Os Irmãos Karamázov
Capítulo 37
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.
Quando chegou sua vez, Kolgánov apresentou-se a contragosto, com ar sombrio, caprichoso, e conversou com o procurador e Nikolai Parfiénovitch, como se os visse pela primeira vez, quando os conhecia desde muito tempo. Começou por dizer que "não sabia de nada e de nada queria saber". Mas ouvira Mítia falar da sexta nota de 1 000 e confessou que se encontrava então ao lado dele. Ignorava a soma que Mítia podia ter e afirmou que os poloneses tinham trapaceado no jogo de baralho. Após perguntas reiteradas, explicou que, expulsos os poloneses, Mítia voltara às boas graças junto a Agrafiena Alieksándrov-na e que esta declarara amá-lo. A respeito desta última exprimiu-se com delicadeza, como se pertencesse ela à melhor sociedade, não se permitiu nem uma só vez chamá-la Grúchenhka. Malgrado a repugnância visível do rapaz em depor, Ipolit Kirílovitch reteve-o muito tempo e somente por ele soube do que constituía, por assim dizer, o "romance" de Mítia naquela noite. Nem uma vez Mítia interrompeu Kolgánov, que se retirou sem esconder sua indignação.
Passaram aos poloneses. Tinham-se deitado em seu quartinho, mas não haviam pregado olho a noite toda; à chegada das autoridades, vestiram-se rapidamente, compreendendo que iriam chamá-los. Apresen-taram-se com dignidade, mas não sem apreensão. O pan baixinho, mais importante, era funcionário aposentado, de décima-segunda classe, servira como veterinário na Sibéria e se chamava Mussialóvitch. Pan Vrubliévski era dentista. Às perguntas de Nikolai Parfiénovitch, responderam a princípio dirigindo-se a Mikhail Makárovitch, que se conservava de lado; tomavam-no como a personagem mais importante e chamavam-no, a cada frase, pán
polkhóvnik37 Conseguiram fazer que eles compreendessem seu erro, aliás falavam corretamente o russo, salvo a pronúncia de certas palavras. Ao falar de suas relações com Grúchenhka, pan Mussialóvitch pôs nisso um ardor e uma altivez que exasperaram Mítia; exclamou que não permitia que um "tratante" se exprimisse assim em sua presença. Pan Mussialóvitch rebateu o termo e rogou que o mencionássemos nos autos. Mítia fervia de cólera.
— Sim, um tratante! Façam constar,'isto não me impedirá de repetir que ele é um tratante.
37 Senhor coronel, em polonês.
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Nikolai Parfiénovitch deu prova de muito tato por ocasião deste desagradável incidente; depois de uma severa repreensão a Mítia, renunciou a inquirir a respeito do lado romanesco do caso e passou ao fundo. Os juizes interessaram-se bastante pelo depoimento dos poloneses, segundo o qual Mítia oferecera 3 000 rublos a pan Mussialóvitch para renunciar a Grúchenhka; 700 de contado e o resto "amanhã de manhã na cidade". Afirmava sob palavra de honra não ter consigo, em Mó-kroie, a soma completa. Mítia declarou a princípio que não prometera fazer o pagamento no dia seguinte na cidade, mas pan Vrubliévski confirmou o depoimento, e Mítia, depois de pensar, conveio que poderia ter falado assim na sua exaltação. O procurador fêz grande caso desse depoimento; tornava-se claro para a acusação que uma parte dos 3 000 rublos caídos nas mãos de Mítia tinha podido ficar escondida na cidade, talvez mesmo em Mókroie. Assim se explicava uma circunstância embaraçosa para a acusação, o fato de terem sido encontrados apenas 800 rublos com Mítia; era, até então, a única que falava em seu favor, por mais insignificante que fosse. Agora, aquele único testemunho vinha abaixo. À pergunta do procurador: onde teria ele arranjado os 2 300 rublos prometidos ao pan para o dia seguinte, quando ele próprio afirmava não ter em seu poder senão 1 500, havendo dado sua palavra de honra, respondeu Mítia que tinha a intenção de propor ao pan, em lugar de dinheiro, a transferência por ato em cartório de seus direitos sobre a propriedade de Tchermachniá, já oferecidos a Samsonov e à Senhora Khokhlakova. O procurador sorriu da "ingenuidade do subterfúgio".
— E o senhor pensa que ele teria consentido em aceitar esses
"direitos" em lugar de 2 300 rublos em dinheiro?
— Decerto, porque isso lhe iria dar não 2 000, mas 4 000 e até mesmo 6 000 rublos. Teria mobilizado seus advogados judeus e poloneses, que haveriam de trazer o velho num cortado.
Naturalmente, o depoimento de pan Mussialóvitch foi transcrito in extenso nos autos, depois do que ele e seu companheiro puderam retirar-se.
O fato de haverem trapaceado no jogo foi silenciado; Nikolai Parfiénovitch era-lhes grato e não queria inquietá-los por bagatelas, tanto mais quanto se tratava de uma querela entre jogadores embriagados e nada mais. Aliás, o escândalo não faltara naquela noite... Os 200 rublos ficaram assim no bolso dos poloneses.
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Chamaram em seguida o velho Maksímov. Entrou timidamente, a passos miúdos, o ar triste e a roupa em desordem. Refugiara-se todo o tempo junto a Grúchenhka, sentado ao lado dela em silêncio, "pronto a choramingar, enxugando os olhos com seu lenço de quadrados", como contou mais tarde Mikhail Makárovitch. Tanto que era ela quem o acalmava e consolava. De lágrimas nos olhos, o velho pediu desculpas por ter pedido emprestados 10 rublos a Dimítri Fiódorovitch, visto sua pobreza, e declarou-se pronto a restituí-los... Tendo-lhe Nikolai Parfiénovitch perguntado quanto ele pensava que Dimítri Fiódorovitch tinha em dinheiro, visto que podia observá-lo de perto ao pedir-lho emprestado, respondeu Maksímov categoricamente: 20 000 rublos.
— O senhor já viu antes alguma vez 20 000 rublos? — perguntou Nikolai Parfiénovitch, sorrindo.
— Como não? Decerto. Não 20 000, mas 7 000, quando minha esposa hipotecou minha propriedade. Para falar a verdade, ela só mos mostrou de longe e aquilo formava uma maçaroca bem grossa de notas de 100
rublos. Dimítri Fiódorovitch também estava com notas de 100 rublos...
Não o retiveram muito tempo. Por fim chegou a vez de Grúchenhka.
Os juizes temiam a impressão que sua chegada poderia produzir em Dimítri Fiódorovitch, e Nikolai Parfiénovitch dirigiu-lhe mesmo algumas palavras de exortação, às quais Mítia respondeu com um aceno de cabeça, indicando assim que não haveria desordem. Foi Mikhail Makárovitch quem trouxe Grúchenhka. Ela entrou, o rosto rígido e sombrio, o ar quase calmo, e tomou lugar em frente de Nikolai Parfiénovitch. Estava muito pálida e enrolava-se friorentamente no seu belo xale negro. Sentia, com efeito, o arrepio da febre, começo da longa doença que contraiu naquela noite. Seu ar rígido, seu olhar franco e sério, a calma de suas maneiras produziram a impressão mais favorável. Nikolai Parfiénovitch ficou mesmo seduzido; contou mais tarde que somente então compreendera quanto era encantadora aquela mulher; antes via nela "uma cortesã de subprefeitura". "Tem as maneiras da melhor sociedade", deixou ele escapar uma vez com entusiasmo num círculo de senhoras. Ouviram-no com indignação e logo o trataram de "descarado", o que o encantou. Ao entrar, lançou Grúchenhka a Mítia um olhar furtivo; ele, por sua vez, a examinou com inquietação, mas seu ar tranqüilizou-o. Após as perguntas habituais, Nikolai Parfiénovitch, com alguma hesitação, mas com o ar 512
mais polido, perguntou-lhe "quais eram suas relações com o tenente reformado Dimítri Fiódorovitch Karamázov".
— Era um conhecido e como tal o recebi em minha casa neste último mês.
Em resposta a outras perguntas, declarou francamente que não amava Mítia então, se bem que ele lhe agradasse "por momentos"; seduzira-o por maldade, bem como ao velho; o ciúme que Mítia sentia de Fiódor Pávlovitch e de todos divertia-a. Jamais pensara em ir à casa de Fiódor Pávlovitch, de quem ela zombava. "Durante todo este mês, não me interessava por eles; esperava um outro, que tinha culpa para comigo...
Somente acho que não precisam os senhores de interrogar-me a esse respeito e não tenho obrigação de responder-lhes. Trata-se de minha vida privada."
Nikolai Parfiénovitch deixou imediatamente de lado os pontos
"romanescos" e abordou a questão capital dos 3 000 rublos. Grúchenhka respondeu que fora mesmo a soma gasta em Mókroie um mês antes, segundo as palavras de Dimítri, porque ela mesma não havia contado as cédulas.
— Disse-lhe ele isso em particular ou diante de terceiros, ou então só o soube a senhora por intermédio de outras pessoas? — perguntou logo o procurador.
Grúchenhka respondeu afirmativamente a essas três perguntas.
— Ouviu-o a senhora dizê-lo em particular uma ou várias vezes?
Respondeu que várias vezes.
Ipolit Kirílovitch ficou bastante satisfeito com esse depoimento.
Ficou depois estabelecido que Grúchenhka sabia que o dinheiro provinha de Catarina Ivânovna.
— Não ouviu a senhora dizer que Dimítri Fiódorovitch gastara então menos de 3 000 rublos e guardara para si a metade?
— Não, nunca.
Pelo contrário, havia um mês Mítia lhe declarara por várias vezes estar sem dinheiro. "Esperava sempre recebê-lo de seu pai", concluiu Grúchenhka.
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— Não disse ele, diante da senhora... incidentemente ou num momento de irritação — perguntou de repente Nikolai Parfiénovitch —, que tinha intenção de tentar contra a vida de seu pai?
— Sim, ouvi-o dizer — respondeu Grúchenhka.
— Uma vez ou várias?
— Várias vezes, sempre em acessos de cólera.
— E a senhora acreditava que ele poria esse projeto em execução?
— Não, nunca! — respondeu ela com firmeza. — Contava com a nobreza de seus sentimentos.
— Senhores, um instante — exclamou Mítia —, permitam-me que diga, na presença dos senhores, uma palavra apenas a Agrafiena Alieksándrovna.
— Pode falar — consentiu Nikolai Parfiénovitch.
— Agrafiena Alieksándrovna — disse Mítia, levantando-se —, juro-o perante Deus: sou inocente da morte de meu pai!
Mítia tornou a sentar-se. Grúchenhka levantou-se, benzeu-se piedosamente diante do ícone.
— Deus seja louvado! — disse ela com efusão e acrescentou, dirigindo-se a Nikolai Parfiénovitch: — Acredite no que ele disse! Eu o conheço, é capaz de dizer não sei o quê por brincadeira ou por teimosia, mas nunca fala contra a sua consciência. Diz a verdade completa, esteja certo!
— Obrigado, Agrafiena Alieksándrovna, reconfortaste minha alma — disse Mítia, com voz trêmula.
A respeito do dinheiro do dia anterior, declarou ela não conhecer a soma, mas ter ouvido Dimítri repetir freqüentemente que levara 3 000
rublos. Quanto à sua proveniência, dissera-lhe comente a ela que os
"roubara" de Catarina Ivânovna, ao que respondeu ela que não era um roubo e que era preciso restituir o dinheiro logo no dia seguinte.
Insistindo o procurador em saber o que entendia Dimítri por dinheiro roubado, o do dia anterior ou o de havia um mês, declarou Gruchenhka que ele falara do dinheiro de então e ela assim o compreendia.
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Terminado o interrogatório, disse Nikolai Parfiénovitch, com solicitude, a Gruchenhka que estava ela livre de voltar para a cidade e que, se pudesse ele ser-lhe útil em alguma coisa, arranjando-lhe por exemplo cavalos ou fazendo-a acompanhar, faria...
— Obrigada — disse Gruchenhka, cumprimentando-o. — Partirei com aquele velho, o proprietário rural. Mas, se o senhor o permitir, esperarei aqui sua decisão a respeito de Dimítri Fiódorovitch.
Saiu. Mítia estava calmo e tinha o ar reconfortado, mas por um instante somente. Uma estranha lassitude invadia-o cada vez mais. Seus olhos se fechavam contra a sua vontade. O interrogatório das testemunhas estava afinal acabado. Procedeu-se à redação definitiva do processo verbal.
Mítia levantou-se e foi estender-se a um canto, sobre uma grande mala coberta por um tapete. Adormeceu logo. Teve um sonho estranho, sem relação com as circunstâncias. Viajava pela estepe, numa região por onde passara outrora, estando de serviço. Um mujique o conduz em tieliega através da planície enlameada. Faz frio, são os primeiros dias de novembro, a neve cai em grossos flocos que se derretem imediatamente. O
mujique chicoteia vigorosamente seus cavalos, tem uma comprida barba ruiva, é um homem duns cinqüenta anos, vestido com um ordinário cafetã cinzento. Aproximam-se de uma aldeia da qual se avistam as isbás negras, muito negras, a metade incendiadas, erguendo-se ainda apenas traves carbonizadas. Na estrada, à entrada da aldeia, uma multidão de mulheres alinha-se, todas magras e descarnadas, o rosto crestado. Ali está uma, à beira da estrada, ossuda, alta, parecendo ter uns quarenta anos, mas talvez não tendo senão vinte, o rosto longo e desfeito; tem nos braços uma criancinha que chora, seu peitos devem estar esgotados, parecem ressequidos, e a criança chora, chora sem parar, estende seus bracinhos nus, seus pequenos punhos roxos de frio.
— Por que choram eles? — pergunta Mítia, passando a galope.
— É o nenê — responde o cocheiro —, é o nenê que chora.
E Mítia fica impressionado por ter ele dito à sua maneira, como os mujiques, o "nenê" e não o bebê. Isso lhe agrada, isso lhe parece mais compassivo.
— Mas por que chora ele? — obstina-se em perguntar Mítia. — Por que seus bracinhos estão nus? por que não lhos cobrem?
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— O nenê está transido de frio, suas roupas estão geladas, de modo que não o aquecem.
— Como assim? — insiste Mítia, estupidificado.
— É que eles são pobres, suas isbás foram queimadas, não têm pão.
— Não, não — prosseguiu Mítia, que parecia continuar a não compreender —, dize-me por que aquelas desgraçadas se conservam aqui, por que tanta miséria, aquele pobre nenê, por que a estepe é nua, por que aquelas pessoas não se beijam cantando canções alegres, por que são tão negras, por que não dão de comer ao nenê?
Sente bem que suas perguntas são absurdas, mas não pode impedir-se de fazê-las e tem razão; sente também que o invade um enternecimento, que vai chorar, gostaria de consolar o nenê e sua mãe de peitos estor-ricados, de secar as lágrimas de todo mundo e isto tudo imediatamente, sem levar nada em conta, com todo o ardor de um Karamázov.
— Estou contigo, não te deixarei mais — diz-lhe ternamente Grúchenhka.
Seu coração se abrasa e vibra a uma luz longínqua, quer viver, seguir o caminho que leva àquela luz nova, àquela luz que o chama.
— Que é? Onde estou? — exclama ele, abrindo os olhos. Ergue-se sobre a mala como quem desperta de um desmaio, com um sorriso radiante. Diante dele se encontra Nikolai Parfiénovitch, que o convida a ouvir o processo verbal e a assiná-lo.
Mítia deu-se conta de que dormira uma hora ou mais, mas não escutava o juiz. Estava estupefato por ter encontrado sob sua cabeça uma almofada que lá não estava quando se estirou esgotado sobre a mala.
— Quem pôs aqui esta almofada? Quem teve tanta bondade? —
exclamou ele, com exaltação, com uma voz emocionada, como se se tratasse dum benefício inestimável. O corajoso coração que tivera essa atenção permaneceu desconhecido, mas Mítia estava comovido até as lágrimas. Aproximou-se da mesa e declarou que assinaria tudo quanto quisessem.
— Tive um belo sonho, senhores — disse ele com uma voz estranha e o rosto como que iluminado de alegria.
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IX
Í
LEVAM MÍTIA PRESO
Uma vez assinado o processo verbal, dirigiu-se Nikolai Parfiénovitch solenemente ao acusado e leu para ele um "auto de processo e de prisão", segundo cujos termos ele, juiz de instrução... tendo interrogado e detido... (seguiam-se os termos de acusação), atendendo a que este, embora declarando-se inocente dos crimes quê lhe eram imputados, nada produzira para justificar-se, a que entretanto as testemunhas ... e as circunstâncias... o inculpavam inteiramente, tendo em vista os artigos... do Código Penal, ordenava, a fim de impedir que o supracitado se subtraísse ao inquérito e julgamento, que fosse encarcerado e se desse cópia do presente ao procurador, etc. Em suma, declarou-se a Mítia que se achava ele doravante detido, qué iam levá-lo à cidadf e encerrá-lo numa residência muito pouco agradarei. Mítia ergueu ©s ombros.
— Está bem, senhores, não lhes quero mal, estou pronto... compreendo que não lhes resta outra coisa a fazer.
Nikolai Parfiénovitch explicou-lhe que ele ia ser levado por Mavríki Mavríkitch, ali presente.
— Esperem — interrompeu Mítia, e sob um impulso irresistível dirigiu-se a todos os presentes: — Senhores, somos todos cruéis, todos monstros, é por nossa causa que choram as mães e as criancinhas, mas entre todos, eu o proclamo, sou eu o pior! Cada dia, batendo no peito, jurava emendar-me, e cada dia cometia as mesmas vilanias. Compreendo agora que a criaturas tais como eu é preciso um golpe do destino e seu laço, uma força exterior que as dome. Jamais teria eu mesmo podido erguer-me! Mas o raio descarregou-se. Aceito as torturas da acusação, da ignomínia pública. Quero sofrer e redimir-me pelo sofrimento! Talvez o consiga, não é, senhores? Escutem, no entanto, pela derradeira vez: não derramei o sangue de meu pai! Aceito o castigo, não por tê-lo matado, mas por ter querido matá-lo, e talvez mesmo o tivesse feito! Estou resolvido não obstante a lutar contra os senhores, declaro-lhes. Lutarei até o fim e, em seguida, que Deus decida! Adeus, senhores, perdoem-me meus rompantes durante o interrogatório, estava então ainda desvairado...
Dentro de um instante serei um preso e pela derradeira vez Dimítri 517
Karamázov, como um homem livre ainda, estende-lhes a mão.
Apresentando-lhes minhas despedidas, é ao mundo que as apresento!...
Sua voz tremia, estendeu com efeito a mão, mas Nikolai Parfiénovitch, que era quem se achava mais perto dele, ocultou a sua com um gesto convulsivo. Mítia percebeu-o e estremeceu. Deixou seu braço recair.
— O inquérito ainda não está terminado — disse o juiz um pouco confuso —, vai prosseguir na cidade, e, de minha parte, desejo que o senhor... consiga... justificar-se... Pessoalmente, Dimítri Fiódoro-vitch, sempre o considerei mais infeliz que culpado... Todos aqui, se ouso fazer-me intérprete deles, estamos dispostos a ver no senhor um jovem, no íntimo nobre, mas, ai! arrebatado por suas paixões duma maneira excessiva...
Foram estas derradeiras palavras pronunciadas pelo pequeno juiz com grande dignidade. Pareceu de repente a Mítia que aquele rapazola ia pegá-lo pelo braço, levá-lo para um canto e continuar sua recente conversa a respeito das "garotas". Mas quem sabe as idéias intempestivas que ocorrem por vezes mesmo a um criminoso a quem levam ao suplício?
— Os senhores são bons, humanos. Poderei tornar a vê-la para dizer-lhe um último adeus?
— Sem dúvida, mas... em nossa presença...
— De acordo.
Trouxeram Grúchenhka, mas o adeus foi lacônico e decepcionou Nikolai Parfiénovitch. Grúchenhka fez uma profunda saudação a Mítia.
— Já te disse que sou tua, que te pertenço para sempre, seguir-te-ei por toda parte aonde te enviarem. Adeus, tu que te perdeste sem seres culpado.
Seus lábios tremiam, ela chorava.
— Perdoa-me, Grucha, o amar-te, o ter causado também tua perda pelo meu amor.
Mítia queria falar ainda, mas deteve-se e partiu. Foi logo cercado por pessoas que não o perdiam de vista. Duas tieliegui esperavam ao pé do patamar, onde chegara ele na véspera com muito barulho na tróica de Andriéi. Mavríki Mavríkitch, baixo e robusto, o rosto enrugado, estava 518
irritado por causa de alguma desordem inesperada e gritava. Num tom cortante, convidou Mítia a subir na tieliega. "Outrora, quando eu lhe pagava de beber no botequim, a personagem tinha outra cara'*, pensou Mítia. Trifon Borísovitch desceu o patamar. Perto do portão comprimiam-se mujiques, mulheres, os cocheiros, todos mirando Mítia.
— Adeus, boa gente! — gritou-lhes Mítia já na tieliega.
— Adeus! — disseram duas ou três vozes.
— Adeus, Trifon Borísovitch!
Mas Trifon Borísovitch nem mesmo se voltou, estando sem dúvida bastante preocupado. Gritava também e agitava-se. Tudo não estava em regra na segunda tieliega em que devia subir a escolta. O mujique designado para conduzi-la, enquanto vestia seu cafetã, sustentava energicamente que não era ele quem devia ir, mas Akim. Mas Akim não estava ali; corria-se à sua procura; o mujique insistia, suplicava que se esperasse.
— É uma trama descarada que temos aqui, Mavríki Mavríkitch! —
exclamou Trifon Borísovitch. — Há três dias, Akim te deu 25 copeques, tu os bebeste e agora gritas. Espanto-me somente da bondade do senhor para com esses sujeitos.
— Que necessidade temos duma segunda tróica? — interveio Mítia. — Viajemos com uma só, Mavríki Mavríkitch, não me revoltarei nem fugirei. Por que queres uma escolta?
— Aprenda a falar comigo, senhor, se não o sabe ainda. Trate de não me tratar por tu e guarde seus conselhos para outra ocasião... — replicou impertinentemente Mavríki Mavríkitch, como que feliz por extravasar seu mau humor.
Mítia calou-se, corando. Um instante depois, sentiu vivamente o frio.
A chuva cessara, mas o céu estava coberto de nuvens, um vento áspero soprava no rosto. "Tenho arrepios", pensou Mítia, enrodilhando-se. Por fim Mavriki Mavríkitch subiu por sua vez e sentou-se pesadamente, bem à vontade, empurrando Mítia para um lado, sem parecer prestar-lhe atenção. Na verdade, estava mal-humorado e bastante descontente com a missão que lhe haviam confiado.
— Adeus, Trifon Borísovitch! — gritou de novo Mítia, sentindo que, desta vez, não era de bom coração, mas de cólera, malgrado seu, que 519
gritava. Trifon Borísovitch, com ar arrogante, as mãos atrás das costas, fixou Mítia com um olhar severo e não lhe respondeu.
— Adeus, Dimítri Fiódorovitch, adeus! — repercutiu de súbito a voz de Kolgánov. Correndo para a tieliega, estendeu a mão a Mítia. Estava sem casquete. Mítia teve ainda tempo de apertar-lha.
— Adeus, meu bravo amigo, não esquecerei sua generosidade! —
disse ele com ardor. Mas a tieliega pôs-se em movimento, suas mãos desenlaçaram-se, os guizos retiniram, levavam Mítia.
Kolgánov correu para o vestíbuló, sentou-se num canto, curvou a cabeça, ocultou o rosto nas mãos e chorou por muito tempo, chorava como um menino. Estava quase convencido da culpabilidade de Mítia. "Que podem as pessoas valer depois disso?", murmurava ele, num total desamparo. Não queria mesmo mais viver naquele instante. "Será que isso vale a pena?", exclamava o rapaz no seu pesar.
QUARTA PARTE
LIVRO X
MORTE DE ILIÚCHA
I
KÓLIA KRASÓTKIN
Primeiros dias de novembro. Onze graus de frio e regêlo. Durante a noite, caiu um pouco de neve seca, que o vento áspero e picante levanta e varre através das ruas sombrias de nossa cidadezinha, sobretudo na praça do mercado. Está escura a manhã, mas a neve cessou. Não longe da praça, perto da loja dos Plótnikovi, encontra-se a casinha, muito limpinha no exterior e no interior, da Senhora Krasótkina, viúva de um funcionário.
Completar-se-ão em breve catorze anos da morte do secretário do governo Krasótkin, mas sua viúva, ainda graciosa e com pouco mais de trinta anos, vive de suas rendas em sua casinha. Doce e alegre, leva uma existência modesta e digna. Tendo ficado viúva aos dezoito anos, com um filho que 520
acabava de nascer, consagrou-se inteiramente à educação de Kólia. Amava-o cegamente, mas o menino lhe causou certamente mais pesares que alegrias, no temor perpétuo de vê-lo adoecer, resfriar-se, vadiar, ferir-se ao brincar, etc. Quando Kólia entrou para o colégio, sua mãe pôs-se a estudar todas as matérias, a fim de ajudá-lo a fazer seus exercícios, travou conhecimento com os professores e suas esposas, adulou mesmo os camaradas de seu filho, para evitar que zombassem dele ou que lhe batessem. Chegou a ponto de começarem os colegiais a zombar verdadeiramente de Kólia, a importunar "o queridinho da mamãe". Mas o menino soube fazer-se respeitar. Era ousado e logo passaram a achá-lo na classe "rudemente forte", e além disso esperto, de caráter teimoso, espírito audacioso e empreendedor. Era um bom aluno, corria mesmo o rumor de que em matemática e história universal passava a perna no Professor Dardaniélov. Mas Kólia, embora afetando certo ar de superioridade, era bom camarada e nada orgulhoso. Aceitava como devido o respeito dos colegiais e mostrava uma atitude amigável. Conhecia sobretudo a medida, sabia reter-se a tempo devido e para com os professores não ultrapassava jamais o derradeiro limite além do qual a vivacidade não pode ser tolerada, tornando-se desordem e insubordinação. No entanto, estava sempre pronto à travessura, quando se ensejava ocasião, como o derradeiro dos garotos, ou antes a bancar de malicioso, a chamar a atenção. Cheio de amor-próprio, soubera ganhar ascendência sobre sua mãe, que sofria desde muito tempo o seu despotismo. Somente era-lhe insuportável a idéia de que seu filho a amava pouco. Kólia parecia-lhe sempre insensível a seu respeito e acontecia que, numa crise de lágrimas, ela o censurava pela sua frieza. O rapazinho não gostava disso e quanto mais efusões exigiam dele mais a elas se furtava. Mas era contra a sua vontade, provinha isto de seu caráter e não de sua vontade. Sua mãe se enganava; ele a amava, somente, não gostava das "ternuras de novilha", como dizia em sua linguagem de escolar. Seu pai deixara uma biblioteca, e Kólia, que gostava de ler, ficava por vezes horas mergulhado nos livros, em lugar de ir brincar, para grande espanto de sua mãe. Leu assim coisas acima de sua idade. Nos últimos tempos, suas travessuras — sem ser perversas — espantavam sua mãe por causa de sua extravagância. Durante as férias, em julho, a mãe e o filho iam passar uma semana em casa de uma parenta, cujo marido era empregado ferroviário na estação mais próxima da nossa cidade. (Fora lá, a 70 verstas, que Ivã Fiódorovitch 521
tomara o trem para Moscou, um mês antes.) Kólia começou por examinar minuciosamente o caminho de ferro e seu funcionamento, compreendendo que poderia deslumbrar seus colegas com seus novos conhecimentos. Ao mesmo tempo, ligou-se a seis ou sete garotos da vizinhança, de doze a quinze anos de idade, entre os quais dois provinham de nossa cidade. Faziam travessuras em comum e em breve o alegre bando teve idéia de fazer uma aposta verdadeiramente estúpida, cuja parada era de 2 rublos. Kólia, um dos mais jovens e portanto um pouco desdenhado pelos mais idosos, levado pelo amor-próprio ou pela temeridade, propôs ficar deitado entre os trilhos, sem mexer-se, enquanto o trem das 11 horas da noite passaria sobre ele a todo vapor. Na verdade, um exame prévio permitiria verificar que a coisa era factível, que a pessoa podia realmente achatar-se entre os trilhos sem ser mesmo roçada pelo trem. Mas que minuto penoso teria de passar! Kólia jurou por toda parte que o faria. Começaram por zombar dele, trataram-no de fanfarrão, o que o excitou ainda mais. Também aqueles rapazes de quinze anos mostravam-se por demais arrogantes, tendo mesmo recusado a princípio levar em consideração aquele fedelho, tratando-o como camarada. Ofensa intolerável. Numa noite sem lua, decidiram ir a 1 versta da estação, onde o trem já passaria rapidamente. Na hora marcada Kólia deitou-se entre os trilhos. Os cinco outros apostadores, de coração a desfalecer, em breve tomados de pavor e de remorso, aguardavam nas moitas embaixo do talude. Dentro em pouco ouviu-se o barulho do trem que se punha em movimento. Duas lanternas vermelhas brilharam nas trevas, o monstro aproximava-se estrondosamente. "Foge! Foge!", gritaram, apavorados. Era demasiado tarde, o trem passou e desapareceu. Precipitaram-se para Kólia, que jazia, inerte, puseram-se a sacudi-lo, a erguê-lo. De repente, ele se levantou e declarou que fingira um desmaio para fazer-lhes medo. Na realidade, tinha desmaiado mesmo, como ele próprio, espontaneamente, o confessou muito tempo depois à sua mãe. Dessa maneira, seu renome de
"estabanado" ficou definitivamente estabelecido. Voltou para casa branco como linho. No dia seguinte, teve uma febre nervosa, mas mostrou-se muito alegre e contente. O acontecimento foi divulgado em nossa cidade, chegou ao conhecimento das autoridades escolares. A mamãe de Kólia suplicou-lhes que perdoassem a seu filho, e por fim um professor estimado e influente, Dardaniélov, falou em seu favor e obteve ganho de causa. O caso não teve conseqüências. Esse Dardaniélov, solteiro e ainda 522
moço, estava desde muito tempo apaixonado pela Senhora Krasótkina; um ano antes, com o coração cheio de apreensão, arriscara-se a pedir-lhe a mão; ela o recusara, considerando que o casar-se de novo seria uma traição a seu filho. No entanto, Dardaniélov, de acordo com certos indícios, teria tido o direito de pensar que não era fundamentalmente antipático aquela viúva encantadora, mas casta e delicada em excesso. A louca travessura de Kólia deve ter rompido o gelo, e após a intervenção de Dardaniélov deu-se a entender a este que podia ter esperança, aliás longínqua, mas ele próprio era um fenômeno de pureza e de delicadeza e aquilo bastava à sua felicidade no momento. Gostava do menino, mas teria achado humilhante procurar amansá-lo; na classe mostrava-se severo para com ele, exigente. O próprio Kólia mantinha-o a distância, preparava muito bem seus exercícios, ocupava o segundo lugar, e toda a classe estava persuadida de que, em história universal, ele "passava a perna" ao próprio Dardaniélov em pessoa. Com efeito, Kólia perguntou-lhe uma vez quem havia fundado Tróia. Ao que respondeu o mestre por meio de considerações a respeito dos povos e de suas migrações da noite dos tempos, da fábula, mas não pode responder à pergunta precisa sobre a fundação de Tróia, achando-a mesmo ociosa. Os alunos ficaram convencidos de que Dardaniélov de nada sabia. Kólia informara-se a respeito em Smaragdov, que figurava entre os livros de seu pai.
Finalmente, todos se interessaram pela fundação de Tróia, mas Krasótkin guardou seu segredo e seu prestígio permaneceu intacto.
Após o incidente da estrada de ferro, ocorreu uma mudança na atitude de Kólia para com sua mãe. Quando Ana Fiódorovna soube da proeza de seu filho, quase enlouqueceu. Teve violentas crises de nervos durante vários dias, a ponto de Kólia, seriamente aterrorizado, dar-lhe sua palavra de honra de jamais recomeçar semelhantes travessuras. Jurou-o de joelhos diante do ícone e pela memória de seu pai, como o exigia a Senhora Krasótkina; a emoção dessa cena fez chorar o "intrépido" Kólia como uma criança de seis anos: a mãe e o filho passaram o dia a lançar-se nos braços um do outro, derramando lágrimas. No dia seguinte, Kólia despertou de novo "insensível", mas tornou-se mais silencioso, modesto, pensativo. Seis semanas depois» reincidia, e seu nome chegou até o juiz de paz, mas desta vez tratava-se de uma travessura bem diferente, ridícula mesmo e estúpida, cometida por outros e na qual não estava implicado.
Tornaremos a falar dela. Sua mãe continuou a tremer e a atormentar-se e a 523
esperança de Dardaniélov crescia na medida dos alarmas dela. É preciso notar que Kólia compreendia e adivinhava a este respeito Dardaniélov, e, bem entendido, desprezava-o profundairiente por causa de seus
"sentimentos"; antes tivera mesmo a indelicadeza de exprimir seu desprezo diante de sua mãe, fazendo alusões vagas às intenções de Dardaniélov. Mas após o incidente da estrada de ferro mudou também de conduta a este respeito; não se permitiu mais nenhuma alusão e falou com mais respeito de Dardaniélov diante de sua mãe, o que a sensível Ana Fiódorovna compreendeu imediatamente com uma gratidão infinita; em compensação, à menor palavra referente a Dardaniélov proferida em presença de Kólia, fosse mesmo um estranho, tornava-se ela vermelha como uma cereja. Naqueles momentos Kólia olhava pela janela com ar carrancudo ou examinava o estado de seus sapatos, ou ainda chamava raivosamente Carrilhão, um cachorro de longos pêlos, muito grande e feio, que havia recolhido um mês antes e guardava em segredo, sem mostrá-lo a seus camaradas. Tratava-o com rigor, ensinava-lhe diversas habilidades, tanto que o pobre animal gania quando ele partia para o colégio, latia alegremente quando ele voltava, saltava como um louco, andava de duas patas, fazia-se de morto, etc, em suma, mostrava todas as habilidades que lhe haviam sido ensinadas, isto não porque lho ordenavam, mas no ardor de seu entusiasmo e de sua dedicação.
A propósito: esqueci-me de dizer que Kólia Krasótkin era o menino a quem Iliúcha, já conhecido do leitor, filho do capitão reformado Snieguiriov, ferira com o canivete, ao defender seu pai, a quem os colegiais ridicularizavam, chamando-o de "esfregão de tília".
II
GENTE MIÚDA
Portanto, naquela manhã glacial e brumosa de novembro, o jovem Kólia Krasótkin permanecia em casa. Era domingo e não havia aula. Mas acabavam de soar 11 horas, era-lhe absolutamente preciso sair "para um negócio muito importante", contudo ficava sozinho a guardar a casa, porque os adultos haviam saído em conseqüência de uma circunstância extraordinária. A viúva Krasótkina alugava um apartamento de duas peças, o único da casa, à mulher dum médico, que tinha dois filhos 524
pequenos. Era da mesma idade de Ana Fiodorovna e sua grande amiga; quanto ao doutor, que partira para Oremburgo, depois para Ta-chkent, não dava notícias de si havia seis meses, de sorte que a abandonada teria passado seu tempo a chorar sem a amizade da Senhora Krasótkina, que amenizava seu pesar. Para cúmulo de infortúnio, Catarina, a única criada da mulher do doutor, declarara bruscamente à sua patroa, durante a noite, que se preparava para dar à luz de manhã. Era quase miraculoso que ninguém tivesse notado a coisa até então. A mulher do doutor, estupefata, decidiu, enquanto era ainda tempo, transportar Catarina para a casa de uma parteira que aceitava pensionistas. Como estimava muito essa sua criada, pôs logo seu projeto em execução e ficou mesmo ao lado dela. Em seguida, pela manhã, foi preciso recorrer ao concurso e ajuda da Senhora Krasótkina, que podia naquela ocasião tomar providências e exercer certa proteção. De modo que as duas senhoras estavam ausentes, a criada da Senhora Krasótkina, Agáfia, saíra para o mercado e Kólia achava-se provisoriamente como guarda dos fedelhos, o menino e a menina da mulher do doutor, que haviam ficado sozinhos. A guarda da casa não fazia medo a Kólia, sobretudo com Carrilhão; este recebera ordem de deitar-se debaixo de um banco, no vestíbulo, sem se mexer, e cada vez que seu dono passava, erguia ele a cabeça, batia no soalho com a cauda com um ar suplicante, mas, ai!, nenhum chamado se ouvia. Kólia olhava com severidade o infeliz cão-d'água, que recaía na imobilidade completa. Mas a única preocupação de Kólia eram os fedelhos. Ao passo que a aventura de Catarina lhe inspirava profundo desprezo, gostava muito dos pequenos e trouxera já para eles um livro infantil. Nástia, a mais velha, de oito anos, sabia ler, e o mais moço, Kóstia, de sete anos, gostava de escutá-lo. Bem entendido, Krasótkin teria podido interessá-los brincando com eles de soldado ou de esconder, por toda a casa. Não desdenhava fazê-lo quando preciso, tanto que se espalhou na classe o boato de que Krasótkin brincava de tróica em sua casa com seus pequenos locatários, fazendo papel do cavalo de sota, galopando, de cabeça baixa. Krasótkin repelia altivamente essa acusação, fazendo notar que com camaradas de sua idade teria sido vergonhoso, com efeito, "em nossa época", brincar de cavalo, mas que assim o fazia para os fedelhos, porque gostava deles e ninguém tinha o direito de pedir-lhe conta de seus sentimentos. Em compensação, os dois fedelhos o adoravam. Mas desta vez não se tratava de brinquedos; tinha de ocupar-se de um assunto de muita importância e 525
parecendo mesmo quase misterioso. Entretanto, o tempo passava e Agáfia, a quem os meninos teriam podido ser confiados, não se dignava voltar do mercado. Já por várias vezes atravessara ele o vestíbulo, abrira a porta da locatária, observara com solicitude os fedelhos lendo, por injunção sua; cada vez que se mostrava, os meninos sorriam-lhe largamente, esperando vê-lo entrar e fazer alguma coisa engraçada. Mas Kólia estava preocupado e não entrava. Por fim, soaram as 11 horas e decidiu ele firmemente que, se dentro de dez minutos a "maldita" Agáfia não estivesse de volta, sairia sem esperá-la, depois de, é claro, ter feito os fedelhos prometerem não ter medo durante sua ausência, nem fazer bobagens, nem chorar. Com estas disposições, vestiu seu pequeno sobretudo algodoado, lançou sua sacola ao ombro e, malgrado os rogos reiterados de sua "mãe de nunca sair "com semelhante frio" sem calçar suas galochas, contentou-se em lançar-lhes um olhar desdenhoso ao passar no vestíbulo. Vendo-o vestido para sair, Carrilhão bateu no soalho com a cauda, agitando-se, e ia mesmo lançar um gemido lamentoso, mas Kólia julgou tal ardor contrário à disciplina, manteve o cão-d'água ainda um minuto debaixo do banco e só assobiou para ele ao abrir a porta do vestíbulo. O animal lançou-se como um louco e se pôs a saltar de alegria. Kólia ia ver o que estavam fazendo os fedelhos.
Tinham acabado de ler e discutiam com animação, como lhes acontecia freqüentemente; Nástia, na qualidade de mais velha, levava sempre a melhor, e, se Kóstia não se punha de seu lado, apelava ela quase sempre para Kólia Krasótkin, cuja sentença era definitiva para as duas partes.
Desta vez, a discussão dos fedelhos tinha algum interesse para Kólia, que ficou na soleira a escutar, vendo o que, as crianças redobraram de ardor na sua controvérsia.
— Nunca, nunca, acreditarei — sustentava Nástia — que as parteiras encontrem os bebês nos pés de couve. Agora é inverno, não há couves e a parteira não pode trazer uma filhinha para Catarina.
— O quê! — murmurou Kólia.
— Ou então elas as trazem de alguma parte, mas somente para aquelas que se casam.
Kóstia fixava sua irmã, escutava gravemente, refletia.
— Nástia, como és tola! — disse ele por fim, num tom calmo. —
Como pode Catarina ter um filho, já que ela não é casada?
526
Nástia irritou-se.
— Tu não compreendes nada, talvez tivesse ela um marido, mas está na prisão.
— Será que ela tem de verdade um marido na prisão? — perguntou o positivo Kóstia.
— Ou então — continuou impetuosamente Nástia, abandonando sua primeira hipótese — pode acontecer também que ela hão tenha marido; tens razão; mas quer se casar e pôs-se a pensar como fazer, pensou e tornou a pensar, tanto que acabou por ter não um marido» mas um bebê.
— Está bem! É possível — aquiesceu Kóstia, subjugado —, mas não o disseste antes. Como podia eu saber?
— Muito bem, meninada! — exclamou Kólia, avançando. — Vocês são uma gente perigosa, pelo que vejo!
— Carrilhão está com você? — perguntou, sorrindo, Kóstia, que se pôs a estalar os dedos, chamando o cachorro.
— Meninada, estou atrapalhado — começou solenemente Kólia. —
Vocês devem ajudar-me. Agáfia deve ter quebrado a perna, já que não volta, é seguro e certo. Tenho de sair. Vocês me deixarão ir?
Os meninos olharam-se receosos, seus rostos sorridentes exprimiram inquietação. Não compreendiam ainda bem o que queriam deles.
— Não farão bobagens em minha ausência? Não subirão no armário com risco de quebrar uma perna? Não chorarão de medo, quando ficarem sozinhos?
A angústia apareceu nos rostinhos.
— Em compensação, poderia eu mostrar-lhes alguma coisa, um canhãozinho de cobre que se carrega com pólvora verdadeira.
Os rostinhos iluminaram-se.
— Mostre o canhão — disse Kóstia, radiante.
Krasótkin tirou de sua sacola um canhãozinho de bronze, que pou-527
sou em cima da mesa.
— Olhe, tem rodas — disse, fazendo o brinquedo rodar. — Pode-se carregá-lo com chumbinho e atirar.
— E ele mata?
— Mata todo mundo, basta apontá-lo — e Krasótkin explicou onde era preciso colocar a pólvora, o chumbo, indicou uma pequena abertura que representava o ouvido, explicou que o canhão recuava. As crianças escutavam com ardente curiosidade. O recuo sobretudo feria-lhes a imaginação.
— E você tem pólvora? — informou-se Nástia.
— Tenho, sim.
— Mostre também a pólvora — disse ela com um sorriso implo-rativo.
Krasótkin tirou de sua sacola um frasquinho, onde havia de fato um pouco de pólvora verdadeira e alguns grãos de chumbo enrolados em papel. Abriu mesmo o frasco, derramou um pouco de pólvora em sua mão.
— Aqui está. Somente tomem cuidado com o fogo, senão ela explo-dirá e nós todos morreremos — disse ele, para impressioná-las.
As crianças examinavam a pólvora com um temor respeitoso que aumentava o prazer. Os grãos de chumbo, sobretudo, agradavam a Kóstia.
— O chumbo não queima? — perguntou ele.
— Não.
— Dê-me um pouco de chumbo — disse, num tom suplicante.
— Aqui está um pouco, tome, somente não o mostre à sua mãe antes de minha chegada. Ela iria pensar que é pólvora, morreria de medo ou surraria vocês.
— Mamãe nunca surra a gente — observou Nástia.
— Sei disso, disse-o somente por causa da beleza do estilo. E vocês, nunca enganem sua mamãe, só desta vez, até que eu volte. Portanto, meninada; posso ir ou não? Não chorarão de medo na minha ausência?
528
— Nós cho-ra-remos — disse lentamente Kóstia, preparando-se já para fazê-lo.
— Nós choraremos, decerto — apoiou Nástia, receosa.
— Oh! meninos, que idade perigosa é a de vocês! Não há nada a fazer. Será preciso ficar com vocês não sei quanto tempo. E o tempo é precioso.
— Mande Carrilhão fingir de morto — pediu Kóstia.
— Não há outro recurso senão valer-me de Carrilhão. Aqui, Carrilhão! — E Kólia ordenou ao cão de pêlos compridos, dum cinzento violaceo, do tamanho de um mastim comum, cego do olho direito e com a orelha esquerda cortada. Bancava o elegante, caminhava sobre as patas traseiras, deitava-se de costas com as patas no ar e ficava inerte, como'
morto. Durante este último exercício a porta abriu-se e a gorda criada Agáfia, uma mulher de quarenta anos, com marcas de varíola, apareceu na soleira, com a rede de provisões na mão, e pôs-se a olhar. Kólia, por mais apressado que estivesse, não interrompeu a representação e, quando por fim assobiou para Carrilhao, o animal pôs-se a saltitar na alegria do dever cumprido.
— Isso é que um cachorro! — disse Agáfia, com admiração.
— E por que demoraste tanto tempo, sexo feminino? — perguntou severamente Krasótkin.
— Sexo feminino! Ora que fedelho!
— Fedelho?
— Sim, fedelho. Que é que tens com isso? Se estou atrasada, é que foi preciso — resmungou Agáfia, começando a remexer em redor da estufa, num tom nada irritado e- como que alegre por poder discutir com aquele jovem senhor tão jovial.
— Escuta, velha frívola, podes jurar-me por tudo quanto há de mais sagrado neste mundo que tomaras conta dessas crianças na minha ausência? Vou sair.
— E por que jurar? — disse Agáfia, rindo. — Tomarei conta deles, sim.
529
— Não, é preciso que jures pela tua salvação eterna. Senão não me vou.
— À tua vontade. Que me importa isso? Está gelando. Fica em casa.
— Meninos, essa mulher ficará com vocês até minha volta ou à da mamãe de vocês, que já deveria estar de volta. Além disso, ela dará o almoço de vocês. Não é, Agáfia?
— Pode ser, sim.
— Adeus, meninos, vou-me de coração tranqüilo. Quanto a ti, vovó — disse ele, gravemente, a meia voz, ao passar diante de Agáfia —, espero que não lhes contes, bobagens a respeito de Catarina. Poupa a inocência deles. Aqui, Carrilhao.
— Que Deus te perdoe! — disse Agáfia, irritada. — Como é engraçado! Mereceria uma surra, por falar assim.
III
O COLEGIAL
Mas Kólia não ouviu. Afinal, estava livre. Ao transpor o portão, ergueu os ombros e, depois de ter dito: "Que frio!", dirigiu-se para a praça do mercado. De caminho, parou diante de uma casa, tirou um apito do bolso, apitou com todas as suas forças, como dando um sinal convencionado. Ao fim dum minuto, viu-se sair um menino de onze anos, de tez vermelha, vestido igualmente com um sobretudo quente e até mesmo elegante. Era o jovem Smúrov, aluno da classe preparatória (ao passo que Kólia Krasótkin se achava duas classes acima), filho de um funcionário em boa situação. Seus pais proibiam-no de andar com Krasótkin, por causa de sua reputação de travesso, de modo que Smúrov acabava de ausentar-se furtivamente. Esse Smúrov, se o leitor está lembrado, fazia parte do grupo que atirava pedras em Iliú-cha, dois meses antes, e foi ele quem falou de Iliúcha a Aliócha Ka-ramázov.
— Há uma hora que o espero, Krasótkin — proferiu Smúrov, com ar decidido.
Os rapazes marcharam para a praça.
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— Estou atrasado — replicou Krasótkin. — Culpa das circunstâncias.
Não te surrarão por vires comigo?
— Que idéia! Será que me surram? Carrilhão está com você?
— Claro.
— Vai levá-lo lá?
— Levo, sim.
— Ah! Se fosse Besouro!
— É impossível. Besouro não existe mais. Desapareceu não se sabe onde.
— Não se poderia então dar um jeito? — Smúrov parou de repente. — Iliúcha disse que Besouro também tinha pêlos compridos, cinzentos, côr de fumaça, como Carrilhão. Não se poderia dizer que este é Besouro? Talvez ele o acreditasse.
— Colegial, evita a mentira, em primeiro lugar; e em segundo lugar, ainda que seja com bom fim. Espero, principalmente, que não tenhas falado de minha vinda.
— Deus me livre. Compreendo. Mas não o consolarão com Carrilhão — suspirou Smúrov. — Sabes? O pai dele, o capitão, "esfregão de tília", disse-nos que lhe levariam hoje um cãozinho, um mastim verdadeiro, de focinho preto; pensa consolar assim Iliúcha, mas é pouco provável.
— Como vai ele, Iliúcha?
— Mal, mal! Creio que ele está tísico. Tem pleno conhecimento, mas sua respiração é bem má. Um dia destes pediu que o levassem a passear um pouco. Calçaram-lhe os sapatos. Mas ele caiu ao fim de alguns passos.
"Ah! papai, bem que te disse que estes sapatos não prestam. Antes mesmo tinha dificuldade em andar com eles." Pensava que caía por causa de seus sapatos e era simplesmente de fraqueza. Não dura uma semana.
Herzenstube visita-o. Têm de novo muito dinheiro.
— Canalhas!
— Canalhas, quem?
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— Os doutores e toda essa ralé médica, em geral e em particular.
Renego a medicina. Não serve para nada. Aliás, estudarei tudo isso. Dize-me, vocês todos lá ficaram muito sentimentais. A classe inteira vai lá incorporada, digo a verdade?
— Toda não, mas uma dezena dos nossos vai lá todos os dias. Não é nada.
— O que me surpreende em tudo isso é o papel de Alieksiéi Karamázov; vão julgar amanhã ou depois seu irmão por um crime como aquele e acha ele tempo de fazer sentimentalismo com colegiais!
— Mas não há no caso nenhum sentimentalismo. Tu mesmo vais agora lá reconciliar-te com Iliúcha.
— Reconciliar-me? Expressão engraçada! Aliás, não permito que ninguém analise meus atos.
— Como Iliúcha ficará contente ao ver-te! Não duvida de que vais.
Por que, por que recusaste por tanto tempo ir vê-lo? — exclamou de repente Smúrov, com ardor.
— Meu caro, o problema é meu e não teu. Vou lá por minha vontade, porque quero ir, ao passo que foi Alieksiéi Karamázov quem levou vocês todos lá; há pois uma diferença. E que sabes tu? Talvez não vá eu lá absolutamente para reconciliar-me. Estúpida expressão.
— Karamázov não tem nada a ver com isso. Os colegas tomaram simplesmente o hábito de ir lá, é bem certo que no começo com Karamázov. Primeiro um, depois outro. Mas nada se passou de estúpido. O
pai ficou encantado ao ver-nos. Sabes? Perderá a razão, se Iliúcha morrer.
Vê que seu filho está perdido. Causou-lhe tanto prazer o nos termos reconciliado com Iliúcha... Iliúcha pediu informações a teu respeito, mas sem nada acrescentar. Seu pai ficará louco ou se enforcará. Já antes tinha jeito de maluco. Sabes? Ê um homem honesto, vítima dum erro. A culpa é daquele parricida que lhe bateu então.
— No entanto, Karamázov é um enigma para mim. Teria podido travar conhecimento com ele, desde muito tempo, mas, em certos casos, gosto de mostrar-me orgulhoso. Além do mais, já formei sobre ele uma opinião que será preciso verificar, esclarecer.
Kólia calou-se gravemente, bem como Smúrov. Bem entendido, 532
Smú-rov respeitava Kólia Krasótkin e nem mesmo pensava em se comparar com ele. Agora estava muito intrigado, porque Kólia explicara que vinha "por si mesmo"; devia haver aí um mistério nessa decisão súbita de ir hoje à casa de Iliúcha. Seguiam pela praça do mercado, atravancada de carroças e de aves domésticas. Sob os alpendres das vendas, mulheres do povo vendiam sequilhos, linha, etc. Em nossa cidade, esses ajuntamentos do domingo são chamados ingenuamente de feiras e há muitos deles durante o ano. Carrilhão corria com o humor mais alegre, afastava-se constantemente à direita ou à esquerda para farejar alguma coisa. Quanto aos seus irmãos de espécie encontrados no caminho, farejava-os de boa vontade, segundo as regras em uso entre a gente canina.
— Gosto de observar a realidade, Smúrov — disse de súbito Kólia. — Notaste como os cães se farejam, quando se encontram? É, entre eles, uma lei geral da natureza.
— Sim, uma lei ridícula.
— Não é ridícula, não tens razão. Na natureza, nada há de ridículo, apesar do que dela pense o homem com seus preconceitos. Se os cães pudessem raciocinar e criticar, encontrariam certamente outro tanto de ridículo, se não mais, nas relações sociais das pessoas, seus donos, se não mais, repito-o, porque estou persuadido de que há bem mais tolices entre nós. É a idéia de Rakítin, uma idéia notável. Sou socialista, Smúrov.
— Que é um socialista? — perguntou Smúrov.
— É quando todos são iguais, têm uma opinião comum, não há casamentos, sendo a religião e as leis como convém a cada um. És ainda demasiado jovem para compreender essas questões. Está frio, não é mesmo?
— Sim, 12 graus. Meu pai olhou o termômetro ainda há pouco.
— Notaste, Smúrov, que no meio do inverno, com 15 ou mesmo 18
graus, o frio parece menos vivo que agora, no começo, quando gela de repente a 12 graus e há ainda pouca neve? Isto significa que as pessoas não estão ainda acostumadas a ele. Entre elas, tudo é hábito, em tudo, mesmo em política e nos negócios do Estado. Como é engraçado aquele mujique.
Kólia mostrou um mujique, de alta estatura, metido num tulup, com 533
ar bonacheirão, que, ao lado de sua carroça, se aquecia batendo as mãos uma contra a outra com suas luvas. Sua barba estava coberta de geada.
— A barba do mujique está gelada! — disse Kólia em voz alta e com um ar implicante, passando ao lado dele.
— Há bem outras geladas — replicou sentenciosamente o mujique.
— Não mexas com ele — observou Smúrov.
— Não tem importância, ele não se zangará, é um homem bom.
Adeus, Matviéi.
— Adeus.
— Chamas-te Matviéi?
— Matviéi. Não o sabias?
— Não; disse-o por acaso.
— Ora vejam só! És talvez um colegial?
— Com efeito.
— Surram-te?
— Decerto.
— Com força?
— Acontece.
— A vida não é alegre — suspirou o mujique de todo o coração.
— Adeus, Matviéi.
— Adeus. És um garoto delicado. Os rapazes continuaram seu caminho.
— É um bom mujique — disse Kólia a Smúrov. — Gosto de falar com gente do povo e sinto-me sempre contente em fazer-lhe justiça.
— Por que o fizeste crer que nos surravam? — perguntou Smúrov.
— Para causar-lhe prazer.
— Como assim?
— Sabes duma coisa, Smúrov? Não gosto que insistam, se não se 534
compreende desde a primeira palavra. É por vezes difícil explicar. Na idéia do mujique, surra-se o colegial e deve-se fazê-lo; que é um colegial a quem não se surra? E se lhe digo que não, isto lhe causará pesar. Aliás, tu não compreendes isto. É preciso saber falar ao povo.
— Somente, nada de zombarias, rogo-te. Para que não haja outra complicação como aquela do pato.
— Tens medo?
— Evita bem isso, Kólia, deveras, tenho medo. Meu pai ficaria furioso. Proibiram-me expressamente de andar contigo.
— Não tenhas medo, desta vez não acontecerá nada. Bom dia, Natacha — gritou ele para uma vendedora.
— Natacha coisa nenhuma! Chamo-me Maria — gritou-lhe a vendedora, uma mulher ainda jovem.
— Está bem, Maria, adeus.
— Ah! engraçadinho, não mais alto que uma bota, que intrometi-mento é esse?
— Não tenho tempo, conversaremos no domingo próximo — disse Kólia gesticulando, como se fosse ela que o importunasse, em vez do contrário.
— E que é que haveremos de conversar no domingo? Fôste tu que mexeste comigo e não eu que mexi contigo, insolente! Mereces umas chicotadas. Bem te conhecemos, boa bisca!
Risadas espocaram entre as vendedoras vizinhas de Maria, quando, de repente, surgiu duma arcada um indivíduo excitado, com ar de caixeiro de venda, aliás estranho à nossa cidade, de cafetã de longas abas, trazendo um casquete de pala, ainda jovem, de cabelos castanhos cacheados, o rosto pálido e bexigoso. Parecia agitado sem saber por que e se pôs logo a ameaçar Kólia com o punho.
— Eu te conheço — vociferou ele —, eu te conheço!
Kólia encarou-o. Não se lembrava de haver brigado com aquele homem, aliás tivera por demasiadas vezes altercações na rua para lembrar-se de todas.
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— Tu me conheces? — perguntou, ironicamente.
— Conheço-te! Conheço-te! — repisou o indivíduo.
— Tens muita sorte. Mas estou com pressa, adeus.
— Por que te mostras insolente? Recomeças? Eu te conheço!
— Se me mostro insolente, meu amigo, não tens nada com isso! —
proferiu Kólia, parando, com os olhos sempre fixos nele.
— Como assim?
— Assim mesmo.
— Quem é então que tem? Quem é?
— Agora, camarada, o negócio é com Trifon Nikítitch e não contigo.
— Que Trifon Nikítitch? — E o rapaz, sempre acalorado, fixou Kólia com ar estúpido. Kólia olhou-o de alto a baixo, seriamente.
— Fôste à Igreja da Ascensão? — perguntou, num tom imperioso.
— Que igreja? Por quê? Não, não fui lá — respondeu o rapaz desconcertado.
— Conheces Sabaniéiev? — perguntou Kólia, no mesmo tom.
— Que Sabaniéiev? Não, não o conheço.
— Então, vai para o diabo! — cortou Kólia, que, dobrando à direita, afastou-se a passos rápidos, como que desdenhando falar a um simplório que nem mesmo conhecia Sabaniéiev.
— Espera, hei! Que Sabaniéiev? — reconsiderou o rapaz, de novo agitado. — De quem fala ele? — perguntou às vendedoras, olhando-as com ar aparvalhado.
As boas mulheres puseram-se a rir.
— Não é bobo aquele garoto — disse uma delas.
— De que Sabaniéiev falava ele? — teimava em repetir o rapaz, gesticulando.
— Deve ser o Sabaniéiev que trabalha em casa dos Kuzmítchev, eis de quem se trata — conjeturou uma das mulheres.
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O rapaz examinou-a com espanto.
— Kuzmítchev? — repetiu outra. — Então não é Trifon. Aquele se chama Kuzmá e não Trifon. Ora, o garoto chamou-o de Trifon Nikítitch, logo não é ele.
— Estás vendo, não é nem Trifon, nem Sabaniéiev, é Tchitchov —
interveio uma terceira vendedora, que havia ouvido com seriedade. —
Alieksiéi Ivânovitch Tchitchov.
— É mesmo Tchitchov, com efeito — confirmou uma quarta. Todo confuso, o rapaz olhava ora uma ora outra.
— Mas por que me perguntou ele isso, por que, boa gente? —
exclamou ele, quase desesperado. — "Conheces Sabaniéiev?" Quem diabo haverá de ser esse Sabaniéiev?
— Tens a cabeça dura, estão-te dizendo que não é Sabaniéiev, mas Tchitchov, Alieksiéi Ivânovitch, compreendes? — disse gravemente uma vendedora.
— Que Tchitchov? Di-lo, já que o sabes.
— Um grandalhão, de cabelos compridos. Era visto no mercado, no verão.
— Que queres que eu faça com o teu Tchitchov, hein, alma de Deus?
— E eu é que hei de saber?
— Quem sabe lá o que queres? — insistiu outra. — Tu mesmo deves saber, já que berras! Porque era a ti que falavam e não a nós, pateta! Não o conheces deveras?
— A quem?
— Tchitchov.
— Que o diabo carregue o teu Tchitchov e a ti com ele! Vou dar-lhe uma surra, palavra! Ele zombou de mim!
— Vais surrar Tchitchov? Ou será bem o contrário? Não passas dum imbecil!
— Tchitchov não, Tchitchov não, mulher dos diabos! É o garoto que surrarei. Tragam-no, tragam-no! Ele zombou de mim!
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As mulheres desataram a rir. Kólia já estava longe e caminhava com ar vencedor; Smúrov, a seu lado, voltava-se por vezes para o grupo que gritava. Ele também se divertia muito, ao mesmo tempo que receava ter-se misturado a uma estória com Kólia.