Os Irmãos Karamázov

Fiódor Dostoiévski · Capítulo 14 de 50

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Os Irmãos Karamázov

Capítulo 13

— O diabo existe?

— Não, não existe.

— Tanto pior. Não sei o que teria eu feito ao primeiro fanático que inventou Deus. Enforcá-lo seria insuficiente!

— Sem essa invenção, não haveria civilização.

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— Deveras? Sem Deus?

— Sim. E não haveria conhaque tampouco. Vai ser preciso retirá-lo.

— Espera, espera! Ainda um copito! Ofendi Aliócha. Não me queres mal, não é, meu queridinho Alieksiéitchik?

— Não, não lhe quero mal. Conheço seus pensamentos. Seu coração vale mais que sua cabeça.

— Meu coração vale mais que minha cabeça? De quem são essas palavras? Ivã, gostas de Aliócha?

— Sim, amo-o.

— Ama-o (Fiódor Pávlovitch estava meio embriagado). Escuta, Aliócha, fui grosseiro há pouco com teu stáriets, mas estava superexcitado. É

um homem inteligente, que achas, Ivã?

— Poderia ser.

— Decerto, il y a du Piron là-dedans13 É um jesuíta russo. A necessidade de representar a comédia, de usar uma máscara de santidade, indigna-o interiormente, porque é um caráter nobre.

— Mas ele crê em Deus.

— Nem 1 copeque. Não o sabias? Ele mesmo fala disso a todo mundo, ou antes, a todas as pessoas inteligentes que vão vê-lo. Declarou sem rebuços ao Governador Schultz: "Creio, mas ignoro em quê".

— Deveras?

— É textual. Mas estimo-o. Há nele alguma coisa de Mefistófeles, ou melhor do Um Herói de Nosso Tempo.. . Arbiénin, é este mesmo seu nome?.., Vês tu? É um sensual, e a tal ponto que não estaria tranqüilo, mesmo agora, se minha mulher ou minha filha fossem confessar-se com ele.

Quando começa ele a contar, se tu soubesses... Há três anos, convidou-nos a tomar chá, com licores (porque as damas enviam-lhe licores); pôs-se a descrever sua vida de outrora, de modo que a gente só faltava morrer de rir... e como teve de avir-se para curar uma senhora... "Se não tivesse dor nas pernas", disse ele, "dançaria para vocês certa dança. " Hein? Que 13 Há Piron dentro disso.

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sujeito! "Eu também levei vida alegre", acrescentou ele. Extorquiu 60 000

rublos ao negociante Diemídov.

— Como? Roubando-o?

— O outro havia-se confiado a ele, acreditando-o um homem de honra. "Guarde-os para mim, amanha vão passar minha casa em revista. "

O santo homem guardou tudo. "Tu os deste para a igreja", disse ele. Disselhe que era ele um tratante. "Não", replicou ele, "mas tenho idéias largas...

" De resto, é de um outro que se trata. Confundi... sem dar por isso. Ainda um copinho e pronto. Leva a garrafa, Ivã. Por que não me detiveste nas minhas mentiras?

— Sabia que o senhor mesmo se deteria.

— É falso, somente por maldade não disseste nada. No fundo, tu me desprezas. Vieste à minha casa para mostrar teu desprezo.

— Vou-me embora; o conhaque começa a subir-lhe à cabeça.

— Pedi-te insistentemente que fosses passar um ou dois dias em Tchermachniá, mas não fizeste caso.

— Partirei amanhã, já que faz tanta questão.

— Não há perigo. Queres espionar-me; tal é teu fito, maldito, e o que te retém aqui.

O velho não se acalmava. Estava naquele ponto em que certos bebedos, até então pacíficos, fazem de repente questão de se mostrarem malvados.

— Que tens para me olhares assim? Teus olhos me dizem: "Vil beberrão". Revelam desconfiança e desprezo. És um velhaco astuto. O

olhar de Aliócha resplandece. Ele não me despreza. Alieksiéi, cuida de não amar Ivã.

— Não se zangue contra meu irmão! Basta de ofendê-lo — proferiu Aliócha, num tom firme.

— Pois bem, seja! Ah! que dor de cabeça! Ivã, leva o conhaque, pela terceira vez to digo. — Pôs-se a pensar e mostrou de súbito um sorriso astuto. — Não te zangues, Ivã, contra um pobre velho. Não gostas de mim, eu o sei, mas não te zangues. Não há razão para amar-me. Partirás para 143