovem médico Varvínski. Cerca do fim do mês, o próprio Ivã começou a sentir-se bastante mal. Consultara mesmo o médico mandado vir de Moscou por Catarina Ivânovna. Pela mesma época as relações entre eles azedaram-se ao extremo. Eram como dois inimigos amorosos um do outro. Os regressos de Catarina Ivânovna para Mítia, passageiros mas violentos, exasperavam Ivã. Coisa estranha, até a derradeira cena em presença de Aliócha, quando voltou este da prisão, ele, Ivã, jamais ouvira, durante todo o mês, Catarina Ivânovna duvidar da 632
culpabilidade de Mítia, malgrado seus regressos a ele, que lhe eram tão odiosos. Era também de notar que, sentindo seu ódio por Mítia crescer cada dia, compreendesse Ivã ao mesmo tempo que o odiava não por causa dos regressos a ele de Catarina Ivânovna, mas por ter matado o pai deles!
Dava-se perfeitamente conta disso. Não obstante, dez dias antes do julgamento, fora ver Mítia e lhe propusera um plano de evasão, evidentemente concebido desde muito tempo. Fora esse passo inspirado em parte pelo despeito que lhe causava a insinuação de Smierdiákov, de que ele, Ivã, tinha interesse em que seu irmão fosse condenado, porque sua parte da herança e a de Aliócha subiria de 40 000 para 60 000 rublos. Decidira sacrificar 30 000 para fazer Mítia evadir-se. Ao voltar da prisão, estava triste e perturbado, teve de súbito a impressão de que desejava aquela evasão não somente para fazer desaparecer assim o seu despeito, mas por outra razão. "Seria porque, no fundo de minha alma, seja também um assassino?", perguntara a si mesmo. Estava vagamente inquieto e ulcerado.
Sobretudo, durante aquele mês, seu orgulho muito sofrerá, mas tornaremos a falar disso...
Quando Ivã Fiódorovitch, após sua conversa com Aliócha e já à porta de sua casa, resolvera ir à casa de Smierdiákov, obedecia a uma indignação súbita que dele se havia apoderado. Lembrou-se de repente de que Catarina lvânovna acabava de exclamar em presença de Aliócha:
"Foste tu, tu somente, que me persuadiste de que ele (isto é, Mítia) era o assassino!" Ao lembrar-se disso, ficou Ivã estupefato; jamais lhe assegurara a culpabilidade de Mítia, pelo contrário, chegara a suspeitar de si mesmo em presença dela, ao voltar da casa de Smierdiákov. Em compensação, fora "ela" que lhe exibira então aquele documento e demonstrara a culpabilidade de seu irmão! E agora ela exclamava: "Eu mesma fui à casa de Smierdiákov!" Quando isso? Ivã nada sabia. Não estava ela então bem convencida. E que tinha podido dizer-lhe Smierdiákov? Teve um acesso de furor. Não compreendia como, uma meia hora antes, pudera deixar passar aquelas palavras sem se espantar. Largou o cordão da campainha e dirigiu-se à casa de Smierdiákov. "Eu o matarei talvez, agora!", pensava pelo caminho.
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