Os Irmãos Karamázov
Capítulo 18
mim. Mas agora, é sério, faz grande caso de sua opinião, Alieksiéi Fiódorovitch; se for possível, poupe-a, não lhe guarde rancor. Eu mesma só faço poupá-la, porque ela é tão inteligente, acredita-o? Dizia ela ainda há pouco que você era seu amigo de infância, "o mais sério", imagine essa amizade séria; e eu, então? A este respeito tem sentimentos bastante sérios e até mesmo recordações, sobretudo essas frases, essas pequenas palavras, que brotam quando menos se espera. Recentemente, a propósito de um pinheiro, por exemplo. Havia um pinheiro em nosso jardim, quando ela era bem pequena, talvez exista ainda e não tenho razão de falar no passado. Os pinheiros não são como as pessoas, ficam muito tempo sem mudar, Alieksiéi Fiódorovitch. "Mamãe", disse ela,
"lembro-me daquele pinheiro como em sonho. " 18 Deve ter-se exprimido doutra forma; há aqui uma confusão; pinheiro é uma palavra tão boba... Em todo o caso, disseme a esse respeito algo de original, que não atino repetir. Aliás, esqueci tudo. Pois bem, até logo, estou toda emocionada, é de perder a cabeça.
Alieksiéi Fiódorovitch, estive louca duas vezes e curaram-me. Vá ver Lisa.
Reconforte-a como você sabe tão bem fazer. Lisa — gritou ela, aproximando-se da porta —, trago-te tua vítima, Alieksiéi Fiódorovitch, que não está absolutamente zangado, asseguro-te; pelo contrário, admira-se de que hajas podido acreditar em tal.
— Merci, maman. Entre, Alieksiéi Fiódorovitch.
Aliócha entrou. Lisa olhou-o com um olhar confuso e corou até as orelhas. Parecia envergonhada e, como se faz em semelhantes casos, pôs-se a falar com rapidez a respeito de coisa bem diversa, fingindo interessar-se por isso exclusivamente.
— Mamãe acaba de contar-me, Alieksiéi Fiódorovitch, a história daqueles 200 rublos e de sua missão... junto àquele pobre oficial... descreveu-me aquela cena atroz, como o insultaram e, sabe, muito embora mamãe conte muito mal... duma maneira desconchavada... derramei lágrimas ao ouvir aquilo. Pois bem! entregou-lhe você o tal dinheiro e como aquele desgraçado...
— Justamente não lho entreguei. É uma história muito longa — respondeu Aliócha, parecendo, por seu lado, sobretudo preocupado com 18 Trocadilho com a palavra sosna, pinheiro, e a expressão sosna, em sonho, na frase sosna kak sosna.
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aquele caso; no entanto, notava Lisa que também ele desviava a vista e tinha visivelmente o espírito em outra parte. Aliócha sentou-se e começou sua narrativa; desde as primeiras palavras, seu constrangimento desapareceu por completo e cativou por sua vez Lisa. Falava sob a influência da emoção e da viva impressão que sentira ainda há pouco, duma maneira interessante e pormenorizada. Já em Moscou, quando Lisa era ainda menina, gostava ele de visitá-la, quer para contar uma aventura recente, uma leitura que o impressionara, quer para lembrar um episódio de sua infância. Por vezes devaneavam juntos e compunham os dois verdadeiras novelas, na maior parte das vezes alegres e cômicas. Agora reviviam essas recordações, velhas de dois anos. Lisa ficou vivamente emocionada pela narrativa dele. Aliócha pintou-lhe com calor Iliúchka.
Depois que descreveu com detalhes a cena em que o infeliz havia pisoteado o dinheiro, Lisa juntou as mãos e não pôde impedir-se de exclamar:
— Então você não lhe deu o dinheiro, deixou-o partir? Deveria ter-lhe corrido atrás, procurado alcançá-lo...
— Não, Lisa, é melhor assim — disse Aliócha, que se levantou e se pôs a andar, com ar preocupado.
— Como melhor, melhor em quê? Agora, eles vão morrer de fome!
— Não morrerão, porque esses 200 rublos lhes chegarão às mãos. De qualquer maneira, ele amanhã os aceitará. Estou certo disto — declarou Aliócha, andando, perplexo. — Veja você, Lisa — prosseguiu ele, parando bruscamente diante dela —, cometi um erro, mas teve ele um feliz resultado.
— Que erro e por que um feliz resultado?
— Eis por quê. Aquele homem é poltrão e de caráter fraco. Está muito ressentido, mas é um homem bom. Não cesso de perguntar a mim mesmo por que se ofendeu ele subitamente e pisou com os pés o dinheiro, porque, asseguro-lhe, até o derradeiro momento não sabia ele que iria pisoteá-lo. E creio que se ofendeu por diversas razões... não podia ser de outro modo na sua situação... Em primeiro lugar, rejubilou-se por demais diante de mim à vista do dinheiro e não soube ocultar isso. Se tivesse mostrado uma alegria moderada e feito cerimônia, como outros em casos semelhantes fazem caretas, teria podido resignar-se a aceitar, mas sua 226
alegria foi demasiado sincera e isto lhe causou vexame. Lisa, ele é um homem sincero e bom, eis o pior em tais situações! Falava todo o tempo com uma voz fraca, debilitada, e tão depressa, tão depressa, que se teria dito que ria ou mesmo chorava... chorou mesmo de alegria... falou de suas filhas, do lugar que lhe dariam em outra cidade, e depois de ter-se expandido teve vergonha de súbito de haver-me mostrado sua alma.
Imediatamente detestou-me. É desses pobres envergonhados, extremamente orgulhosos. Ofendeu-se sobretudo por me ter tomado demasiado depressa por seu amigo e cedido tão rapidamente; depois de ter-se lançado contra mim para intimidar-me, abraçou-me e me acariciou à vista das cédulas. Naquela posição deve ter ressentido toda a sua humilhação e foi então que eu cometi um erro grave. Declarei-lhe que, se não tivesse ele bastante dinheiro para mudar-se para outra cidade, dar-lhe-iam mais, eu mesmo lho daria, com meus próprios recursos. Eis o que o magoou: por que vinha também eu em seu socorro? Sabe você, Lisa, é extremamente penoso para um desgraçado ver que todos se consideram como benfeitores seus... ouvi-o dizer, o stáriets me falou disso! Não sei como exprimi-lo, mas tenho-o notado eu mesmo. E experimento o mesmo sentimento. Mas, sobretudo, se bem que ignorasse ele até o derradeiro momento que pisotearia as cédulas, pressentia-o, é fatal. Eis por que experimentava tal alegria... E eis como, por mais desagradável que isto seja, tudo vai muito bem. Sou mesmo de opinião que nada poderia ocorrer de melhor.
— Como é isso possível? — exclamou Lisa, olhando Aliócha com estupefação.
— Lisa, se em lugar de pisotear esse dinheiro tivesse-o ele aceitado, ao chegar em casa, uma hora depois, teria chorado de humilhação, é mais do que certo. No dia seguinte, viria lançar-mo à cara, tê-lo-ia pisado com os pés, talvez, como ainda há pouco. Agora partiu todo orgulhoso e em triunfo, muito embora saiba que "se perde". Portanto, nada é mais fácil, agora, do que obrigá-lo a aceitar esses 200 rublos, não mais tarde do que amanha, porque mostrou que era honrado, atirou fora e pisou o dinheiro.
No entanto, tem necessidade urgente dessa soma. Por mais orgulhoso que ainda esteja neste momento, vai pensar no socorro de que se privou.
Pensará nele ainda mais nesta noite, pensará amanhã de manhã talvez, estará pronto a correr à minha casa e desculpar-se. Será então que me apresentarei: "O senhor é orgulhoso, demonstrou-o. Pois bem, aceite agora, 227
perdoe-nos". Então ele aceitará.
Foi com uma espécie de embriaguez que Aliócha pronunciou estas palavras: "Então ele aceitará!" Lisa bateu palmas.
— Ah! é verdade, compreendi tudo de repente! Aliócha, como sabe você tudo isso? Tão jovem e já conhecedor do coração humano... Não o teria jamais acreditado...
— É preciso sobretudo persuadi-lo agora de que se acha em pé de igualdade com todos nós, embora aceite o dinheiro — prosseguiu Aliócha, exaltado —, e não somente de igualdade, mas mesmo de superioridade...
— "Em pé de superioridade!" É encantador, Aliócha, mas fale, fale!
— Quer dizer que não me exprimi como era devido... no caso de pé...
mas isto não importa... porque...
— Mas isto não importa, decerto, absolutamente! Perdoe-me, querido Aliócha... Até agora, quase não tinha respeito por você... isto é, tinha, mas decerto num pé de igualdade, doravante será num pé de superioridade... Meu querido, não se zangue se procuro fazer espírito —
encareceu com vivo sentimento. — Sou uma pequena zombeteira, mas você, você!... Diga-me, Alieksiéi Fiódorovitch, não há em toda a nossa discussão... desdém por esse infeliz... pelo fato de dissecarmos sua alma com certa altivez, dando como certo desde agora que aceitará o dinheiro?
— Não, Lisa, não há desdém — respondeu com firmeza Aliócha, como se previsse essa pergunta —, já pensei nisso ao vir para cá. Julgue você mesma: que desdém pode haver, quando somos todos iguais a ele, quando todos o são? Porque não valemos mais. Fôssemos nós melhores, seríamos semelhantes no lugar dele. Ignoro o que seja você, Lisa, mas acho que tenho a alma mesquinha para muitas coisas. A alma dele não é mesquinha, mas bastante delicada... Não, Lisa, não há nenhum desdém para com ele! Sabe, Lisa, meu stariets disse uma vez: "É preciso muitas vezes tratar as pessoas como a crianças e algumas como a doentes".
— Caro Alieksiéi Fiódorovitch, quer que tratemos as pessoas como a doentes?
— Decerto, Lisa, estou disposto a isso, mas não completamente, por vezes mostro-me por demais impaciente ou então não reparo em nada.
Você, você não é assim.
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— Ah! não o creio! Alieksiéi Fiódorovitch, quanto sou feliz!
— Como é bom que você diga isso, Lisa!
— Alieksiéi Fiódorovitch, você é de uma bondade supreendente, mas por vezes tem o ar pedante... no entanto, vê-se que você não o é. Vá sem fazer rumor abrir a porta e veja se mamãe não nos escuta —
cochichou rapidamente Lisa.
Aliócha fez o que ela pedia e declarou que ninguém estava à escuta.
— Venha cá, Alieksiéi Fiódorovitch — prosseguiu Lisa, corando cada vez mais. — Dê-me sua mão; assim. Escute, tenho uma grande confissão a fazer-lhe: escrevi-lhe ontem, não por brincadeira, mas seriamente...
E cobriu os olhos com a mão. Via-se que esta confissão lhe custava muito. De repente, agarrou a mão de Aliócha e beijou-a três vezes, impetuosamente.
— Ah! Lisa, é admirável! — exclamou Aliócha, todo contente. — Eu sabia que era sério...
— Vejam só que segurança! — Repeliu-lhe a mão sem contudo a largar, corou e riu-se, levemente, cheia de felicidade. — Beijo-lhe a mão e ele acha isto admirável.
Censura injusta, aliás; Aliócha estava também bastante perturbado.
— Gostaria de agradar-lhe sempre, Lisa, mas não sei como fazer —
murmurou ele, corando por sua vez.
— Aliócha, meu querido, você é frio e presunçoso. Vejam só isso!
Não se dedignou de escolher-me por esposa e ei-lo tranqüilo! Estava certo de que lhe tinha escrito seriamente. Mas isto é pura presunção!
— Estava eu errado acreditando estar certo? — E Aliócha pôs-se a rir.
— Pelo contrário, Aliócha, estava muito bem.
Lisa olhou-o ternamente e cheia de felicidade. Aliócha havia mantido a mão dela na sua. De repente, inclinou-se e beijou-a na boca.
— Que é isso? Que tem você? — exclamou Lisa. Aliócha ficou todo desconcertado.
— Perdoe-me, se fiz mal... Talvez tenha cometido uma tolice... Você 229
me achava frio e então eu a beijei... Mas vejo que foi uma tolice...
Lisa desatou a rir e ocultou o rosto nas mãos.
— E com esse traje! — deixou ela escapar, rindo; mas de súbito parou, ficou séria, quase severa.
— Não, Aliócha, para mais tarde os beijos, porque nós dois não entendemos disso ainda e é preciso esperar ainda muito tempo —
concluiu ela. — Diga-me antes por que escolhe para esposa uma tola e uma doente como eu, você, tão inteligente, tão refletido, tão penetrante?
Aliócha, sinto-me muito feliz, porque sou indigna de você.
— Mas não, Lisa! Em breve deixarei o mosteiro completamente. Ao voltar para o mundo, terei de casar-me, eu o sei. "Ele" mo ordenou. Quem acharia eu melhor que você... e quem haveria de querer-me, senão você?
Já refleti nisso. Em primeiro lugar, você me conhece desde a infância; em segundo lugar, tem você muitas qualidades que me faltam totalmente. É
mais alegre do que eu; sobretudo, mais ingênua, porque eu já aflorei muitas coisas... Ah! não sabe você que sou um Karamázov? Que importa que você ria e pilherie, e mesmo à minha custa? Fico tão contente com isso... Mas você ri como uma menina e se atormenta com seus pensamentos.
— Como, me atormento? Como isso?
— Sim, Lisa, sua pergunta, ainda há pouco: "não há desdém por esse infeliz, pelo fato de dissecarmos assim sua alma?", é uma pergunta dolorosa... vê você? Não sei explicar-me, mas os que fazem tais perguntas são capazes de sofrer. Na sua cadeira, deve você meditar muito...
— Aliócha, dê-me sua mão. Por que a retira? — murmurou Lisa, numa voz enfraquecida pela felicidade. — Escute, como se trajará você, quando sair do mosteiro? Não ria e trate de não se zangar, é muito importante para mim.
— Quanto ao traje, Lisa, ainda não pensei nele, mas escolherei aquele que lhe agradar.
— Gostaria de vê-lo usar um casaco de veludo azul-escuro, um colete de pique branco e um chapéu de feltro cinzento... Diga-me, acreditou você ainda há pouco que eu não o amava, quando me desdisse de minha carta de ontem?
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— Não, não o acreditei.
— Oh! o insuportável, o incorrigível!
— Vê você? Sabia que você... me amava, mas fingi crer que você não me amava mais, para ser-lhe... agradável...
— É pior ainda! Tanto pior e tanto melhor. Aliócha, eu o adoro.
Antes de sua chegada, tinha dito a mim mesma: "Vou pedir-lhe a carta de ontem e se ele ma restituir sem dificuldade (como se pode esperar de sua parte), isto significa que ele não me ama absolutamente mais, que não sente nada, que não passa de um garoto tolo e que estou perdida". Mas você deixou a carta na cela e isto me restituiu a coragem; não teria sido pelo fato de pressentir você que eu tornaria a pedir-lha e a fim de não ma restituir? Não é verdade?
— Não é isto de todo, Lisa, porque tenho a carta comigo, como a tinha ainda há pouco; está neste bolso, ei-la.
Aliócha tirou a carta rindo e mostrou-lha de longe.
— Somente, não lha darei. Contente-se com olhá-la.
— Como, você mentiu? Você, um monge, mentindo?
— É verdade que menti, mas foi para não lhe devolver a carta. É
preciosa para mim — acrescentou, com fervor, corando de novo — e não a darei a ninguém.
Lisa examinava-o, encantada.
— Aliócha — cochichou ela —, vá ver se mamãe não nos está escutando.
— Bem, Lisa, olharei, mas não seria melhor não fazê-lo? Por que suspeitar de que sua mamãe pratique essa baixeza?
— Como? Que baixeza? Mas vigiar sua filha é seu direito, não há baixeza. Esteja certo, Alieksiéi Fiódorovitch, de que, quando eu for mãe' e tiver uma filha, igual a mim, vigiá-la-ei da mesma maneira.
— Deveras, Lisa? Mas isso não está bem.
— Meu Deus! Que baixeza há nisso? Se ela escutasse uma conversa mundana, seria vil, mas trata-se de sua filha a sós com um rapaz... Saiba, 231
Aliócha, que vou vigiá-lo desde que nos casarmos, abrirei todas as suas cartas para lê-las... Já está prevenido...
— Decerto, se faz questão disso... — murmurou Aliócha. — Mas não será louvável...
— Que desdém! Aliócha, meu bem, não briguemos desde o começo.
Prefiro falar-lhe francamente: é censurável, decerto, escutar às portas, estou errada e você está certo, mas isto não me impedirá de escutar.
— Pois escute. Você nunca me haverá de apanhar em falta — disse, rindo, Aliócha.
— Outra coisa: obedecer-me-á você em tudo? É preciso decidir isto também desde já.
— De muito boa vontade, Lisa, salvo nas coisas essenciais. Nestes casos, mesmo se você não estiver de acordo comigo, só me submeterei à minha consciência.
— Isto é o que deve ser. Saiba que não somente estou pronta a obedecer-lhe nos casos graves, mas cederei a você em tudo, juro-lhe desde agora, em tudo e por toda a minha vida — gritou Lisa apaixonadamente —, e isto com felicidade, com alegria! Além do mais, juro-lhe jamais escutar às portas e ler suas cartas, porque você tem razão. Por mais forte que seja minha curiosidade, resistirei a isso, pois que você acha isso vil. Você é agora a minha Providência... Diga-me, Alieksiéi Fiódorovitch, por que está você tão triste nestes últimos dias? Sei que tem aborrecimentos, pesares, mas noto ainda em você uma tristeza oculta, talvez.
— Sim, Lisa, tenho uma tristeza oculta. Vejo que você me ama, uma vez que adivinhou isso.
— Que tristeza? A propósito de quê? Pode-se saber? — perguntou timidamente Lisa.
— Mais tarde, Lisa, lho direi... — Aliócha perturbou-se. — Agora você não compreenderia. E eu mesmo não saberia explicar-lhe.
— Sei também que você se atormenta por causa de seus irmãos e de seu pai.
— Sim, de meus irmãos — proferiu Aliócha, pensativo.
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— Não gosto de seu irmão Ivã Fiódorovitch, Aliócha.
Esta observação surpreendeu Aliócha, mas não a rebateu.
— Meus irmãos se perdem — prosseguiu ele — e meu pai igualmente. Arrastam outros consigo. É a "força da terra" própria dos Karamazovi, segundo a expressão do Padre Paísi, uma força violenta e brutal... Ignoro mesmo se o espírito de Deus domina essa força. Sei somente que eu mesmo sou um Karamázov... Sou um monge, um monge...
Dizia você ainda há pouco que sou um monge?
— Sim, disse-o.
— Ora, talvez não creia em Deus.
— Não crê? Que está dizendo? — murmurou Lisa, com reserva. Mas Aliócha não respondeu. Havia naquelas palavras bruscas algo de misterioso, de demasiado subjetivo talvez, que ele próprio não explicava a si mesmo e que o atormentava.
— Além do mais, meu amigo se vai; o mais eminente dos homens vai deixar a terra. Se você soubesse, Lisa, os laços morais que me ligam àquele homem! Vou ficar só... Voltarei a vê-la, Lisa... Doravante, estaremos sempre juntos.
— Sim, juntos, juntos! Desde agora e por toda a vida. Beije-me, permito-lhe.
Aliócha beijou-a.
— Agora, vá embora! Que o Cristo esteja com você! (Fez sobre ele o sinal-da-cruz. ) Vá vê-lo enquanto ainda é tempo. Tenho sido cruel, retendo-o. Hoje rezarei por ele e por você. Aliócha, seremos felizes, não é verdade?
— Creio que sim, Lisa.
Aliócha não tinha intenção de procurar a Senhora Khokhlakova ao sair do quarto de Lisa, mas encontrou-a na escada. Desde as primeiras palavras adivinhou que ela o esperava.
— É horrível, Alieksiéi Fiódorovitch. É uma infantilidade e uma tolice. Espero que você não vá imaginar... Tolices, tolices! — exclamou ela, zangada.
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— Mas não lhe diga; isto a agitaria e lhe faria mal.
— Eis a palavra sábia dum jovem prudente. Devo entender que você estava consentindo unicamente por piedade pelo seu estado doentio, com medo de irritá-la, contradizendo-a?
— Absolutamente; falei-lhe com toda a seriedade — declarou Aliócha com firmeza.
— Deveras? É impossível. Em primeiro lugar, nossa casa ser-lhe-á fechada, em seguida partirei e levá-la-ei comigo, fique sabendo!
— Mas por quê? — disse Aliócha. — Ainda está longe, dezoito meses talvez a esperar.
— É verdade, Alieksiéi Fiódorovitch, e em dezoito meses poderão vocês brigar e separar-se. Mas sou tão infeliz! São tolices, de acordo, mas isto me consternou. Sou como Famússov na derradeira cena, o senhor é Tchátski, ela é Sofia. Corri aqui para encontrá-lo. Na comédia também as peripécias se passam na escada. Ouvi tudo, mal me podia conter. Eis pois a explicação para essa noite em claro e as recentes crises nervosas! O amor para a filha, a morte para a mãe! Agora, um segundo ponto, essencial: que carta é essa que Lisa lhe escreveu? Mostre-ma imediatamente!
— Não, para quê? Dê-me notícias de Catarina Ivânovna, isto me interessa bastante.
— Continua a delirar e não recuperou os sentidos; suas tias estão aqui a se lamentar, com seus ares imponentes. Herzenstube veio, ficou de tal modo espantado que eu não sabia o que fazer, queria mesmo mandar chamar outro médico. Levaram-no no meu carro. E, para dar cabo de mim, ei-lo com essa carta! É verdade que dezoito meses nos separam de tudo isso. Em nome do que há de mais sagrado, em nome de seu stáriets moribundo, mostre-me essa carta, a mim, mãe dela. Segure-a, se quiser, eu a lerei à distância.
— Não, não lhe mostrarei, Catarina Óssipovna, mesmo que ela o permitisse. Voltarei amanhã, conversaremos, se quiser; agora, adeus.
E Aliócha saiu precipitadamente.
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II
SMIERDIÁKOV E SUA GUITARRA
Não tinha, aliás, tempo. Ao despedir-se de Lisa, viera-lhe uma idéia; como fazer para encontrar imediatamente seu irmão Dimítri, que parecia evitá-lo? Já eram 3 horas da tarde: Aliócha experimentava vivo desejo de voltar ao mosteiro, para ir ter com o ilustre moribundo, mas a necessidade de ver Dimítri venceu-o; o pressentimento de uma catástrofe iminente crescia em seu espírito. De que natureza era ela, que teria ele querido dizer agora a seu irmão, ele mesmo não tinha idéia nítida. "Que meu benfeitor morra sem mim! Pelo menos, não me censurarei toda a minha vida por não ter salvo alguém, quando talvez podia fazê-lo, ter passado além na. pressa de regressar a casa. Aliás, obedeço assim à vontade dele..."
Seu plano consistia em surpreender Dimítri de improviso. Eis como: escalando a cerca, como na véspera, penetraria no jardim e se instalaria no pavilhão. "Se ele não estiver lá, sem nada dizer a Fomá nem às proprietárias, ficarei oculto, a esperar até a noite. Se Dimítri está ainda tocaiando ali a vinda de Grúchenhka, virá provavelmente ao pavilhão... "
Aliás, Aliócha não se deteve em detalhes do plano, mas resolveu executá-lo, embora devesse não voltar ao mosteiro naquele dia.
Tudo se passou sem obstáculo; transpôs a cerca quase no mesmo lugar que na véspera e dirigiu-se secretamente para o pavilhão. Não desejava ser notado; as proprietárias, bem como Fomá (se estivesse lá), poderiam ficar do lado de seu irmão e conformar-se com suas instruções, portanto não deixar Aliócha entrar no jardim ou advertir Dimítri, a tempo, de sua presença. Sentou-se no mesmo lugar e se pôs à espera; o dia era tão belo como o anterior, mas o pavilhão pareceu-lhe mais arruinado do que na véspera. O pequeno copo de conhaque deixara um círculo sobre a mesa verde. Idéias ociosas vinham-lhe ao espírito, como acontece sempre por ocasião de uma espera aborrecida: por que se sentara ele precisamente no mesmo lugar e não em outro? A tristeza invadia-o, proveniente duma vaga inquietação. Esperava havia um quarto de hora apenas, quando ressoaram perto os acordes de uma guitarra. Provinha das moitas, a uns vinte passos, quando muito. Aliócha lembrou-se de ter entrevisto na véspera, perto do tapume, à esquerda, um velho banco rústico e verde, 235
entre os arbustos. Era dali que partiam os sons. Uma voz masculina cantava em falsete, acompanhando-se da guitarra: Uma força pertinaz À
amada preso me traz, Senhor, tende piedade, Dela e de mim! Dela e de mim!
A voz parou: voz de tenorino com floreios de lacaio. Uma voz de mulher, cariciosa e tímida, proferiu, afetadamente:
— Por que se vê você tão raramente, Páviel Fiódorovitch, por que se esquece de nós?
— Nada disso — respondeu a voz de homem, com uma dignidade firme, se bem que cortês. Via-se que era o homem quem dominava, que a mulher o cortejava. "Deve ser Smierdiákov", pensou Aliócha, "a julgar pela voz pelo menos. A mulher é decerto a filha da dona da casa, a que voltou de Moscou e vai de vestido de cauda tomar sopa em casa de Marfa Ignátievna... "
— Adoro os versos, quando são harmoniosos — prosseguiu a voz feminina. — Continue.
A voz voltou a cantar:
Pouco me importa a coroa, Se minha amada está boa, Senhor, tende piedade, Dela e de mim! Dela e de mim!
— Da outra vez, era bem melhor — observou a mulher. — Você cantava, a propósito da coroa: "Se meu benzinho está bem". Era mais terno.