Os Irmãos Karamázov

Fiódor Dostoiévski · Capítulo 13 de 50

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Os Irmãos Karamázov

Capítulo 12

— Que tens? — perguntou Gregório, olhando-o severamente por cima de seus óculos.

— Nada. Deus criou o mundo no primeiro dia; o sol, a lua e as estrelas no quarto dia. Donde vinha, pois, a luz do primeiro dia?

Gregório ficou estupefato. O menino olhava seu amo com ar irônico, seu olhar parecia mesmo provocá-lo. Gregório não pôde conter-se: "Eis donde ela veio!", exclamou, esbofeteando-o violentamente. O menino não se moveu, mas meteu-se de novo no seu canto por vários dias. Uma semana depois, teve ele uma primeira crise de epilepsia, doença que não o deixou mais dali por diante. Tendo conhecimento disso, Fiódor Pávlovitch mudou logo sua maneira de tratar o garoto. Até então olhava-o com indiferença, se bem que não o repreendesse nunca e lhe desse 1 copeque todas as vezes em que o encontrava. Quando estava de bom humor, mandava-lhe sobremesa de sua mesa. A doença do menino provocou sua solicitude; mandou buscar um médico; ensaiou-se um tratamento, mas Smierdiákov era incurável. Em média, tinha uma crise uma vez por mês, a intervalos irregulares. Os ataques variavam de intensidade, ora fracos, ora violentos. Fiódor Pávlovitch proibiu terminantemente que Gregório batesse no menino e deu-lhe acesso à sua casa. Proibiu igualmente qualquer estudo até nova ordem. Um dia — tinha Smierdiákov então quinze anos — Fiódor Pávlovitch viu-o lendo os títulos das obras através dos vidros da biblioteca. Fiódor Pávlovitch possuía uma centena de volumes, mas nunca fora visto a folheá-los. Deu logo as chaves a Smierdiákov. "Toma, serás meu bibliotecário; senta-te e lê, será melhor do que andares à toa pelo pátio. Toma isto", e Fiódor Pávlovitch deu-lhe 130

Serões na Quinta de Dikanhka12

Esse livro não agradou ao rapaz, que o acabou de ler com ar sombrio, sem ter rido uma vez sequer.

— Pois bem! Não é divertido? — perguntou Fiódor Pávlovitch.

Smierdiákov permaneceu calado.

— Responde, pois, imbecil.

— Só há mentiras, aqui dentro — resmungou Smierdiákov, sorrindo.

— Vai-te para o diabo, alma de lacaio! Espera, eis aqui a História Universal, de Smarágdov. Aqui tudo é verdadeiro. Lê.

Mas Smierdiákov não chegou a ler dez páginas. Achava aquilo enfadonho. Não se falou mais em biblioteca. Em breve Marfa e Gregório levaram ao conhecimento de Fiódor Pávlovitch que Smierdiákov, pouco a pouco se tornara de trato muito difícil, fazendo-se requintado; contemplando seu prato de sopa, examinava-o curvado, enchia uma colherada, que olhava à luz.

— Uma barata, talvez? — perguntava por vezes Gregório.

— Ou então uma mosca? — insinuava Marfa.

O meticuloso rapaz não respondia nunca, mas procedia da mesma maneira com o pão, a carne, todas as comidas; pegando um pedaço com seu garfo, estudava-o à luz, como num microscópio, e, após reflexão, decidia-se a levá-lo à boca. "Dir-se-ia que é o filho de um senhor", murmurava Gregório, olhando-o. Posto ao corrente dessa mania de Smierdiákov, decretou Fiódor Pávlovitch logo que tinha ele vocação para cozinheiro e mandou-o a aprender sua arte em Moscou. Passou ali vários anos e voltou bastante mudado de aspecto; envelhecido demasiadamente para sua idade, enrugado, amarelecido, assemelhava-se a um skópiets.

Moralmente, era quase o mesmo de antes da partida; sempre um verdadeiro selvagem que não procurava absolutamente a sociedade. Não dizia palavra em Moscou, como se soube mais tarde. A própria cidade muito pouco o interessara. Tendo ido uma vez ao teatro, voltou descontente. Usava roupas de linho convenientes, escovava 12 Primeira coletânea de novelas de Gógol (1831).

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cuidadosamente seus ternos duas vezes por dia; gostava muito de engraxar suas botas elegantes, de bezerra, com uma graxa inglesa especial, que as fazia reluzir como um espelho. Revelou-se excelente cozinheiro.

Fiódor Pávlovitch decidiu pagar-lhe ordenado, que era quase todo gasto em roupas, pomadas, perfumes, etc. Parecia fazer tão pouco caso das mulheres quanto dos homens, mostrando-se para com elas empertigado e quase inabordável. Fiódor Pávlovitch pôs-se a considerá-lo de um ponto de vista um pouco diferente. Suas crises tornavam-se mais freqüentes.

Marfa substituía-o naqueles dias na cozinha, o que não convinha absolutamente a seu amo.

— Por que tens crises mais freqüentemente? — E olhava carrancudo para o novo cozinheiro. — Deverias arranjar mulher, queres que te case?

Mas Smierdiákov não respondia nada àquelas palavras, que o tornavam lívido de despeito. Fiódor Pávlovitch ia-se embora, dando de ombros. Sabia-o visceralmente honesto, incapaz de tomar ou roubar o que quer que fosse, e era o essencial. Estando bêbado, perdeu Fiódor Pávlovitch em seu pátio três cédulas de 100 rublos que acabara de receber e só se deu conta disso no dia seguinte. Ao cascavilhar em seus bolsos, viu-os em cima da mesa. Smierdiákov tinha-os achado e trazido na véspera. "Nunca encontrei outro igual a ti, meu bravo", disse lacônicamente Fiódor Pávlovitch, e presenteou-o com 10 rublos. É preciso acrescentar que não somente estava certo de sua honestidade, mas tinha afeição por ele, muito embora o rapaz lhe fizesse má cara, como aos outros.

Se alguém que o visse perguntasse: "Por que se interessa esse rapaz, que é que o preocupa sobretudo?" não se teria podido responder, olhando-o.

Entretanto, em casa, no pátio ou na rua, parava por vezes, pensativo, e ficava assim uma dezena de minutos. O rosto de Smierdiákov nada teria revelado a um fisionomista; nenhum pensamento, pelo menos, mas somente uma espécie de contemplação. Há um notável quadro do pintor Kramskói, intitulado O Contemplativo. Uma floresta no inverno; sobre a estrada vê-se um mujique, vestido com um cafetã rasgado e com sapatos de tília. Ali está numa solidão profunda e parece refletir, mas não pensa, contempla alguma coisa. Se se desse nele um encontrão, estremeceria e olharia como quem desperta, mas sem compreender. Na verdade, voltaria logo a si, mas se lhe perguntassem em que pensava, certamente não se lembraria de nada, mas, em compensação, decerto guardaria para si a impressão sob cujo império se achava durante, sua contemplação. Essas 132

impressões são-lhe caras e se acumulam nele, imperceptivelmente, sem que o perceba; com que fim, ele o ignora. Um dia, talvez, depois de havê-las armazenado durante anos, deixará tudo e partirá para Jerusalém, a fim de tratar de sua salvação. Ou então deitará fogo à sua aldeia natal, talvez faça mesmo as duas coisas sucessivamente. Há muitos contemplativos em nosso povo. Smierdiákov era certamente um tipo desse gênero e armazenava avidamente suas impressões, quase sem conhecer a razão disso.

VII

UMA CONTROVÉRSIA

Ora, a burra de Balaão pôs-se a falar de repente e a respeito de um tema estranho. De manhã, achando-se Gregório na venda do comerciante Lukiánov, ouviu-o contar o seguinte: um soldado russo foi feito prisioneiro, numa região afastada, por asiáticos que o intimaram, sob ameaça de tortura e morte, a abjurar o cristianismo e a converter-se ao Islão. Tendo recusado trair sua fé, sofreu o martírio*, deixou-se esfolar, morreu glorificando o Cristo. Esse fim heróico era relatado no jornal recebido naquela mesma manhã. Gregório falou disso à mesa. Fiódor Pávlovitch sempre gostara, à sobremesa, de brincar e tagarelar, mesmo com Gregório. 'Estava desta vez de humor jovial, sentindo um relaxamento agradável. Depois de ter escutado a notícia, bebericando seu conhaque, insinuou que deveriam ter canonizado aquele soldado e transferido sua pele para um mosteiro. "O povo cobri-la-ia de dinheiro. "

Gregório fechou a cara, vendo que Fiódor Pávlovitch, longe de se emendar, continuava a zombar das coisas santas. Naquele momento, Smierdiákov, que se mantinha perto da porta, sorriu. Já antes era muitas vezes admitido na sala de jantar, ao fim da refeição. Desde a chegada de Ivã Fiódorovitch, ali comparecia quase diariamente.

— Pois bem? O quê? — perguntou Fiódor Pávlovitch, compreendendo que aquele sorriso visava a Gregório.

— Penso naquele bravo soldado — disse, de repente, Smierdiákov, em voz alta. — Seu heroísmo é sublime, mas na minha opinião não teria havido, em semelhante caso, nenhum pecado em renegar o nome do 133

Cristo e o batismo, para assim salvar sua vida e consagrá-la às boas obras, que resgatariam um momento de fraqueza.

— Como, nenhum pecado? Mentes; isto te valerá ir para o inferno, onde te assarão como a um carneiro — replicou Fiódor Pavlovitch.

Foi então que chegou Aliócha, para grande satisfação de Fiódor Pavlovitch, como se viu.

— Trata-se de teu tema favorito — continuou ele, com um riso de escárnio, fazendo Aliócha sentar-se.

— Tolices tudo isso, não haverá nenhuma punição, não deve haver, em toda justiça — afirmou Smierdiákov.

— Como em toda justiça? — exclamou Fiódor Pavlovitch, redo-brando de alegria e empurrando Aliócha com os joelhos.

— Um desavergonhado, eis o que ele é! — deixou escapar Gregório, fitando Smierdiákov com cólera.

— Quanto a isso de desavergonhado, refreie-se, Gregório Vassílievitch! — replicou Smierdiákov, conservando seu sangue-frio. — Pense antes que, caído em poder dos que torturam os cristãos, e intimado por eles a maldizer o nome de Deus e renegar meu batismo, minha própria razão me autoriza a isso plenamente, porque não pode haver aí nenhum pecado.

— Já o disseste, não divagues, mas prova-o! — gritou Fiódor Pavlovitch.

— Queima-panelas! — murmurou Gregório com desprezo.

— Queima-panelas, espere um pouco, e sem palavrões, julgue você mesmo, Gregório Vassílievitch. Porque, logo que dissesse a meus carrascos: "Não, não sou cristão e maldigo o verdadeiro Deus", tornar-me-ia anátema aos olhos da justiça divina, seria separado da santa Igreja, como um pagão, de sorte que, no instante mesmo, não de proferir essas palavras, mas de pensar em proferi-las, estou excomungado, não é verdade, sim ou não, Gregório Vassílievitch? — Smierdiákov dirigia-se com satisfação visível a Gregório, embora respondendo somente às perguntas de Fiódor Pavlovitch; dava-se perfeitamente conta disso, mas fingia crer que era Gregório quem lhe fazia tais perguntas.

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— Ivã! — exclamou Fiódor Pavlovitch. — Chega perto de meu ouvido. Toda essa peroração dele é para ti, quer receber teus elogios. Dá-lhe esse prazer.

Ivã ouviu com grande seriedade a observação de seu pai.

— Espera um minuto, Smierdiákov — continuou Fiódor

Pavlovitch. — Ivã, aproxima-te de novo.

Ivã inclinou-se, sempre com o mesmo ar sério.

— Amo-te tanto quanto a Aliócha. Não vás crer que não te amo. Um pouco de conhaque?

— De boa vontade. "Tu pareces já ter passado da conta", disse Ivã a si mesmo, fitando o pai. Observava Smierdiákov com extrema curiosidade.

— Já és agora maldito e anátema — explodiu Gregório — e como ousas, depois disso, desavergonhado, discutir se...

— Nada de injúrias, Gregório, acalma-te! — interrompeu-o Fiódor Pavlovitch.

— Tenha paciência, Gregório Vassílievitch, ainda que seja um momentinho, e continue a escutar, porque ainda não acabei. No momento em que renego a Deus, nesse instante mesmo, tornei-me uma espécie de pagão, meu batismo apagou-se e não conta para nada, não é bem isto?

— Apressa-te em concluir, meu caro — estimulou-o Fiódor Pávlovitch, bebericando, deleitado.

— Ora, se não sou mais cristão, não menti então aos meus carrascos, quando perguntaram: "És cristão ou não?", porque já estava

"descristianizado" pelo próprio Deus, em conseqüência apenas de minha intenção e antes de ter aberto a boca. Ora, se estou decaído, como e com que direito me pedirão contas no outro mundo, na qualidade de cristão, por ter abjurado o Cristo, quando, pela simples premeditação, já teria sido desbatizado? Se não sou mais cristão, não posso mais abjurar o Cristo, porque isto já estaria feito. Quem pois, mesmo no céu, pedirá contas a um tártaro pagão por não ter nascido cristão e quem quererá puni-lo? Não diz o provérbio que não se deverá esfolar duas vezes o mesmo touro? Se o Todo-Poderoso exige contas a um tártaro, por ocasião de sua morte, suponho que o punirá levemente (não podendo absolvê-lo totalmente), 135

estimando não ser culpa dele o ter nascido pagão, de pais que o eram. Será que o Senhor pode pegar à força um tártaro e dizer dele que era cristão?

Seria o mesmo que dizer então que o Todo-Poderoso profere uma verdadeira mentira. Ora, pode ele mentir, ele que reina sobre a terra e nos céus, ainda mesmo por uma só de suas palavras?

Gregório ficou estupefato e examinou o orador, de olhos escancarados. Embora não compreendendo bem do que se tratava, apanhara uma parte daquele galimatias e assemelhava-se a um homem que dera com a cabeça de encontro a um muro. Fiódor Pávlovitch acabou de beber seu copinho e explodiu numa risada aguda.

— Aliócha, Aliócha, que homem! Ah! o casuísta! Deve ter fre-qüentado os jesuítas, em algum lugar, Ivã, Tresandas a jesuíta, quem pois te instruiu? Mas tu mentes desavergonhadamente, casuísta, tu divagas.

Não te desoles, Gregório, vamos reduzi-lo a pó. Responde a isto, burra: tens razão perante teus carrascos, seja, mas abjuraste a fé em teu coração e dizes tu mesmo que foste logo atingido de anátema. Ora, como tal, não te passarão a mão pelos cabelos no inferno. Que pensas disso, meu bom padre jesuíta?

— É fora de dúvida que abjurei em meu coração, no entanto não há nisso nenhum pecado especialmente, quando muito um pecado dos mais veniais.

— Como? Dos mais veniais?

— Mentes, maldito! — murmurou Gregório.

— Julgue você mesmo, Gregório Vassílievíich — continuou comedidamente Smierdiákov, consciente de sua vitória, mas fazendo-se de generoso para com um adversário abatido —, julgue você mesmo; está dito na Escritura que se tiverdes fé, ainda que seja do tamanho de um grão de mostarda, disserdes a uma montanha que se precipite no mar, ela irá, sem nenhuma demora, assim que derdes a primeira ordem. Pois bem, Gregório Vassilievitch, se não sou crente e se você o é, a ponto de me invectivar sem cessar, tente você mesmo dizer a essa montanha que vá, não para o mar (porque está ele muito longe daqui), mas mesmo para aquele riacho infecto que corre por trás de nosso jardim, e verá logo que ela não se moverá e que não haverá mudança alguma, por mais que você grite. Ora, isto significa que você não crê da maneira que convém, 136

Gregório Vassílievitch, e que, em compensação, você invectiva os outros.

Suponhamos ainda que ninguém, em nossa época, não somente você, mas ninguém decididamente, desde as pessoas mais altamente colocadas até o derradeiro mujique, possa empurrar as montanhas para o mar, a não ser um homem no mundo inteiro, dois quando muito, ainda assim talvez aqueles que tratam de sua salvação, ocultamente, no deserto do Egito e que não podem ser encontrados. Se assim é, se todos os outros são incréus, será possível que estes, isto é, a população do mundo inteiro, com exceção dos dois anacoretas, sejam amaldiçoados pelo Senhor, e que não perdoe ele a nenhum, dada a sua misericórdia bem conhecida? De modo que espero que minhas dúvidas me serão perdoadas, quando derramar lágrimas de arrependimento.

— Espera! — guinchou Fiódor Pávlovitch, no cumulo do entusiasmo. — De modo que supões que há dois homens capazes de mover montanhas? Ivã, nota esse detalhe, nota bem. O homem russo inteiro está aí!

— O senhor notou com bastante justeza que é esse um sinal da fé popular — disse Ivã Fiódorovitch, com um sorriso de aprovação.

— Estás de acordo? É então verdade, já que estás de acordo. É exato, Aliócha? Assemelha-se isso perfeitamente à fé russa?

— Não, Smierdiákov não tem de todo a fé russa — declarou Aliócha, num tom sério e firme.

— Não falo de sua fé, mas desse detalhe, desses dois anacoretas, nada mais do que esse detalhe: não é bem russo?

— Sim, esse detalhe é perfeitamente russo — aprovou Aliócha, sorrindo.

— Essa frase merece 1 ducado, burra, e eu to enviarei hoje mesmo, mas quanto ao resto tu mentes, tu divagas; fica sabendo, imbecil, que neste mundo todos nós não cremos somente por frivolidade, mas porque falta tempo; os negócios nos absorvem, os dias só têm 24 horas, não temos tempo não só de nos arrependermos, mas de dormir à vontade. Mas tu, tu abjuraste diante dos carrascos, quando não tinhas de pensar senão em tua fé e que era preciso justamente testemunhá-la! Isto constitui um pecado, meu caro, penso eu!

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— Decerto, constitui um, mas um pecado venial, julgue você mesmo, Gregório Vassílievitch. Porque se tivesse eu então crido na verdade, como importa crer nela, teria sido verdadeiramente um pecado não sofrer o martírio e converter-me à maldita religião de Maomé. Mas não teria sofrido o martírio, porque me bastaria dizer àquela montanha: marcha e esmaga o carrasco, para que ela se pusesse logo em movimento e o esmagasse como a uma barata, e ter-me-ia retirado como se de nada se tratasse, glorificando e louvando a Deus. Mas, se naquele momento já o tivesse tentado e gritado à montanha: esmaga os carrascos, sem que ela me obedecesse, como então, diga-me, não teria eu duvidado naquela hora terrível de pavor mortal? Fora isto, já sei que não obterei inteiramente o reino dos céus (porque se a montanha não se moveu à minha voz é que minha fé não goza de muito crédito lá em cima e que a recompensa que me espera no outro mundo não é bastante elevada); por que, pois, ainda por cima, deixar-me-ia esfolar sem nenhum proveito? Porque, mesmo esfolado até a metade das costas, minhas palavras ou meus gritos não deslocariam aquela montanha. Num tal minuto, não somente a dúvida pode invadir-nos, mas o medo pode tirar-nos a razão e impedir-nos de decidir. Por conseqüência, sou tão culpado assim, se salvo pelo menos a pele, não vendo em parte alguma um proveito ou uma recompensa?

Assim, confiante na misericórdia divina, espero ser inteiramente perdoado...

VIII

SABOREANDO O CONHAQUE

A discussão chegara ao fim, mas, coisa estranha, Fiódor Pávlovitch, tão alegre até então, ensombreceu-se. Serviu-se de mais um copo de conhaque, o que já era demais.

— Vão-se embora, jesuítas, fora daqui! — gritou ele para os criados. — Vai-te, Smierdiákov, receberás hoje o ducado prometido. Não te desoles, Gregório, vai procurar Marfa, ela te consolará, cuidará de ti. Esses canalhas não nos deixam descansar — disse ele, de mau humor, quando os criados saíram, obedecendo-lhe às ordens. — Smierdiákov vem agora aqui todos os dias depois do jantar. És tu que o atrais, que o tratas com mimos? — perguntou ele a Ivã Fiódorovitch.

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— Absolutamente — respondeu este. — Deu-lhe na veneta mostrar respeito por mim, é um lacaio, um pulha. Fará parte da vanguarda, quando o momento chegar.

— Da vanguarda?

— Haverá outros e melhores, mas haverá muitos como ele.

— E quando chegará o momento?

— O foguete arderá, mas talvez não até o fim. No momento, não gosta o povo de ouvir esses queima-panelas.

— Com efeito, aquela burra de Balaão pensa que não acaba mais, e Deus sabe até onde isso pode ir.

— Ele armazena idéias — observou Ivã, sorrindo.

— Vês tu? Sei que ele não me pode tolerar, nem a mim nem aos outros, e a ti em primeiro lugar, se bem que creias que "lhe deu na veneta mostrar respeito por ti". E quanto a Aliócha, ele despreza Aliócha. Mas não é ladrão, nem falador; não sai espalhando coisas; faz excelentes pastéis de peixe... Ah! Afinal, que o diabo o leve! Vale a pena falar dele?

— Decerto que não.

— E, quanto ao que ele pensa lá consigo, é preciso em geral chicotear o mujique russo. Sempre foi minha opinião. Nosso mujique é um velhaco, indigno de compaixão, e fazem bem em bater-lhe por vezes ainda agora. É a bétula que faz a força da terra russa, e ela perecerá com as florestas. Sou a favor das pessoas de espírito. Deixamos de bater nos mujiques, por liberalismo, mas eles continuam a chicotear a si mesmos. E

fazem bem. "Com a medida com que me dirdes, vos medirão a vós. " É

bem isto, não é?... Meu caro, se soubesses como odeio a Rússia... isto é, não a Rússia, mas todos os seus vícios... e talvez a Rússia. Tout cela, c'est de Ia cochonnerie. Sabes o que amo? Amo o espírito.

— O senhor serviu-se outro copo. Já bebeu bastante.

— Espera, tomarei ainda dois e acabou-se. Mas interrompeste-me.

De passagem por Mókroie, conversei um dia com um velho, que me disse:

"Gostamos, mais do que tudo, de condenar as moças a açoites, e encarregamos os rapazes de executar a sentença. Em seguida, o rapaz toma como noiva aquela a quem chicoteou, de modo que se tornou isso 139

um costume entre nós para as moças". Que sadistas, hein? Digam o que disserem, é engraçado. Se fôssemos ver isso, hein? Aliócha, ficas corado?

Não te envergonhes, meu filho. É pena que não tenhas ficado hoje para jantar com o padre abade. Teria falado aos monges a respeito das moças de Mókroie. Aliócha, não me queiras mal por ter ofendido o padre abade.

A cólera arrebata-me. Porque, se há um Deus, se ele existe, evidentemente sou culpado então, e responderei por isso, mas, se ele não existe, há necessidade ainda desses teus padres? Não seria demais se lhes cortassem a cabeça, porque eles impedem o progresso. Crês tu, Ivã, que isso me atormenta? Não, tu não o crês, vejo-o nos teus olhos. Crês que não sou senão um palhaço, como se pretende. Aliócha, crês tu nisso, crês tu?

— Não, não o creio.

— E eu estou persuadido de que falas sinceramente e que vês com justeza. Não és como Ivã. Ivã é presunçoso... No entanto, gostaria de acabar com o teu mosteiro. Seria preciso suprimir duma vez essa engenhoca mística em toda a terra russa, para converter todos os imbecis à razão. Quanto dinheiro e quanto ouro afluiriam para o Tesouro!

— Mas por que suprimir os mosteiros? — perguntou Ivã.

— A fim de que a verdade resplandeça mais depressa.

— Quando essa verdade resplandecer, primeiramente despojá-losão, depois... suprimi-los-ão.

— Ora! Mas talvez tenhas razão. Que asno sou! — exclamou Fiódor Pávlovitch, coçando a testa. — Paz ao teu mosteiro, Aliócha, se é assim.

Nós, pessoas de espírito, ficamos no quente e bebemos conhaque. É sem dúvida a vontade expressa de Deus. Ivã, dize-me, há um Deus, sim ou não?

Espera, responda-me seriamente! Por que ris ainda?

— Rio de sua observação espirituosa a respeito da fé que revelou Smierdiákov a respeito dos dois eremitas capazes de mover montanhas.

— É a mesma coisa?

— Totalmente.

— Pois bem, por conseqüência, sou também um homem russo, com a mesma característica russa, e tu, filósofo, podes ser apanhado com uma característica do mesmo gênero. Queres que te apanhe? Apostemos que 140

será amanhã. Mas dize-me, no entanto, há um Deus ou não? Somente é preciso que me fales seriamente.

— Não, não há Deus.

— Aliócha, Deus existe?

— Sim, existe.

— Ivã, há imortalidade? Por pequena que seja, por mais modesta?

— Não, não há.

— Nenhuma?

— Nenhuma.

— Quer dizer, um zero absoluto, ou uma parcela? Não haveria uma parcela?

— Um zero absoluto.

— Aliócha, há imortalidade?

— Sim.

— Deus e a imortalidade juntos?

— Sim. É em Deus que repousa a imortalidade.

— Hum! Deve ser Ivã quem tem razão. Senhor, quando se pensa quanto de fé e de energia essa quimera tem custado ao homem, em pura perda, desde milhares de anos! Quem, pois, zomba assim da humanidade?

Ivã, pela derradeira vez e categoricamente: há um Deus, sim ou não?

— Não, pela derradeira vez.

— Quem, pois, zomba do mundo, Ivã?

— O diabo, provavelmente — escarneceu Ivã.