Os Irmãos Karamázov

Fiódor Dostoiévski · Capítulo 49 de 50

Páginas do PDF

Os Irmãos Karamázov

Capítulo 53

— Meu irmão — interrompeu Aliócha, gelado de medo, mas esperando sempre fazer Ivã voltar à razão —, como pôde ele falar-te da morte de Smierdiákov antes de minha chegada, quando ninguém a conhecia e não tivera tempo de sabê-la?

— Ele me falou dela — disse Ivã, num tom decisivo. — Não me falou senão disso, se quiseres. "Se ainda acreditasses na virtude: não me acreditarão, não importa, vou por uma questão de princípio. Mas tu não 669

passas de um porco, como Fiódor Pávlovitch, nada tens que ver com a virtude. Por que ires até lá, se teu sacrifício é inútil? Não sabes de nada e darias muito para sabê-lo! Suponhamos: tu te decidiste! Pássaras a noite a pesar o pró e o contra! No entanto, irás, bem o sabes, sabes que, qualquer que seja tua resolução, a decisão não depende de ti. Irás, porque não ousarás fazer de outro modo. E por que não ousarás? Adivinha tu mesmo, é um enigma!" Nisso partiu, quando tu chegavas. Tratou-me de covarde, Aliócha.

Le mot de Venigme53 é que sou um covarde! Smierdiákov disse o mesmo. É preciso matá-lo. Cátia me despreza, vejo-o desde um mês. Lisa começa a desprezar-me: "Irás para que te admirem", é uma mentira abominável! E tu também, tu me desprezas, Aliócha. Detesto-te de novo! E

odeio também o monstro, que ele apodreça no presídio! Cantou um hino!

Irei amanhã cuspir na cara de todos.

Ivã levantou-se cheio de furor, arrancou o guardanapo, voltou a andar pelo quarto. Aliócha lembrou-se de suas recentes palavras: "Parece-me dormir acordado... Ando, falo, vejo e, contudo, durmo". Era bem isso.

Não ousava deixá-lo para ir procurar um médico, não tendo ninguém a quem confiá-lo. Pouco a pouco Ivã pôs-se a desarrazoar completamente.

Continuava a falar, mas suas palavras eram incoerentes. Articulava mal as palavras; de repente cambaleou, mas Aliócha pôde sustentá-lo; tirou-lhe a roupa, com dificuldade, e meteu-o na cama. O doente caiu num profundo sono, com a respiração regular. Aliócha velou-o ainda umas duas horas, depois pegou um travesseiro e estendeu-se sobre o divã, sem tirar a roupa.

Antes de adormecer, rezou por seus irmãos. Começava a compreender a doença de Ivã. "Os tormentos duma resolução orgulhosa, uma consciência exaltada!" Deus, em quem Ivã não acreditava, e sua verdade tinham subjugado aquele coração ainda rebelde. "Sim", pensava Aliócha, "já que Smierdiákov está morto, ninguém acreditará em Ivã; no entanto, ele irá depor. " "Deus vencerá", disse a si mesmo Aliócha, com um doce sorriso.

"Ou Ivã despertará à luz da verdade, ou então... sucumbirá no ódio, vingando-se de si mesmo e dos outros por ter servido uma causa na qual não acreditava", acrescentou ele com amargura, e rezou de novo por Ivã.

53 A chave do enigma.

670

LIVRO XII

UM ERRO JUDICIÁRIO

I

O DIA FATÍDICO

No dia seguinte aos acontecimentos que narramos, às 10 horas da manhã, foi aberta a sessão do tribunal e começou o julgamento de Dimítri Karamázov.

Devo declarar previamente que me é impossível relatar todos os fatos na sua ordem detalhada. Tal exposição demandaria, creio, um grosso volume. De modo que não me queiram mal por limitar-me ao que me pareceu mais impressionante. Pode ser que tenha tomado o acessório pelo essencial e omitido traços característicos... Aliás, é inútil desculpar-me...

Faço o melhor que posso e os leitores saberão vê-lo.

Antes de penetrar na sala, mencionemos o que causava a surpresa geral. Todo mundo conhecia o interesse despertado por aquele processo impacientemente esperado, as discussões e suposições que provocava havia dois meses. Sabia-se também que aquele caso tivera repercussão em toda a Rússia, mas sem se imaginar que ele pudesse suscitar semelhante emoção em outra parte que não entre nós. Veio gente, não somente da sede da província, mas de outras cidades e até mesmo de Moscou e de Petersburgo, juristas, notabilidades, bem como senhoras. Todos os cartões foram arrebatados num abrir e fechar de olhos. Para os visitantes de destaque, haviam reservado lugares por trás da mesa que presidia o tribunal; instalaram-se ali cadeiras, o que jamais se vira. As senhoras, bastante numerosas, formavam pelo menos a metade do público. Havia tantos juristas que não se sabia onde metê-los, estando todos os convites distribuídos desde muito tempo. Construiu-se à pressa no fundo da sala, por trás do estrado, uma separação no interior da qual tomaram eles lugar, dando-se por felizes em poderem ficar mesmo de pé, porque haviam retirado todas as cadeiras, a fim de obter-se espaço, e a multidão reunida assistiu ao julgamento de pé, em massa compacta. Certas senhoras, sobretudo as recém-chegadas, mostraram-se nas galerias excessivamente 671

enfeitadas, mas a maior parte não pensava na toalete. Lia-se em seus rostos uma curiosidade ávida. Uma das particularidades daquele público, digna de ser assinalada e que se manifestou no correr dos debates, era a simpatia da enorme maioria das senhoras por Mítia, que desejavam ver absolvido. Talvez porque tivesse ele a reputação de cativar os corações femininos. Contava-se com a presença das duas rivais. Catarina Ivânovna sobretudo excitava o interesse geral; contavam-se coisas espantosas a seu respeito e de sua paixão por Mítia, apesar do crime deste. Lembravam seu orgulho (não fizera visitas quase a ninguém), suas "relações aristocráticas".

Dizia-se que tinha ela a intenção de pedir ao governo autorização para acompanhar o condenado ao presídio e casar-se com ele nas minas, embaixo do solo. A aparição de Grúchenhka não despertava menos interesse, esperava-se com curiosidade o encontro em plenário das duas rivais, a jovem aristocrata e a cortesã. Aliás, nossas damas conheciam melhor Grúchenhka, que "tinha posto a perder Fiódor Pávlovitch e seu desgraçado filho", e a maior parte se admirava de que uma mulher tão ordinária, nem mesmo bonita, tivesse podido tornar a tal ponto apaixonados o pai e o filho. Sei pertinentemente que em nossa cidade sérias querelas de família rebentaram por causa de Mítia. Muitas senhoras disputavam com seus maridos, em conseqüência do desacordo a respeito daquele triste caso, e compreende-se que estes chegassem ao recinto, não somente mal dispostos para com o acusado, mas enraivecidos contra ele.

Em geral, ao contrário das mulheres, o elemento masculino era hostil ao detento. Viam-se rostos severos, carrancudos, outros encolerizados e isto na maioria. É verdade que Mítia insultara muitas pessoas, durante sua permanência entre nós. Decerto, alguns espectadores estavam quase alegres e bastante indiferentes à sorte de Mítia, embora interessados pelo resultado do caso; a maior parte desejava o castigo do culpado, salvo talvez os juristas, que só encaravam o processo do ponto de vista jurídico contemporâneo, negligenciando o lado moral. A chegada de Fietiukóvitch, de grande reputação por causa de seu talento, agitava todo mundo; não era a primeira vez que vinha ele à província advogar em processos criminais de repercussão, dos quais se guardava depois por muito tempo a lembrança. Circulavam anedotas sobre nosso procurador e sobre o presidente do tribunal. Contava-se que o procurador tremia ao ter de tornar a encontrar-se com Fietiukóvitch, que eram antigos inimigos, já em Petersburgo, no começo de suas carreiras; que o nosso suscetível Ipolit 672

Kirílovitch, que se julgava lesado desde muito, porque não era convenientemente apreciado o seu mérito, havia retomado coragem com o caso Karamázov e sonhava mesmo reerguer sua reputação embaciada, mas que Fietiukóvitch lhe causava medo. Quanto ao temor de Fietiukóvitch, essas asserções não eram totalmente justas. Nosso procurador não era desses caráteres que se deixam levar diante do perigo, mas, pelo contrário daqueles cujo amor-próprio aumenta, exalta-se, precisamente na proporção do perigo. Em geral, nosso procurador era demasiado ardente e impressionável. Punha por vezes toda a sua alma num negócio, como se de sua decisão dependessem sua sorte e sua fortuna. No mundo judiciário, sorriam dessa singularidade, que valera a nosso procurador certa notoriedade, maior do que não se teria podido crer de acordo com sua situação modesta na magistratura. Riam sobretudo de sua paixão pela psicologia Na minha opinião, todos se enganavam; nosso procurador era, eu creio, dum caráter bem mais sério do que muitos pensavam. Mas aquele homem doentio não soubera colocar-se no início de sua carreira, nem depois.

Quanto ao presidente do tribunal, era um homem instruído, humano, conhecendo praticamente a causa e com as idéias mais modernas.

Tinha certo amor-próprio, mas pouca ambição. O principal objetivo de sua existência consistia em ser um progressista. Aliás, tinha relações, fortuna.

Verificou-se mais tarde que se interessava bastante vivamente pelo caso Karamázov, mas somente num sentido geral; como fenômeno classificado, encarado como a resultante de nosso regime social, como a característica da mentalidade russa, etc. Quanto ao caráter particular do caso, à personalidade dos seus atores, a começar pelo acusado, isso não lhe apresentava senão um interesse vago, abstrato, como convinha aliás, talvez.

Muito tempo antes da hora, a sala estava repleta. É a mais bela da cidade, vasta, alta, sonora. À direita do tribunal, que tinha assento sobre um estrado, tinham instalado uma mesa e duas filas de cadeiras para o júri. À esquerda se encontrava o lugar do acusado e de seu defensor. No meio da sala, perto dos juizes, as peças de convicção figuravam sobre uma mesa: o roupão de seda branca de Fiódor Pávlovitch, ensangüentado; o pilão de cobre, instrumento presumido do crime; a camisa e a sobrecasaca de Mítia, toda manchada perto do bolso onde metera ele o lenço; o dito lenço, onde o sangue formava uma crosta; a pistola carregada em casa de 673

Pierkhótin para o suicídio de Mítia e tirada furtivamente por Trifon Borísovitch, em Mókroie; o envelope dos 3 000 rublos destinados a Grúchenhka, a fita côr-de-rosa que o amarrava e outros objetos que esqueci. Mais longe, no fundo da sala, mantinha-se o público, mas diante da balaustrada tinham disposto cadeiras para as testemunhas que ficariam na sala depois de seu depoimento. Às 10 horas apareceu o tribunal, composto do presidente, dum assessor e dum juiz de paz honorário. O

procurador chegou no mesmo instante. O presidente era robusto, baixo e gordo, com o rosto congestionado, homem duns cinquenta anos, de cabelos grisalhos cortados curtos e condecorado. O procurador pareceu a toda gente estranhamente pálido, de tez quase verdoenga, emagrecido por assim dizer subitamente, porque eu o havia visto na antevéspera no seu estado normal. O presidente começou por perguntar ao oficial de justiça se todos os jurados estavam presentes... Mas é-me impossível continuar assim, tendo-me escapado certas coisas e sobretudo porque, como já o disse, o tempo e o lugar me faltariam para um relato integral. Sei somente que a defesa e a acusação só recusaram pequeno número de jurados. O

júri compunha-se de quatro funcionários, dois comerciantes, seis camponeses e pequenos burgueses de nossa cidade. Muito tempo antes do julgamento, lembro-me de que na sociedade perguntavam, sobretudo as senhoras: "Será possível que um caso de psicologia tão complicada seja submetido à decisão de funcionários e de mujiques? Que é que eles compreenderão disso?" Efetivamente, os quatro funcionários que faziam parte do júri eram gente modesta, já grisalha, exceto um, pouco conhecidos em nossa sociedade, tendo vegetado com mesquinhos ordenados; deviam ser casados com velhas, impossíveis de exibir, e ter uma ninhada de meninos, talvez descalços; as cartas encantavam-lhes os lazeres e não tinham, bem entendido, jamais lido coisa alguma. Os dois comerciantes tinham o ar calmo, mas estranhamente taciturno e imóvel, estando um deles barbeado e trajado à européia, e o outro, de barba grisalha, trazia no pescoço uma medalha. Nada a dizer dos pequenos burgueses e camponeses de Skotoprigonievsk. Os primeiros assemelham-se bastante aos segundos e trabalham como eles. Dois dentre eles usavam também traje europeu, o que os fazia parecerem mais sujos e mais feios talvez que os outros, tanto que todos perguntavam a si mesmos involuntariamente, como o fiz, olhando-os: "Que pode essa gente compreender mesmo dum tal caso?" Não obstante, seus rostos, rígidos e 674

carrancudos, mostravam uma expressão imponente.

Enfim, o presidente abriu a sessão declarando ao auditório que ia dar-se início ao julgamento do crime de que foi vítima o conselheiro titular aposentado, Fiódor Pávlovitch Karamázov... Não me recordo bem como o disse. Os oficiais de justiça tiveram ordem de introduzir o acusado e apareceu Mítia. Reinou profundo silêncio na sala. Poder-se-ia ouvir uma mosca voar. Mítia causou-me uma impressão das mais desfavoráveis.

Apresentou-se como um janota, de roupa nova, luvas lustrosas, roupa branca fina. Soube depois que ele encomendara para aquele dia uma sobrecasaca em Moscou, em casa de seu antigo alfaiate, que havia conservado suas medidas. Avançou a grandes passos, rígido, olhando fitamente à sua frente, e sentou-se com ar impassível. Apareceu ao mesmo tempo seu defensor, o famoso Fietiukóvitch; um murmúrio discreto percorreu a sala. Era um homem grande e seco, de pernas finas, dedos exangues e afilados, cabelos curtos, o rosto imberbe, e seus lábios finos pregueavam-se por vezes num sorriso sarcástico. Parecia ter quarenta anos. O rosto teria sido simpático não fossem os olhos, desprovidos de expressão e muito aproximados do nariz, comprido e delgado. Em suma, aquela fisionomia lembrava um pássaro. Estava de casaca e de gravata branca. Lembro-me do interrogatório de identificação. Mítia respondeu com uma voz tão forte que surpreendeu o presidente. Depois fizeram leitura da lista das testemunhas e peritos. Quatro dentre ele faltavam: Miúsov, que voltara a Paris, mas cujo depoimento figurava no processo; a Senhora Khokhlakova e o proprietário rural Maksímov, por motivo de doença, e Smierdiákov, falecido subitamente, como o atestava um relatório da polícia. A notícia de sua morte causou sensação. Muitos, no público, ignoravam ainda o seu suicídio. O que impressionou sobretudo foi uma frase de Mítia a esse respeito:

— Para cão, morte de cão! — exclamou ele.

Seu defensor adiantou-se para ele, o presidente ameaçou-o de tomar medidas severas no caso de novo insulto. Mítia repetiu várias vezes ao advogado, à meia voz e sem arrependimento aparente:

— Não o farei mais! Escapou-me. Não recomeçarei.

Esse episódio não testemunhava em seu favor aos olhos dos jurados e do público. Dava uma amostra de seu caráter. Foi sob essa impressão 675

que o escrivão leu o libelo acusatório. Era conciso, limitando-se à exposição dos principais motivos de acusação; não obstante, fiquei vivamente impressionado. O escrivão lia com uma voz nítida e sonora. Aquela tragédia aparecia em relevo, alumiada por uma luz implacável. Depois do que, o presidente perguntou a Mítia:

— Acusado, reconhece-se culpado? Mítia levantou-se.

— Reconheço-me culpado de embriaguez, de devassidão e de preguiça — disse ele com exaltação. — Queria corrigir-me definitivamente, na hora mesma em que a sorte me feriu. Mas estou inocente da morte do velho, meu pai e meu inimigo. Não o roubei tampouco, não, não sou capaz disso. Dimítri Karamázov é um canalha, mas não um ladrão!

Sentou-se de novo, a fremir. O presidente exortou-o a responder unicamente às perguntas. Em seguida, foram chamadas as testemunhas para prestar juramento. Os irmãos do acusado foram dispensados dessa formalidade. Depois das exortações do padre e do presidente, mandaram para fora as testemunhas para serem de novo chamadas uma a uma.

II

TESTEMUNHOS PERIGOSOS

Ignoro se as testemunhas de acusação e de defesa foram agrupadas pelo presidente e em que ordem se propunha chamá-las. É provável. Em todo o caso, começou-se pelas testemunhas de acusação. Repito que não tenho a intenção de reproduzir integralmente os interrogatórios. Aliás, seria em parte supérfluo, porque a acusação e a defesa resumiram claramente a marcha e o sentido do caso, bem como os depoimentos das testemunhas. Anotei integralmente por vezes aqueles dois notáveis discursos que citarei a seu tempo, da mesma maneira que um episódio inesperado do julgamento, que influiu indubitavelmente no seu desenlace fatal. Desde o começo, uma particularidade daquele caso afirmou-se aos olhos de todos: a força extraordinária da acusação, em relação aos meios da defesa. Todo mundo compreendeu logo isso, quando se viu os fatos agruparem-se, acumularem-se e o horror do crime exibir-se pouco a pouco à plena luz. Dava-se conta o público de que a causa estava bem clara, que a dúvida era impossível, que os debates seriam apenas mera formalidade, 676 estando mais que demonstrada a culpabilidade do acusado. Penso mesmo que nem dúvida havia para todas as senhoras que aguardavam com tanta impaciência a absolvição do interessante acusado. Mais ainda, parece-me que se sentiriam elas aflitas diante de uma culpabilidade menos evidente, porque isso teria diminuído o efeito do desenlace, quando se absolvesse o criminoso. Coisa estranha é que todas as senhoras acreditaram na absolvição quase até o derradeiro minuto. "Ele é culpado, mas absolvê-lo-ão por humanidade, em nome das idéias novas", etc. Eis por que haviam acorrido com tanto açodamento. Os homens interessavam-se sobretudo pela luta entre o procurador e o famoso Fietiukóvitch. Todos perguntavam a si mesmos com espanto: que poderá fazer de uma causa perdida de antemão Fietiukóvitch, com todo o seu talento? De modo que o observavam com uma atenção intensa. Mas Fietiukóvitch ficou até o fim como um enigma para todos. As pessoas experimentadas pressentiam que tinha ele um sistema, que perseguia um objetivo, mas era quase impossível adivinhar qual. Sua segurança saltava no entanto aos olhos.

Além disso, notou-se com satisfação que, durante sua curta estada entre nós, se pusera notavelmente a par do caso e havia-o estudado em todos os seus detalhes. Admirou-se em seguida sua habilidade em desacreditar todas as testemunhas da acusação, em confundi-las tanto quanto possível e sobretudo em manchar-lhes a reputação moral, e, por conseqüência, seus depoimentos. Aliás, supunha-se que ele assim agia muito por jogo, por assim dizer, por coquetismo jurídico, a fim de pôr em ação todos os processos advocatórios, porque pensava-se com razão que aqueles

"denegrimentos" não lhe proporcionariam nenhuma vantagem definitiva, e ele próprio, provavelmente, o compreendia melhor que ninguém; devia ter em reserva uma idéia, uma arma oculta, que revelaria no momento querido. No instante, consciente de sua força, parecia divertir-se. Assim, quando interrogou Gregório Vassílievitch, o antigo criado de quarto de Fiódor Pávlovitch, que afirmou ter visto a porta da casa aberta, o defensor aferrou-se a ele, quando chegou sua vez de fazer-lhe perguntas. Gregório Vassílievitch apareceu à barra das testemunhas sem se mostrar absolutamente perturbado pela majestade do tribunal ou pela presença do numeroso público. Depôs com a mesma segurança com que o teria feito se estivesse a sós com sua mulher, mas com mais deferência. Era impossível confundi-lo. O procurador interrogou-o muito tempo a respeito de particularidades da família Karamázov. Gregório traçou dela um quadro 677

sugestivo. Via-se que a testemunha era ingênua e imparcial. Malgrado todo o seu respeito pelo antigo patrão, declarou que este fora injusto para com Mítia e "não educava seus filhos como era preciso. Sem mim, teria ele sido roído pelos piolhos", disse ele, ao falar da tenra infância de Mítia.

"Tampouco, não deveria ter o pai prejudicado seu filho no referente aos bens que herdara da mãe. " Tendo-lhe o procurador perguntado sobre que se baseava para afirmar que Fiódor Pávlovitch prejudicara a seu filho por ocasião do acerto de contas, Gregório, para espanto geral, não apresentou nenhum argumento decisivo, mas persistiu dizendo que aquele acerto não fora justo, e que Mítia deveria ter recebido ainda alguns milhares de rublos. A este propósito, interrogou o procurador, com uma insistência particular, todas as testemunhas que se presumia estivessem ao corrente, inclusive os irmãos do acusado, mas nenhuma delas o esclareceu duma maneira precisa, cada qual afirmando a coisa sem poder fornecer dela uma prova mais ou menos exata. O relato da cena na mesa, que Dimítri Fiódorovitch irrompeu na sala e bateu em seu pai, ameaçando de voltar para matá-lo, produziu uma impressão sinistra, tanto mais quanto o velho criado narrava com calma e concisão, numa linguagem original, o que causava muito efeito. Declarou que a ofensa de Mítia, que então lhe batera no rosto e o derrubara, estava desde muito tempo perdoada. Quanto a Smierdiákov — benzeu-se —, era um rapaz bem dotado, mas deprimido pela doença e sobretudo ímpio, tendo sofrido a influência de Fiódor Pávlovitch e de seu filho mais velho. Atestou com calor sua honestidade, contando o episódio do dinheiro achado e entregue por Smierdiákov a seu patrão, o que lhe valeu, com uma moeda de ouro, a confiança dele.

Sustentou teimosamente a versão da porta aberta para o jardim. Aliás, fizeram-lhe tantas perguntas que não posso lembrar-me de todas. Por fim, foi a vez do defensor; que se informou em primeiro lugar do envelope onde, segundo parecia, Fiódor Pávlovitch ocultara 3 000 rublos para certa pessoa. "Viu-o, o senhor que vivia desde tanto tempo junto de seu patrão?" Gregório respondeu que não e que não sabia da existência desse.

dinheiro e dele só conhecendo "depois que toda gente falava". Esta pergunta relativa ao envelope fê-la Fietiukóvitch, todas as vezes que pôde, às testemunhas, com a mesma insistência que o procurador pusera em informar-se sobre a partilha dos bens; todas responderam que não tinham podido ver o envelope, embora muitas dele tivessem ouvido falar. A persistência do defensor foi notada desde o começo.

678

— Agora, poderia eu perguntar-lhe — continuou Fietiukóvitch — de que se compunha esse bálsamo, ou antes essa infusão com a qual o senhor esfregou seus rins, antes de deitar-se, na noite do crime, como ressalta do inquérito?

Gregório olhou-o com ar aparvalhado e, após um silêncio, murmurou: "Havia salva nela".

— Somente salva, nada mais?

— E tanchagem.

— E pimenta, talvez?

— Havia também pimenta.

— E tudo isso com vodca!

— Com álcool.

Ligeiro sorriso percorreu o auditório.

— Veja-se, até mesmo álcool. Depois de ter-se esfregado a região renal, o senhor bebeu o resto da garrafa, com uma piedosa prece conhecida somente por sua esposa, não é?

— Sim.

— Bebeu muito? Um ou dois copinhos?

— O conteúdo de um copo.

— Tanto assim? Um copo e meio, talvez? Gregório guardou silêncio.

Parecia compreender.

— Um copo e meio de álcool puro, não teria sido muito? Que pensa o senhor? Com isso podem-se ver abertas as portas do paraíso!

Gregório continuava calado. Nova risada esfuziou. O presidente agitou-se.

— Poderia o senhor dizer — insistiu Fietiukóvitch — se estava desperto quando viu a porta do jardim aberta?

— Estava em cima de minhas duas pernas.

— Isto não quer dizer que o senhor estivesse desperto. (Novas risadas. ) Teria podido, por exemplo, responder naquele momento, se alguém 679

lhe perguntasse, em que ano nós estamos?

— Não sei.

— Está bem! Em que ano estamos, desde o nascimento de Jesus Cristo? Sabe-o?

Gregório, com ar confuso, olhava fixamente seu carrasco. Sua ignorância do ano atual parecia estranha.

— Talvez saiba o senhor quantos dedos tem nas mãos.

— Tenho o hábito de obedecer — proferiu, de súbito, Gregório. —

Se agrada às autoridades zombar de mim, devo suportá-lo.

Fietiukóvitch ficou um pouco desconcertado. O presidente interveio e lembrou-lhe que devia fazer perguntas mais em relação com o caso. O

advogado respondeu com deferência que nada mais tinha a perguntar.

Certamente, o depoimento de um homem "tendo visto as portas do paraíso" e ignorando em que ano vivia poderia inspirar dúvidas, de sorte que o fito do defensor foi atingido. Um incidente marcou o fim do interrogatório. Tendo-lhe o presidente perguntado se tinha observações a apresentar, Mítia exclamou:

— Exceto o que se refere à porta, a testemunha disse a verdade. Eu lhe agradeço ter-me livrado dos parasitas e perdoado minhas pancadas; esse velho foi durante toda a sua vida honesto e fiel a meu pai como 36

cães-d'água.

— Acusado, policie suas expressões — disse severamente o presidente.

— Não sou um cão-d'água — resmungou Gregório.

— Pois bem! Sou eu que sou um cão-d'água! — gritou Mítia. — Se é uma ofensa, assumo-a para mim e peço-lhe perdão. Fui brutal e violento com ele. Com Esopo também.

— Que Esopo? — acentuou severamente o presidente.

— Refiro-me a Pierrot... a meu pai Fiódor Pávlovitch.

O presidente exortou de novo Mítia a escolher seus termos com mais prudência.

680

— O senhor se prejudica assim no espírito de seus julgadores.

O defensor procedeu com a mesma habilidade com Rakítin, uma das testemunhas mais importantes, da qual muito esperava o procurador.

Sabia uma multidão de coisas, vira tudo, conversara com uma multidão de pessoas e conhecia a fundo a biografia de Fiódor Pávlovitch e dos Karamázovi. Na verdade, não ouvira falar do envelope de 3 000 rublos senão por Mítia. Em compensação, descreveu com detalhes as proezas de Mítia no botequim A Capital, suas palavras e atos comprometedores, contou a história do "esfregão de tília", do Capitão Snieguiriov. Quanto ao que o pai podia ter de restituir ao filho por ocasião do acerto de contas, o próprio Rakitin nada sabia e safou-se graças a generalidades desdenhosas:

"Impossível compreender qual não tinha razão e não se emaranhar naquela barafunda dos Karamázovi". Apresentou aquele crime trágico como o produto dos costumes atrasados da servidão e da desordem em que estava mergulhada a Rússia, privada das instituições necessárias. Em suma deixaram-no discorrer. Foi depois desse julgamento que o Senhor Rakitin se revelou e atraiu a atenção. O procurador sabia que a testemunha preparava para uma revista um artigo relativo ao crime e citou algumas partes dele no seu discurso acusatório (como se verá mais adiante). O quadro pintado pela testemunha pareceu sinistro e reforçou a acusação. Em geral, a exposição de Rakitin agradou ao público pela independência e pela nobreza de pensamento; ouviram-se mesmo alguns aplausos, quando falou ele da servidão e da Rússia presa da desorganização. Mas Rakitin, que era jovem, cometeu um descuido de que soube logo aproveitar-se o defensor. Interrogado a respeito de Grúchenhka e arrastado pelo seu êxito e pela altura moral em que havia plainado, exprimiu-se com algum desdém a respeito de Agrafiena Alieksándrovna, "mantida pelo comerciante Samsónov". Teria dado muito depois para retirar esta expressão, porque foi aí que Fietiukóvitch o apanhou. E isto porque Rakitin não esperava que o advogado tivesse podido iniciar-se em tão pouco tempo em detalhes tão íntimos.