Os Irmãos Karamázov

Fiódor Dostoiévski · Capítulo 30 de 50 · parte 1/3

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Os Irmãos Karamázov

Capítulo 30

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

— Apressa-te em encontrá-lo, volta amanhã e deixa tudo o mais.

Pode ser que tenhas tempo de evitar uma tremenda desgraça. Ontem, inclinei-me diante do profundo sofrimento futuro dele.

Calou-se de repente, com ar pensativo. Aquelas palavras eram estranhas. O Padre Iósif, testemunha daquela cena na véspera, trocou um olhar com o Padre Paísi. Aliócha não se conteve mais.

— Meu pai e meu mestre — disse ele, presa de grande agitação —, vossas palavras não são claras. Que sofrimento o espera?

— Não sejas curioso. Ontem, tive uma impressão terrível; pareceu-me ler todo o seu destino. Tinha um olhar... que me fez fremir ao pensar na sorte que aquele homem preparava para si mesmo. Uma vez ou duas em minha vida, vi em alguns tal expressão... parecendo revelar seu destino, e ele se cumpriu, ai! Enviei-te para seu lado, Alieksiéi, com a idéia de que tua presença fraternal o aliviaria. Mas tudo vem do Senhor, e nossos destinos dependem dele. "Em verdade, em verdade vos digo que, se o grão de trigo que cai na terra não morrer, fica infecundo; mas, se 296

morrer, produz muito fruto. " 30 Lembra-te disto. Quanto a ti, Alióchka, abençoei-te muitas vezes em pensamento por causa de teu rosto, fica-o sabendo — declarou o stáriets com um doce sorriso. — Eis minha idéia a teu respeito: deixarás estes muros, viverás no mundo como um religioso.

Terás numerosos adversários, mas teus próprios inimigos te amarão. A vida trar-te-á muitas desgraças, mas encontrarás nisso a felicidade, tu a abençoarás e obrigar ás os outros a abençoá-la, o que é o essencial. Meus padres — e mostrou um sorriso amável ao dirigir-se a seus hóspedes —, jamais disse até agora, mesmo a esse rapaz, por que seu rosto me era tão caro à alma. Foi para mim como uma recordação e um presságio. Na aurora da vida, ainda menino, tinha um irmão mais velho que morreu à minha vista, com a idade de dezessete anos apenas. Posteriormente, no curso dos anos, convenci-me pouco a pouco de que aquele irmão foi no meu destino como que uma indicação, um decreto da Providência, porque sem ele, bem decerto, não me teria feito religioso, nem entrado nesta estrada preciosa. Essa primeira manifestação produziu-se na minha infância, e, ao término de minha carreira, tenho à minha vista como que sua repetição. O milagre, meus padres, é que, sem se parecer muito com ele de rosto, pareceu-me Alióchka de tal modo semelhante a ele espiritualmente que muitas vezes o considerei como meu jovem irmão, vindo para encontrar-me no final de minha jornada, como lembrança do passado, tanto que eu mesmo me admirei dessa estranha ilusão. Ouves, Porfíri? — dirigia-se ao noviço ligado a seu serviço. — Vi-te muitas vezes pesaroso porque preferia Alióchka a ti. Ficas conhecendo agora o motivo, mas eu te amo, fica sabendo, e teu pesar muitas vezes me magoou. Quero falar-vos, meus caros hóspedes, de meu jovem irmão, porque nada se passou em minha vida de mais significativo, nem de mais comovedor.

Tenho o coração enternecido e toda a minha existência me aparece neste instante como se a revivesse...

*

Devo fazer notar que esta derradeira conversa do stáriets com seus visitantes no dia de sua morte foi conservada em parte por escrito. Foi Alieksiéi Fiódorovitch Karamázov quem a redigiu de memória algum 30 São João, C. XII, vs. 24-25.

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tempo depois. É uma reprodução integral ou se valeu ele de trechos de outras conversas com seu mestre? Não saberia dizê-lo. Aliás, o discurso do stáriets neste manuscrito é por assim dizer interrompido, como se ele fizesse um relato de sua vida a seus amigos, ao passo que, certamente, segundo o que se contou depois, foi uma conversa geral, na qual os hóspedes tomaram parte, a ela misturando suas próprias recordações.

Assim, também, não podia esse relato ser ininterrupto, porque o stáriets sufocava-se por vezes, perdia a voz, estendia-se sobre seu leito para repousar, mantendo-se acordado e os visitantes ficando em seus lugares.

Por duas vezes o Padre Paísi leu o Evangelho no intervalo. Coisa curiosa, ninguém esperava que ele morresse naquela noite. Com efeito, depois de ter dormido profundamente durante o dia, tinha como que haurido de si mesmo uma força nova, que o sustentou por toda aquela longa conversa com seus amigos. Mas aquela animação incrível, devida à emoção, foi breve, porque ele se extinguiu bruscamente... Preferi, sem entrar nos detalhes, limitar-me à narrativa do stáriets de acordo com o manuscrito de Alieksiéi Fiódorovitch Karamázov. Será mais curto e menos fatigante. se bem que, repito-o, Aliócha tenha aproveitado muito de conversas anteriores.

II

BIOGRAFIA DO "STÁRIETS" ZÓSIMA, MORTO COM DEUS, REDIGIDA SEGUNDO SUAS PALAVRAS

POR ALIEKSIÉI FIÓDOROVITCH KARAMÁZOV

a) O jovem irmão do "stáriets" Zósima.

Meus caros padres, nasci numa província longínqua do norte, em V***, de um pai nobre, mas de condição modesta. Morreu quando tinha eu dois anos e não me lembro absolutamente dele. Deixou à minha mãe uma isbá e um capital suficiente para viver com os filhos ao abrigo da necessidade. Éramos dois: meu irmão mais velho, Márkel, e eu, Zinóvi.

Oito anos mais velho do que eu, era arrebatado, irascíveh porém bom, sem malícia e estranhamente taciturno, sobretudo em casa, com nossa mãe, 298

os criados e comigo. No ginásio, era um bom aluno, não se juntava com seus colegas nem brigava com eles, pelo menos minha mãe o contava. Seis meses antes de seu fim, quando já tinha dezessete anos, pôs-se a procurar um deportado, exilado de Moscou em nossa cidade, por causa de suas idéias liberais. Era um sábio e um filósofo conhecido na universidade.

Tomou amizade a Márkel, a quem recebia em sua casa. Durante todo o inverno o jovem passou noites inteiras em casa dele, até o momento em que o deportado foi chamado a Petersburgo para ocupar um lugar oficial, que solicitara, pois tinha protetores. Chega a Quaresma e Márkel nega-se a jejuar, in-vectiva, zomba: "São absurdos, Deus não existe", o que fazia estremecer nossa mãe, os criados e eu mesmo, porque embora só tivesse nove anos ficava cheio de terror ao ouvir tais palavras. Tínhamos quatro criados, todos servos, comprados de um proprietário conhecido nosso.

Lembro-me de que minha mãe vendeu por 60 rublos um dos quatro, a cozinheira Afímia, coxa e idosa, e contratou em seu lugar uma serva de condição livre. Na sexta semana da Quaresma, meu irmão sentiu-se subitamente pior; sempre doente, de constituição débil, predisposto à tuberculose, era de estatura média, magro e fraco, o rosto distinto.

Resfriou-se e em breve o doutor disse baixinho à minha mãe que era tísica e galopante e que ele não passaria da primavera. Nossa mãe pôs-se a chorar, a rogar a meu irmão, com precaução (a fim de não o espantar), que se confessasse e comungasse, porque estava ainda de pé então. A estas palavras, zangou-se, deblaterou contra a Igreja, mas pôs-se, no entanto, a refletir; adivinhou que estava perigosamente doente e que por esta razão sua mãe mandava-o comungar enquanto tinha ele força para isto. Aliás, sabia desde muito tempo que estava condenado; um ano antes, dissera-nos uma vez à mesa: "Não fui feito para viver neste mundo convosco, não durarei talvez um ano". Foi como uma predição. Três dias se passaram, começou a Semana Santa. Meu irmão foi à igreja desde a terça-feira. "Faço isto pela senhora, mamãe, para lhe ser agradável e tranqüilizá-la", disselhe. Nossa mãe chorou de alegria e de pesar: "Seu fim está então próximo, se se opera nele tal mudança". Mas dentro em pouco acalmou-se, de modo que se confessou e comungou em casa. O tempo tornara-se claro e sereno, o ar embalsamado; a Páscoa caía tarde naquele ano. Tossia ele a noite inteira, lembro-me, dormia mal, de manhã vestia-se, tentava sentar-se numa cadeira. Revejo-o sentado, doce e calmo, sorridente, doente, mas de rosto alegre e jovial. Mudara moralmente por completo. Era sur-299

preendente. A velha criada entrava em seu quarto. "Deixa-me acender a lâmpada diante da imagem, meu bem. " Outrora, opunha-se a isto, apagava mesmo a lâmpada. "Acende, minha amiga, era eu um monstro para proibir-te disso antes. O que fazes é uma prece, bem como a alegria que experimento por isto. Portanto, rezamos a um só Deus. " Estas palavras pareceram-nos estranhas, minha mãe foi chorar em seu quarto, voltando depois para junto dele a enxugar os olhos. "Não chores, querida mamãe", dizia ele, por vezes, "viverei ainda muito tempo, divertir-me-ei com a senhora, a vida é tão alegre, tão divertida!" "Ai, meu querido, onde está a alegria, quando tens febre a noite inteira e tosses como se teu peito fosse rebentar?" "Mamãe, não chores, a vida é um paraíso onde todos estamos, mas não queremos sabê-lo, senão amanhã a terra inteira tornar-se-ia um paraíso. " Suas palavras surpreendiam todo mundo pela sua estranheza e pela sua decisão, ficava-se comovido até as lágrimas.

Conhecidos vinham à nossa casa: "Caros amigos", dizia ele, "que fiz eu para merecer o vosso amor, por que me amais tal como sou? Outrora ignorava isto e não o apreciava". Aos criados que entravam, dizia a cada instante: "Meus queridos, por que me servis, serei eu digno de ser servido?

Se Deus me concedesse a graça de deixar-me vivo, eu mesmo vos serviria, porque todos devem servir uns aos outros". Nossa mãe, escutando-o, abanava a cabeça: "Meu querido, é a doença que te faz falar assim". "Mãe adorada, deve haver amos e servidores, mas quero servir os meus como eles me servem. Dir-te-ei ainda, mamãe, que cada um de nós é culpado diante de todos por tudo e eu mais do que os outros. " Nossa mãe nesse instante sorria através de suas lágrimas: "Como podes ser mais que todos culpado diante de todos? Há assassinos, bandidos, que pecados cometeste para te acusar mais que todos?" "Querida mãe, felicidade minha (tinha dessas frases caridosas, inesperadas), sabe que, na verdade, cada qual é culpado diante de todos por todos e por tudo. Não sei como te explicar isto, mas sinto que é assim e isto me atormenta. Como podíamos viver, irritar-nos, sem nada saber, então?" Cada dia despertava mais enternecido, mais jovial, fremente de amor. O Doutor Eisenschmidt, um velho alemão, visitava-o: "Como é, doutor, viverei ainda um dia?", brincava ele por vezes.

"Viverás mais que um dia, meses e anos!", replicava o doutor. "Que são meses e anos?!", exclamava ele. "Para contar os dias, basta um dia ao homem para conhecer toda a felicidade. Meus bem-amados, de que serve discutirmos, vangloriar-nos, guardar rancor uns contra os outros? Vamos 300

antes passear, recrear-nos no jardim, beijar-nos-emos, abençoaremos a vida. " "Seu filho não está destinado a viver", dizia o doutor à nossa mãe, quando esta o acompanhava até o patamar. "A doença o faz perder a razão. " Seu quarto dava para o jardim, sombreado por velhas árvores, os rebentos haviam brotado, os pássaros primaveris tinham chegado, cantavam sob as janelas, sentia ele prazer em olhá-los e eis que se pôs a pedir-lhes também perdão: "Pássaros do bom Deus, alegres pássaros, perdoai-me, porque pequei também contra vós. " Nenhum de nós pôde então compreendê-lo, e ele chorava de alegria: "Sim, a glória de Deus me cercava: os pássaros, as árvores, os prados, o céu: só eu vivia na vergonha, desonrando a criação, cuja beleza e cuja glória não notava". "Tu te responsabilizas por muitos pecados", chorava por vezes nossa mãe.

"Mamãe querida, é de alegria e não de pesar que choro. Tenho vontade de ser culpado diante deles, não posso explicar-te isto, porque não sei como amá-los. Se tenho pecado para com todos, todos me perdoarão, eis o paraíso. Não estou nele agora?" Disse ainda muitas coisas que esqueci.

Lembro-me de que um dia entrei sozinho em seu quarto, não havia ninguém a seu lado. Era à noitinha, o sol poente iluminava o quarto com seus raios oblíquos. Fez-me sinal para que me aproximasse, pôs as mãos sobre meus ombros, fitou-me com ternura durante um minuto, sem dizer uma palavra. "Pois é, vai brincar agora, vive por mim!" Saí e fui brincar.

Posteriormente, lembrei-me de muitas dessas palavras, chorando. Disse ainda muitas coisas espantosas, admiráveis, que não podíamos compreender então. Morreu três semanas após a Páscoa, em pleno conhecimento, e, se bem que não falasse mais, ficou o mesmo até o fim; a alegria brilhava em seus olhos, procurava-nos com o olhar, sorria para nós, chamava-nos. Mesmo na cidade falou-se muito de sua morte. Era eu bem jovem então, mas tudo isso deixou em meu espírito uma marca inapagável. Mais tarde, devia manifestar-se. Foi o que aconteceu.

b) A Sagrada Escritura na vida do "stáriets" Zósima.

Ficamos sós, minha mãe e eu. Boas amizades aconselharam-na em breve a que — uma vez que possuía meios — faria bem enviando-me a Petersburgo e que mantendo-me a seu lado entravaria talvez minha carreira. Aconselharam-na a pôr-me no Corpo de Cadetes, para entrar em seguida na Guarda Imperial. Minha mãe hesitou muito tempo em separar-301

se de seu derradeiro filho, mas decidiu-se no entanto, não sem muitas lágrimas, pensando em contribuir para minha felicidade. Conduziu-me a Petersburgo e colocou-me como lhe haviam dito. Jamais tornei a vê-la.

Morreu, com efeito, ao fim de três anos, passados na tristeza e na ansiedade por causa de nós dois. Só tenho preciosas recordações do lar paterno, porque são para o homem as mais preciosas de todas as recordações da primeira infância em casa de seus pais; é quase sempre assim, contanto que o amor e a concórdia reinem, ainda que pouco, na família. E pode-se conservar uma recordação comovida da pior família, se se tem uma alma capaz de emoção. Entre essas recordações um lugar pertence à História Sagrada, que me interessava muito, apesar de minha pouca idade. Tinha eu então um livro com magníficas gravuras, intitulado: Cento e Quatro Histórias Santas Tiradas do Antigo e do Novo Testamento, onde aprendi a ler. Conservo-o ainda agora como uma relíquia. Mas antes de saber ler, aos oito anos, experimentava certa impressão das coisas espirituais, lembro-me disso. Minha mãe levou-me à missa na segunda-feira da Semana Santa. Era um dia claro, torno a ver o incenso subindo lentamente para a abóbada; por uma janela estreita da cúpula, os raios do sol desciam até nós, as nuvens de incenso pareciam neles fundir-se. Olhei com enternecimento e pela primeira vez minha alma recebeu conscientemente a semente da palavra divina. Um adolescente avançou para o meio do templo com um grande livro, tão grande que me parecia que ele o carregava com dificuldade, depositou-o no atril, abriu-o, pôs-se a ler. Compreendi então que liam num templo consagrado a Deus. "Havia no país de Hus um homem justo e piedoso, que possuía grandes riquezas, não só em camelos, como em ovelhas e jumentas; seus filhos viviam em prazeres, eles os amava e rogava a Deus por eles, no receio de que, divertindo-se, pecassem. E eis que o diabo sobe até junto de Deus ao mesmo tempo que os filhos de Deus e diz ao Senhor que percorreu todo o país, abaixo e acima. 'Viste meu servo Jó?', pergunta-lhe Deus. E fez ao diabo o elogio de seu nobre servidor. O diabo sorriu àquelas palavras.

'Entrega-mo e verás que teu servidor murmurará contra ti e amaldiçoará teu nome. ' Então Deus entregou ao diabo o justo a quem estimava. O

diabo matou-lhe os filhos e os rebanhos, aniquilou suas riquezas com uma rapidez fulminante e Jó rasgou suas vestes, lançou-se de rosto ao chão, exclamou: 'Saí nu do ventre de minha mãe, voltarei nu à terra. Deus me havia tudo dado; Deus tudo me retomou. Que seu nome seja abençoado 302

agora e para sempre!'" Meus padres, desculpai minhas lágrimas, porque é toda a minha infância que surge diante de mim, parece-me que tenho oito anos e sinto-me como então admirado, perturbado, arrebatado. Os camelos falavam à minha imaginação e Satanás, que fala daquela maneira a Deus, e Deus que entrega seu servidor à ruína, e este que exclama: "Que teu nome seja abençoado, apesar de teu rigor!" Depois o canto suave e doce no templo. "Que minha prece seja ouvida", e de novo o incenso e a oração de joelhos! Desde então — e aconteceu ontem ainda — não posso ler aquela tão santa história sem derramar lágrimas. Que grandeza, que mistério inconcebível! Ouvi mais tarde palavras de zombadores e detratores, de blasfemadores, palavras soberbas. Como podia o Senhor entregar ao diabo para que com isso se divertisse um santo a quem ele estimava, arrebatar-lhe os filhos, cobri-lo de úlceras a ponto de limpar ele suas chagas purulentas com um caco de telha, e tudo isso para quê? Para se vangloriar diante de Satanás: "Eis o que pode suportar um santo por amor de mim!" Mas o que faz a grandeza do drama é o mistério, é que aqui a aparência terrestre e a verdade eterna se confrontaram. A verdade terrestre vê cumprir-se a verdade eterna. Aqui o Criador, aprovando sua obra como nos primeiros dias da criação, contempla Jó e se orgulha de novo de sua criatura. E Jó, louvando o senhor, serve não somente a ele, mas a toda a criação, de geração em geração, e aos séculos dos séculos, porque estava a isso predestinado. Senhor, que livro e que lições! Que força miraculosa dá ao homem a Escritura Sagrada! É como a representação do mundo, do homem e de seu caráter. Quantos mistérios resolvidos e revelados: Deus reexalta Jó, restitui-lhe sua riqueza, anos decorrem e tem ele outros filhos e os ama. "Como podia ele amar esses novos filhos, depois de ter perdido os primeiros? A recordação destes permite que ele seja perfeitamente feliz, como outrora, por mais queridos que sejam os novos?" Mas decerto; a dor antiga se transforma misteriosamente pouco a pouco numa doce alegria: à impetuosidade juvenil sucede a serenidade da velhice; abençôo cada dia o nascer do sol, meu coração canta-lhe um hino como outrora, mas prefiro seu poente de raios oblíquos, evocando doces e ternas recordações, queridas imagens de vida, longa vida abençoada, e, dominando tudo, a verdade divina que acalma, reconcilia, absolve! Eis-me ao termo de minha existência, eu o sei, e sinto todos os dias minha vida terrestre ligar-se já à vida eterna, desconhecida, mas bem próxima e cujo pressentimento faz vibrar minha alma 303

de entusiasmo, ilumina minha mente, enternece-me o coração... Amigos e mestres, tenho muitas vezes ouvido dizer, e agora mais que nunca dizem que os padres, sobretudo os do campo, queixam-se da insuficiência do que ganham e da sua mediocridade; afirmam mesmo — vi-o — que já não podem mais explicar a Escritura ao povo, em vista de seus fracos recursos, que se os luteranos chegarem e se puserem esses heréticos a desviar suas ovelhas, tanto pior, porque não ganham eles o bastante. Que Deus lhes assegure o pagamento tão precioso aos olhos deles (porque sua queixa é legítima), mas na verdade, se alguém é responsável por esse estado de coisas, nós mesmos o somos pela metade! Porque admitamos que o tempo falte, que o padre tenha razão, que seja ele sobrecarregado pelo trabalho e pelo seu ministério; encontrará ele sempre nem que seja uma hora por semana para se lembrar de Deus. Aliás, não está ele ocupado o ano inteiro.

Reúna em sua casa, uma vez por semana, à noite, as crianças, para começar. Seus pais saberão e virão em seguida. Inútil construir um local para isso; basta recebê-los na isbá; não temais que a sujem, é apenas por uma hora. Abre-se a Bíblia para fazer-se uma leitura, sem palavras sábias, sem soberba ou ostentação, mas com uma doce simplicidade, na alegria de ler para eles, de ser escutado e de ser por eles compreendido, detendo-se por vezes para explicar um termo ignorado pelas pessoas simples; não tenhais receio, eles vos compreenderão, um coração ortodoxo compreende tudo! Lede para eles a história de Abraão e de Sara, de Isaac e de Rebeca, como Jacó foi à casa de Labão e lutou em sonho com o Senhor, dizendo: "Este lugar é terrível", e impressionareis o espírito piedoso do povo simples. Contai-lhes, sobretudo às crianças, como o jovem José, futuro intérprete de sonhos e grande profeta, foi vendido por seus irmãos, que disseram a seu pai que seu filho tinha sido devorado por uma besta feroz, mostrando-lhe suas vestes ensangüentadas. Como, posteriormente, chegaram seus irmãos ao Egito à procura de trigo, e José, alto dignitário, que eles não reconheceram, perseguiu-os, acusou-os de roubo e reteve seu irmão Benjamim, se bem que os amasse. Porque se lembrava sempre de como seus irmãos o tinham vendido aos comerciantes, à beira de um poço, em alguma parte do deserto ardente, como chorava e como lhes suplicava, de mãos juntas, que não o vendessem como escravo em terra estrangeira: revendo-os após tantos anos, amou-os de novo ardentemente, mas fê-los sofrer e perseguiu-os, embora amando-os. Retira-se afinal, não podendo mais conter-se, lança-se sobre seu leito e desata a chorar; depois enxuga o 304

rosto e volta radiante para declarar-lhes: "Eu sou José, vosso irmão!" E a alegria do velho Jacó, ao saber que seu filho bem-amado estava vivo! Fez a viagem ao Egito, abandonou sua pátria, morreu em terra estrangeira, legando aos séculos dos séculos uma grande palavra, guardada misteriosamente durante toda a sua vida no seu coração tímido, o saber que de sua raça, da tribo de Judá, sairia a esperança do mundo, o Reconciliador e o Salvador! Padres e mestres, desculpai-me que eu, um menino, vos explique o que sabeis desde muito tempo e que poderíeis ensinar-me com bem mais arte. É o entusiasmo que me faz falar, perdoai minhas lágrimas, porque esse livro me é querido; e se o padre também chora, verá sua emoção partilhada pelos seus ouvintes. Basta uma minúscula semente: uma vez lançada na alma do povo. simples, não perecerá e ali ficará até o fim, entre as trevas e a infecção do pecado, como um ponto luminoso e uma recordação sublime. Nada de longos comentários, de homilias, ele compreenderá tudo simplesmente. Duvidais disso? Lede-lhe a história tocante da bela Ester e da orgulhosa Vasti, ou a maravilhosa narrativa de Jonas no ventre da baleia. Não esqueçais tampouco as parábolas do Senhor, sobretudo no Evangelho segundo São Lucas (como sempre o fiz), em seguida aos Atos dos Apóstolos, a conversão de Saulo (isto absolutamente!). Por fim, no Martirológio, bastaria a vida de Santo Aleixo, homem de Deus, e da mártir sublime entre todas, Maria, a Egipcíaca. Essas narrativas singelas comoverão o coração do povo e isto apenas uma hora por semana, malgrado vossos fracos recursos. O padre dar-se-á conta de que o nosso povo misericordioso, reconhecido, lhe retribuirá seus benefícios ao cêntuplo; lembrando-se do zelo de seu pastor e de suas palavras comovidas, ajudá-lo-á no seu campo, na casa, testemunhar-lhe-á mais respeito que antes e então seu estipêndio aumentará. É uma coisa tão simples que por vezes tememos mesmo falar dela, porque zombarão da gente e, no entanto, como é certa! Aquele que não crê em Deus não crê em seu povo. Quem creu no povo de Deus verá seu santuário, mesmo que nele não tivesse crido até então. Somente o povo e sua força espiritual futura converterão nossos ateus desprendidos da terra natal. E que é a palavra de Cristo sem o exemplo? Sem a palavra de Deus, o povo perecerá, porque sua alma está ávida dessa palavra e de toda idéia nobre. Na minha juventude, vai fazer em breve quarenta anos, percorríamos a Rússia, o Padre Anfim e eu, pedindo esmolas para nosso mosteiro; passamos uma vez a noite com 305

pescadores, à margem dum grande rio navegável; um jovem camponês de belo rosto, parecendo ter uns dezoito anos, veio sentar-se perto de nós; apressava-se em chegar no dia seguinte ao seu posto para sirgar uma barca mercante. Seu olhar era doce e límpido. Fazia uma noite clara, calma e quente, uma noite de julho; uma bruma subia do rio e nos refrescava; de tempos em tempos um peixe emergia, os pássaros haviam-se calado, tudo respirava paz, oração. Éramos os únicos que não dormiam, aquele jovem e eu. Falamos da beleza do mundo e de seu mistério. Cada erva, cada escaravelho, uma formiga, uma abelha dourada, todos conheciam seu caminho duma maneira admirável, por instinto, atestam o mistério divino, cumprem-no eles próprios continuamente. Vi que o coração daquele moço se aquecia. Confiou-me que amava a floresta e os pássaros que a habitam; era passarinheiro, compreendia-lhes os cantos, sabia atrair todos eles.

"Para mim, não existe nada de melhor que a vida na floresta", dizia ele,

"embora tudo esteja bem. " "É verdade", respondi-lhe, "tudo é bom e magnífico, porque tudo é verdade. Olha o cavalo, nobre animal, familiar ao homem, ou o boi, que o nutre e trabalha para ele, curvado, pensativo; considera a fisionomia deles: que mansidão, que apego a seu dono, que muitas vezes lhes bate sem piedade, que mansidão, que confiança, que beleza! Chega a comover saber que nele não há pecado, porque tudo é perfeito, inocente, exceto o homem, e o Cristo está em primeiro lugar com os animais. " "Será possível", perguntou o adolescente, "que o Cristo esteja também com eles?" "Como poderia ser de outro modo", repliquei-lhe,

"pois que o Verbo é destinado a todos? Todas as criaturas, cada folha, aspiram ao Verbo, cantam a glória de Deus, gemem inconscientemente o Cristo. É este o mistério de sua existência sem pecado. Lá, na floresta, vaga um urso temível, ameaçador e feroz, sem que nisso haja culpa sua. " E

contei-lhe como um grande santo que fazia penitência na floresta, onde tinha sua cela, recebeu um dia a visita de um urso. Apiedou-se do animal, abordou-o sem temor, deu-lhe um pedaço de pão. "Vai", disse-lhe, "que o Cristo esteja contigo!" E a fera retirou-se documente, sem lhe fazer mal. O

rapaz ficou comovido ao saber que o eremita ficara indene e que o Cristo também estava com o urso. "Que bom! Como todas as obras de Deus são boas e maravilhosas!" E mergulhou num doce devaneio. Vi que ele havia compreendido. Adormeceu a meu lado, com um sono leve, inocente. Que o Senhor abençoe a juventude! Rezei por ele antes de adormecer. Senhor, envia a paz e a luz aos teus!

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c) Recordações da mocidade do "stáriets" Zósima ainda no mundo.

O duelo.

Passei quase oito anos em Petersburgo, no Corpo dos Cadetes. Essa educação nova sufocou muitas das impressões de minha infância, mas sem fazer que as esquecesse. Em troca, adquiri uma porção de hábitos e até mesmo de opiniões novas que fizeram de mim um indivíduo quase selvagem, cruel e tolo. Adquiri um verniz de polidez e prática do mundo ao mesmo tempo que do francês, mas todos considerávamos os soldados que nos serviam no Corpo como verdadeiros brutos. Eu talvez mais do que os outros, porque de todos os meus camaradas era o mais impressionável. Tornados oficiais, estávamos prontos a derramar nosso sangue para vingar a honra de nosso regimento; quanto à verdadeira honra, nenhum de nós tinha dela noção, e, se a tivesse aprendido, teria sido o primeiro a rir dela. A embriaguez, a devassidão, a impudência nos tornavam quase altivos. Não direi que fôssemos pervertidos; todos aqueles rapazes tinham boa natureza, mas portavam-se mal, eu sobretudo.

Estava de posse de meu capital, de modo que vivia à minha fantasia, com todo o ardor da juventude, sem peias; navegava com todas as velas desdobradas. Mas eis uma coisa que causava admiração: lia por vezes, e até mesmo com grande prazer; não abri quase nunca a Bíblia naquela época, porém ela não me largava; andava por toda parte comigo, conservava esse livro, sem dar-me conta disso, "cada dia e cada hora, cada mês e cada ano". Depois de quatro anos de serviço, encontrei-me por fim na cidade de K***, onde nosso regimento tinha guarnição. A sociedade ali era variada, divertida, acolhedora e rica; fui bem recebido em toda parte, sendo como era alegre de natureza; além do mais, passava por ter fortuna, o que não prejudica nunca na sociedade mundana. Sobreveio uma circunstância que foi o ponto de partida de tudo o mais. Liguei-me a uma moça encantadora, inteligente e distinta, de caráter nobre, de família respeitável. Seus pais, ricos e influentes, faziam-me boa acolhida. Pareceu-me que aquela moça tinha inclinação por mim; meu coração inflamou-se com essa idéia. Compreendi mais tarde que, provavelmente, não a amava com tanta paixão, mas que a elevação de seu caráter inspirava-me respeito, o que era inevitável. No entanto, o egoísmo impediu-me então de pedir-lhe a mão; parecia-me demasiado duro renunciar às seduções da devassidão, à minha independência de celibatário jovem e rico. Fiz, no 307

entanto, alusões, mas adiei para mais tarde qualquer passo decisivo. Fui então enviado em comando de serviço para outro distrito; de volta, após dois meses de ausência, soube que a moça se casara com um rico proprietário dos arredores, mais velho do que eu, porém jovem ainda, com relações na melhor sociedade, coisa de que eu não gozava, homem bastante amável e instruído, quando não era eu nada disso absolutamente.

Esse desenlace inesperado consternou-me a ponto de perturbar-me o espírito, tanto mais que, como o soube então, aquele jovem proprietário era noivo dela desde muito tempo. Havia-o encontrado muitas vezes em casa dela, sem nada notar, cego que estava pela minha fatuidade. Era isso sobretudo que me vexava: como quase toda gente estava ao corrente, ao passo que eu de nada sabia? E experimentei de súbito um ressentimento intolerável. Rubro de cólera, lembrei-me de quantas vezes lhe havia quase declarado meu amor, e como não me havia ela nem detido nem prevenido, concluí daí que havia zombado de mim. Mais tarde, evidentemente, dei-me conta de meu erro; lembro-me de que ela punha fim, gracejando, a tais conversas e falava de outra coisa, mas, no momento, estava incapaz de raciocinar e ardia por vingar-me. Lembro-me com surpresa de que minha animosidade e minha cólera causavam repugnância a mim mesmo, porque, com meu caráter leviano, era incapaz de permanecer muito tempo zangado com alguém; de modo que me excitava artificialmente até a extravagância. Esperei a ocasião e, numa reunião mundana bastante numerosa, consegui ofender meu "rival", por um motivo totalmente estranho, zombando de sua opinião a propósito de um acontecimento então importante — estava-se em 1826 — e escarnecendo dele com espírito, pelo que disseram. Em seguida, provoquei uma explicação de sua parte e mostrei-me tão grosseiro nessa ocasião que ele aceitou a luva, malgrado a enorme diferença que nos separava, porque era eu mais jovem que ele, insignificante e de posição inferior. Mais tarde, soube de fonte certa que aceitara ele minha provocação também por ciúme de mim; já antes se mostrara um pouco ciumento de mim em relação à sua mulher, então sua noiva; disse a si mesmo que se ela soubesse agora que eu o insultara, sem que ele me houvesse provocado em duelo, desprezá-lo-ia involuntariamente e seu amor ficaria abalado. Encontrei logo como testemunha um camarada, tenente de nosso regimento. Se bem que os duelos fossem então rigorosamente reprimidos, eram moda entre os militares, de tal modo se desenvolvem e enraízam preconceitos absurdos.

308

Junho chegava ao fim; nosso encontro estava marcado para o dia seguinte de manhã, às 7 horas, fora da cidade, e eis que me aconteceu algo de verdadeiramente fatal. À noite, voltando para casa de muito mau humor, zangara-me com meu ordenança, Afanássi, e havia-lhe batido violentamente no rosto, a ponto de ensangüentá-lo. Estava desde pouco tempo a meu serviço e eu já lhe havia batido, mas jamais com tal selvagería. Acreditá-lo-íeis, meus queridos, quarenta anos se passaram desde então e lembro-me daquela cena com vergonha e dor. Deitei-me e quando despertei, ao fim de três horas, era já dia. Levantei-me, não tendo mais vontade de dormir, fui à janela, que dava para um jardim; o sol se levantara, fazia um tempo magnífico, os pássaros gorjeavam. "Que será isto?", pensei. "Experimento uma espécie de sentimento de infâmia e de baixeza. Não será pelo fato de que vou derramar sangue? Não", pensei,

"não é isto. Ou porque tenho medo da morte, medo de ser morto? Não, absolutamente, longe disso... " E adivinhei, de repente, que eram os golpes dados em Afanássi na noite anterior. Revi a cena, como se ela se repetisse: ele, de pé diante de mim, que lhe bato no rosto a toda força, suas mãos na costura das calças, a cabeça ereta, os olhos escancarados, estremecendo a cada pancada, não ousando mesmo levantar os braços para se resguardar, e ali estava um homem reduzido àquele estado, batido por outro homem!

Que crime! Foi como uma agulha que me traspassou a alma. Estava como que fora de mim, e o sol brilhava, as folhas agradavam à vista, os pássaros louvavam a Deus. Cobri o rosto com as mãos, estendi-me no leito e desatei a chorar. Lembrei-me então de meu irmão Márkel e de suas derradeiras palavras aos criados; "Meus bem-amados, por que me servis? Por que me amais, serei digno de ser servido?" "Sim, serei digno?", perguntei a mim mesmo, de repente. Com efeito, a que título merecia eu ser servido por outro homem, feito como eu à imagem de Deus? Esta questão atravessou-me assim o espírito pela primeira vez. "Mãe querida, na verdade, cada qual é culpado diante de todos e por todos, somente os homens ignoram isso; se o soubessem, seria logo o paraíso!" "Senhor, seria isto verdade", pensei, chorando, "sou talvez o mais culpado de todos e o pior que existe?" E de súbito o que eu ia fazer apareceu-me em plena luz, em todo o seu horror: ia matar um homem de bem, nobre, inteligente, sem nenhuma ofensa de sua parte, e tornar assim sua mulher para sempre infeliz, torturá-la, fazê-la morrer. Estava deitado de bruços, com a face contra o travesseiro, tendo perdido a noção do tempo. De repente, entrou meu 309

camarada, o tenente, que vinha procurar-me com pistolas: "Eis o que está bem", disse ele, "já te levantaste, está na hora, vamos". Minhas idéias desconcertaram-se, perdi a cabeça; contudo, saímos para subir ao carro.

"Espera-me", disse-lhe, "volto imediatamente, esqueci meu porta-moedas.

" Voltei correndo para casa e fui ao quartinho de Afanássi. "Afanássi, ontem bati-te duas vezes no rosto, perdoa-me!" Ele estremeceu como se tivesse medo; vi que não era bastante e prosternei-me a seus pés, pedindo-lhe perdão. Ficou estupidificado. "Vossa nobreza, bárin, como... mereço eu?... " Pôs-se a chorar como eu havia pouco, com o rosto oculto nas mãos, e voltou-se para a janela, abalado pelos soluços; corri a juntar-me a meu camarada e partimos: "Viste o vencedor", gritei-lhe, "ei-lo diante de ti!"

Estava repleto de alegria, rindo todo o tempo, tagarelava sem cessar, a respeito de não sei mais o quê. O tenente olhava-me: "Pois bem, camarada, és um bravo; vejo que sustentarás a honra do uniforme". Chegamos ao terreno, onde éramos esperados. Colocaram-nos a doze passos um do outro, meu adversário devia atirar em primeiro lugar; mantinha-me diante dele, alegremente, sem pestanejar, examinando-o com afeto. Ele atirou, fui somente arranhado na face e na orelha. "Louvado seja Deus!", digo. "O senhor não matou um homem!" Quanto a mim, dei meia volta e atirei minha arma para o ar, na direção da floresta: "Eis teu lugar!", exclamei. Depois, encarando meu adversário: "Senhor, perdoe a um estúpido rapaz tê-lo ofendido e obrigado a atirar contra ele. O senhor vale dez vezes mais do que eu, é superior a mim. Transmita minhas palavras à pessoa a quem o senhor respeita mais no mundo". Apenas acabara de falar, todos três exclamaram: "Permita", disse meu adversário, encolerizado, "se o senhor não queria bater-se, por que nos incomodou?" "Ainda ontem era eu estúpido. Hoje, tornei-me mais avisado", respondi-lhe, alegremente.

"Acredito-o a respeito de ontem, mas quanto a hoje é difícil dar-lhe razão.

" "Bravo!", disse eu, batendo palmas. "Estou de acordo com o senhor a respeito, mereci-o!" "Senhor, quer ou não quer atirar?"

"Não atirarei, atire mais uma vez, se quiser, mas faria melhor abstendo-se. " As testemunhas gritam, sobretudo a minha: "Pode-se desonrar o regimento pedindo perdão no terreno; se o tivesse pelo menos sabido!" Declarei então a todos, num tom sério: "Senhores, é tão espantoso assim em nossa época encontrar um homem que se arrepende de sua tolice e que reconhece publicamente suas faltas?"

"Sim, mas não no terreno", replica minha testemunha. "Eis o que é espantoso: devia eu ter pedido desculpas desde 310

nossa chegada aqui, antes que o cavalheiro atirasse, e não induzi-lo em pecado mortal; mas nossos usos são tão absurdos que era quase impossível ter agido assim, porque minhas palavras não têm valor, a seus olhos, senão pronunciadas depois de ter sido alvo de seu tiro a doze passos; antes, ter-me-ia ele tomado por um covarde, indigno de ser escutado. Senhores", exclamei, com todo o coração, "olhai as obras de Deus: o céu está claro, o ar puro, a erva tenra, os pássaros cantam, a natureza é magnífica e inocente; somente nós, ímpios e estúpidos, não compreendemos que a vida é um paraíso, porque basta que queiramos compreender isso para vê-la aparecer em toda a sua beleza e então nos abraçaríamos, chorando... " Quis continuar, mas não pude, faltou-me a respiração, senti uma felicidade tal que depois jamais experimentei. "Eis sábias e piedosas palavras", disse meu adversário. "Em todo o caso, o senhor é original. " "O senhor ri", disse-lhe eu, sorrindo, "porém mais tarde me louvará. " "Agora também estou pronto a louvá-lo, estendo-lhe a mão, porque o senhor me parece verdadeiramente sincero. " "Não, agora não, mais tarde, quando eu me tiver tornado melhor e merecido seu respeito, o senhor ma estenderá, fará bem então. " Voltamos para casa; minha testemunha resmungava todo o tempo e eu o beijava. Meus camaradas, postos ao corrente, reuniram-se naquele mesmo dia para julgar-me. "Ele desonrou o uniforme, deve pedir baixa. " Encontrei defensores: "No entanto, recebeu ele um tiro". "Sim, mas teve medo dos outros e pediu perdão no terreno. "

"Se tivesse tido medo", replicavam meus defensores, "teria primeiro atirado antes de pedir perdão, ao passo que lançou a pistola ainda carregada na floresta; não, passou-se algo de diferente, de original. " Eu escutava, divertindo-me em observá-los: "Caros amigos e camaradas, não se atormentem por causa de minha baixa. Já está dada. Enviei o perdido esta manhã e, assim que ela for aceita, entrarei para um mosteiro. Eis por que peço baixa". A estas palavras, todos explodiram em risadas: "Deverias ter começado por advertir-nos. Agora, tudo se explica, não se pode julgar um monge". Não paravam de rir, mas sem zombar, com uma doce alegria. Todos gostavam de mim, até mesmo meus mais fogosos acusadores. Em seguida, durante o último mês, até que fosse eu reformado, era como se me carregassem em triunfo: "Ah! o monge!", diziam. Cada qual tinha por mim uma palavra gentil, puseram-se a dissuadir-me, a lamentar-me mesmo: "Que vais fazer?" "Não, é um bravo, recebeu um tiro e podia ele próprio atirar, mas tivera um sonho na 311 véspera que o impelia a fazer-se monge, eis a razão. " Foi quase a mesma coisa na sociedade local. Até então, não atraía eu a atenção; recebiam-me cordialmente, e nada mais; agora, cada qual disputava conhecer-me e convidar-me para sua casa: riam de mim, ao mesmo tempo que me estimavam. Se bem que se falasse abertamente de nosso duelo, o caso não teve conseqüências, porque meu adversário era parente próximo de nosso general e, como não houvera efusão de sangue e eu pedira baixa, a coisa virou brincadeira. Pus-me então a falar bem alto e sem temor, malgrado as zombadas, porque não eram elas propriamente malévolas. Essas conversas realizavam-se sobretudo à noite, em companhia de senhoras; as mulheres gostavam ainda mais de escutar-me e obrigavam os homens a fazer o mesmo. "Como pode dar-se que seja eu culpada por todos?", e cada qual ria-me na cara. "Vejamos, posso ser culpada por você, por exemplo?" "Donde o saberia", respondia-lhes eu, "quando o mundo inteiro está desde muito tempo engajado numa outra via, quando tomamos a mentira pela verdade e exigimos de outrem a mesma mentira? Uma vez, em minha vida, resolvi agir sinceramente e todos vós acreditastes que eu estava louco. Embora, gostando de mim, ríeis de mim. " "Como não gostar de alguém como o senhor?", disse-me a dona da casa, rindo bem alto.

Havia muita gente em casa dela. De repente, vejo levantar-se a jovem que fôra a causa de meu duelo e a quem quisera fazer minha noiva pouco tempo antes; não havia notado sua chegada. Dirigiu-se para mim e estendeu-me a mão: "Permita-me", disse, "que lhe declare que, longe de rir do senhor, agradeço-lhe com emoção e respeito-o pela sua maneira de agir". Seu marido aproximou-se, tornei-me o centro da reunião, quase me beijavam. Sentia-me contente assim; minha atenção foi atraída por um senhor de certa idade, que me tinha igualmente abordado; até então conhecia-o somente de nome, sem ter jamais trocado uma palavra com ele.

d) O misterioso visitante.

Era um funcionário que ocupava desde muito tempo um lugar de destaque em nossa cidade. Homem respeitado por todos, rico, reputado pela sua beneficência, doara importante soma ao hospício e ao orfanato e praticara muito bem em segredo, sem o revelar, o que só se veio a saber após sua morte. De cerca de cinqüenta anos, tinha o ar quase severo, falava pouco; estava casado havia dez anos com uma mulher ainda jovem, 312

de quem tinha três filhos em tenra idade. No dia seguinte à noite, estava eu em casa, quando a porta se abriu e entrou aquele senhor.

É preciso notar que não morava eu mais na mesma casa; assim que dei baixa, instalara-me em casa de uma senhora idosa, viúva dum funcionário, cuja criada me servia, porque no dia mesmo do meu duelo mandara embora Afanassi para sua companhia militar, corando ao olhá-lo de frente depois do que se passara, de tal modo um leigo não preparado é inclinado a ter vergonha da ação mais justa.

— Há vários dias que o escuto com grande curiosidade — disse-me o visitante, ao entrar. — Desejei por fim conhecê-lo para me entreter com o senhor ainda mais pormenorizadamente. Poderia o senhor prestar-me esse grande serviço?

— De muito boa vontade, e olharei isso com uma honra muito particular — respondi-lhe. Estava quase amedrontado, de tal maneira me impressionara ele desde a primeira vez. Porque, muito embora me escutassem com curiosidade, ninguém me havia ainda abordado com ar tão sério e severo. Além do mais, viera procurar-me em minha casa.

Sentou-se.

— Noto no senhor — prosseguiu ele — uma grande força de caráter, porque não temeu servir a verdade num caso em que arriscava, pela sua franqueza, atrair para si o desprezo geral.

— Os seus elogios talvez sejam bastante exagerados — disse-lhe eu.

— Absolutamente. Esteja certo de que tal ato é bem mais difícil de praticar do que o senhor pensa. Eis somente o que me impressionou e por isso vim vê-lo. Se minha curiosidade talvez indiscreta não o chocar, descreva-me suas sensações no momento em que se decidiu a pedir perdão, por ocasião do duelo, admitindo-se que o senhor se lembre delas.

Não atribua à frivolidade a minha pergunta; pelo contrário, ao fazer-lha, tenho um fim secreto que lhe explicarei provavelmente mais tarde, se aprouver a Deus que ainda nos encontremos.

Enquanto ele falava, eu o fitava e experimentei de repente por ele uma confiança completa, ao mesmo tempo que viva curiosidade, porque sentia que sua alma guardava um segredo.

— Deseja conhecer minhas sensações no momento em que pedia 313

perdão a meu adversário? — respondi-lhe. — Mas vale mais a pena contar-lhe em primeiro lugar os fatos ainda ignorados dos outros. — E

narrei-lhe toda a cena com Afanassi e como me havia prosternado diante dele. — O senhor mesmo pode ver depois disso — concluí eu — que durante o duelo já me sentia mais à vontade, porque tinha começado ainda em casa e, uma vez entrado nessa via, continuei não somente sem esforço, mas com alegria.

Continuar: parte 2 de 3