Os Irmãos Karamázov
Capítulo 40
— Posso ficar sentada. Ah! você me atrapalha! Esse processo, esse ato selvagem, em seguida todos vão para a Sibéria, outros se casam, e tudo isso depressa, depressa, e tudo muda, enfim todos envelhecem e olham para o túmulo. Pois bem! seja, estou fatigada. Aquela Cátia... cette charmante personrie, iludiu minha esperança; agora vai acompanhar um de seus irmãos à Sibéria, o outro a seguirá e estabelecer-se-á na cidade vizinha e todos farão uns e outros sofrer. Isto me faz perder o juízo, sobretudo essa publicidade; falaram disso milhares de vezes nos jornais 583
de Petersburgo e de Moscou. Ah! sim, imagine você que escreveram também a meu respeito, que eu era uma "boa amiga" de seu irmão. Não posso pronunciar a tal palavra vergonhosa, imagine!
— É impossível! Onde escreveram isso, como?
— Vou mostrar-lhe. Recebi o jornal ontem. Aqui está, é no jornal de Petersburgo, Boatos. Esse Boatos apareceu este ano. Gosto muito dos boatos, tomei assinatura, e eis-me bem servida em questão de boatos. Está aqui, neste lugar, leia.
E estendeu a Aliócha um jornal que se achava sob o travesseiro.
Não estava agitada, mas abatida e, com efeito, tudo se misturava talvez na sua cabeça. O tópico era característico e devia certamente impressioná-la, mas por felicidade achava-se ela então incapaz de concentrar-se em um ponto e podia num instante esquecer mesmo o jornal e passar a outra coisa. Quanto à repercussão daquele triste caso na Rússia inteira, conhecia-a Aliócha desde muito tempo, e Deus sabe as notícias estranhas que tivera ocasião de ler havia dois meses, entre outras verídicas, a respeito de seu irmão, dos Karamázovi e dele mesmo. Dizia-se mesmo num jornal que, apavorado pelo crime de seu irmão, havia-se ele feito monge e enclausurara-se; aliás, desmentia-se esse boato afirmando, pelo contrário, que em companhia do stáriets Zósima arrombara ele a caixa do mosteiro e fugira. A notícia aparecida no jornal Boatos intitulava-se:
"Escrevem-nos de Skotoprigonievski" 40 (ai! assim se chama nossa cidadezinha, nome que ocultei por muito tempo), "a propósito do processo Karamázov". Era curta e o nome da Senhora Khokhlakova nela não figurava. Contava-se somente que o criminoso que se preparavam para julgar com tal solenidade, capitão reformado, de atitudes insolentes, vadio e partidário da servidão, mantinha intrigas amorosas, influenciava sobretudo "algumas damas a quem sua solidão pesava". Uma delas, "uma viúva que se entediava", afetando mocidade, se bem que mãe de uma filha já grande, enamorara-se dele a ponto de oferecer-lhe, duas horas antes do crime, 3 000 rublos para partir em sua companhia para as minas de ouro.
Mas o celerado preferira matar seu pai para roubar-lhe esses 3 000 rublos, contando com a impunidade, em vez de passear pela Sibéria os encantos 40 Significa, por extensão: Mercado de Animais.
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quadragenários de sua dama. Essa correspondência faceta terminava, como convém, por uma nobre indignação contra a imoralidade do parricídio e da servidão. Depois de ter lido com curiosidade, Aliócha dobrou o jornal, que entregou à Senhora Khokhlakova.
— Então? Não sou eu? Fui eu, com efeito, que, uma hora antes, lhe propus as minas de ouro, e logo "encantos de quarenta anos"! Mas era esse o meu objetivo? O jornalista fê-lo de propósito. Que o soberano juiz lhe perdoe essa calúnia como eu mesma lhe perdôo, mas foi... sabe quem? Seu amigo Rakítin.
— Talvez — disse Aliócha —, se bem que nada tenha ouvido a respeito.
— Foi ele, foi ele, decerto! Porque o pus para fora! Conhece então essa história?
— Sei que a senhora lhe pediu que cessasse suas visitas no futuro, mas por qual razão, justamente, não o soube... da parte da senhora pelo menos.
— Soube-o então por ele? Então, deblatera ele contra mim, com veemência?
— Sim, deblatera contra todo mundo, aliás. Mas ele tampouco me disse por qual motivo a senhora o despediu! De resto, encontro-o muito raramente. Não somos amigos.
— Pois bem! Vou contar-lhe tudo e, apesar de tudo, arrependo-me, porque há um ponto a respeito do qual sou eu mesma talvez culpada.
Algo de totalmente insignificante, aliás. Veja, meu caro (a Senhora Khokhlakova assumiu um ar jovial, e sorriu enigmàticamente), veja, suspeito... perdoe-me, falo-lhe como uma mãe... Oh! não, não, pelo contrário, dirijo-me a você como a meu pai... porque a mãe nada tem que ver aqui...
Enfim, tanto faz, como ao stáriets Zósima a confissão, e é tudo perfeitamente justo: chamei-o ainda há pouco de asceta... Pois bem! eis, aquele pobre rapaz, seu amigo Rakítin (meu Deus! não posso zangar-me contra ele), em suma, aquele desmiolado, imagine que lhe deu na cabeça, creio, enamorar-se de mim. Só o percebi depois, mas no começo, isto é, há um mês, veio ver-me frequentemente, quase todos os dias, e contudo já nos conhecíamos antes. Não suspeitava de nada... e de repente foi como 585
um raio de luz. Sabe você que há dois meses comecei a receber esse gentil e modesto rapaz, Piotr Ilitch Piekhótin, funcionário aqui? Você o encontrou mais de uma vez. Não tem mérito ele, não é sério? Vem duas vezes por semana, aparece sempre bem vestido, e, em geral, gosto da mocidade, Aliócha, quando ela tem modéstia, talento, como você; é quase um estadista, fala tão bem, haverei de recomendá-lo sem dúvida alguma. É
um futuro diplomata. Naquele horrendo dia, quase me salvou da morte vindo procurar-me à noite. Quanto a seu amigo Rakítin, vem sempre com seus sapatos ordinários que arrasta pelo tapete... em suma, põe-se a fazer alusões; uma vez, ao retirar-se, apertou-me a mão com bastante força. Foi a partir daquele momento que fiquei doente do pé. Ele já havia encontrado Piotr Ilitch em minha casa e — acreditá-lo-ia você? — falava mal dele sem cessar, encarniçava-se contra ele não se sabia por quê.
Contentava-me com observar os dois, para ver como se arranjariam, rindo comigo mesma. Um dia em que me encontrava sozinha, sentada, ou antes, já estendida, Mikhail Ivânovitch veio ver-me e, imagine você, trouxe-me versinhos de sua autoria, nos quais descrevia meu pé doente. Espere, como é?
Esse encantador pèzinho, Sofre um tanto, coitadinho... ou algo assim, não consigo lembrar-me desses versos, tenho-os aí, hei de mostrar-lhos depois, são encantadores, e não tratam somente de meu pé, são morais, com uma idéia deliciosa, mas esqueci-a, em suma, dignos de figurar num álbum.
Naturalmente, agradeci-lhe, ele pareceu lisonjeado. Mal acabara de fazê-lo e entrou Piotr Ilitch. Mikhail Ivânovitch ficou sombrio como a noite. Via bem que Piotr Ilitch o incomodava, porque queria ele certamente dizer alguma coisa após os versos, pressentia-o, e o outro entrou naquele momento. Mostrei os versos a Piotr Ilitch, sem dizer o nome do autor. Mas estou persuadida de que ele o adivinhou imediatamente, muito embora o negue até hoje. Piotr Ilitch desatou na gargalhada, pôs-se a criticar: "Maus versos", disse ele, "escritos por algum seminarista... " Sim, se o senhor visse com que calor, com que temeridade! Foi então que seu amigo, em lugar de rir, tornou-se furioso... Meu Deus! pensei que eles iam bater-se.
"Sou eu", disse ele, "o autor. Escrevi-os por brincadeira, porque acho uma baixeza fazer versos... Somente, meus versos são bons. Querem elevar um monumento a Púchkin por ter cantado os pés das mulheres; meus versos têm uma tendência moral, o senhor mesmo não passa de um reacionário refratário à humanidade, ao progresso, estranho ao movimento das idéias, 586 um burocrata, um papa-ordenados!" Pus-me então a gritar, a suplicar-lhes.
Ora, Piotr Ilitch, você sabe, não tem medo, assumiu uma atitude muito digna, olhou-o ironicamente e pediu desculpas depois de tê-lo escutado:
"Não sabia", disse, "senão não me teria exprimido dessa maneira, teria louvado seus versos... Os poetas são uma gente irritável". Em suma, zombadas proferidas no tom mais sério. Ele mesmo me confessou depois que estava zombando, mas eu deixara-me enganar. Pensava então, estendida como agora: ficará bem ou não, se eu expulsar Mikhail Ivanovitch por causa da intemperança de sua linguagem para com meu hóspede? Acreditaria você? Estou estendida, de olhos fechados, sem conseguir decidir-me, atormento-me, meu coração bate; gritarei ou não gritarei? Uma voz me diz: "Grita" e outra "Não, não grites!" Mal ouvi esta outra voz, pus-me a gritar, depois desmaiei. Naturalmente, foi uma cena tumultuosa. De repente, levanto-me e digo a Mikhail Ivanovitch: "Lamento muito, mas não quero mais vê-lo em minha casa". Foi assim que o pus para fora. Ah! Alieksiéi Fiódorovitch! Sei bem que agi mal, mentia, não estava absolutamente zangada com ele, mas de súbito pareceu-me que seria muito bem aquela cena..., Somente — acredita-o você? —, era aquela cena, no entanto, natural, porque eu chorava deveras e depois ainda alguns dias em seguida, afinal acabei por esquecer tudo, uma vez, depois do almoço. Havia ele cessado suas visitas desde duas semanas e eu perguntava a mim mesma: será possível que não volte mais? Foi então e
eis que à noite trazem-me o jornal Boatos. Leio e fico boquiaberta, com muita raiva. De quem seria? Dele! Logo que saiu daqui, rabiscara isto para enviá-lo ao jornal que o publicou. Passava-se isto há duas semanas.
Aliócha, tagarelo a torto e a direito, mas é mais forte do que eu!
— É preciso absolutamente que chegue a tempo hoje de estar com meu irmão — balbuciou Aliócha.
— Justamente, justamente! Isso me lembra tudo! Diga-me, que é a obsessão?
— Que obsessão? — perguntou Aliócha, surpreso.
— A obsessão judiciária. Uma obsessão que faz perdoar tudo. Tenha você cometido o que tiver cometido, perdoam-lhe.
— A propósito de que diz isso?
— Eis por quê: essa Cátia... Ah! é uma encantadora criatura, mas 587
ignoro de quem está ela enamorada. Veio aqui outro dia e nada pude saber. Tanto mais quanto ela se limita agora a generalidades, só me fala de minha saúde, afeta mesmo certo tom, e disse a mim mesma: "Pois seja, Deus a guarde!... " Ah! a propósito dessa obsessão, chegou esse tal doutor.
Você sabe disso decerto, foi você que o mandou chamar, isto é, você não, mas Cátia. Sempre Cátia! Está bem! Eis aqui: um indivíduo é normal, mas de repente tem uma obsessão. Está lúcido, dá-se conta de seus atos, entretanto, está presa duma obsessão. Pois bem! é o que aconteceu certamente a Dimítri Fiódorovitch. É uma descoberta e um benefício da justiça nova. O tal doutor chegou, fez-me perguntas a respeito daquela noite, enfim, a respeito das minas de ouro: como estava ele então, o acusado? Em estado de obsessão, bem decerto; exclama: dinheiro, dinheiro, dê-me 3 000 rublos, depois foi assassinar. Não quero, dizia ele, não quero matar, no entanto o fez. De modo que perdoá-lo-ão por causa dessa resistência, muito embora tenha matado.
— Mas ele não matou — interrompeu um pouco bruscamente Aliócha, cuja agitação e impaciência cresciam.
— Eu sei, foi o velho Gregório quem matou.
— Como, Gregório?