Os Irmãos Karamázov

Fiódor Dostoiévski · Capítulo 50 de 50 · parte 1/5

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Os Irmãos Karamázov

Capítulo 54

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.

— Permita-me uma pergunta — começou o defensor com um sorriso amável e quase atencioso. — É mesmo o Senhor Rakitin, autor de uma brochura editada pela autoridade diocesana, Vida do Bem-Aventurado Padre Zósima, cheia de pensamentos religiosos, profundos, com uma dedicatória bastante piedosa a Sua Grandeza e que eu li recentemente com muito prazer?

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— Não estava destinada a aparecer... publicaram-na depois — murmurou Rakitin, que parecia desconcertado.

— Está muito bem. Um pensador como o senhor pode e mesmo deve interessar-se pelos fenômenos sociais. Sua brochura, graças à proteção de Sua Grandeza, o Senhor Bispo, divulgou-se e prestou serviço...

Mas eis o que estaria eu curioso de saber: o senhor acaba de

declarar que conhecia intimamente a Senhora Svietlova? 54 (Nota bene. Tal era o nome de família de Grúchenhka. Ignorava-o até aquele dia. )

— Não posso responder por todas as minhas amizades... Sou jovem...

Aliás, quem o poderia? — disse Rakitin, corando.

— Compreendo, compreendo perfeitamente! — disse Fietiukóvitch, fingindo-se confuso e como que pressuroso em desculpar-se. — O senhor poderia, como não importa quem, interessar-se por uma mulher jovem e bonita, que recebia em sua casa a flor da juventude local, mas... eu queria somente informar-me; sabemos que há dois meses, desejava vivamente a Senhora Svietlova conhecer o mais moço dos Karamázovi, Alieksiéi Fiódorovitch. Ela lhe prometera 25 rublos, se o senhor lho levasse com sua batina religiosa. A visita ocorreu na noite mesma do drama que provocou o processo atual. Recebeu o senhor então da Senhora Svietlova 25 rublos de recompensa? Eis o que queria que o senhor me dissesse.

— Era uma brincadeira... Não vejo em que isto possa interessá-lo.

Recebi esse dinheiro por brincadeira... para restituí-lo em seguida.

— Por conseqüência, o senhor aceitou-o. Mas ainda não o restituiu...

ou talvez já?

— Uma bagatela... — murmurou Rakítin. — Não posso responder a tais perguntas... Decerto, haverei de restituí-lo.

O presidente interveio, mas o defensor declarou que não tinha mais nada a perguntar ao Senhor Rakítin. Este retirou-se um tanto envergonhado. O prestígio da personagem ficou assim abalado, e Fietiukovitch, acompanhando-o com olhar, parecia dizer ao público: "Eis o que valem vossos acusadores!" Mítia, furioso por causa do tom com que Rakítin se referira a Grúchenhka, gritou de seu lugar: "Bernard!" Quando o 54 Nome forjado. Derivado de sviet, luz, claridade.

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presidente lhe perguntou se tinha alguma coisa a dizer, exclamou:

— Ia ele ver-me na prisão para arrancar-me dinheiro, esse miserável, esse ateu. Mistificou Sua Grandeza, o Senhor Bispo! Mítia foi naturalmente chamado à ordem, mas o Senhor Rakítin ficou liquidado. O testemunho do Capitão Snieguiriov não logrou êxito, por uma razão bem diversa. Apareceu esfarrapado, de roupa suja e, malgrado as medidas de precaução e o exame prévio, encontrou-se em estado de embriaguez. Recusou responder a respeito do caso do insulto que lhe fizera Mítia.

— Deus lhe perdoe! Iliúcha proibiu-o. Deus me recompensará lá em cima.

— Quem o proibiu de falar?

— Iliúcha, meu menino: "Bátiuchka, bátiuçhka, como ele te humilhou!" Dizia isto perto da pedra. Agora, está morrendo.

O capitão se pôs subitamente a soluçar e deixou-se cair aos pés do presidente. Levaram-no logo, entre as risadas da assistência. O efeito com que contava o procurador malogrou-se.

O defensor continuou a usar de todos os meios, causando admiração cada vez mais pelo seu conhecimento do caso, até nos seus menores detalhes. Assim, o depoimento de Trifon Borísovitch tinha causado viva impressão, naturalmente das mais desfavoráveis ao acusado. Segundo ele, Mítia, por ocasião de sua primeira estada em Mókroie, deveria ter gasto pelo menos 3 000 rublos, "mais ou menos. Quanto dinheiro foi gasto, só com os cigarros! Quanto aos nossos mujiques piolhentos, não eram 50

copeques mas 25 rublos no mínimo que distribuía a cada um. E quanto lhe roubaram! Os ladrões não se gabaram disso. Como reconhecê-los, entre tamanhas liberalidades? Nossa gente são uns bandidos, desprovidos de consciências. E as moças, que não tinham um vintém, estão ricas agora".

Em suma, lembrava cada despesa e fazia conta de tudo. Isto arruinava a hipótese de 1 500 rublos gastos e do restante guardado no amuleto. "Vi eu mesmo os 3 000 rublos em suas mãos, vi com os meus próprios olhos e sabemos o que é dinheiro, ora se não sabemos!" Sem tentar prejudicar-lhe o depoimento, o defensor lembrou que o cocheiro Timofiéi e outro mujique, Akim, tinham encontrado no vestíbulo, por ocasião da primeira 683

viagem a Mókroie, um mês antes da detenção, 100 rublos perdidos por Mítia, que estava embriagado, e os haviam entregue a Trifon Borísovitch, que deu 1 rublo a cada um. "Pois bem! devolveu o senhor então esse dinheiro ao Senhor Karamázov, sim ou não?" Trifon Borísovitch, malgrado seus rodeios, confessou a coisa, depois que foram interrogados os mujiques, afirmando ter restituído o dinheiro a Dimítri Fiódorovitch,

"com toda a honestidade, mas estando este embriagado na ocasião, não podia lembrar-se disso".

Ora, como tivesse negado o achado antes, sua restituição a Mítia embriagado inspirava naturalmente dúvidas. Desta maneira, uma das testemunhas de acusação mais perigosas tornava-se suspeita e atingida na sua reputação. Foi a mesma coisa com os poloneses; entraram com ar desenvolto, atestando que haviam "servido à coroa" e que "pan Mítia lhes oferecera 3 000 rublos para comprar-lhes a honra". Pan Mussialóvitch esmaltava suas frases com palavras polonesas e vendo que isto lhe dava importância aos olhos do presidente e do procurador, tornou-se ousado e se pôs a falar em polonês. Mas Fietiukóvitch apanhou-os também em suas redes; malgrado suas hesitações, Trifon Borísovitch, chamado de novo à barra, teve de reconhecer que pan Vrabliévski substituíra um baralho de cartas ao dele, e que pan Mussialóvitch, presidindo a banca, trapaceava.

Isto foi confirmado por Kolgánov por ocasião de seu depoimento, e os panówie retiraram-se um tanto envergonhados, entre os risos da assistência.

As coisas se passaram da mesma maneira com quase todas as testemunhas mais importantes. Fietiukóvitch conseguiu desconsiderar cada uma delas e apanhá-las em falta. Os amadores e os juristas admiravam-no, enquanto perguntavam a si mesmos para que podia servir aquilo, porque, repito-o, a acusação parecia cada vez mais irrefutável e trágica. Mas via-se, pela segurança do "grande mago", que ele estava tranqüilo e esperava-se: não era homem para vir de Petersburgo para nada e para lá voltar sem resultado.

III

A PERÍCIA MÉDICA E 1 LIBRA DE AVELÃS

A perícia médica tampouco foi favorável ao acusado. Aliás, Fietiukóvitch mesmo não contava muito com ela, como bem se viu. No fundo, 684

realizou-se unicamente por insistência de Catarina Ivanovna, que mandara chamar um famoso médico de Moscou. A defesa, certamente, nada podia perder com isso, podia mesmo ganhar, no caso mais favorável.

Misturou-se nisso certo elemento cômico em conseqüência de um desacordo entre os médicos. Os peritos eram o famoso médico em questão, o Doutor Herzenstube, de nossa cidade, e o jovem médico Varvínski. Os dois últimos figuravam também na qualidade de testemunhas citadas pelo procurador. O primeiro chamado foi o Doutor Herzenstube, setuagenário grisalho, atingido de calvície, de estatura mediana e constituição robusta.

Bastante estimado e respeitado em nossa cidade, era um médico consciencioso, excelente homem pio, uma espécie de irmão morávio.

Desde muito tempo estabelecido entre nós, tinha grande dignidade em suas maneiras. Filantropo, tratava gratuitamente os pobres e os camponeses, visitava os casebres e as isbás, deixando dinheiro para os remédios, mas era teimoso como uma mula. Impossível fazê-lo desistir duma idéia. A propósito, quase todo mundo na cidade sabia que o famoso médico, chegado de pouco, já se permitira fazer observações bastante descorteses a respeito da capacidade do Doutor Herzenstube. Se bem que o médico de Moscou não cobrasse menos de 25 rublos por visita, houve pessoas que aproveitaram de sua estada para consultá-lo. Eram naturalmente clientes de Herzenstube e o famoso médico criticou por toda parte o tratamento dele da maneira mais acerba. Acabou por perguntar ao doente, ao entrar: "Então, quem o atochou de drogas, Herzenstube? Eh! eh!

eh!" Este, bem entendido, veio a saber. Portanto, os três médicos apareceram como peritos. O Doutor Herzenstube declarou que "o acusado era visivelmente anormal do ponto de vista mental". Depois de ter exposto suas considerações, que omito aqui, acrescentou que essa anomalia resultava não só da conduta anterior do acusado, mas se observava presentemente, e, quando lhe pediram que se explicasse, declarou o velho doutor com ingenuidade que o acusado, ao entrar, "tinha um ar espantoso, em vista das circunstâncias, caminhava como um soldado, olhando diretamente à sua frente, quando deveria voltar os olhos para a esquerda, onde se conservavam as senhoras, porque era grande amador do belo sexo e devia preocupar-se com o que elas diriam dele", concluiu o velho na sua linguagem original. Exprimia-se voluntária e longamente em russo, mas cada uma de suas frases tinha um torneio alemão, o que não o perturbava de modo algum, porque imaginara toda a sua vida que falava excelente-685

mente o russo, melhor mesmo que os russos, e gostava muito de citar os provérbios, afirmando cada vez que os provérbios russos são os melhores e os mais expressivos de todos. Na conversação, por distração talvez, esquecia por vezes as palavras mais comuns, que conhecia perfeitamente, mas que lhe fugiam de repente. O mesmo acontecia quando falava alemão; viam-no então agitar a mão diante de seu rosto como para agarrar a expressão perdida, e ninguém teria podido obrigá-lo a continuar antes que a tivesse tornado a encontrar. Sua observação de que o acusado deveria ter, ao entrar, olhado para as senhoras divertiu a assistência. O velho era muito querido de nossas damas. Sabiam que, tendo ficado celibatário, piedoso e de costumes puros, considerava as mulheres criaturas ideais e superiores. Assim, sua observação inesperada pareceu das mais estranhas.

O médico de Moscou declarou categoricamente por sua vez que tinha o estado mental do acusado como normal, mesmo em supremo grau.

Discorreu sapientemente sobre a obsessão e a mania e concluiu que, de acordo com todos os dados recolhidos, o acusado, já vários dias antes de sua detenção, se achava presa duma obsessão mórbida incontestável, e se cometera um crime, se bem que tivesse dele consciência, era quase involuntariamente, sem ter a força de resistir ao impulso que o impelia.

Mas, além da obsessão, notara o doutor a mania, o que constituía, na sua opinião, um primeiro passo para a demência completa. (N. B. Uso dos meus próprios termos, pois o doutor exprimia-se numa linguagem científica e especial. ) "Todos os seus atos estão em contradição com o bom senso e a lógica", prosseguiu ele. "Sem falar do que não vi, isto é, do crime e de todo esse drama, anteontem, conversando comigo, tinha um olhar fixo e inexplicável. Ria bruscamente e sem motivo, presa duma verdadeira irritação permanente e incompreensível. Proferia palavras estranhas: Bernard, a ética e outras coisas que não vêm ao caso. " Mas o doutor notava sobretudo essa mania no fato de que o acusado não podia falar sem exasperação dos 3 000 rublos de que se julgava frustrado, ao passo que ficava relativamente calmo ao lembrar-se das outras ofensas e fracassos sofridos. Enfim, parecia que, já antes, ficava furioso a respeito desses 3 000 rublos e, no entanto, assegura-se que não é ele interesseiro, nem cúpido. "Quanto à opinião de meu sábio colega", concluiu com ironia o doutor de Moscou, "de que o acusado, ao entrar, deveria ter olhado para as senhoras em vez de fazê-lo diretamente à sua frente, é uma asserção engraçada, mas radicalmente errônea, porque, muito embora convenha eu 686

que o acusado, ao entrar na sala em que se decide sua sorte, não deveria ter tido um olhar tão fixo e que isso poderia com efeito revelar uma perturbação mental, afirmo ao mesmo tempo que deveria ter ele olhado não para a esquerda, para as senhoras, mas para a direita, procurando com os olhos seu defensor, aquele em quem espera e do qual depende sua sorte. " O doutor formulara sua opinião num tom imperioso. Mas o desacordo entre os dois peritos pareceu particularmente cômico após a conclusão inesperada do Doutor Varvínski, que lhe sucedeu. Segundo ele, o acusado, agora como então, era absolutamente normal, e muito embora antes de sua detenção devesse encontrar-se numa superexcitação extraordinária, podia isto provir das causas mais evidentes: ciúme, cólera, embriaguez contínua, etc. Mas aquele nervosismo nada tinha que ver com "a obsessão", de que acabavam de falar. Quanto a saber para onde devia olhar o acusado ao entrar na sala, "na minha humilde opinião, deveria olhar diretamente à sua frente, como o havia feito na realidade, com os olhos fixos sobre os juizes dos quais dependia doravante sua sorte, de modo que por isso mesmo demonstrara seu estado perfeitamente normal naquele instante", concluiu o jovem médico com alguma animação.

— Bravo, curandeiro! — gritou Mítia. — É isto mesmo! Fizeram Mítia calar-se, mas aquela opinião teve influência decisiva sobre tribunal e público, porque toda a gente dela partilhou, como se viu posteriormente. O Doutor Herzenstube, ouvido como testemunha, serviu inopinadamente aos interesses de Mítia. Na qualidade de velho habitante, conhecia desde muito tempo a família Karamázov, forneceu algumas informações bastante interessantes para a acusação e continuou:

— No entanto, o pobre rapaz merecia melhor sorte, porque tivera bom coração na sua infância e mesmo depois, eu o sei. Um provérbio russo diz: "Bom é que o homem tenha juízo, porém melhor é ainda que o acompanhe outro homem de juízo, pois assim serão dois juízos e não um só... "

— Dois juízos valem mais que um — declarou com impaciência o procurador, que conhecia o hábito do velho de falar com lentidão e prolixidade, sem se perturbar com a impressão produzida e com a perda de tempo que causava, afeiçoado ao contrário à sua pesada facúndia germânica. O velho gostava de mostrar-se espirituoso.

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— Isto mesmo! É o que digo — continuou ele, com tenacidade: —

Dois juízos valem mais do que um. Mas ele ficou só e o dele se foi... Onde o largou ele? Esqueci-me da palavra — prosseguiu, agitando

a mão diante dos olhos. — Ah! sim! spazieren. 55

— A passear?

— Isto mesmo! É o que digo. Seu juízo saiu, pois, a vagabundear e perdeu-se. E no entanto, era um jovem grato e sensível; lembro-me dele quando era pequeno, abandonado em casa de seu pai no quintal, quando corria de pés descalços, com um botão só nas calças. — A voz do honesto velho matizou-se de emoção. Fietiukóvitch estremeceu como se pressentisse alguma coisa.

— Sim, era eu mesmo ainda. jovem então... Tinha 45 anos e acabava de chegar aqui. Tive piedade da criança e disse a mim mesmo: "Por que não comprar 1 libra para ele?... " Pois sim! Uma libra de quê? Esqueci como isso se chama... 1 libra do que as crianças gostam muito, como é mesmo?... — E o doutor agitou de novo as mãos. — Cresce numa árvore, colhem-no.

— Maçãs?

— Oh! n-não! Vendem-se às libras, ao passo que as maçãs se ven-dem às dúzias, não a peso... há muitas, são pequeninas, a gente mete-as na boca e craque!...

— Avelãs?

— Isto mesmo! Avelãs, é o que digo — confirmou o doutor, im-perturbável, como se não tivesse procurado a palavra. — E levei ao menino 1 libra de avelãs; nunca as recebera. Levantei o dedo e disse: "Meu rapaz! Gott der Vater". Ele pôs-se a rir e repetiu: "Gott der Vater". "Gott der Sohn. " Ele riu de novo e gorjeou: "Gott der Sohn". "Gott der heilige Geist"

Ele riu ainda e esforçou-se para dizer: "Gott der heilige Geist" * Dois dias depois, quando eu passei, ele mesmo gritou para mim: "Meu senhor, Gott der Vater, Gott der Sohn". Esquecera-se de Gott der heilige Geist, mas eu lho recordei e ele de novo me causou compaixão. Levaram-no e não mais o vi.

Vinte e três anos depois, encontrava-me uma manhã em meu consultório, 55 Passear, em alemão

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com a cabeça já branca, quando entra um jovem em pleno viço e que não fui capaz de reconhecer; levantou o dedo e disse rindo:

"Gott der Vater, Gott der Sohn und Gott der heilige Geist! 56 Cheguei ainda há pouco e venho agradecer-lhe a libra de avelãs, porque ninguém nunca as comprara para mim, foi o senhor o único". Lembrei-me então de minha feliz juventude e do pobre menino descalço. Fiquei comovido e disse-lhe: "És um jovem agradecido, já que não te esqueceste daquela libra de avelãs que te levei na tua infância". Apertei-o em meus braços e abençoei-o. E chorei. Ele ria...

porque o russo ri muitas vezes em ocasiões em que devia chorar. Mas ele chorava também, vi-o. E agora, ai!...

— E agora choro eu, alemão, e agora choro eu, homem de Deus! —

gritou de repente Mítia.

Seja como fôr, aquela anedota produziu uma impressão favorável.

Mas o principal efeito em favor de Mítia foi causado pelo depoimento de Catarina Ivânovna, do qual vou falar. Em geral, quando chegou a vez das testemunhas de defesa, a sorte pareceu sorrir a Mítia e, o que é mais de notar, inopinadamente para a própria defesa. Mas antes de Catarina Ivânovna, interrogaram Aliócha, que se lembrou de súbito de um fato que parecia refutar positivamente um dos pontos mais importantes da acusação.

IV

A SORTE SORRI A MÍTIA

Isso ocorreu improvisadamente mesmo para Aliócha. Não prestara juramento e desde o começo fora objeto duma viva simpatia, tanto de um lado quanto do outro. Via-se que seu bom renome o precedia. Aliócha mostrou-se modesto e reservado, mas seu afeto por seu desgraçado irmão transparecia em seu depoimento. Caracterizou-o como um ser sem dúvida violento e arrebatado pelas suas paixões, mas nobre, altivo, generoso, capaz de se sacrificar se lho pedissem. Reconheceu aliás que para o fim a paixão de Mítia por Grúchenhka, sua rivalidade com seu pai, haviam-no posto numa posição intolerável. Mas repeliu com indignação a hipótese de 56 Deus Pai, Deus Filho, Deus Espírito Santo.

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que seu irmão tivesse podido matar para roubar, embora convindo que aqueles 3 000 rublos tinham-se tornado uma obsessão no espírito de Mítia, que os considerava como uma parte de sua herança, fraudulentamente desviada por seu pai, e não podia falar-se deles sem ficar furioso. Quanto à rivalidade das duas "pessoas", como dizia o procurador, exprimiu-se evasivamente e recusou mesmo responder a uma ou duas perguntas.

— Seu irmão lhe disse que tinha a intenção de matar seu pai? —

perguntou o procurador. — O senhor pode não responder, se isto lhe convier.

— Diretamente não mo disse.

— Indiretamente, então?

— Falou-me uma vez de seu ódio por seu pai, temia... num momento de exasperação, ser capaz de matá-lo.

— E o senhor acreditou nele?

— Não ouso afirmá-lo. Sempre pensei que um sentimento elevado o salvaria no momento fatal, como aconteceu, com efeito, porque não foi

"ele" quem matou meu pai — disse Aliócha, com uma voz forte que ressoou. O procurador estremeceu como um cavalo de batalha ao som do clarim.

— Esteja certo de que não duvido da sinceridade de sua convicção, independentemente de seu amor fraternal por esse infeliz. O inquérito já nos revelou sua opinião original sobre o trágico episódio que se desenrolou em sua família. Mas não lhe oculto que ela é isolada e contraditada pelos outros depoimentos. De modo que estimo necessário insistir para conhecer os dados que o convenceram definitivamente da inocência de seu irmão e da culpabilidade de uma outra pessoa que o senhor designou no inquérito.

— No inquérito, respondi somente às perguntas — disse Aliócha com calma. — Não formulei acusação contra Smierdiákov.

— Contudo, o senhor designou-o.

— De acordo com as palavras de meu irmão Dimítri. Sabia que, por ocasião de sua detenção, acusara Smierdiákov. Estou persuadido da inocência de meu irmão. E se não foi ele quem matou, então...

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— Foi Smierdiákov? Por que ele precisamente? E por que está o senhor tão convencido da inocência de seu irmão?

— Não podia duvidar dele. Sei que ele não mente. Vi, pelo seu rosto, que ele me dizia a verdade.

— Somente pelo seu rosto? São essas todas as suas provas?

— Não tenho outras.

— E não tem outras provas da culpabilidade de Smierdiákov senão as palavras de seu irmão e a expressão de seu rosto?

— Não.

O procurador não insistiu. As respostas de Aliócha decepcionaram profundamente o público. Tinha-se falado de Smierdiákov, corria o boato de que Aliócha reunia provas decisivas em favor de seu irmão e contra o lacaio. Ora, ele nada trazia, senão uma convicção moral, bem natural no irmão do acusado. Chegou a vez de Fietiukóvitch, que perguntou a Aliócha em que momento o acusado lhe falara de seu ódio por seu pai e de suas veleidades de assassínio, e se fora, por exemplo, por ocasião de sua derradeira entrevista antes do drama. Aliócha estremeceu como se uma lembrança lhe voltasse.

— Lembro-me agora de uma circunstância que tinha completamente esquecido. Não era claro então, mas agora...

E Aliócha contou com animação que, quando viu seu irmão pela última vez, à noite, debaixo de uma árvore, ao voltar para o mosteiro, Mítia, batendo no peito, lhe repetira várias vezes que possuía o meio de reerguer sua honra, que esse meio estava ali, sobre seu peito... "Acreditei então que, ao bater no peito, falava de seu coração", prosseguiu Aliócha,

"das forças que podia ali colher para escapar a uma vergonha horrenda que o ameaçava e que ele não ousava mesmo confessar-se. Na verdade, pensei então que falasse de seu pai e fremisse de vergonha à idéia de tratá-lo com violência; no entanto, parecia designar alguma coisa sobre seu peito, de modo que, lembro-me, veio-me a idéia de que o coração se encontra mais embaixo, ao passo que ele batia bem mais alto, aqui, abaixo do pescoço, e designava sempre esse lugar. Minha idéia pareceu-me absurda, mas designava talvez precisamente o amuleto onde estavam costurados os 1 500 rublos!...

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— Precisamente — gritou de súbito Mítia. — É isso, Aliócha, era sobre ele que eu batia.

Fietiukóvitch rogou-lhe que se acalmasse, depois voltou a Aliócha.

Este, arrebatado pela sua recordação, emitiu calorosamente a hipótese de que aquela vergonha provinha sem dúvida de que, tendo consigo aqueles 1 500 rublos que teria podido restituir a Catarina Ivânovna como a metade de sua dívida, tinha Mítia, no entanto, decidido fazer deles outro uso e partir com Grúchenhka, se ela consentisse nisso...

— É isso mesmo, é bem isso mesmo — exclamou Aliócha, muito animado —, meu irmão me disse naquele momento que poderia apagar imediatamente a metade de sua vergonha (disse várias vezes: a metade!), mas que, por desgraça, a fraqueza de seu caráter o impedia disso... sabia de antemão que era incapaz de fazê-lo!

— E o senhor se recorda nitidamente de que ele batia naquele lugar do peito? — perguntou Fietiukóvitch.

— Muito nitidamente, porque perguntava a mim mesmo então: por que bate ele tão alto, se o coração está mais embaixo? Minha idéia pareceu-me absurda... lembro-me. Eis por que essa recordação me voltou.

Como pude esquecê-la até agora? Seu gesto designava decerto esse amuleto, esses 1 500 rublos que ele não queria restituir! E por ocasião de sua detenção, em Mókroie, contaram-me, gritou que a ação mais vergonhosa de sua vida era que, tendo a possibilidade de devolver a Catarina Ivânovna a metade de sua dívida (justamente a metade!) e de passar por um homem honesto, preferira guardar o dinheiro e continuar como ladrão a seus olhos. E quanto essa dívida o atormentava! — concluiu Aliócha.

Bem entendido, o procurador interveio. Pediu a Aliócha que descre-vesse de novo a cena e insistiu em saber se o acusado, batendo no peito, parecia designar alguma coisa. Talvez batesse por acaso com o punho.

— Não, não com o punho! — exclamou Aliócha. — Designava com os dedos, aqui, bem no alto... Como pude esquecê-lo até agora?

O presidente perguntou a Mítia o que podia dizer a respeito desse depoimento. Mítia confirmou que designara os 1 500 rublos que trazia sobre o peito, abaixo do pescoço, e que era uma vergonha, "uma vergonha 692

que não contesto, o ato mais vil de minha vida! Teria podido restituí-los e não o fiz. Preferi ficar como ladrão aos olhos dela e o pior é que eu sabia de antemão que agiria assim! Tu tens razão, Aliócha, obrigado".

Dessa forma terminou a declaração de Aliócha, caracterizada por um fato novo, por mínimo que fosse, um começo de prova demonstrando a existência daquele amuleto com os 1 500 rublos e a veracidade do acusado, quando declarava, em Mókroie, que aquele dinheiro lhe pertencia. Aliócha estava radiante, sentou-se todo vermelho no lugar que lhe indicaram, repetindo entre si: "Como pude esquecer aquilo? Como foi que só me lembrei, agora?"

Foi ouvida em seguida Catarina Ivânovna. Sua entrada causou sensação. As senhoras assestaram suas lunetas, os homens agitaram-se, alguns se levantaram para ver melhor. Afirmou-se, mais tarde, que Mítia ficara branco como um pano, quando ela apareceu. Toda de preto, avançou para a barra modestamente, quase timidamente. Seu rosto não traía nenhuma emoção, mas a resolução brilhava nos seus olhos sombrios.

Estava muito bonita naquele momento. Falou com uma voz doce, mas nítida, com grande calma, ou pelo menos esforçando-se para isso. O

presidente interrogou-a com muitas atenções, como se temesse tocar

"certas cordas", e cheio de respeito pelo seu infortúnio. Desde as primeiras palavras, Catarina Ivânovna declarava que fora noiva do acusado "até o momento em que ele próprio me abandonou... " Quando a interrogaram, a respeito dos 3 000 rublos confiados a Mítia para serem enviados pelo correio às suas parentas, respondeu com firmeza: "Não lhe havia dado aquela quantia para que a remetesse logo; sabia que estava ele muito precisado de dinheiro... naquele momento... Entreguei-lhe aqueles 3 000

rublos com a condição de enviá-los a Moscou, se quisesse, no prazo de um mês. Não teve razão em atormentar-se a propósito dessa dívida... "

Não relato as perguntas e as respostas integralmente, limitando-me ao essencial de seu depoimento.

— Estava certa de que enviaria aquela soma assim que a tivesse recebido de seu pai — prosseguiu ela. — Sempre tive confiança na sua lealdade... na sua perfeita lealdade... nos negócios de dinheiro. Contava ele receber 3 000 rublos de seu pai e falou-me disso por diversas vezes.

Sabia que estavam eles em conflito e sempre acreditei que seu pai o havia lesado. Não me recordo de que haja ele proferido ameaças contra seu pai, 693

pelo menos na minha presença. Se tivesse vindo ver-me, tê-lo-ia logo tranqüilizado a respeito daqueles desgraçados 3 000 rublos, mas não voltou... e eu mesma... encontrava-me numa situação... que não me permitia que o mandasse chamar... Aliás, não tinha absolutamente o direito de mostrar-me exigente por conta dessa dívida — acrescentou num tom resoluto. — Recebi eu mesma dele, um dia, uma soma superior, e aceitei-a sem saber quando estaria em condições de pagar-lhe.

Sua voz tinha algo de provocante. Naquele momento, foi a vez de Fietiukóvitch interrogá-la.

— Não foi aqui, mas no começo de suas relações com ele, não? —

perguntou com tato o defensor, que pressentia algo em favor de seu cliente. (Entre parentesis, se bem que chamado de Petersburgo, em parte pela própria Catarina Ivânovna, tudo ignorava do episódio dos 5 000

rublos dados por Mítia e da saudação até o chão. Ela lho havia dissimulado! Silêncio estranho. Pode-se supor que, até o derradeiro momento, hesitou em falar, aguardando alguma inspiração. ) Não, jamais esquecerei aquele momento! Ela contou tudo, todo aquele episódio, comunicado por Mítia a Aliócha, e a saudação até o chão, as causas, o papel de seu pai, sua visita à casa de Mítia, e não fez nenhuma alusão à proposta de Mítia de enviar-lhe Catarina Ivânovna para buscar o dinheiro. Guardou a respeito um silêncio magnânimo e não corou de revelar que fora ela que correra, por sua própria vontade, à casa do jovem oficial, esperando não sabia o que... para obter dele dinheiro. Era comovedor. Eu estremecia ouvindo-a, a assistência era toda ouvidos.

Havia naquilo algo de inaudito, jamais se teria esperado, mesmo de uma moça tão imperiosa e altiva, tal franqueza e semelhante imolação. E por quem, para quê? Para salvar aquele que a havia traído e ofendido, para contribuir, por pouco que fosse, a tirá-lo de apuros, causando uma boa impressão! Com efeito, a imagem do oficial, dando seus 5 000 rublos, tudo quanto lhe restava, e inclinando-se respeitosamente diante de uma moça inocente, aparecia como das mais simpáticas, mas... meu coração cerrou-se!

Senti a possibilidade de uma calúnia, posteriormente (e foi o que aconteceu!). Com uma ironia malévola, repetiu-se na cidade que a narrativa não era talvez totalmente exata, precisamente naquele ponto em que o oficial deixava partir a moça com apenas uma respeitosa saudação.

Fez-se alusão a uma "lacuna". "Se as coisas não se passaram mesmo assim", 694

diziam as mais respeitáveis de nossas damas, "podem-se ainda fazer reservas a respeito da conduta da moça, mesmo para salvar seu pai. " Será que Catarina Ivânovna, com sua penetração mórbida, não pressentira tais falatórios? Decerto que sim, mas decidira tudo dizer! Naturalmente, essas dúvidas insultuosas a respeito da veracidade do relato só se manifestaram mais tarde. No primeiro momento todos ficaram emocionados. Quanto aos membros do tribunal, escutavam num silêncio respeitoso. O

procurador não se permitiu nenhuma pergunta sobre o assunto.

Fietiukóvitch fez a Catarina uma profunda vênia. Oh! o triunfo era seu, quase. Que o mesmo homem tenha podido, num ímpeto de generosidade, dar seus derradeiros 5 000 rublos, e em seguida matar seu pai para roubar-lhe 3 000, era coisa que não se agüentava de pé. Fietiukóvitch podia pelo menos afastar a acusação de roubo. O caso esclarecia-se a uma nova luz. A simpatia voltava-se a favor de Mítia. Uma ou duas vezes, durante o depoimento de Catarina Ivânovna, quis ele levantar-se, mas tornou a cair sobre o banco, cobrindo o rosto com as mãos. Quando ela acabou, exclamou ele, estendendo-lhe os braços.

— Cátia, por que causaste minha perda?

Desatou em soluços, mas se repôs depressa e gritou ainda:

— Agora, estou condenado!

Depois enrijeceu-se em seu lugar, com dentes cerrados, os braços cruzados sobre o peito. Catarina Ivânovna ficou na sala? estava pálida, de olhos baixos. Seus vizinhos contaram que ela tremia, como presa de febre.

Foi a vez de Grúchenhka.

Vou abordar a catástrofe que causou talvez, com efeito, a perda de Mítia. Porque estou persuadido, e todos os juristas disseram-no depois, que, sem esse episódio, o criminoso teria obtido pelo menos as circunstâncias atenuantes. Mas tratar-se-á disso dentro em pouco. Falemos primeiro de Grúchenhka.

Apareceu também toda de preto, com os ombros cobertos pelo seu magnífico xale. Avançou para a barra com seu andar silencioso, re-quebrando-se levemente, como fazem por vezes as mulheres corpulentas, com os olhos fixos no presidente. Na minha opinião, estava muito bem e nada pálida, como o pretenderam as damas mais tarde. Assegurou-se também que tinha o ar absorto e maldoso. Creio somente que estivesse 695

irritada e sentisse pesar com intensidade sobre ela os olhares desprezadores e curiosos de nosso público, ávido de escândalo. Era uma dessas naturezas altivas, incapazes de suportar o desprezo, que, desde que o suspeitam nos outros, as inflama de cólera e as impele à resistência.

Havia também, seguramente, timidez e pudor dessa timidez, o que explica a desigualdade de sua linguagem, ora encolerizada, ora desdenhosa e grosseira, na qual se sentia de súbito uma nota sincera, quando ela se acusava a si mesma. Por vezes, falava sem se importar com as conseqüências: "Tanto pior para o que acontecerá, dir-lhe-ei no entanto...

" A propósito de suas relações com Fiódor Pávlovitch, observou num tom cortante: "Bagatelas, tudo isso; é culpa minha se ele se ligou a mim?" Um instante depois, acrescentou: "Tudo isso é culpa minha, zombava do velho e de seu filho e levei-os aos extremos a ambos. Sou a causa desse drama".

Veio-se a falar de Samsónov: "Isto não diz respeito a ninguém", replicou ela com violência, "era meu benfeitor, foi ele quem me recolheu descalça, quando os meus me expulsaram da isbá". O presidente lembrou-lhe que ela devia responder diretamente às perguntas, sem entrar em detalhes supérfluos. Grúchenhka corou, seus olhos cintilaram. Não vira o envelope dos 3 000 rublos e só sabia da existência pelo "celerado". "Mas tudo isso são bobagens, por preço algum teria ido à casa de Fiódor Pávlovitch... "

— A quem trata a senhora de celerado? — perguntou o procurador.

— Ao lacaio Smierdiákov, que matou seu amo e enforcou-se ontem.

Apressaram-se em perguntar sobre que baseava uma acusação tão categórica, mas tampouco ela sabia de nada.

— Foi Dimítri Fiódorovitch quem mo disse. Podem crer nele. Aquela pessoa perdeu-o, ela é a única causa de tudo — acrescentou Grúchenhka, toda trêmula, num tom em que transparecia o ódio.

Quiseram saber a quem fazia ela alusão.

— Ora, a essa senhorita, a essa Catarina Ivânovna. Chamara-me à sua casa, oferecera-me chocolate, na intenção de seduzir-me. Não tem um pingo de vergonha, palavra...

O presidente interrompeu-a, rogando-lhe que moderasse suas expressões, Mas, inflamada pelo ciúme, estava pronta a tudo afrontar...

— Por ocasião da detenção, em Mókroie —- lembrou o

696

procurador —, a senhora acorreu da peça vizinha, gritando: "Sou culpada de tudo, iremos juntos para o presídio!" A senhora também então, naquele momento, acreditava que fosse ele parricida?

— Não me recordo de meus sentimentos de então — respondeu Grúchenhka. — Todo mundo o acusava, senti que era eu a culpada e que ele havia matado por minha causa. Mas desde que ele proclamou sua inocência, acreditei nele e acreditarei sempre, não é homem de mentiras.

Fietiukóvitch, que a interrogou em seguida, informou-se de Rakítin e dos 25 rublos "como recompensa por ter-lhe levado Alieksiéi Fiódorovitch Karamázov".

— Não há nada de espantar no fato de ter ele aceitado esse dinheiro — sorriu desdenhosamente Grúchenhka. — Vinha sempre pe-dinchar, recebendo até 30 rublos por mês e na maior parte das vezes para se divertir; tinha com que comer e beber, sem precisar de pedir dinheiro.

— Por qual razão era a senhora tão generosa para com o Senhor Rakítin? — continuou Fietiukóvitch, muito embora o presidente se agitasse.

— É meu primo. Minha mãe e a dele eram irmãs. Mas suplicava-me que eu não dissesse a ninguém, tanta era a vergonha que eu lhe causava.

Este fato novo foi uma revelação para todo mundo, ninguém suspeitava disso na cidade, nem mesmo no mosteiro. Rakítin, dizem, estava rubro de vergonha. Grúchenhka estava furiosa contra ele, pois soubera que havia deposto contra Mítia. A eloqüência do Senhor Rakítin, suas nobres tiradas contra a servidão e a desordem cívica da Rússia ficaram assim arruinadas na opinião pública. Fietiukóvitch estava satisfeito, o céu vinha-lhe em auxílio. Aliás, não retiveram Grúchenhka muito tempo, pois nada podia comunicar de particular. Causou no público uma impressão das mais desfavoráveis. Centenas de olhares desdenhosos fixaram-na, quando após seu depoimento foi sentar-se bastante longe de Catarina Ivânovna. Enquanto a interrogavam, Mítia mantivera-se em silêncio, como petrificado, de olhos baixos. Ivã Fiódorovitch apresentou-se como testemunha.

697

V

SÚBITA CATÁSTROFE

Fora chamado antes de Aliócha, mas o oficial de justiça informou ao presidente que uma indisposição súbita impedia a testemunha de comparecer e que logo que se refizesse viria depor. Não se deu aliás atenção a isso e sua chegada quase passou sem ser notada, as principais testemunhas, sobretudo as duas rivais, já tinham sido ouvidas, a curiosidade começava a cansar-se. Nada de novo a esperar dos derradeiros depoimentos, depois de tudo quanto já tinha sido dito. O tempo passava.

Ivã avançou com uma lentidão estranha, sem olhar para ninguém, a cabeça baixa, o ar absorto. Trajava corretamente, mas seu rosto, marcado pela doença, tinha qualquer coisa de terroso que lembrava o de um moribundo. Ergueu os olhos, percorreu a sala com um olhar turvo.

Aliócha levantou-se, lançou uma exclamação, mas não lhe prestaram atenção.

O presidente lembrou à testemunha que não havia ele prestado juramento, podendo, portanto, manter silêncio, mas devia depor de acordo com sua consciência, etc. Ivã escutava, com os olhos vagos. De repente, um sorriso desenhou-se no seu rosto e quando o presidente, que o olhava com espanto, acabou, desatou ele a rir.

— E depois, que mais? — perguntou em voz alta. Silêncio absoluto na sala. O presidente ficou inquieto.

— O senhor... talvez esteja ainda indisposto? — perguntou, procurando com o olhar o oficial de justiça.

— Não se inquiete, excelência, sinto-me suficientemente bem e posso contar-vos algo de curioso — respondeu Ivã num tom calmo e deferente.

— Tem uma comunicação particular a fazer? — continuou o presidente com certa desconfiança.

Ivã Fiódorovitch baixou a cabeça e esperou durante alguns segundos antes de responder.

— Não... nada a dizer de particular.

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Interrogado, deu a contragosto respostas lacônicas e, no entanto, bastante razoáveis, com uma repulsa crescente. Alegou sua ignorância a respeito de muitas coisas e nada sabia das contas de seu pai com Dimítri Fiódorovitch. "Não me ocupava com isso", declarou. Ouvira as ameaças do acusado contra seu pai e sabia da existência do envelope por intermédio de Smierdiákov.

— Sempre a mesma coisa! — interrompeu-se de súbito, com um ar de cansaço. — Nada posso dizer ao tribunal.

— Vejo que o senhor ainda está doente e compreendo seus sentimentos... — começou o presidente.

Ia perguntar ao procurador e ao advogado se tinham perguntas a fazer, quando Ivã disse com voz extenuada:

— Permita que me retire, excelência, não me sinto, bem. — Depois do que, sem esperar a autorização, voltou-se e encaminhou-se para a saída.

Mas depois de alguns passos parou, pareceu refletir, sorriu e voltou a seu lugar:

— Pareço-me, excelência, com aquela jovem camponesa, o senhor sabe: "Se quiser, irei, se não quiser, não irei!" Seguem-na para vesti-la e levá-la ao altar e ela repete aquelas palavras... Isto se encontra numa cena popular...

— Que entende o senhor com isso? — perguntou severamente o presidente.

— Aqui está — disse Ivã, exibindo um maço de cédulas —, aqui está o dinheiro... o mesmo que se achava naquele envelope (e designava as peças de convicção) e por causa do qual mataram meu pai. Onde devo depositá-lo? Senhor oficial de justiça, entregue-lho.

O oficial de justiça pegou o maço de notas e entregou-o ao presidente.

— Como pode estar este dinheiro em seu poder... se é bem o mesmo? — perguntou o presidente surpreso.

— Recebi-o de Smierdiákov, do assassino, ontem... Fui à casa dele antes que se enforcasse. Foi ele quem matou meu pai, e não meu irmão.

Matou e eu o incitei a isso... Quem não deseja a morte de seu pai?

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— Está no seu juízo? — não pôde o presidente impedir-se de dizer.

— Mas sim, estou no meu juízo... um juízo vil como o vosso, como o de todos esses... focinhos! — Voltou-se para o público.

— Mataram seus pais e simulam o terror — disse ele com desprezo e rangendo os dentes. — Fazem caretas uns para os outros. Os mentirosos!

Todos desejam a morte de seu pais. Um réptil devora o outro... Se não houvesse parricídio, zangar-se-iam e ir-se-iam embora furiosos.

É um espetáculo! Panem et circenses! 57 Aliás, também eu sou bonito! Têm água, dêem-me de beber, em nome de Cristo! — Agarrou a cabeça. O oficial de justiça aproximou-se dele logo. Aliócha levantou-se, gritando: "Ele está doente, não acreditem nele, está com febre nervosa!" Catarina Ivânovna tinha-se levantado precipitadamente e, imóvel de terror, contemplava Ivã Fiódorovitch. Mítia, com um sorriso careteante, escutava avidamente seu irmão.

— Tranqüilizai-vos, não estou louco, sou apenas um assassino —

continuou Ivã. — Não se pode exigir eloqüência de um assassino —

acrescentou, sorrindo.

O procurador, visivelmente agitado, inclinou-se para o presidente.

Os jurados cochichavam. Fietiukóvitch aguçou os ouvidos. A sala aguardava, ansiosa. O presidente pareceu dominar-se.

— Testemunha, o senhor usa duma linguagem incompreensível e que não se pode tolerar aqui. Acalme-se e fale... se tem verdadeiramente alguma coisa a dizer. Por qual meio poderá confirmar tal confissão... se é que ela não resulta do delírio?

— O fato é que não tenho testemunhas. Aquele cão do Smierdiákov não vos enviará lá do outro mundo o seu depoimento... num envelope.

Vós desejaríeis sempre envelopes. Basta um. Não tenho testemunhas...

Exceto uma, talvez.

Sorriu com ar pensativo.

— Quem é sua testemunha?

57 Pão e circo (Sátiras, X, 81). Expressão de desprezo com que Juvenal, célebre poeta satírico latino, fustiga os romanos da decadência, que só pediam trigo no Fórum e espetáculos gratuitos no circo.

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— Tem uma cauda, excelência, não está de conformidade com as regras! Le diable ri existe point! Não presteis atenção, é um diabinho sem importância — acrescentou ele confidencialmente, deixando de rir. —

Deve estar em alguma parte aqui, debaixo da mesa das peças de convicção.

Onde estaria ele, senão ali? Escutai-me: eu lhe disse: "Não quero calar-me"

e ele me fala de cataclisma geológico... besteiras! Ponde o monstro em liberdade... ele cantou seu hino porque tem

O coração leve! A mesma coisa que se um canalha bêbado berrasse:

"Para Piter partiu Vanka". Eu, por dois segundos de alegria, daria 1

quatrilhão de quatrilhões. Vós não me conheceis! Oh! como tudo é estúpido entre vós! Pois bem! Prendei-me em lugar dele! Não vim aqui por coisa nenhuma... Por que tudo o que existe é tão estúpido?

E voltou a inspecionar lentamente a sala com ar meditativo. A emoção era geral. Aliócha ia correr para ele, mas o oficial de justiça já havia agarrado Ivã Fiódorovitch pelo braço.

— Que é que há? — exclamou ele, fixando o oficial de justiça, mas de repente agarrou-o pelos ombros e derrubou-o. Os guardas acorreram, prenderam-no e ele se pôs a urrar como um louco furioso. Enquanto o levavam, gritava palavras incoerentes.

Foi um tumulto geral. Não me lembro de tudo em sua ordem, a emoção impedia-me de observar direito. Sei somente que, uma vez estabelecida a calma, o oficial de justiça foi repreendido, se bem que explicasse às autoridades que a testemunha estava durante todo o tempo em estado normal, que o doutor o examinara por ocasião de sua ligeira indisposição, uma hora antes; até o momento de comparecer exprimia-se sensatamente, de modo que nada se podia prever, fazia ele mesmo questão de ser ouvido. Mas antes que a emoção se acalmasse, ocorreu nova cena. Catarina Ivanovna teve uma crise de nervos. Gemia e soluçava ruidosamente, sem querer retirar-se. Debatia-se, suplicando que a deixassem na sala. De repente, gritou para o presidente:

— Tenho ainda alguma coisa a dizer, imediatamente... imediatamente!... Eis aqui um papel, uma carta... tomai-a, lede depressa! É a carta do monstro que ali está! — disse ela, apontando Mítia. — Foi ele quem matou seu pai, ides vê-lo, escreveu-me dizendo como o mataria! O outro está doente, há três dias que está com febre nervosa!

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O oficial de justiça pegou o papel e entregou-o ao presidente. Catarina Ivanovna tornou a cair sobre sua cadeira, ocultou seu rosto, pôs-se a soluçar silenciosamente, abafando seus menores gemidos, de medo que a fizessem sair. O papel em questão era a carta escrita por Mítia no botequim A capital, que Ivã considerava como uma prova categórica. Ai!

foi justamente o efeito que ela produziu! Sem essa carta, não teria Mítia talvez sido condenado, pelo menos tão rigorosamente! Repito que foi difícil seguir todos os detalhes. Mesmo agora, tudo aquilo me aparece de um modo confuso. O presidente apresentou sem dúvida aquele novo documento às partes e ao júri. Ao perguntar a Catarina Ivânovna se já se restabelecera, respondeu ela vivamente:

— Estou pronta! Estou completamente em condições de responder-vos. Temia ainda que não a ouvissem. Pediram-lhe que explicasse pormenorizadamente em que circunstâncias recebera aquela carta.

— Recebi-a na véspera do crime, vinha do botequim, escrita numa fatura, vede — gritou ela, ofegante. — Ele me odiava então, tendo tido a baixeza de seguir aquela criatura... e também porque me devia aqueles 3

000 rublos. Sua vilania e sua dívida causavam-lhe vergonha. Eis o que se passou. Suplico-vos que me ouçais. Três semanas antes de matar seu pai, chegou à minha casa uma manhã. Sabia que ele necessitava de dinheiro e sabia também para quê... precisamente para seduzir aquela criatura e levá-la consigo. Conhecia sua traição, sua intenção de abandonar-me e entreguei-lhe eu mesma aquele dinheiro, sob pretexto de enviá-lo à minha irmã em Moscou. Ao mesmo tempo, fitava-o bem no rosto e lhe disse que poderia enviá-lo quando quisesse, mesmo dentro de um mês. Como não compreendeu ele que isso significava: "Precisas de dinheiro para trair-me; aqui está: sou eu que to dou; toma-o, se tens coragem!" Queria confundi-lo.

Pois bem! Ele aceitou esse dinheiro, levou-o e gastou-o em uma noite com aquela criatura. No entanto, compreendera que eu sabia de tudo, garanto-vos, e que eu lho dava unicamente para experimentá-lo, para ver se co-meteria ele a infâmia de aceitá-lo. Nossos olhares se cruzavam, ele com-prendeu tudo e partiu com meu dinheiro!

— É verdade, Cátia — exclamou Mítia. — Tinha compreendido tua intenção e, no entanto, aceitei teu dinheiro. Desprezai todos um miserável, eu o mereci!

— Acusado — disse o presidente —, ainda uma palavra e eu o farei 702

sair da sala.

— Esse dinheiro atormentou-o — prosseguiu Cátia, precipitadamente —, queria devolver-mo, mas precisava dele para aquela criatura.

Eis por que matou seu pai, mas não me restituiu nada, partiu com ela para aquela aldeia onde o prenderam. Foi lá que de novo fez a farra, com o dinheiro roubado. Um dia, antes do crime, escreveu-me essa carta estando bêbado — adivinhei logo —, sob o império da cólera e persuadido de que eu não a mostraria a ninguém, mesmo se ele cometesse assassínio. Senão, não a teria escrito. Sabia que eu não queria perdê-lo por vingança! Mas lede, lede com atenção, rogo-vos, vereis que ele descreve tudo de antemão: como matará seu pai, onde está escondido o dinheiro. Notai sobretudo esta frase: "Matarei contanto que Ivã tiver partido". Por conseguinte, premeditou seu crime — insinuou perfidamente Catarina Ivânovna. Via-se que ela estudara cada detalhe daquela carta fatal. — Sóbrio, não me teria ele escrito, mas vede, essa carta constitui um programa!

Na sua exaltação, desdenhava as conseqüências possíveis, se bem que as tivesse encarado talvez um mês antes, quando perguntava a si mesma, trêmula de cólera: "Será preciso ler isto no tribunal?" Agora, havia queimado seus navios. Foi então que o escrivão leu a carta, que produziu uma impressão esmagadora. Perguntaram a Mítia se a reconhecia.

— Sim, sim! e não a teria escrito, se não tivesse bebido!... Nós nos odiávamos por muitas causas, Cátia, mas juro-te que, malgrado meu ódio, eu te amava e tu não me amavas!

Recaiu sobre seu banco, torcendo as mãos.

O procurador e o defensor perguntaram, cada qual por sua vez, a Catarina Ivânovna por quais motivos havia ela a princípio dissimulado aquele documento e deposto num tom completamente diverso.

— Sim, menti ainda há pouco, contra minha honra e minha consciência, mas queria salvá-lo, precisamente porque ele me odiava e me desprezava. Oh! desprezava-me, sempre me desprezou, desde o instante em que lhe fiz aquela saudação até o chão por causa daquele dinheiro.

Senti-o logo, mas fiquei muito tempo sem acreditá-lo. Quantas vezes li em seus olhos: "Tu vieste, no entanto, tu mesma, à minha casa". Oh! ele nada tinha comprendido, não adivinhou por que eu fora, só pode pensar na baixeza! Julga todos os outros por si — disse com furor Cátia, no auge da 703

exaltação. — Queria casar comigo somente por causa da minha herança, somente por isso, sempre suspeitei disso. É uma fera! Estava certo de que durante toda a minha vida eu tremeria de vergonha diante dele e que ele poderia desprezar-me e dominar-me, eis porque queria desposar-me! É a verdade! Tentei vencê-lo por um amor infinito, queria mesmo esquecer sua traição, mas ele nada compreendeu, nada, nada! Pode ele compreender alguma coisa? É um monstro! Não recebi essa carta senão no dia seguinte, à noite, trouxeram-ma do botequim, e de manhã estava ainda decidida a perdoar-lhe tudo, até mesmo sua traição!

Continuar: parte 2 de 5