Os Irmãos Karamázov

Fiódor Dostoiévski · Capítulo 34 de 50

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Os Irmãos Karamázov

Capítulo 34

divã, o jovem e belo Kolgánov; segurava a mão dele e ria, enquanto, sem olhá-la, falava ele com ar zangado a Maksímov, sentado em frente da jovem mulher. No divã, ele; numa cadeira, ao lado, outro desconhecido. O

que se refestelava no divã fumava cachimbo; era um homem corpulento, de rosto largo, de baixa estatura, ar carrancudo. Seu companheiro pareceu a Mítia de estatura bastante elevada; mas não pôde ver mais, faltava-lhe o fôlego. Não ficou nem um minuto, depositou o estôjo sobre a cômoda e, com o coração desfalecente, entrou no quarto azul.

— Ai! — gemeu com terror Grúchenhka, que foi a primeira a avistá-lo.

VII

PRIMEIRO E INDISCUTÍVEL

Mítia aproximou-se a grandes passos da mesa.

— Senhores — começou ele em voz alta, mas gaguejando a cada palavra —, eu... não é nada, não tenham medo! Não é nada — disse ele, voltando-se para Grúchenhka, que, inclinada para o lado de Kolgánov, se agarrava a seu braço —, eu... também viajo. Ir-me-ei de manhã. Senhores, será permitido a um viajante... ficar convosco neste quarto, até de manhã somente?

Estas últimas palavras dirigiam-se à personagem obesa sentada no divã. Este retirou gravemente seu cachimbo dos lábios e disse num tom severo:

— Pánie, 34 estamos aqui na intimidade. Há outros quartos. — É o senhor, Dimítri Fiódorovitch? Que faz por aqui? — exclamou Kolgánov. — Tome lugar, seja bem-vindo!

— Boa noite, caro amigo... e incomparável! Sempre o estimei... —

replicou Mítia com alegre solicitude, estendendo-lhe a mão por cima da mesa.

— Ai! como o senhor aperta! Partiu-me os dedos — disse Kolgánov, 34 Vocativo de pan, senhor, em polonês.

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rindo.

— Ele aperta sempre assim, é sua maneira — observou alegremente Grúchenhka, com um sorriso tímido. Compreendera pelo ar de Mítia que ele não faria barulho e observava-o com uma curiosidade misturada de inquietude. Alguma coisa nele feria-lhe a atenção; aliás, ela não esperava tal atitude da parte dele.

— Boa noite — disse num tom melífluo o proprietário rural Maksímov.

Mítia voltou-se para ele.

— Boa noite, ei-lo também aqui, isto me causa prazer. Senhores, senhores, eu... (Dirigiu-se de novo ao pan do cachimbo, tomando-o como a principal personagem. ) Quis passar minhas derradeiras horas neste quarto... onde adorei minha rainha!... Perdoe-me, pánie! Acorri e prestei juramento... Oh! não tenhais medo, é minha derradeira noite! Bebamos amigavelmente, pánie! Vão servir-nos vinho... Trouxe isto. (Tirou do bolso seu maço de cédulas. ) Quero música, barulho, como da outra vez... Mas o verme inútil que se arrasta pelo chão vai desaparecer! Relembrar-me-ei de um dia de alegria em minha derradeira noite.

Sufocava; teria querido dizer muitas coisas, mas não proferia senão estranhas exclamações. O pan impassível olhava vez a vez Mítia, seu maço de notas e Grúchenhka; parecia perplexo.

— Se minha rainha consentir... — começou ele.

— Senta-te, Mítia — interrompeu Grúchenhka. — Que é que contas?

Não me faças medo, rogo-te. Tu o prometes? Então tua presença me causa prazer...

— Eu, fazer medo? — exclamou Mítia, levantando os braços. —

Oh — passai, passai! Não sou nenhum obstáculo!... — De súbito, sem que ninguém o esperasse, deixou-se cair sobre uma cadeira e desfez-se em lágrimas, com a cabeça voltada para a parede e agarrando-se ao espaldar.

— Ora essa, mas que tens? — disse Grúchenhka, num tom de censura. — Ia visitar-me dessa forma, não compreendia eu nenhuma de suas palavras. Uma vez, pôs-se a chorar, agora isso recomeça. Que vergonha! Por que choras? Se houvesse pelo menos motivo para isso!

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— acrescentou ela, com ar enigmático, apoiando as derradeiras palavras.

— Eu... eu não choro... Vamos, boa noite! — Voltou-se e pôs-se a rir, mas não como de costume, e sim com um riso nervoso que o abalava.

— A coisa continua... Fica, pois, mais alegre! Estou muito contente por teres vindo, Mítia, estás ouvindo? Muito contente. Quero que ele fique conosco — disse ela, imperiosamente, dirigindo-se ao que se encontrava no divã. — Quero-o, e se ele se retirar também ir-me-ei embora! —

acrescentou, com os olhos cintilantes.

— Os desejos de minha rainha são ordens! — declarou o pan, beijando a mão de Grúchenhka. — Rogo ao pan que se junto a nós! — disse ele, gentilmente, a Mítia. Este levantou-se na intenção de proferir nova tirada, mas faltou-lhe a palavra e disse somente:

— Bebamos, pánie! Todos puseram-se a rir.

— Meu Deus, pensava que ele ia fazer novo discurso — disse Grúchenhka. — Estás ouvindo, Mítia? Fica tranqüilo. Fizeste bem em trazer champanha, bebê-lo-ei, não posso suportar licores. Mas foi ainda melhor teres vindo tu mesmo; o aborrecimento aqui é enorme... Vieste farrear? Esconde teu dinheiro no bolso! Onde encontraste tudo isso?

As cédulas que Mítia mantinha amarfanhadas na mão atraíam a atenção, sobretudo a do polonês. Mítia meteu-as rapidamente em seu bolso e corou. Nesse momento, trouxe o hospedeiro numa bandeja uma garrafa desarrolhada e copos. Mítia agarrou a garrafa, mas estava tão confuso que não soube o que fazer. Foi Kolgánov quem encheu os copos em lugar dele.

— Outra garrafa! — gritou Mítia para o hospedeiro e, esquecendo-se de bater os copos com o pan que havia tão solenemente convidado a beber, esvaziou seu copo sem esperar. Sua fisionomia mudou logo. Em lugar da expressão solene e trágica que tinha ao entrar, tornou-se ela infantil.

Pareceu humilhar-se e rebaixar-se. Olhava todo mundo com uma alegria tímida, com pequenos risos nervosos e o ar reconhecido dum cãozinho em falta, mas que reentra em graça. Parecia ter esquecido tudo e ria todo o tempo, olhando Grúchenhka, de quem se aproximara. Depois examinou também os dois poloneses. O do divã surpreendeu-o pelo seu ar digno, 428 seu tom e sobretudo seu cachimbo. "Pois bem, então? Fuma cachimbo, perfeitamente!", pensou Mítia. O rosto um tanto enrugado do pan quase quadragenário, seu nariz minúsculo enquadrado por bigodes encerados que lhe davam um ar impertinente, pareceram perfeitamente naturais a Mítia. Até mesmo sua malfeita peruca, confeccionada na Sibéria e que lhe cobria estupídamente as têmporas, não lhe causou espanto: "Deve convir-lhe", disse a si mesmo. O outro pan, mais jovem, sentado perto da parede, olhava os presentes com ar provocante, escutava a conversa num silêncio desdenhoso; só surpreendeu Mítia pela sua estatura bastante elevada, contrastando com a do pan sentado no divã. Pensou também que aquele gigante deveria ser o amigo e o acólito do pan do cachimbo, como que seu guarda-costas, e que o pequeno comandava sem dúvida o grande. Mas tudo isso parecia natural e indiscutível a Mítia. O cãozinho não tinha mais nem sombra de ciúme. Não havia ainda nada compreendido do tom enigmático de Grúchenhka, compreendia somente que ela se mostrava graciosa para com ele e lhe havia "perdoado". Via-a beber, pasmando-se de prazer. Contudo, o silêncio geral chamou-lhe a atenção e se pôs a examinar todos os presentes com ar interrogador: "Que fazemos? Por que não começais nada, senhores?", parecia dizer seu olhar.

— Eis um que sabe dizer piadas, todos nós rimos — disse Kolgánov apontando para Maksímov, como se tivesse adivinhado o pensamento de Mítia.

Mítia observou-os uns após outros.

— Piadas? — e rebentou em seu riso breve e seco. — Ah! ah! ah!

— Sim. Imagine que acha ele que todos os nossos cavaleiros se casaram, em 1820, com polonesas; é absurdo, não é?

— Polonesas? — replicou Mítia, encantado.

Kolgánov compreendia bastante bem as relações de Mítia com Grúchenhka, adivinhava as do pan, mas isto não lhe interessava, somente Maksímov o preocupava. Foi por acaso que viera com ele parar naquela hospedaria onde travara conhecimento com os poloneses. Fora Uma vez à casa de Grúchenhka, a quem não agradara. Agora, mostrara-se ela acariciadora para com ele, antes da chegada de Mítia, mas permanecia ele insensível. Com vinte anos, elegantemente trajado, tinha Kolgánov um rosto gentil, com belos cabelos louros, encantadores olhos azuis de 429

expressão pensativa e por vezes superior à sua idade, se bem que tivesse por momentos modos infantis, o que de modo algum o constrangia. Em geral, era bastante original e até mesmo caprichoso, mas sempre meigo.

Por vezes, tomava seu rosto uma expressão concentrada; olhava para a gente e nos escutava, parecendo ao mesmo tempo absorvido num sonho interior. Ora mostrava-se mole e indolente, ora agitava-se pela causa mais fútil.

— Imagine que há quatro dias que o arrasto atrás de mim —

prosseguiu Kolgánov, pesando um pouco as palavras, mas sem nenhuma fatuidade. — Foi depois que seu irmão Ivã o repeliu do carro, o senhor deve lembrar-se. Interessei-me então por ele e levei-o ao campo, mas ele vive a dizer piadas, tanto que faz até vergonha. Levo-o de volta...

— O cavalheiro não viu as senhoras polonesas e diz coisas que não aconteceram — observou o pan do cachimbo.

— Mas fui casado com uma polonesa — replicou Maksímov, rindo.

— Sim, mas serviu na cavalaria? Era dela que o senhor falava. É

cavalariano? — interveio Kolgánov.

— Ah! sim, é ele cavalariano? Ah! ah! — gritou Mítia, que era todos ouvidos e fixava cada interlocutor como se esperasse Deus sabe o quê.

— Não, vê o senhor? — Maksímov voltou-se para ele. — Quero falar daquelas pánienki.. . assim que uma delas dança uma mazurca com um ulano nosso, salta-lhe sobre os joelhos como uma gata branca... sob os olhos e com o consentimento do papai e da mamãe... No dia seguinte o ulano vai pedi-la em casamento... e pronto... ih! ih! ih!

— O pan é um canalha — resmungou o pan de elevada estatura, cruzando as pernas. Mítia não notou senão sua enorme bota engraxada, de sola espessa e suja. Aliás, os dois poloneses estavam bastante mal trajados.

— Ora, já vem o nome de canalha! Por que injuriar? — disse Grúchenhka, irritada.

— Páni Agripina, o pan conheceu na Polônia moças de classe baixa e não moças nobres.

— Podes afirmá-lo! — disse desdenhosamente o pan de pernas 430

compridas.

— Não faltava mais que isso! Deixem-no falar! Por que impedir que as pessoas falem? É divertido — replicou Grúchenhka.

— Não impeço ninguém, páni — observou o pan de peruca com um olhar expressivo; depois disso pôs-se de novo a fumar.

— Não, não, o pan disse a verdade. — Kolgánov esquentou-se de novo, como se se tratasse dum negócio importante. — Maksímov não foi à Polônia. Como pode, pois, falar dela? Casou-se o senhor na Polônia?

— Não, foi na província de Smolensk. Minha futura fora a princípio levada lá por um ulano, escoltada por sua mãe, por uma tia e por uma parenta com um filho grande, poloneses puro-sangue... e ele cedeu-ma.

Era um tenente, um rapaz bastante gentil. Queria a princípio casar com ela, mas desistiu, porque ela era coxa...

— Então o senhor casou-se com uma coxa? — exclamou Kolgánov.

— Sim. Ambos me dissimularam a coisa. Eu acreditava que ela saltitava.... mas que era de alegria...

— Á alegria de 'casar com o senhor? — gritou Kolgánov, com voz sonora.

— Perfeitamente. Mas era por um motivo completamente diferente.

Uma vez casados, na mesma noite do casamento, ela me confessou tudo e pediu perdão. Saltando um charco, quando menina, quebrou uma perna, ih! ih! ih!

Kolgánov soltou uma risada infantil e deixou-se cair sobre o divã.

Grúchenhka também ria. Mítia achava-se no cúmulo da felicidade.

— Sabe de uma coisa? Ele está dizendo a verdade agora, não mente mais — disse Kolgánov a Mítia. — Foi casado duas vezes, é de sua primeira mulher que fala; a segunda fugiu de casa e vive ainda, sabia-o?

— Deveras? — disse Mítia, voltando-se para Maksímov com um ar muito espantado.

— Sim, tive essa contrariedade, ela fugiu com um mussiê. Havia previamente feito transferir minhas propriedades para ele. "És um homem instruído", dizia-me ela, "sempre acharás com que comer. " Depois largou-431

me. Respeitável eclesiástico dizia-me um dia a esse respeito: "Se tua primeira mulher era coxa, a segunda tinha pé muito ligeiro". Ih! ih! ih!

— Escutem aqui — disse vivamente Kolgánov —, se ele mente, e isto acontece-lhe por vezes, é unicamente para causar prazer; não há baixezas nisso, não é mesmo? Gosto dele por vezes. É vil, mas franco. Que pensam disso? Qualquer outro se envilece por interesse, mas ele, é o seu natural...

Imaginem, por exemplo, que ele pretende que Gogól o pôs em cena em Almas Mortas. Devem lembrar-se de que se vê no livro o proprietário rural Maksímov chicoteado por Nózdriov, que é processado "por ofensa pessoal ao proprietário Maksímov, com chicote, achando-se em estado de embriaguez". Pretende tratar-se dele próprio e que foi chicoteado. Será possível? Tchitchikov viajava cerca de 1830, quando muito, de modo que as datas não combinam. Não pode ter ele sido chicoteado então.

A excitação de Kolgánov, difícil de explicar, nem por isso deixava de ser sincera. Mítia tomava seu partido.

— Afinal de contas, fizeram bem se o chicotearam! — disse ele, rindo.

— Não é que me chicotearam propriamente, mas algo parecido —

interveio Maksímov.

— Como assim? Fôste ou não chicoteado?

— Que horas são, pánie? — perguntou com ar de aborrecimento o pan do cachimbo ao pan das pernas compridas. Este ergueu os ombros; nenhum deles tinha relógio.

— Deixem então que os outros falem! Se os senhores se aborrecem, não é razão para impor silêncio a todo mundo — disse Grúchenhka, com ar agressivo. Mítia começava a compreender. O pan respondeu desta vez com visível irritação:

— Páni, não me oponho, não disse nada.

— Está bem, continua — gritou ela a Maksímov. — Ror que se calam todos?

— Mas não há nada a contar, são tolices — continuou Maksímov com satisfação e com gestos um tanto afetados. — Em Gogól, tudo isso é alegórico, porque seus nomes são todos simbólicos: Nózdriov não era 432

Nózdriov, mas Nósov; quanto a Kuvchínikov, este já nem tinha semelhança alguma, porque se chamava Chkvórniev. Fenardi chamava-se mesmo assim, somente não era um italiano, mas um russo, Pietrov; a Senhorita Fenardi era bonita na sua roupa de banho, com sua saia curta de lantejoulas, e desfilou bem, mas não quatro horas, apenas quatro minutos...

e encontrou toda gente.

— Mas por que te chicotearam? — berrou Kolgánov.

— Por causa de Piron.

— Que Piron? — perguntou Mítia.

— Ora, o célebre escritor francês, Piron. Tínhamos bebido, em numerosa companhia, num botequim, naquela mesma feira. Tinham-me convidado e me pus a citar epigramas: "És tu, Boileau? Que roupa engraçada tens!" Boileau responde que vai ao baile de máscaras, isto é, ao banho, ih! ih! ih! E eles tomaram isso como se fosse para si próprios. Tratei logo de citar outro epigrama, mordaz e bem conhecido das pessoas instruídas:

Ês Safo, sou Faón, concordo, Mas para meu grande pesar, Do mar não sabes o caminho.

"Sentiram-se ainda mais ofendidos, e puseram-se a dizer-me desa-foros; por desgraça, pensando arranjar as coisas, contei-lhes como Piron, que não foi recebido na Academia, mandou gravar no seu túmulo este epitáfio para se vingar: