Os Irmãos Karamázov
Capítulo 49
— Então, miserável, é para minha salvação que trabalhas?
— É bem preciso praticar alguma vez uma boa obra. Tu te zangas, pelo que vejo!
— Palhaço! Jamais tentaste aqueles que se nutrem de gafanhotos, rezam dezessete anos no deserto até ficarem cobertos de musgo?
— Meu caro, não faço outra coisa senão isso. A gente esquece o mundo inteiro por uma alma assim, porque é uma jóia de preço, uma aritmética. A vitória é preciosa! Ora, certos solitários, palavra de honra, valem tanto quanto tu, do ponto de vista intelectual, se bem que não o creias; podem contemplar simultaneamente tais abismos de fé e de dúvida que parece por vezes, na verdade, que basta apenas um cabelo para que eles sucumbam.
— Pois bem! Tu te retirarias de nariz bem comprido!
— Meu amigo — observou o visitante, sentencioso —, mais vale ter o nariz comprido do que não ter nariz nenhum, como dizia ainda 660
recentemente um marquês doente (devia ter sido tratado por um especialista), confessando-se a um padre jesuíta. Assisti a isso, era encantador.
"Entregai-me meu nariz!", e batia no peito. "Meu filho", insinuava o padre,
"tudo é regulado pelos decretos insondáveis da Providência, um mal aparente traz por vezes um bem oculto. Se uma sorte cruel o privou de seu nariz, o senhor ganha com isso pelo fato de ninguém mais doravante ousar dizer-lhe que o senhor tem o nariz comprido. "
"Meu padre, não é isto um consolo!", exclamou ele desesperado. "Ficarei, pelo contrário, encantado por ter cada dia o nariz comprido, contanto que ele esteja no seu lugar!" "Meu filho", disse o padre, suspirando, "não se podem pedir todos os bens ao mesmo tempo e já é murmurar contra a Providência, que, mesmo assim, não o esqueceu; porque, se o senhor grita, como ainda há pouco, que seria feliz toda a sua vida por ter o nariz comprido, seu desejo será satisfeito indiretamente, porque, tendo perdido seu nariz, pelo fato mesmo, tem o senhor o nariz comprido... "
— Ora! Que coisa estúpida! — exclamou Ivã.
— Meu amigo, eu queria fazer-te rir, juro-te que tal é a casuística dos jesuítas e que tudo isso é rigorosamente exato. Esse caso é recente e causou-me bastantes preocupações. De volta para casa, o desgraçado rapaz estourou os miolos naquela noite; não o deixei até o derradeiro instante... Quanto aos confessionários jesuíticos, são na verdade meu divertimento agradável nas horas de tristeza. Eis uma historieta destes últimos dias. Uma jovem normanda, loura, de vinte anos, chega à casa de um velho padre. Uma beleza! Que corpo! Era de fazer vir água à boca.
Ajoelha-se, murmura seu pecado através da grade. "Como, minha filha, você recaiu no pecado?... Ó Saneia Maria, que ouço eu? Já é outro? Até quando durará isso? Não tem você vergonha?" "Ah! mon père", responde a pecadora arrependida, "ça lui a fait tant de plaisir
et à moi si peu de peine!" 49
Considera essa resposta! É o grito da própria natureza, vale isto mais que a inocência! Dei-lhe a absolvição e voltei-me para retirar-me, quando ouvi o padre marcar-lhe um encontro para aquela noite. Por mais resistente que tenha sido o velho, sucumbiu logo à tentação. A natureza, a verdade desforraram-se! Por que fazes careta? Eis-te de novo zangado? Não sei mais que fazer para te ser agradável...
49 Ah! meu padre, isso lhe causou tanto prazer e a mim tão pouco trabalho!
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— Deixa-me, tu me obsedas como um pesadelo — gemeu Ivã, vencido pela sua visão. — Tu me aborreces e me atormentas. Daria muito para escorraçar-te.
— Repito, modera tuas exigências, não exijas de mim o grande e o belo, e verás como seremos bons amigos — disse o cavalheiro com um tom sugestivo. — Na verdade, tens razão de querer-me mal porque não apareci em meio duma nuvem vermelha, entre o trovão e os raios, com as asas avermelhadas, mas me apresentei com traje tão modesto. Em primeiro lugar teus sentimentos estéticos estão melindrados, depois teu orgulho: tão grande homem receber a visita de um diabo tão comum! Há em ti aquela fibra romântica de que zombou Bielínski! Que fazer, rapaz?
Ainda há pouco, no momento de vir à tua casa, pensei, para brincar, em tomar a aparência de um conselheiro de Estado aposentado, condecorado com as ordens do Leão e do Sol, mas não ousei, porque ter-me-ias batido: como, pôr no peito as placas do Leão e do Sol, em lugar da Estrela Polar ou de Sírio?! E insistes em chamar-me estúpido. Meu Deus, não pretendo ter a tua inteligência. Mefistófeles, aparecendo a Fausto, afirma que quer o mal e não faz senão o bem. Bem, isso é lá com ele, comigo é o contrário.
Sou talvez o único ser no mundo que ama a verdade e quer sinceramente o bem. Estava presente quando o Verbo crucificado subiu ao céu, levando a alma do bom ladrão; ouvi as exclamações jubilosas dos querubins cantando hosana! e os hinos dos serafins, que faziam tremer o universo.
Pois bem, juro-o pelo que há de mais sagrado, quis juntar-me aos coros e gritar também hosana! As palavras iam sair de meu peito... sabes que sou bastante sensível e impressionável do ponto de vista estético. Mas o bom senso — a mais desgraçada de minhas faculdades — reteve-me nos justos limites e deixei passar a hora propícia! Porque, pensava eu então, que aconteceria se eu cantasse hosana? Tudo se extinguiria no mundo, não se passaria mais nada. Eis como os deveres de meu cargo e minha posição social obrigaram-me a repelir um impulso generoso e a permanecer na infâmia. Outros arrogam-se toda a honra do bem: não me deixam senão a infâmia. Mas não invejo a honra de viver às custas de outrem, não sou ambicioso. Por que, entre todas as criaturas, sou eu só votado às maldições das pessoas honestas e mesmo aos pontapés de botas, pois, encarnan-do-me, devo suportar tais conseqüências? Há aí um mistério, mas a preço algum querem revelar-mo, com medo de que entoe eu hosana e tão logo desapareçam as imperfeições necessárias, reine a razão no mundo inteiro: 662
seria naturalmente o fim de tudo, até mesmo de jornais e revistas, ' porque quem os assinaria então? Sei que por fim eu me reconciliaria, farei também eu o meu quatrilhão e conhecerei o segredo. Mas, à espera, amuo-me e cumpro a contragosto minha missão: perder milhões para salvar um só.
Quantas almas, por exemplo, foi preciso perder e quantas reputações macular para obter um só justo, Jó, do qual se serviram outrora para me pregarem bem má peça. Não, enquanto o segredo não for revelado, existem para mim duas verdades: a lá de baixo, a deles, que ignoro totalmente, e a outra, a minha. Resta ver qual é a mais pura... Dormes?
— Penso bem — gemeu Ivã — em tudo o que há de animal em mim, tudo o que desde muito tempo digeri e eliminei como uma sujeira, tu mo trazes como uma novidade!
— Então, não fui bem sucedido! Eu que pensava encantar-te com minha eloqüência! Esse hosana no céu, na verdade, não estava mal, não é?
Depois aquele tom sarcástico à Heine, não é?
— Não, jamais tive esse espírito de lacaio! Como pôde minha alma produzir um lacaio de tua espécie?
— Meu amigo, conheço um encantador jovem russo, amador de literatura e de arte. É o autor dum poema que promete, intitulado: "O Grande Inquisidor... " Era unicamente ele que eu tinha em vista.
— Proíbo-te de falar do "Grande Inquisidor" — exclamou Ivã, rubro de vergonha.
— E o cataclismo geológico, lembras-te? Que poema!
— Cala-te ou eu te mato!
— Matar-me? Não, é preciso que eu me explique em primeiro lugar.
Vim cá para oferecer a mim mesmo esse prazer. Oh! quanto amo os sonhos de meus jovens amigos, fogosos, sedentos de vida! "Ali vive gente nova!", dizias tu na última primavera, quando te preparavas para vir aqui,
"eles querem tudo destruir e regressar à antropofagia. Não me consultaram, os estúpidos. Na minha opinião, não é preciso destruir nada, a não ser a idéia de Deus no espírito do homem: eis por onde é preciso começar. Oh! os cegos, não compreendem nada! Uma vez que a humanidade inteira professe o ateísmo (e creio que essa época, à maneira das épocas geológicas, chegará a seu tempo), então, por si mesma, sem an-663
tropofagia, a antiga concepção do mundo desaparecerá, e sobretudo a antiga moral. Os homens se unirão para retirar da vida todos os gozos possíveis, mas neste mundo somente. O espírito humano se elevará até um orgulho titânico e isto será a humanidade deificada. Triunfando sem cessar e sem limites da natureza pela ciência e pela energia, o homem por isso mesmo experimentará constantemente uma alegria tão intensa que ela substituirá para ele as esperanças das alegrias celestes. Cada qual saberá que é mortal, sem esperança de ressurreição, e resignar-se-á à morte com uma altivez tranqüila, como um deus. Por altivez, abster-se-á de murmurar contra a brevidade da vida e amará seus irmãos duma maneira desinteressada. O amor só procurará gozos breves, mas o próprio sentimento de sua brevidade reforçar-lhe-á a intensidade tanto quanto outrora ela se disseminava nas esperanças de um amor eterno, além-tumular"... e assim por diante. É encantador!
Ivã tapava os ouvidos com as mãos, olhava para o chão, tremia da cabeça aos pés. A voz prosseguiu:
— A questão consiste nisto, sonhava meu jovem pensador: será possível que essa época chegue algum dia? Na afirmativa, tudo está decidido, a humanidade se organizará definitivamente. Mas como, diante da estupidez inveterada da espécie humana, não se venha isso a realizar talvez nem dentro de mil anos, é permitido a todo indivíduo que tenha consciência da verdade regularizar sua vida como bem entender, de acordo com os novos princípios. Neste sentido, tudo lhe é permitido. Mais ainda: mesmo se essa época nunca deva chegar, como Deus e a imortalidade não existem, é permitido ao homem novo tornar-se um homem-deus, seja ele o único no mundo a viver assim. Poderia doravante, de coração leve, libertar-se das regras da moral tradicional, às quais estava o homem sujeito como um escravo. Para Deus, não existe lei. Em toda parte onde Deus se encontra, está em seu lugar! Em toda parte em que me encontrar, será o primeiro lugar... tudo é permitido, um ponto, é tudo!
Tudo isso é muito gentil; somente, se se quer trapacear, de que serve a sanção da verdade? Mas nosso russo contemporâneo é assim feito: não se decidirá a trapacear sem essa sanção, tanto ama ele a verdade...
O visitante deixara-se arrebatar pela sua eloqüência, elevava cada vez mais a voz e olhava com ironia o dono da casa; mas não pôde acabar.
Ivã agarrou de repente um copo em cima da mesa e atirou-o no orador.
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