Os Irmãos Karamázov

Fiódor Dostoiévski · Capítulo 20 de 50

Páginas do PDF

Os Irmãos Karamázov

Capítulo 19

— Versos são frioleiras! — cortou Smierdiákov.

— Oh! não, adoro os versos.

— Os versos! Não há nada de mais tolo. Julgue você mesma; será que a gente fala rimando? Se falássemos todos rimando, mesmo por ordem das autoridades, seria isso por muito tempo? Os versos não são coisa séria, Maria Kondrátievna.

— Como você é inteligente! Onde aprendeu tudo isso? — continuou a voz, cada vez mais caridosa.

— Saberia muito mais, se a sorte não me tivesse sido sempre contrária. Teria matado em duelo aquele que me chamasse de vilão, porque não tenho pai e nasci duma fedorenta. Eis o que me lançaram em rosto, em Moscou, onde souberam disto por Gregório Vassflievitch. Ele 236

me censura por me revoltar eu contra meu nascimento: "Tu lhe rompeste as entranhas". Pois seja, mas teria preferido que me matassem no ventre de minha mãe, a ter nascido. Dizia-se no mercado — e sua mãe me contou isso com sua falta de delicadeza — que a cabeça de minha mãe era ninho de galinha e que tinha de altura apenas 2 archini e pico. Por que dizer "e pico", quando podiam ter dito, como toda gente costuma dizer, simplesmente: "e um pouco mais"? É essa uma maneira boba de falar, muito própria de gente rústica. Pode o mujique falar direito diante de um homem culto? Por efeito de sua incultura, não possui senso nenhum do bem falar. Eu, desde menino, sempre que ouvia esse "e pico", tinha vontade de dar cabeçadas na parede. Detesto tudo quanto é russo, Maria Kondrátievna.

— Se você fosse um cadete ou um jovem hussardo, não falaria assim, mas tiraria seu sabre em defesa da Rússia.

— Não somente não desejaria ser hussardo, Maria Kondrátievna, mas desejo, pelo contrário, a supressão de todos os soldados.

— E se o inimigo vier, quem nos defenderá?

— De que servirá? Em 1812, viu a Rússia a grande invasão do

imperador dos franceses, Napoleão I, pai do atual, 19 e bom teria sido se os franceses nos tivessem conquistado; uma nação inteligente teria subjugado um povo estúpido, anexando-o. Tudo teria marchado de outra maneira.

— Quer dizer com isso que eles valem mais do que nós? Pois eu não trocaria um de nossos elegantes por três ingleses jovens — declarou com voz terna Maria Kondrátievna, acompanhando (provavelmente) suas palavras com o olhar mais langoroso.

— Isto depende dos gostos.

— Você parece um estrangeiro entre nós, o mais nobre estrangeiro, digo-o sem nenhuma vergonha.

— Para falar a verdade, no que diz respeito à corrupção, as pessoas de lá e as de cá se assemelham. Todos uns velhacos, com esta diferença: o estrangeiro anda de botas envernizadas, ao passo que o nosso tratante 19 Dostoiévski faz Smierdiákov cometer um erro histórico, para ressaltar sua ignorância e pedantismo.

237

nacional vive de cócoras na sua miséria e não se queixa. É preciso fustigar o povo russo, como o disse ontem com razão Fiódor Pávlovitch, muito embora ele e seus filhos não passem de uns loucos.

— Você respeita muito Ivã Fiódorovitch, você mesmo o disse.

— Mas tratou-me de lacaio fedorento. Toma-me por um revoltado, no que se engana. Se tivesse eu algum dinheiro, desde muito haveria fugido daqui. Dimítri Fiódorovitch é pior que um lacaio, pela sua conduta e pela sua inteligência; é um balaio furado, um bom para nada e, no entanto, o respeitam. Eu não passo de um queima-panelas, admitamos, mas, com sorte, poderia abrir um café-restaurante em Moscou, na Rua de São Pedro. Porque, com efeito, preparo pratos especiais e nenhum de meus colegas, em Moscou, é capaz disso, exceto os estrangeiros. Dimítri Fiódorovitch é um vagabundo, mas se provocar a duelo um filho de conde, não se recusará ele a comparecer ao terreno. Ora, que tem ele mais do que eu? É infinitamente mais estúpido. Quanto dinheiro já não gastou, sem mais nem menos?

— Isto de duelo deve ser coisa muito interessante — insinuou Maria Kondrátievna.

— Como assim?

— É espantoso, tal bravura, sobretudo quando jovens oficiais trocam balas por causa de uma mulher. Que quadro! Ah! se as mulheres pudessem assistir a isso... Eu gostaria tanto...

— É bonito quando se presencia, mas quando o alvo é a garganta da gente, a impressão não é nada agradável. Você sairia a correr, Maria Kondrátievna.

— E você, fugiria também?

Smierdiákov não se dignou responder. Depois de uma pausa, novo acorde soou e a voz de falsete entoou a derradeira copia: Por mais esforços que façam, Ninguém aqui me retém, Vou gozar a minha vida, Vou viver na capital, E não hei de lamentar-me, Não, não me lamentarei. ..

Nesse momento sobreveio um incidente. Aliócha espirrou; o silêncio se fez no banco. Levantou-se e marchou para o lado deles. Era com efeito Smierdiákov, trajado com todo o apuro, empomadado, creio que até 238

mesmo de cabelos frisados e de botinas envernizadas. Trazia sua guitarra ao lado. A mulher era Maria Kondrátievna, a filha da proprietária, moça nada feia, mas de rosto demasiado redondo, semeado de sardas; trazia um vestido azul-claro, com uma cauda de 2 archini.

— Meu irmão Dimítri tardará a chegar? — perguntou Aliócha, com o tom mais calmo possível.

Smierdiákov levantou-se lentamente; sua companheira imitou-o.

— Como posso eu saber das idas e vindas de Dimítri Fiódorovitch?

Seria diferente se fosse eu seu guardião — respondeu tranqüilamente Smierdiákov, com um matiz de desdém.

— Perguntava simplesmente se você sabia.

— Ignoro onde ele se encontra e não quero sabê-lo.

— Meu irmão me disse que você o informava de tudo quanto se passa na casa e lhe havia prometido anunciar-lhe a chegada de Agrafiena Alieksandrovna.

Smierdiákov, impassível, ergueu os olhos para Aliócha.

— Como fez para entrar? Há já uma hora que a porta foi aferrolhada.

— Ora, escalei a cerca. Espero que me desculpe (dirigia-se à Maria Kondrátievna), estava com pressa de ver meu irmão.

— Ah! nada há que desculpar! — murmurou a jovem, lisonjeada.

— Dimítri introduz-se muitas vezes dessa maneira no pavilhão; já está instalado, antes que a gente o tenha visto.

— Estou à sua procura, gostaria muito de vê-lo. Não poderia dizer-me onde se encontra ele neste momento? É para um negócio sério que lhe diz respeito.

— Ele não nos diz para onde vai — balbuciou a moça.

— Mesmo aqui, em casa de meus conhecidos, seu irmão me perseguia com perguntas a respeito de meu amo — disse Smierdiákov.

— Que se passa em casa dele, quem entra, quem sai, se não tenho nada a comunicar-lhe? Por duas vezes ameaçou matar-me.

239

— Será possível? — admirou-se Aliócha.

— Pensa que ele se constrangeria, com o caráter que tem? Pode o senhor mesmo julgar por ontem. "Se não conseguir apanhar Agrafiena Alieksandrovna e ela passar a noite em casa do velho, não respondo pela tua vida", disse-me ele. Tenho muito medo e, se ousasse, deveria denunciá-lo às autoridades. Deus sabe do que é ele capaz.

— Um dia destes, disse-lhe: "Eu te esmagaria num pilão" — acrescentou Maria Kondrátievna.

— Talvez não passe isso de palavras soltas... — observou Aliócha.

— Se eu pudesse vê-lo, falar-lhe-ia a este respeito.

— Eis tudo quanto posso comunicar-lhe — disse Smierdiákov, depois de ter refletido. — Venho freqüentemente aqui como vizinho. Por que não? Por outra parte, Ivã Fiódorovitch mandou-me hoje bem cedo à casa de Dimítri Fiódorovitch, na Rua do Lago, para dizer-lhe que fosse sem falta jantar com ele no botequim da praça. Fui lá, mas não o encontrei; já eram 8 horas. "Ele veio e depois partiu", disse-me textualmente o dono da casa. Dir-se-ia que haviam combinado isso. Neste momento, talvez esteja à mesa com Ivã Fiódorovitch, porque este não voltou para jantar; quanto a Fiódor Pávlovitch, há já uma hora que jantou e agora faz a sesta.

Mas rogo-lhe instantemente que não revele nada disso, ele seria capaz de matar-me por uma bagatela.

— Meu irmão Ivã marcou encontro com Dimítri no botequim, hoje? — insistiu Aliócha.

— Sim.

— No botequim A Capital, na praça?

— Precisamente.

— É bem possível! — exclamou Aliócha, agitado. — Agradeço-lhe, Smierdiákov, a notícia é importante, corro lá imediatamente.

— Não me atraiçoe.

— Não, apresentar-me-ei como por acaso, fique tranqüilo.

— Aonde vai então? Vou abrir-lhe a porta — gritou Maria Kondrátievna.

240

— Não, é mais perto por aqui. Vou transpor a cerca.

Aquela notícia impressionara Aliócha, que correu ao botequim. Não seria conveniente entrar ali com aquele seu traje, mas podia informar-se e chamar seus irmãos à escada. Assim que se aproximou do botequim, uma janela se abriu e Ivã gritou-lhe:

— Aliócha, podes vir ter aqui comigo? Ficar-te-ei infinitamente grato.

— Sim, mas com esta roupa...

— Estou num gabinete reservado, sobe o patamar, vou ao teu encontro.

Um instante depois, estava Aliócha sentado ao lado de seu irmão.

Ivã jantava sozinho.

III

OS IRMÃOS TRAVAM AMIZADE

Na verdade, a mesa de Ivã, perto da janela, estava protegida por um simples biombo dos olhares indiscretos. Encontrava-se ao lado do balcão, na primeira sala, em que os garçons circulavam a todo instante. Somente um velhinho, militar reformado, bebia chá num canto. Nas outras salas, ouvia-se o barulho habitual dos botequins: chamados, garrafas que se desarrolhavam, os choques das bolas no bilhar. Um órgão fazia-se ouvir.

Aliócha sabia que seu irmão não gostava dos botequins e a eles quase nunca ia. Sua presença só se explicava, pois, pela entrevista marcada com Dimítri.

— Vou mandar pedir para ti uma sopa de peixe ou outra coisa. Não vives de chá somente. — Ivã estava visivelmente encantado com a companhia de Aliócha. Acabara de jantar e tomava chá.

— De acordo, e em seguida chá, estou com fome — disse Aliócha num tom jovial.

— E doce de cerejas? Lembras-te de como gostavas dele, na tua infância, em casa de Políenov?

— Ah! lembras-te? Quero sim, gosto ainda dele.

241

Ivã tocou a campainha, ordenou uma sopa de peixe, chá e doces.

— Lembro-me de tudo, Aliócha. Tu tinhas onze anos e eu quinze. A camaradagem entre irmãos não é possível naquela idade, com quatro anos de diferença. Não sei mesmo se gostava de ti. Nos primeiros anos de minha estada em Moscou, nem mesmo pensava em ti. Depois, quando lá apareceste por tua vez, encontramo-nos uma única vez, creio. Há quatro anos que vivo aqui e não temos conversado. Parto amanhã e pensava ainda há pouco nos meios de ver-te para dizer-te adeus. Chegas a propósito.

— Desejavas muito ver-me?

— Muito. Quero que aprendamos a conhecer-nos mutuamente. Em seguida, nos separaremos. Na minha opinião, vale melhor conhecer-monos antes de separar-nos. Tenho notado como me observavas, durante esses três meses. Lia-se em teus olhos uma expectativa contínua. Não saberia tolerar isso e era o que me mantinha a distância. Afinal, aprendi a estimar-te: eis, pensava eu, um homenzinho de caráter firme. Nota que falo seriamente, embora rindo. Porque tu és firme, não és? Gosto de firmeza, por não importa que motivo e mesmo na tua idade. Enfim, teu olhar ansioso deixou de desagradar-me, tornou-se-me mesmo simpático.

Dir-se-ia que tens afeição por mim, Aliócha.

— Decerto, Ivã. Dimítri diz que és um tumulo. Eu digo que és um enigma. Tu o és ainda agora para mim, no entanto começo a compreender-te, desde esta manhã apenas.

— Que queres dizer? — disse Ivã, rindo.

— Não te zangarás, pelo menos? — perguntou Aliócha, rindo também.

— E então?

— Então, descobri que és um rapaz semelhante a todos os outros, aos 23 anos, um rapaz bem viçoso, bem gentilmente ingênuo, um verdadeiro fedelho, em uma palavra. Minhas palavras não te ofendem?

— Pelo contrário, estou admirado duma coincidência — exclamou Ivã, com ímpeto. — Acreditarias que desde nossa entrevista desta manhã só penso na ingenuidade dos meus 23 anos, e é por isso que começas, como se o tivesses adivinhado? Sabes o que dizia a mim mesmo ainda há 242

pouco? Se não tivesse mais fé na vida, se duvidasse duma mulher amada, da ordem universal, persuadido ao contrário de que tudo não é senão um caos infernal e maldito e estivesse eu preso dos horrores da desilusão —

mesmo então quereria viver ainda assim. Depois de ter bebido na taça encantada, só a deixaria uma vez esgotada. Aliás, perto dos trinta anos, pode ser que sinta saudade dela, mesmo inacabada, e irei... não sei aonde.

Mas, até os trinta anos, tenho a certeza, minha mocidade triunfará de tudo, do desencanto, do desgosto de viver. Muitas vezes tenho perguntado a mim mesmo se haveria no mundo um desespero capaz de vencer em mim esse furioso apetite de viver, inconveniente talvez; e penso que ele não existe, pelo menos antes de trinta anos. Esta sede de viver é chamada de vil por certos moralistas catarrentos e tuberculosos, sobretudo por poetas.

É verdade que é um traço característico dos Karamázovi, essa sede de viver à qualquer preço; encontra-se em ti, mas por que haveria de ser vergonhosa? Há ainda muita força centrípeta em nosso planeta, Aliócha.

Quer-se viver, e eu vivo, mesmo a despeito da lógica. Não creio na ordem universal, pois seja; mas amo os brotos tenros na primavera, o céu azul, amo certas pessoas, sem saber por quê. Amo o heroísmo, no qual talvez tenha deixado de crer desde muito tempo, mas que venero por hábito. Eis que te trazem a sopa de peixe. Bom apetite. É excelente, preparam-na bem aqui. Quero viajar pela Europa, Aliócha. Sei que não encontrarei lá senão um cemitério, mas quão querido! Queridos mortos nele repousam, cada pedra atesta a vida ardente deles, sua fé apaixonada nos seus ideais, sua luta pela verdade e pela ciência. Oh! cairei de joelhos diante daquelas pedras, beijá-las-ei, derramando lágrimas. Convencido, aliás, intimamente, de que tudo aquilo não é senão um cemitério e nada mais. E não serão lágrimas de desespero, mas de felicidade. Embriago-me com meu próprio enternecimento. Gosto dos brotos tenros da primavera e do céu azul. A inteligência e a lógica não entram nisso absolutamente, é o coração que ama, é o ventre, gosta-se de suas primeiras forças juvenis... Compreendes tu alguma coisa dessa minha arenga, Aliócha? — E Ivã pôs-se a rir.