Os Irmãos Karamázov

Fiódor Dostoiévski · Capítulo 21 de 50

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Os Irmãos Karamázov

Capítulo 20

— Compreendo por demais, Ivã; desejar-se-ia amar pelo coração e pelo ventre, como bem o disseste. Estou encantado com esse teu ardor de viver. Penso que se deve amar a vida acima de tudo.

— Amar a vida, em vez do sentido da vida?

— Decerto. Amá-la antes de raciocinar, sem lógica, como dizes; 243

então somente compreender-se-á o sentido dela. Eis o que entrevejo desde muito tempo. A metade de tua tarefa está realizada e adquirida, Ivã: amas a vida. Ocupa-te com a segunda parte, é a salvação.

— Estás muito apressado em salvar-me, talvez não esteja eu ainda perdido. Em que consiste essa segunda parte?

— Em ressuscitar teus mortos, que estão talvez ainda vivos. Dá-me chá. Estou satisfeito com nossa conversa, Ivã.

— Vejo que estás de veia. Gosto dessas professions de foi, 20 da parte de um noviço. Sim, tens firmeza, Alieksiéí. É verdade que queres deixar o mosteiro?

— Sim, meu stáriets me envia para o mundo.

— Então, nós tornaremos a ver-nos antes dos meus trinta unos, quando começar a desdenhar a taça. Nosso pai não quer renunciar a ela antes dos setenta anos, ou mesmo dos oitenta. Disse-o muito seriamente, embora seja um palhaço. Agarra-se à sua sensualidade como a um rochedo... Na verdade, após os trinta anos, não há outro recurso talvez.

Mas é vil entregar-se a isso até os setenta. Melhor vale cessar aos trinta.

Conserva-se uma aparência de nobreza, ao mesmo tempo que se engana a si mesmo. Não viste Dimítri hoje?

— Não, mas vi Smierdiákov. — E Aliócha fez a seu irmão um relato pormenorizado de seu encontro com Smierdiákov. Ivã escutava-o com ar preocupado e insistiu sobre certos pontos.

— Rogou-me que não repetisse a Dimítri o que disse dele —

acrescentou Aliócha.

Ivã franziu as sobrancelhas e pôs-se a refletir.

— Foi por causa de Smierdiákov que fechaste a cara?

— Sim. Que o diabo o carregue! Queria, com efeito, ver Dimítri; agora, é inútil... — declarou Ivã a contragosto.

— Partes deveras tão cedo, irmão?

— Sim.

20 Profissões de fé.

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— Como acabará tudo isso, entre Dimítri e nosso pai? — perguntou Aliócha, com inquietação.

— Voltas sempre a isso! Que posso eu fazer? Serei o guarda de meu irmão Dimítri? — replicou Ivã com irritação. De repente teve um sorriso amargo. — É a resposta de Caim a Deus. Pensas nisso neste momento, talvez, hein? Mas, que diabo! Não posso, no entanto, ficar aqui para vigiá-los! Meus negócios terminaram, parto. Não vás crer que eu estava com ciúmes de Dimítri, que procurava tomar-lhe a noiva, durante estes três meses. Oh! não, tinha meus negócios. Acabaram, parto. Viste o que se passou?

— Em casa de Catarina Ivânovna?

— Decerto. Libertei-me dum só golpe. Que me importa Dimítri?

Nada tem ele a ver com o caso. Tinha eu meus negócios próprios com Catarina Ivânovna. Sabes tu mesmo que Dimítri se portou como se estivesse conivente comigo. Não lhe pedi nada, foi ele mesmo quem ma transmitiu solenemente, com sua bênção. É de causar riso. Aliócha, se soubesses como me sinto leve, atualmente! Aqui, jantando, queria pedir champanha para celebrar minha primeira hora de liberdade. Puxa! Seis meses de servidão, quase, e, de repente, eis-me desembaraçado! Ontem ainda, não tinha a menor idéia de que era tão fácil dar tudo por acabado.

— Queres falar de teu amor, Ivã?

— Sim, do amor, se queres. Apaixonei-me por uma colegial e cau-sávamos sofrimento um ao outro. Não pensava senão nela... e de repente tudo se desmorona. Ainda há pouco falava eu com ar inspirado, mas saí rindo às gargalhadas, acreditas nisso? É a pura verdade.

— Falas disso ainda agora com alegria — notou Aliócha, examinando o rosto radiante de seu irmão.

— Mas como podia eu saber que não a amava absolutamente? Era, no entanto, a verdade. Mas quanto ela me agradava, e ainda ontem quando eu discorria! Mesmo agora, agrada-me muito, entretanto deixo-a de coração leve. Pensas talvez que banco o fanfarrão.

— Não, talvez não fosse amor.

— Aliócha — disse Ivã rindo —, não raciocines a respeito do amor, isto não te convém. Como te salientaste ainda há pouco! Esqueci-me de 245

abraçar-te por isto... Quanto ela me atormentava! Era um verdadeiro dilaceramento. Oh! ela sabia que eu a amava! Era a mim que ela amava e não a Dimítri — afirmou alegremente Ivã. — Dimítri só lhe serve para torturar-se. Tudo quanto lhe disse é a verdade pura. Somente, ser-lhe-ão precisos talvez quinze ou vinte anos para dar-se conta de que não ama realmente a Dimítri, mas apenas a mim, a quem ela faz sofrer. Talvez mesmo não o adivinhe nunca, malgrado a lição de hoje. Será melhor assim.

Deixei-a para sempre. A propósito, que há com ela? Que se passou depois de minha partida?

Aliócha contou-lhe que Catarina Ivânovna tivera uma crise de nervos e delirava agora sem conhecimento.

— Não estará mentindo aquela Khokhlakova?

— Creio que não.

— É preciso saber notícias dela. Não se morre duma crise de nervos.

Aliás, foi bondade de Deus conceder isso às mulheres. Não irei à casa dela.

Para quê?

— Tu lhe disseste, no entanto, que ela jamais te amara.

— Foi de propósito, Aliócha. Vou pedir champanha, bebamos à minha liberdade! Se soubesses como estou contente!

— Não, meu irmão, não bebamos, aliás, sinto-me triste.

— Sim, és triste, percebi-o desde muito tempo.

— Então partes decididamente amanhã de manhã?

— Amanhã, mas não disse de manhã... Aliás, pode ser que sim. Acreditadas que hoje jantei aqui unicamente para evitar o velho, de tal modo me causa ele aversão? Se só houvesse ele, teria partido daqui desde muito tempo. Por que te inquietas tanto com a minha partida? Temos ainda tempo daqui até lá, toda uma eternidade!

— Como, se partes amanhã?

— Que é que isso pode mesmo fazer? Teremos sempre tempo para tratar do assunto que nos interessa. Por que me olhas com espanto?

Responde, por que estamos reunidos aqui? Para falar do amor de Catarina Ivânovna, do velho ou de Dimítri? Do estrangeiro? Da situação fatal da 246

Rússia? Do Imperador Napoleão? É para isso?

— Não.

— Portanto, compreendes tu mesmo por quê. Nós outros, fedelhos, temos como tarefa resolver as questões eternas, eis nosso fim. Agora, toda a jovem Rússia só faz dissertar sobre essas- questões primordiais, ao passo que os velhos se limitam às questões práticas. Por que me olhaste durante três meses com um ar ansioso, senão para me perguntar: "Tens fé ou não tens?" Eis o que exprimiam os teus olhares, Alieksiéi Fiódorovitch; não é verdade?

— Pode muito bem ser — concedeu Aliócha, sorrindo. — Mas não estás zombando de mim neste momento, meu irmão?

— Zombando de ti? Não haveria de querer causar pesar a meu jovem irmão, que me olhou durante três meses com tanta ansiedade.

Aliócha, olha-me de frente: sou um menino igual a ti, com a diferença de que és noviço. Como procede a juventude russa, pelo menos uma parte?