Os Irmãos Karamázov
Capítulo 10
uma mulher". Levantou-se, vestiu-se; era uma noite de maio bastante quente. Saiu para o patamar e verificou que os gemidos vinham do jardim.
Mas, de noite, o jardim era fechado a chave do lado do pátio, e não se podia nele entrar senão por ali, dando-lhe volta uma alta e sólida paliçada.
Voltando para casa, Gregório acendeu a lanterna, pegou a chave e, sem prestar atenção ao pavor histérico de sua mulher, persuadida de que era o choro de seu filho que a chamava, entrou em silêncio no jardim; ali, deu-se conta de que os gemidos partiam de sua sala de banhos, situada não longe da entrada, e que era, com efeito, uma mulher que gemia. Tendo aberto o banheiro, viu um espetáculo diante do qual permaneceu estupefato; uma idiota da cidade, que vagava pelas ruas, conhecida de toda a gente pelo nome de Lisavieta Smierdiáchtchaia, tendo penetrado no banheiro deles, acabava de ali dar à luz. O menino jazia ao lado dela, que estava moribunda. Não dizia nada, pela simples razão de que não sabia falar.
Mas tudo isto exige explicações.
II
LISAVIETA SMIERDIÁCHTCHAIA10
Havia ali uma circunstância particular que impressionou profundamente Gregório e acabou de fortificar nele uma suspeita desagradável e repugnante. Aquela Lisavieta Smierdiáchtchaia era uma moça de estatura muito pequena, "um pouco mais de 2 archini"; assim se lembravam dela com enternecimento, após sua morte, bondosas velhas de nossa cidade.
Seu rosto de vinte anos, sadio, largo, vermelho, era completamente idiota, o olhar fixo e desagradável, se bem que plácido. Tanto no inverno quanto no verão andava sempre de pés descalços, vestida apenas de uma camisa de cânhamo. Seus cabelos quase negros, extraordinariamente espessos, frisados como uma lã amontoavam-se em sua cabeça à maneira de um enorme boné. Além disso estavam muitas vezes sujos de terra, de lama, entremeados de folhas, de raminhos, de cavacos, porque ela dormia sempre no chão e na lama. Seu pai, Iliá, pequeno burguês sem domicílio, arruinado e valetudinário, fortemente dado à bebida, permanecia desde muitos anos, na qualidade de operário, em casa dos mesmos senhores 10 Literalmente: fedorenta
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opulentos, igualmente burgueses de nossa cidade. A mãe de Lisavieta morrera desde muito tempo. Sempre doentio e mal-humorado, Iliá batia sem piedade em sua filha quando chegava ela em casa. Mas ali ia raramente, sendo acolhida por toda parte na cidade como uma débil mental sob a proteção de Deus. Os patrões de Iliá, o próprio Iliá e muitas pessoas caridosas, sobretudo entre os negociantes e as negociantes, tinham tentado por várias vezes vestir Lisavieta de uma maneira mais decente, fazendo-a usar no inverno uma peliça de carneiro e calçar botas; habitualmente sujeitava-se ela dòcilmente a isso, depois ia-se embora e, em alguma parte, de preferência sob o pórtico da igreja, despojava-se de tudo quanto lhe haviam dado — quer fosse um lenço, uma saia, uma peliça, botas —, abandonava tudo no lugar e lá se ia de pés descalços, vestida com sua camisa como antes. Aconteceu que um novo governador, inspecionando nossa cidade, sentiu-se ferido nos seus melhores sentimentos à vista de Lisavieta e, muito embora tivesse percebido que se tratava de uma inocente, como aliás o informaram, fez no entanto observar "que uma moça vagando em camisa infringia a decência e que aquilo devia cessar no futuro". Mas, depois que o governador partiu, deixaram Lisavieta como era. Por fim, seu pai morreu, tornando-se ela mais querida a todas as pessoas piedosas da cidade como órfã. Com efeito, todos pareciam amá-la; os próprios garotos não mexiam com ela nem a maltratavam; ora, entre nós, os garotos, sobretudo os colegiais, são uma raça agressiva. Entrava ela em casas desconhecidas e ninguém a expulsava; pelo contrário, todos a tratavam bem e lhe davam um meio copeque. As moedinhas que lhe davam, levava-as ela logo para metê-las em um tronco qualquer, na igreja ou na prisão. Se recebia, no mercado, um sequilho ou um pãozinho, não deixava de fazer presente dele ao primeiro menino que encontrasse, ou então detinha uma de nossas damas mais ricas para lho oferecer; e esta o aceitava até mesmo com alegria. Ela própria não se nutria senão de pão preto e água. Entrava por vezes numa rica loja, sentava-se, tendo junto de si mercadorias de valor: dinheiro; jamais os proprietários desconfiavam dela, sabendo que não tomaria um copeque, mesmo se pusessem milhares de rublos a seu alcance e fossem esquecidos.
Ia raramente à igreja, dormia sob os pórticos, ou num pomar qualquer, depois de ter pulado a cerca (ainda agora há entre nós muitas cercas em lugar de paiiçadas). Ia geralmente uma vez por semana à casa dos patrões de seu defunto pai, no inverno todos os dias, mas somente à noite, que ela 101
passava no vestíbulo ou no estábulo. Causava espanto que pudesse ela suportar tal existência, mas estava a ela acostumada; se bem que de pequena estatura, tinha uma constituição excepcionalmente robusta.
Certas pessoas da sociedade achavam que ela fazia tudo isso unicamente por orgulho, mas não havia motivo para tal; não sabia ela dizer uma palavra, por vezes somente mexia a língua e resmungava; que tinha de ver com isso o orgulho? Ora, numa noite de setembro, clara e quente, em que a lua era cheia, a uma hora já bastante tardia para nossos hábitos, um bando de cinco ou seis farristas, embriagados, voltava do clube para suas casas pelo caminho mais curto. Dos dois lados, a ruela que eles seguiam era bordada por uma cerca por trás da qual se estendiam os pomares das casas ribeirinhas; terminava num passadiço lançado sobre o longo pântano infecto que se batiza por vezes entre nós com o nome de rio. Perto da cerca, entre as urtigas e as barbanas, o nosso grupo percebeu Lisavieta adormecida. Aqueles cavalheiros embriagados pararam perto dela, explodiram em risadas e puseram-se a pilheriar da maneira mais cínica. Um filho de família imaginou de repente uma questão totalmente excêntrica, a respeito de um assunto impossível. "Pode-se", disse ele, "não importa quem, aceitar um tal monstro como uma mulher, etc." Todos decidiram, com nobre aversão, que não se podia. 4Mas Fiódor Pávlovitch, que fazia parte do bando, adiantou-se logo, declarou que se podia perfeitamente aceitá-la como mulher e que havia mesmo ali alguma coisa de picante no seu gênero, etc. Naquela época, comprazia-se ele com afetação no seu papel de palhaço, gostava de dar-se em espetáculo e divertir os ricos, como um verdadeiro farsante, malgrado a igualdade aparente. Com um crepe no chapéu, porque acabava de saber da morte de sua primeira mulher, levava então uma vida tão crapulosa que alguns, mesmo libertinos endurecidos, se sentiam constrangidos à sua vista. Aquela opinião paradoxal de Fiódor Pávlovitch provocou a hilaridade do bando; um deles começou mesmo a provocá-lo, os outros mostraram ainda mais aversão, mas sempre com uma viva alegria; por fim todos seguiram seu caminho. Posteriormente, jurou ele que se afastara com os outros; talvez dissesse a verdade, ninguém nunca soube de nada ao certo. Mas cinco ou seis meses mais tarde, a gravidez de Lisavieta excitava a indignação de toda a cidade e procurou-se descobrir quem pudera ultrajar a pobre criatura. Um boato terrível circulou em breve, acusando Fiódor Pávlovitch.
Donde vinha ele? Do bando farrista não restava então na cidade senão um 102
homem de idade madura, conselheiro de Estado, pai de filhas adultas, o qual nada teria contado, mesmo se se tivesse passado qualquer coisa; os outros tinham-se dispersado. Mas o boato persistente continuava a apontar Fiódor Pávlovitch. Ele não se deu por achado e desdenhou responder a lojistas e pequenos burgueses. Era orgulhoso então e não dirigia a palavra senão à sua sociedade de funcionários e de nobres, a quem tanto divertia. Foi então que Gregório tomou energicamente o partido de seu amo; não somente defendeu-o contra qualquer insinuação, mas discutiu bastante calorosamente a esse respeito e conseguiu mudar a opinião de muitos. "A culpa é dela mesma, daquela criatura", afirmava ele, e seu sedutor não era outro senão Karp, o Parafuso (assim se chamava um detento bastante perigoso, que se havia evadido da prisão da capital e se ocultara em nossa cidade). Esta conjetura pareceu plausível; foi lembrado que Karp vagueara por aquelas mesmas noites de outono e saqueara três pessoas. Mas essa aventura e esses rumores, longe de desviar as simpatias pela pobre idiota, valeram-lhe um redobramento de solicitude. Uma viúva bastante rica, a negociante Kondrátievna, decidiu recolhê-la em sua casa, no fim de abril, para que ela ali desse à luz. Vigiavam-na severamente.
Apesar de tudo, uma noite, no dia mesmo de seu parto, Lisavieta fugiu da casa de sua protetora e foi cair no jardim de Fiódor Pávlovitch. Como pudera ela, no seu estado, transpor uma paliçada tão alta? Isso permaneceu um enigma. Uns asseguravam que a haviam carregado, outros viam naquilo uma intervenção sobrenatural. Tudo leva a crer que, aquilo se realizou de uma maneira engenhosa, mas natural, e que Lisavieta, habituada a penetrar através das sebes nos pomares, para neles passar a noite, trepou, apesar de seu estado, sobre a paliçada de Fiódor Pávlovitch, donde saltou, ferindo-se no jardim. Gregório correu a buscar sua mulher para os primeiros cuidados; ele mesmo foi à procura de uma velha parteira que morava bem perto. Salvou-se o menino, mas Lisavieta morreu ao romper do dia. Gregório pegou o recém-nascido, levou-o para o pavilhão e depositou-o sobre os joelhos de sua mulher: "Eis um filho de Deus, um órfão de que seremos os pais. É o pequeno morto que no-lo envia. Nasceu de um filho de Satanás e duma justa. Cria-o e não chores mais doravante". Foi assim que Marfa ígnátievna criou o menino. Foi batizado pelo nome de Páviel, ao qual toda a gente ajuntou, e eles também, Fiódorovitch como nome patronímico. Fiódor Pávlovitch não fez objeção e achou mesmo a coisa divertida, negando porém energicamente aquela 103
paternidade. Aprovaram-no por ter recolhido o órfão. Mais tarde, deu-lhe como nome de família Smierdiákov, de acordo com o sobrenome da mãe dele, Smierdiáchtchaia. Servia ele a Fiódor Pávlovitch como segundo criado e vivia, no começo de nossa narrativa, no pavilhão, ao lado do velho Gregório e da velha Marfa. Tinha o emprego de cozinheiro. Seria preciso consagrar-lhe um capítulo especial, mas tenho escrúpulo de reter por tanto tempo a atenção do leitor para simples criados e continuo esperando que se tratará muito naturalmente de Smierdiákov no curso da narrativa.
III
CONFISSÃO DE UM CORAÇÃO ARDENTE, EM VERSOS
Ouvindo a ordem que lhe gritava seu pai, da caleça, ao partir do mosteiro, ficou Aliócha algum tempo imóvel e bastante perplexo. Mas, dominando sua perturbação, dirigiu-se logo à cozinha do padre abade, para procurar saber o que tinha feito Fiódor Pávlovitch. Depois pôs-se a caminho, esperando resolver, enquanto andava, um problema que o atormentava. Digamo-lo imediatamente: os gritos de seu pai e a ordem de mudar-se com travesseiros e colchão, não lhe inspiravam nenhum temor.
Compreendia perfeitamente que aquela ordem, gritada entre gestos, fora dada "por pura excitação", por assim dizer, e até mesmo para a galeria, à maneira daquele pequeno burguês que recentemente na sua cidade, tendo festejado demasiado seu aniversário e furioso porque não lhe davam mais vodca, pôs-se, diante de seus convidados, a quebrar sua própria louça, a rasgar suas roupas e as de sua mulher, a partir os móveis e as vidraças, tudo isso por pura exibição. No dia seguinte, naturalmente, o burguês desembriagado lamentava as xícaras e os pires quebrados. Aliócha sabia que o velho o deixaria seguramente voltar ao mosteiro no dia seguinte, talvez naquele mesmo dia. E mais, estava persuadido de que seu pai não quereria jamais ofendê-lo, e que jamais ninguém no mundo, não somente não o quereria, mas não o poderia. Era para ele um axioma, admitido de uma vez por todas, e a este respeito caminhava tranqüilo, sem a menor excitação.
Mas naquele momento, outro temor o agitava, duma espécie bem diversa, e tanto mais penoso quanto ele mesmo não o teria podido definir, 104
o temor de uma mulher, daquela Catarina Ivânovna, que insistia tanto, na sua carta entregue de manhã pela Senhora Khokhla-kova, para que fosse vê-la. Esse pedido e a necessidade de a ele obedecer causavam-lhe uma impressão dolorosa, que, durante toda a tarde, não fez senão agravar-se, malgrado as cenas e as aventuras que se haviam desenrolado no mosteiro, etc. Seu temor não provinha de ignorar ele o que ela lhe diria e o que ele lhe responderia. Não era tampouco a mulher que ele temia nela; decerto, conhecia pouco as mulheres, mas não tinha, no entanto, vivido senão com elas, desde sua tenra infância até sua chegada ao mosteiro. Temia aquela mulher, precisamente Catarina Ivânovna, e isto desde sua primeira entrevista. Ora, ele a havia encontrado duas ou três vezes no máximo, e trocado por acaso algumas palavras com ela. Lembrava-se dela como de uma bela moça, altiva e imperiosa. Não era sua beleza que o atormentava, mas aliás todos o conheciam e o cumprimentavam. Podia assim alcançar a Rua Grande em duas vezes menos tempo. Em certo lugar, teve de passar bem perto da casa paterna, precisamente ao lado do jardim contíguo ao deles, que dependia de uma casinha de quatro janelas arruinada e inclinada para o lado. A proprietária dessa casinha era, como Aliócha o sabia, uma pequena burguesa da cidade, velha inválida, que vivia com sua filha, antiga arrumadeira na capital, recentemente ainda a serviço em casa de generais, tendo voltado para casa, havia um ano, por causa da doença de sua mãe e exibindo-se com vestidos elegantes. Essas duas mulheres tinham no entanto caído em profunda miséria e iam mesmo todos os dias, como vizinhas, procurar pão e sopa na cozinha de Fiódor Pávlovitch.
Marfa Ignátievna fazia-lhes boa acolhida. Mas a filha, embora indo procurar sopa, não vendera nenhum de seus vestidos; um deles tinha mesmo uma cauda bastante comprida. Aliócha soubera desse detalhe, completamente por acaso, da boca de seu amigo Rakítin, ao qual nada escapava do que se passava na cidadezinha; é certo, porém, que o esquecera logo. Ao chegar diante do jardim da vizinha, lembrou-se daquela cauda, ergueu rapidamente sua cabeça curvada, pensativa, e...
teve de súbito o encontro mais inesperado.
Por trás da cerca, de pé sobre um montículo e visível até o peito, seu irmão Dimítri fazia-lhe sinais, chamava-o com grandes gestos, evitando não somente gritar, mas até mesmo dizer uma palavra, com medo de ser ouvido. Aliócha correu para a cerca.
— Por felicidade levantaste os olhos, senão teria sido obrigado a gritar — cochichou jovialmente Dimítri Fiódorovitch. — Salta-me esta cerca, depressa! Como chegas a propósito! Pensava em ti Aliócha não estava menos contente, embaraçado apenas por ter de pular a cerca. Mas Mítia, com sua mão de atleta, ergueu-o pelo cotovelo e ajudou-o a saltar, o que ele fez, de batina arrepanhada, com a agilidade de um garoto.
— E agora, em frente, marcha! — murmurou Mítia, num transporte de alegria.
— Mas para onde? — perguntou do mesmo modo Aliócha, olhando por todos os lados e vendo-se num jardim deserto, onde não havia ninguém senão eles. O jardim era pequeno, mas a casa encontrava-se a 106
cinqüenta passos pelo menos. — Não há ninguém aqui. Por que falamos em voz baixa?
— Por quê? Que o diabo me carregue! — exclamou de súbito Dimítri Fiódorovitch a plena voz. — Que adianta falar em voz baixa? Vês tu mesmo como se pode ser absurdo. Estou aqui para espionar um segredo.
As explicações virão depois, mas, sob a impressão do mistério, pus-me a falar misteriosamente, a cochichar como um tolo, sem razão. Vamos! Vem e cala-te. Mas quero beijar-te.
Glória ao Eterno sobre a terra.
Glória ao Eterno em mim...
Eis o que eu repetia ainda há pouco, sentado no jardim, naquele lugar...
O jardim de cerca de 1 diesiatina estava todo cercado de árvores ao longo de seu recinto: pereiras, bordos, tílias, bétulas. O centro formava uma espécie de pequeno prado onde se recolhia feno, no verão. A proprietária alugava aquele jardim desde a primavera por alguns rublos.
Havia pés de framboesas, groselhas de várias espécies, igualmente perto das cercas; a horta, cultivada desde pouco tempo, achava-se perto da casa.
Dimítri conduziu seu irmão para o canto mais afastado do jardim. Ali, entre as tílias muito próximas e velhas moitas de groselheiras e de sabugueiros, de bolas-de-neve e de lilás, avistavam-se as ruínas de um antigo pavilhão verde, enegrecido e empenado, de paredes com clarabóia, mas ainda coberto e onde a gente podia abrigar-se da chuva. Segundo a tradição, fora esse pavilhão construído, havia cinqüenta anos, por um antigo proprietário, Alieksandr Kárlovitch von Schmidt, tenente-coronel reformado. Tudo caía em poeira, o soalho estava podre, as tábuas balançavam, a madeira tresandava umidade. Havia uma mesa de madeira pintada de verde, enterrada no chão, cercada de bancos que ainda podiam servir. Aliócha notara o entusiasmo de seu irmão; ao entrar no pavilhão, viu sobre a mesa uma meia garrafa de conhaque e um copinho.
— É conhaque! — disse Mi tia, com uma explosão de riso. — Vais pensar: "Ele continua bebendo". Não te fies nas aparências.
Às tuas suspeitas renuncia...
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