Os Irmãos Karamázov

Fiódor Dostoiévski · Capítulo 7 de 50

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Os Irmãos Karamázov

Capítulo 7

Rakítin tinha razão de fazer essas exclamações. Ocorrera de fato um escândalo inaudito e inesperado. Tudo se passara "por inspiração do momento".

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VIII

UM ESCÂNDALO

Quando Miúsov e Ivã Fiódorovitch iam entrar em casa do padre abade, produziu-se em Piotr Alieksándrovitch — que era um homem educado — uma reviravolta delicada. Teve vergonha de sua cólera. Sentia em seu íntimo que deveria estimar pelo seu justo valor o lamentável Fiódor Pávlovitch, conservar seu sangue-frio na cela do stáriets, e não perder a cabeça, como fora o caso. "Os monges não têm culpa nenhuma", decidiu ele de repente no patamar do abade. Ora, se há aqui pessoas decentes (o Padre Nikolai, o abade, é, parece, da nobreza), por que não me mostrar para com eles delicado, amável f| polido? Não discutirei, farei mesmo coro, conquistarei a simpatia deles pela minha amabilidade e... por fim,

provar-lhes-ei que não jogou o companheiro daquele Esopo7, daquele palhaço, daquele saltimbanco, e que fui metido nisso com eles todos..." I Resolveu ceder-lhes definitivamente os direitos de corte e pesca, de uma vez por todas, naquele dia mesmo — tanto mais que aquilo não tinha valor —, e de cessar os processos contra o mosteiro.

Todas essas boas intenções afirmaram-se ainda, quando entraram na sala de jantar do padre abade. Não era na verdade uma, porque não havia senão duas peças, aliás muito mas espaçosas e mais cômodas que as do stáriets. Mas o mobiliário não brilhava pelo conforto: os móveis eram de acaju, recobertos de couro à antiga moda de 1820, e até mesmo os soalhos não eram pintados. Em compensação, tudo rebrilhava de limpeza, havendo nas janelas muitas flores caras; mas uma elegância principal residia naquele momento na mesa suntuosamente servida —

relativamente, como era natural; a toalha era imaculada, a prataria cintilava; sobre a mesa três espécies de pão muito bem cozidos, duas garrafas de vinho, dois jarros de excelente hidromel do mosteiro e um garrafão cheio de kvas reputado das redondezas. Não havia vodca. Rakftin contou mais tarde que o jantar compreendia daquela vez cinco |pratos: 7 Apelido dado ao velho Fiódor Pávlovitch com a intenção, expressamente pejorativa, de emprestar-lhe as qualidades negativas de vagabundagem e histrionismo atribuídas à semilendária figura do também velho, feio, gago e corcunda fabulista grego, mas cujo engenho e sutileza são igualmente proverbiais.

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uma sopa de esturjão com bocados de peixe; depois um peixe cozido, preparado segundo uma receita especial e deliciosa; bolinhos de esturjão, gelados e compota, e por fim um prato de doce de batata fim estilo de manjar branco.

Rakítin havia farejado tudo isto, e, incapaz de conter-se, lançou uma olhadela à cozinha do padre abade, onde tinha conhecidos. Tinha (...) por toda parte e ficava sabendo o que queria saber. Era um coração atormentado e invejoso. Tinha plena consciência de seus dons Indiscutíveis.; fazia mesmo deles, na sua presunção, uma idéia exagerada.

Sabia-se destinado a desempenhar um papel, mas Aliócha, que lhe fira muito ligado, afligia-se por ver seu amigo desprovido de consciência e não se aperceber disso. Rakítin, pelo contrário, sabendo que jamais roubaria dinheiro a seu alcance, estimava-se por isto como homem de perfeita honorabilidade. A este respeito nem Aliócha nem ninguém podia influir sobre ele.

Rakítin era uma personagem por demais mesquinha para figurar na refeição; em compensação o Padre Iósif e o Padre Paísi tinham sido envidados, bem como um outro religioso. Aguardavam eles já na ala de jantar, quando entraram Piotr Alieksándrovitch, Kolgánov e Ivã Fiódorovitch. O proprietário de terras Maksímov mantinha-se à parte. O

padre abade avançou para o meio da sala para acolher seus Convidados.

Era um velho grande e magro, mas ainda vigoroso, de cabelos negros já grisalhos, de rosto comprido, emaciado e grave. Cumprimentou seus hóspedes em silêncio e estes vieram por sua vez receber sua bênção.

Miúsov tentou mesmo beijar-lhe a mão, mas o abade preveniu seu gesto, retirando-a. Ivã Fiódorovitch e Kolgánov foram até ao extremo, fazendo estalar os lábios à maneira da gente do povo.

— Devemos apresentar-vos todas as nossas desculpas, meu reverendo padre — começou Piotr Alieksándrovitch, com um gracioso sorriso, mas num tom grave e respeitoso —, porque chegamos sozinhos, sem nosso companheiro Fiódor Pávlovitch, que convidastes; teve de renunciar a acompanhar-nos e não sem motivo. Na cela do reverendo Padre Zósima, arrebatado por sua infeliz querela com seu filho, pronunciou algumas palavras bastante fora de propósito... em suma, bastante inconvenientes... do que vossa reverendíssima deve ter tido já conhecimento (olhou para os religiosos). Assim, cônscio de sua falta e 87

deplorando-a sinceramente, experimentou ele uma vergonha invencível e nos rogou, a seu filho Ivã e a mim, que vos exprimíssemos seu sincero pesar, sua contrição e seu arrependimento... Em suma, espera e quer tudo reparar mais tarde, e agora, pedindo vossa bênção, roga-vos que esqueçais o que se passou..

Miúsov calou-se. Tendo chegado ao fim de sua tirada, ficou perfeitamente satisfeito consigo mesmo, a ponto de esquecer completamente sua recente irritação. Experimentava de novo sincero e vivo amor pela humanidade. O padre abade, que o tinha escutado gravemente, inclinou a cabeça e respondeu:

— Lamento vivamente sua ausência. Participando desta refeição, talvez tivesse tomado afeição por nós, o mesmo acontecendo de nossa parte. Senhores, queiram tomar lugares.

Colocou-se diante da imagem e começou uma oração. Todos incli-naram-se respeitosamente e o proprietário Maksímov colocou-se mesmo na frente de mãos juntas, em sinal de particular veneração.

E foi então que Fiódor Pávlovitch fez mais uma das suas. Deve-se notar que tivera ele verdadeiramente a intenção de partir e compreendera a impossibilidade, depois de seu vergonhoso procedimento em casa do stáriets, de ir jantar em casa do padre abade, como se nada tivesse acontecido. Não que se sentisse tão envergonhado assim e fizesse censuras a si mesmo; talvez mesmo muito pelo contrário; no entanto, sentia a inconveniência de ir jantar. Mas assim que a caleça de molas gementes chegou ao patamar da hospedaria, parou ele antes de nela subir.

Lembrou-se de suas próprias palavras em casa do stáriets. "Parece-me sempre, ao entrar em alguma parte, que sou mais vil que todos e que todos me tomam por um palhaço. Então digo a mim mesmo: sejamos verdadeiramente o palhaço, porque todos, até o derradeiro de vós, sois mais estúpidos e mais vis do que eu." Queria vingar-se em todo mundo de suas próprias vilanias. Lembrou-se, de repente, a esse propósito, de como outrora lhe haviam perguntado uma vez: "Por que detesta tanto tal pessoa?" E respondera então, num acesso de bufonesco descaramento:

"Ela não me fez nada, e verdade, mas eu lhe preguei uma má peça e logo depois comecei a detestá-la". A esta lembrança, sorriu maldosa e silenciosamente numa hesitação de um minuto. Seus olhos cintilaram e seus lábios tremeram. "Já que comecei, é preciso ir até o fim", decidiu ele, 88

bruscamente. Naquele instante, ter-se-ia podido exprimir assim seu sentimento mais íntimo: "É agora impossível reabilitar-me, então zombemos deles até a impudência: não tenho vergonha diante de vós, e eis tudo!" Ordenou ao cocheiro que esperasse e voltou a grandes passadas para o mosteiro, diretamente para a casa do padre abade. Não sabia ainda o que faria, mas sabia que não mais se dominava, que o menor impulso o impeliria aos derradeiros limites de alguma indignidade, mas somente unia indignidade, e não algum delito ou algum ataque tal que o levasse perante a justiça. Neste último caso, sabia sempre conter-se e se admirava mesmo disso por vezes. Apareceu na sala de jantar do abade, quando todos iam sentar-se à mesa depois da oração. Parou na soleira, examinou as pessoas presentes, fitando-as diretamente no rosto, e explodiu numa risada prolongada e impudente.

— Pensavam que eu tinha partido e eis-me aqui! — gritou ele com voz retumbante.

Os presentes olharam-no um instante em silêncio e de súbito todos sentiram que iria passar-se uma cena repugnante e que um escândalo era inevitável. Piotr Alieksándrovitch passou bruscamente da quietude ao pior mau humor. Sua cólera extinta reacendeu-se, sua indignação acalmada trovejou de repente.

— Não! Não posso suportar isso! — berrou. — Não sou capaz, não sou absolutamente capaz!

O sangue subia-lhe à cabeça. Atrapalhava-se, mas não se tratava de fazer estilo e pegou seu chapéu.

— De que não é ele capaz? — exclamou Fiódor Pávlovitch. — Devo entrar ou não, pergunto a vossa reverendíssima? Aceita-me como convidado?