Os Irmãos Karamázov

Fiódor Dostoiévski · Capítulo 31 de 50

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Os Irmãos Karamázov

Capítulo 31

— Ah! bravo! É curioso! — exclamou Rakítin, lançando-lhe um olhar estupefato. — Seja como for, vodca ou salsichão não são de desdenhar, vamos!

Aliócha levantou-se sem dizer palavra e seguiu Rakítin.

— Se teu irmão Ivã Fiódorovitch te visse, ele é quem ficaria surpreendido! A propósito, sabes que ele partiu esta manhã para Moscou?

— Sei — disse Aliócha, com indiferença. De repente, a imagem de Dimítri apareceu-lhe um instante apenas; lembrou-se vagamente de um negócio urgente, de um dever imperioso a cumprir, mas essa recordação não lhe causou nenhuma impressão, não chegou até seu coração, apagou-se logo de sua memória. Mais tarde, lembrou-se disso muito tempo.

— Teu irmão Vânia chamou-me uma vez de palerma liberal. Tu mesmo me deste um dia a entender que eu era desonesto... Pois seja. Vão ser vistas agora vossas capacidades e vossa honestidade (isto Rakítin cochichou para si mesmo). Escuta — continuou ele em voz alta —, evitemos o mosteiro, a vereda nos leva diretamente à cidade... Hum! Devo passar em casa de Khokhlakova. Escrevi-lhe a respeito dos acontecimentos e imagina que ela me respondeu por um bilhete a lápis (adora escrever, essa dona) que "não teria jamais esperado semelhante conduta da parte de um stáriets tão respeitável como o Padre Zósima!" Sic. Ela também se zangou. Sois todos iguais! Espera!

Parou bruscamente e, com a mão sobre o ombro de Aliócha, reteve-o, 352

dizendo:

— Sabes, Aliócha? — Olhava-o bem dentro dos olhos, sob a impressão de uma idéia súbita que temia visivelmente formular, malgrado seu ar zombeteiro, tanta dificuldade tinha em crer nas novas disposições de Aliócha. — Sabes aonde faríamos bem em ir? — disse, num tom insinuante.

— Aonde queiras... tanto faz.

— Vamos à casa de Grúchenhka, hein? Queres? — disse por fim Rakítin, todo tremente de expectativa.

— Vamos — respondeu tranqüilamente Aliócha. Rakítin esperava tão pouco esse pronto consentimento que quase deu um salto para trás.

— Até que enfim! — ia ele exclamar, mas agarrou Aliócha pelo braço e arrastou-o rapidamente, temendo vê-lo mudar de opinião. Cami-nhavam em silêncio. Rakítin tinha medo de falar.

— Como ficará ela contente!... — quis ele dizer, mas calou-se. Não era decerto para fazer prazer a Grúchenhka que lhe levava Aliócha; um homem sério como ele só agia por interesse. Tinha um duplo fim: vingar-se em primeiro lugar, contemplar "a ignomínia do justo" e a "queda"

provável de Aliócha, "de santo tornado pecador", do que se rejubilava de antemão; além disso, tinha em vista uma vantagem material de que se tratará mais longe.

"Eis uma ocasião que é preciso agarrar pelos cabelos", pensava ele com uma alegria maligna.

III

A CEBOLA

Grúchenhka morava no bairro mais animado, perto da praça da igreja, em casa da viúva do comerciante Morózov, onde ocupava no

pátio um pequeno pavilhão de madeira. A Casa Morózova, 31 de pedra, de dois andares, era velha e feia. A proprietária, mulher idosa, vivia ali sozinha 31 Costumavam-se denominar os prédios pelos nomes dos seus proprietários.

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com duas sobrinhas, solteironas. Não tinha necessidade de alugar seu pavilhão, mas sabia-se que admitira Grúchenhka como locatária (quatro anos antes) unicamente para comprazer a seu parente, o comerciante Samsónov, protetor declarado de Grúchenhka. Dizia-se que o velho ciumento, instalando em casa dela sua "favorita", contava com a vigilância da velha para fiscalizar a conduta de sua locatária. Mas essa vigilância tornou-se em breve inútil, de sorte que a Senhora Morózova só via raramente Grúchenhka e cessara de importuná-la espionando-a. Na verdade, quatro anos já haviam decorrido desde que o velho trouxera da sede do distrito aquela jovem de dezoito anos, tímida, acanhada, franzina, magra, pensativa e triste, e muita água havia passado sob as pontes. Não se sabia nada de preciso sobre ela na nossa cidade e nada mais se soube depois, mesmo quando muitos começaram a interessar-se pela beleza perfeita que se tornara, em quatro anos, Agrafiena Alieksándrovna.

Contava-se que aos dezessete anos fora seduzida por um oficial que logo a abandonara. Partira para casar-se, deixando Grúchenhka na ignomínia e na miséria. Dizia-se, aliás, que, apesar de tudo, provinha Grúchenhka de uma família honrada e dum meio eclesiástico, sendo filha de um diácono em disponibilidade, ou algo de parecido. Em quatro anos, a órfã sensível, desgraçada, franzina, tornara-se viçosa, rosada, uma beleza russa de caráter enérgico, orgulhosa, impudente, hábil em manejar o dinheiro e em adquiri-lo, avara e avisada, que soubera, honestamente ou não, amontoar certo capital. Uma única coisa não deixava dúvida alguma: é que Grúchenhka era inacessível e que, exceto o velho, seu protetor, ninguém, durante quatro anos, pudera vangloriar-se de ter-lhe conquistado os favores. O fato era certo, porque muitos suspirantes se haviam apresentado, sobretudo nos dois últimos anos. Mas todas as tentativas fracassaram e alguns tiveram de bater em retirada, cobertos de ridículo, graças à resistência daquela jovem criatura de caráter enérgico. Sabia-se ainda que ela se ocupava com negócios, sobretudo desde um ano, e manifestava nisso capacidades notáveis, tanto que muitos tinham acabado por chamá-la de judia. Não que emprestasse com usura, mas sabia-se, por exemplo, que, em companhia de Fiódor Pávlovitch Karamázov, resgatara, durante algum tempo, promissórias a preço vil, pelo décimo de seu valor, conseguindo recuperar em seguida, em certos casos, a totalidade da dívida. O velho Samsónov, cujos pés inchados não o transportavam mais havia um ano, viúvo que tiranizava seus filhos maiores, capitalista duma 354

avareza impiedosa, caíra, no entanto, sob a influência de sua protegida a quem no começo tratara com mesquinharia, a pão e laranja, a "óleo de semente de cânhamo", como diziam os zombadores. Mas Grúchenhka soubera emancipar-se, ao mesmo tempo que lhe inspirava uma confiança sem limites quanto à sua fidelidade. Aquele velho, grande homem de negócios, tinha também um caráter notável: avaro e duro como pedra, se bem que Grúchenhka o tivesse subjugado a ponto de não poder ele passar sem ela, não chegou a conceder-lhe capitais importantes e, mesmo se ela o houvesse ameaçado de abandoná-lo, teria ficado inflexível. Em compensação, reservou-lhe certa soma, e, quando se soube disso, foi motivo de espanto para todo mundo. "Tu não és tola", disse ele, dando-lhe 8 000 rublos, "opera tu mesma, mas fica sabendo que, fora de tua pensão anual, como antes, não receberás nada mais até minha morte e que não te deixarei nada em testamento. " Manteve a palavra e seus filhos, que sempre mantivera em sua casa como criados, com suas mulheres e seus filhos, herdaram tudo; Grúchenhka nem mesmo foi mencionada no testamento. Com seus conselhos sobre a maneira de fazer valer seu capital, ajudou-a ele notavelmente e indicou-lhe "negócios". Quando Fiódor Pávlovitch Karamázov, que entrou em relações com Grúchenhka, a propósito duma operação "fortuita", acabou ficando apaixonado por ela a ponto de perder a razão, o velho Samsónov, que já estava com um pé na sepultura, divertiu-se muito. É de notar que Grúchenhka foi, durante todo o tempo de suas relações com seu velho, plena e até cordialmente sincera para com ele, e isto, ao que parece, não o fora com nenhum outro homem do mundo. Mas quando Dimítri Fiódorovitch entrou na fila, o velho cessou de rir: "Se for preciso escolher entre os dois", disse-lhe ele, uma vez, seriamente, "escolhe o pai, mas com a condição de que o velho patife case contigo e te consigne antecipadamente certo capital. Não te ligues com o capitão, não tirarás disso nenhum proveito". Assim falou o velho libertino, pressentindo seu fim próximo; morreu com efeito cinco meses mais tarde.

Seja dito de passagem, se bem que na cidade a rivalidade absurda e chocante dos Karamázovi pai e filho fosse conhecida desde muito, que as verdadeiras relações de Grúchenhka com cada um deles permaneciam ignoradas da maior parte. Até mesmo suas criadas (após o drama de que falaremos) testemunharam em justiça que Agrafiena Alieksándrovna recebia Dimítri Fiódorovitch unicamente por temor, porque ameaçara matá-la. Tinha duas criadas, uma cozinheira bastante idosa, desde muito 355

tempo ao serviço de sua família, doente e quase surda, e sua neta, esperta, arrumadeira de vinte anos de idade. Grúchenhka vivia muito parcamente, num interior dos mais modestos, três peças mobiliadas de acaju pela proprietária, no estilo de 1820. À chegada de Rakítin e Aliócha, era já noite, ainda não haviam acendido as luzes. A jovem mulher estava estendida no salão, sobre seu divã de espaldar de acaju, duro e recoberto de couro, já usado e furado, com a cabeça apoiada em dois travesseiros. Repousava de costas, imóvel, com as mãos atrás da cabeça, trazendo um vestido de seda preta, com um toucado de renda que lhe assentava admiravelmente; nos ombros, um fichu preso por um broche de ouro maciço. Esperava alguém, inquieta e impaciente, a tez pálida, os lábios e os olhos ardentes, com o pezinho a bater compasso sobre o braço do divã. Ao rumor que fizeram os visitantes ao entrar, saltou em terra, gritando com voz de terror: "Quem vem lá?" A arrumadeira apressou-se em tranqüilizar sua ama. — Não é ele, não tenha medo.

"Que terá ela?", murmurou Rakítin, levando Aliócha pelo braço para o salão. Grúchenhka continuava de pé, ainda mal reposta de seu terror.

Uma grossa mecha de seus cabelos castanhos, escapada de seu toucado, caía-lhe sobre o ombro esquerdo; ela, porém, não lhe deu atenção e só a arranjou quando reconheceu os visitantes.

— Ah! és tu, Rakitka? Causaste-me medo! Com quem estás? Meu Deus, eis quem me trazes! — exclamou ela, ao perceber Aliócha.

— Manda então acender a luz! — disse Rakítin, com o tom dum familiar que tem direito de mandar na casa.

— Decerto... Fiénia, traze-lhe uma vela... Achaste o momento azado para trazê-lo. — Fez um sinal com a cabeça a Aliócha e arranjou seus cabelos diante do espelho. Parecia descontente.

— Não te agrada isso? — perguntou Rakítin, com súbito ar de enfado.

— Causaste-me medo, Rakitka, eis tudo — e Grúchenhka voltou-se sorrindo para Aliócha. — Não tenhas medo de mim, meu caro Aliócha, estou encantada com tua visita inesperada. Pensava que era Mítia que queria entrar à força. Vês tu? Enganei-o ainda há pouco, jurou-me que acreditava em mim e menti-lhe. Disse-lhe que ia à casa do meu velho Kusmá Kuzmitch fazer contas a noite toda. Vou lá, com efeito, uma vez 356

por semana. Fechamo-nos a chave: ele cavaca suas contas e eu escrevo nos livros. Ele só se fia em mim. Como foi que Fiénia deixou que vocês entrassem? Fiénia, corre ao portão, verifica se o capitão não anda rondando por perto. Está talvez escondido e nos espiona, tenho um medo terrível!

— Não há ninguém, Agrafiena Alieksándrovna. Olhei para todos os lados, vou espiar a cada instante pelas frestas, porque eu também tenho medo.

— Os postigos estão fechados, Fiénia, baixa as cortinas, senão ele verá a luz. Temo hoje teu irmão Mítia, Aliócha. — Grúchenhka falava muito alto, com ar inquieto e superexcitado.

— Por que o temes tanto hoje? — perguntou Rakítin. — Comumente, ele não te causa terror. Tu o fazes andar como bem entendes.

— Digo-te que espero uma notícia, de modo que Mítia seria aqui demais agora. Não acreditou que eu ia a casa de Kusmá Kuzmitch, tenho esta impressão. Agora, deve estar montando guarda no jardim da casa de Fiódor Pávlovitch. Se está emboscado lá, não virá aqui, tanto melhor! Fui deveras à casa do velho e Mítia me acompanhava; fi-lo prometer ir procurar-me à meia-noite. Dez minutos depois, saí e corri até aqui, tremendo de medo de que ele me tornasse a encontrar.

— Porque estás tão bem vestida? Tens um toucado bastante curioso.

— Tu mesmo é que és bastante curioso, Rakítin! Repito-te que estou esperando uma notícia. Assim que a receber, levantarei vôo e vocês não me verão mais. Eis por que me preparei assim.

— E para onde levantarás vôo?

— Se te perguntarem, dirás que não sabes de nada.

— Como está ela alegrei... Nunca te vi assim. Está enfeitada como quem vai para um baile! — admirou-se Rakítin, examinando-a.

— Estás ao corrente dos bailes?

— E tu?

— Eu vi um baile. Há três anos, quando Kusmá Kuzmitch casou seu filho; eu olhava da tribuna. Mas por que conversarei contigo, quando 357

tenho um príncipe como hóspede? Meu caro Aliócha, não quero crer nos meus olhos; como aconteceu que viesses à minha casa? Na verdade, não te esperava, jamais acreditei que pudesses vir. O momento é mal escolhido, no entanto estou bem contente. Senta-te no divã, aqui, meu belo astro! Na verdade, ainda não voltei a mim... Rakitka, se o tivesses trazido ontem ou anteontem!... Pois bem, assim mesmo estou contente. Melhor vale talvez agora, em tal minuto, que no outro dia...

Sentou-se vivamente ao lado de Aliócha, examinando-o, extasiada.

Estava verdadeiramente contente e não mentia. Seus olhos brilhavam, sorria, mas com bondade. Aliócha não esperava ver nela uma expressão tão benévola... Fizera dela uma idéia aterrorizadora. Seu rompante pérfido contra Catarina Ivânovna havia-o transtornado na antevéspera, agora se espantava por vê-la tão mudada. Por mais acabrunhado que se sentisse pelo seu próprio pesar, examinava-a, malgrado seu, com atenção. Suas maneiras tinham melhorado, as entonações melífluas, a languidez dos movimentos tinham quase desaparecido... agora, simplicidade, gestos prontos, sinceros, mas via-se que estava superexcitada.

— Meu Deus, que coisas estranhas se passam hoje! Por que me sinto tão feliz por ver-te, Aliócha? Ignoro-o.

— É mesmo verdade? — perguntou Rakítin, sorrindo. — Antes, tinhas um fito ao insistir para que eu o trouxesse aqui.

— Sim, um fito que não existe mais agora, o momento passou. E

agora vou tratar bem vocês. Tornei-me melhor agora, Rakitka. Senta-te também. Mas já o fizeste. Ele não se esquece. Vês tu, Aliócha? Está ressentido porque não o convidei em primeiro lugar para sentar-se. É

muito suscetível, esse meu caro amigo. Não te zangues, Rakitka, sinto-me boa neste momento. Por que estás tão triste, Aliócha? Terias medo de mim? — E Grúchenhka sorriu maliciosamente, olhando-o bem nos olhos.

— Tem um pesar. Uma recusa de posto.

— Que posto?

— O stáriets dele cheira mal.

— Como assim? Tagarelas, alguma vilania ainda, sem dúvida. Aliócha, deixa-me sentar-me em teus joelhos, assim. — E logo se instalou sobre os joelhos dele, risonha, tal como uma gata caridosa, com o braço 358

direito ternamente passado em redor do pescoço dele.

— Saberei bem fazer-te rir, meu gentil devoto! Na verdade, deixas-me sobre teus joelhos, isto hão te causa zanga? Basta que o digas e me levantarei.

Aliócha calava-se. Não ousava mover-se, não respondendo às palavras ouvidas, como que inerte. Mas não experimentava o que podia imaginar Rakítin, por exemplo, que o observava com ar galhofeiro. Seu grande pesar absorvia as sensações possíveis e, se tivesse ele podido analisar-se naquele momento, teria compreendido que estava encoura-çado contra as tentações. Não obstante, malgrado a inconsciência de seu estado e a tristeza que o acabrunhava, causava-lhe espanto uma sensação estranha: aquela mulher terrível não lhe inspirava mais aquele terror, inseparável no seu coração da idéia da mulher. Pelo contrário, instalada sobre seus joelhos e enlaçando-o, despertava nele um sentimento inesperado, uma extraordinária e cândida curiosidade, sem o menor pavor; eis o que o surpreendia a seu malgrado.

— Basta de tanta conversa sem nada dizer! — exclamou Rakítin. —

Manda antes servir o champanha. Sabes que prometeste isto.

— É verdade, Aliócha, prometi-lhe antes de tudo champanha, se ele te trouxesse. Fiénia, traze a garrafa que Mítia deixou, despacha-te. Se bem que avarenta, darei uma garrafa, não para ti, Rakítin, não passas de um pobre-diabo, mas para ele. Embora não esteja disposta a isso, quero beber com vocês.

— Qual é afinal essa "notícia"? Pode-se saber, é segredo? — insistiu Rakítin, fingindo não notar o motejo lançado contra ele.

— Um segredo de que estás a par — disse Grúchenhka, com ar preocupado. — O meu oficial vai chegar, Rakítin.

— Ouvi dizer isso; mas está tão perto assim?

— Acha-se ele agora em Mókroie, donde me enviará um portador.

Acabo de receber uma carta dele. Espero.

— Ora essa! Por que em Mókroie?

— Seria longo demais contá-lo. Chega.

— Mas então, e Mítia, está sabendo?

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— Nem uma palavra. Senão, me mataria. Aliás, não tenho mais medo dele agora. Cala-te, Rakitka; não quero ouvir mais falar disso.

Causou-me ele muito mal. E não quero mais pensar nisso, prefiro pensar em Aliócha, olhá-lo... Sorri, pois, meu querido, desenruga o rosto, far-me-ás prazer... Mas ele sorriu! Vê como ele me olha com olhar acariciante.

Sabes, Aliocha, acreditava que me querias mal por causa da cena de ontem, em casa daquela senhorita. Fui grosseira... No entanto, apesar de tudo, a coisa foi bem sucedida. Esteve bem e esteve mal — disse Grúchenhka, pensativamente, com um sorriso mau. — Mítia me contou que ela gritava:

"É preciso chicoteá-la!" Ofendi-a gravemente. Atraiu-me à sua casa, querendo subjugar-me, seduzir-me com seu chocolate... Não, o que se passou, correu muito bem. — Sorriu de novo. — Somente, receio que te hajas zangado...

— Na verdade, Aliocha, ela tem medo de ti, de ti, o pintainho

— interveio Rakítin, com real surpresa.

— Para ti, Rakítin, é que ele é um pintainho, porque não tens consciência. Eu o amo. Acreditas, Alióchà, amo-te de toda a minha alma.

— Ah! a desavergonhada! Faz-te uma declaração, Aliocha.

— E com isso? Amo-o.

— E o oficial? E a feliz notícia de Mókroie?

— Não é a mesma coisa.

— Eis a lógica das mulheres!

— Não me aborreças, Rakítin. Digo-te que não é a mesma coisa.

Amo Aliocha de outra maneira. Na verdade, Aliocha, tive maus desígnios a teu respeito. Sou vil, sou violenta, mas em certos momentos olhava-te como minha consciência. Dizia a mim mesma: "Como deve ele desprezar-me agora!" Pensava assim antes de ontem, ao sair da casa daquela senhorita. Desde muito tempo me chamaste a atenção, Aliocha; Mítia sabe-o, compreende-me. Acreditadas tu? Sou por vezes tomada de vergonha ao olhar-te. Como vim a pensar em ti e desde quando, ignoro-o.

Fiénia entrou, pousou sobre a mesa uma bandeja com uma garrafa desarrolhada e três copos cheios.

— Eis o champanha! — exclamou Rakítin. — Estás excitada, Agra-360

fiena Alieksándrovna. Depois de beberes, pôr-te-ás a dançar. Que falta de habilidade! — acrescentou ele. — Já está vertida e morna, sem a rolha.

Nem por isso deixou de esvaziar seu copo dum trago e enchê-lo de novo.

— Ocasiões como esta são raras — observou, enxugando os lábios.

— Vamos, Aliócha, pega teu copo e mostra-te corajoso. Mas a que beberemos? Toma o teu, Grucha, e bebamos às portas do paraíso.

— Que queres dizer com isso?

Ela pegou um copo. Aliócha bebeu um bom gole do seu e depô-lo sobre a mesa.

— Não, prefiro abster-me — disse ele, com um doce sorriso.

— Ah! tu te gabavas! — gritou Rakítin.

— Eu também, então — disse Grúchenhka. — Acaba a garrafa, Rakitka. Se Aliócha beber, beberei.

— Eis que começam as efusões! — zombeteou Rakítin. — E estás sentada nos joelhos dele! Ele está pesaroso, convenho, mas, tu, que tens tu?

Ele está revoltado contra seu Deus, ia comer salsichão!

— Como assim?

— O stáriets dele morreu hoje, o velho Zósima, o santo.

— Ah! morreu? Não sabia de nada. — Benzeu-se. — Meu Deus, e eu que estou sentada nos joelhos dele!

Levantou-se vivamente e sentou-se no divã. Aliócha olhou-a com surpresa e seu rosto iluminou-se.

— Rakítin — proferiu ele, num tom firme —, não me irrites dizendo que me revoltei contra meu Deus. Não tenho animosidade contra ti, sê, pois, melhor, tu também. Sofri uma perda inestimável e não podes julgar-me neste momento. Olha-a, viste sua mansuetude para comigo? Vim aqui para encontrar uma alma perversa, impelido pelos meus maus sentimentos; encontrei uma verdadeira irmã, uma alma amorosa, um tesouro... Agrafiena Alieksándrovna, é de ti que falo. Regeneraste minha alma.

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Opresso, Aliócha calou-se, com os lábios trêmulos.

— Dir-se-ia que ela te salvou! — zombou Rakítin. — Mas sabes que ela queria comer-te?

— Basta, Rakitka! Calem-se ambos: tu, Aliócha, porque tuas palavras me causam vergonha. Acreditas que sou boa, mas sou má. Tu, Rakitka, porque mentes. Tinha-me proposto comer-te, mas é coisa do passado, isso. Que não te ouça mais falar assim, Rakitka! — Grúchenhka exprimira-se com viva emoção.

— Estão os dois com o diabo no couro! — murmurou Rakítin, observando-os com surpresa. — Acreditaria a gente estar numa casa de saúde. Agora mesmo vão chorar, decerto!

— Sim, chorarei, sim, chorarei! — afirmou Grúchenhka. — Ele me chamou sua irmã, não o esquecerei jamais! Por pior que eu seja, Rakitka, dei, no entanto, uma cebola.

— Que cebola? Com os diabos, estão mesmo malucos, não há que ver!

A exaltação deles espantava Rakítin, que deveria compreender que tudo concorria para agitá-los duma maneira excepcional. Mas Rakítin, sutil quando se tratava de si mesmo, destrinçava mal os sentimentos e as sensações de seu próximo, tanto por inexperiência juvenil como por egoísmo.

— Vês tu, Aliócha? — e Grúchenhka riu nervosamente. — Gabei-me a Rakítin de ter dado uma cebola. Vou explicar-te a coisa com toda a humildade. É apenas uma lenda. Matriona, a cozinheira, contava-me quando eu era menina: "Havia uma megera que morreu sem deixar atrás de si uma única virtude. Os diabos apoderaram-se dela e lançaram-na no 4ago de fogo. Seu anjo da guarda quebrava a cabeça para descobrir nela uma virtude e falar a respeito a Deus. Lembrou-se e disse ao Senhor: 'Ela arrancou uma cebola na horta para dá-la a um mendigo'. Deus respondeu-lhe: 'Pega essa cebola, entrega-a àquela mulher lá no lago para que nela se agarre. Se conseguires retirá-la de lá, irá ela para o paraíso; se a cebola se partir, ficará ela onde está'. O anjo correu à mulher e estendeu-lhe a cebola.

'Toma', disse ele, 'segura-a bem. ' Pôs-se a puxá-la com precaução e ela já estava ficando de fora. Os outros pecadores, vendo que a retiravam do 362

lago, agarraram-se a ela, querendo aproveitar a boa fortuna. Mas a mulher, que era muito má, dava-lhes pontapés: 'É a mim que estão tirando e não a vocês. A cebola é minha e não de vocês'. A estas palavras, a cebola se partiu. A mulher recaiu no lago, onde está-se queimando até agora. O anjo partiu, chorando", Eis essa lenda, Aliócha. Não acredites que eu. seja boa, é bem o contrário. Teus elogios causar-me-iam vergonha. Desejava de tal modo tua vinda, que prometi 25 rublos a Rakítin, se ele te trouxesse. Um instante.

Foi abrir uma gaveta, pegou seu porta-moedas e dele retirou uma cédula de 25 rublos.

— É absurdo! — exclamou Rakítin, embaraçado.

— Toma, Rakitka, estou quites contigo. Não haverás de recusar, tu mesmo pediste. — E atirou-lhe a cédula.

— Como é isso? — replicou ele, visivelmente confuso, mas esforçando-se por ocultá-lo. — Tudo é lucro, os tolos existem no interesse das pessoas de espírito.

— E agora, cala-te, Rakitka. O que vou dizer não se dirige a ti. Tu não gostas de nós.

— E por que haveria eu de gostar de vocês? — disse ele brutalmente.

Contara ser pago sem' que o soubesse Aliócha, cuja presença causava-lhe vergonha e irritava-o. Até então, por política, poupara Grúchenhka, malgrado suas palavras picantes, porque ela parecia dominá-lo. Mas a cólera tomava conta dele.

— Gosta-se em troca de alguma coisa. Que fizeram por mim todos dois?

— Ama em troca de nada, como Aliócha.

— Como te ama ele e que provas te deu disso? Por que todo esse alvoroço?

De pé no meio do salão, Grúchenhka falava com calor, com voz exaltada:

— Cala-te, Rakitka, não compreendes nada de nossos sentimentos. E

cessa de tutear-me, proíbo-to. Donde te vem essa audácia? Senta-te num canto e nem mais uma palavra! Agora, Aliócha, vou confessar-me a ti 363

somente, para que saibas o que sou. Queria perder-te, estava decidida a isso, a ponto de comprar Rakítin para que ele te trouxesse. E por que isso?'

Tu de nada sabias, desviavas-te de mim, passavas de olhos baixos. Eu interrogava as pessoas a teu respeito. Teu rosto me perseguia: "Ele me despreza", pensava eu, "e nem mesmo quer olhar-me". Por fim, perguntei a mim mesma, com surpresa: "Por que temer esse rapazola? Eu o devorarei. Isso me divertirá". Estava exasperada. Acredita-me, ninguém aqui ousaria faltar ao respeito a Agrafiena Alieksándrovna; não tenho senão aquele velho ao qual me vendi. Foi Satanás que nos uniu e ninguém mais. Havia, pois, decidido que serias minha presa, era um jogo para mim.

Eis a detestável criatura que chamaste de irmã. Agora meu sedutor chegou, espero notícias. Sabes o que era ele para mim? Há cinco anos, quando Kuzmá Kuzmitch me trouxe para aqui, eu me ocultava por vezes para não ser vista, nem ouvida; como uma tola, soluçava, não dormia mais, dizendo a mim mesma: "Onde está ele, o monstro? Deve rir de mim com uma outra. Oh! como me vingarei, se algum dia o encontrar!" Na escuridão, soluçava sobre meu travesseiro, torturava meu coração de propósito: "Ele me pagará!", exclamava eu. Ao pensar que era impotente, que ele zombava de mim, havia-me talvez completamente esquecido, deslizava de meu leito para o soalho, inundada de lágrimas, presa de uma crise de nervos. Passara a odiar todo mundo. Em seguida, formei um capital, endureci o coração, engordei. Pensas que me tornei mais sensata?

Absolutamente. Ninguém o imagina, mas quando chega a noite acontece-me, como há cinco anos, ranger os dentes e chorar: "Hei de vingar-me! hei de vingar-me!" Estás-me acompanhando? Então, que pensas disto? Há um mês recebo uma carta anunciando-me sua chegada. Ficou viúvo. Quer ver-me. Fiquei sufocada. "Meu Deus, ele vai chegar e chamar-me, arrastar-me-ei para ele como um cão batido, como uma culpada! Não posso crer nisso eu mesma! Terei ou não a baixeza de correr para ele?" E uma cólera contra mim mesma me dominou, nestas últimas semanas, mais violenta do que há cinco anos. Vês minha exasperação, Aliócha, confessei-me a ti.

Mítia não passava de uma diversão. Cala-te, Rakitka, não te cabe julgar-me. Antes da chegada de vocês, eu esperava, pensava no meu futuro, e vocês jamais conhecerão meu estado de alma. Aliócha, dize àquela senhorita que não me queira mal por causa da cena de anteontem!...

Ninguém no mundo pode compreender o que sinto agora... Talvez leve uma faca, ainda não decidi.

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Incapaz de conter-se, Grúchenhka interrompeu-se, cobriu o rosto com as mãos, deixou-se cair sobre o divã, soluçou como uma criança.

Aliócha levantou-se e aproximou-se de Rakítin.

— Micha — disse ele —, ela te ofendeu, mas não te zangues. Ouviste-a? Não se pode exigir demais de uma alma, é preciso ter misericórdia.

Aliócha pronunciou suas palavras num impulso irresistível. Tinha necessidade de expandir-se e tê-las-ia dito mesmo que estivesse só. Mas Rakítin olhou-o ironicamente e Aliócha deteve-se.

— Estás com a cabeça cheia do teu stáriets e me bombardeias à sua maneira, Aliócha, homem de Deus — disse ele, com um sorriso odiento.

— Não zombes, Rakítin, não fales do morto, ele era superior a todos na terra — exclamou Aliócha, com lágrimas na voz. — Não é como juiz que te falo, mas como o derradeiro dos acusados. Que sou eu diante dela?

Viera aqui para perder-me, por covardia. Ela, porém, após cinco anos de sofrimentos, por causa de uma palavra sincera que ouve, perdoa, esquece tudo e chora! Seu sedutor voltou, chama-a, ela lhe perdoa e corre alegremente para ele. Porque ela não levará faca, não. Não sou assim, Micha, ignoro se o és. É uma lição para mim... Ela é superior a nós...

Tinhas ouvido antes o que ela acaba de contar? Não, sem dúvida, porque terias compreendido tudo desde muito tempo... Ela perdoará também, aquela que foi ofendida anteontem, quando souber de tudo... Essa alma ainda não se reconciliou, é preciso poupá-la... oculta talvez um tesouro...

Aliócha calou-se, porque lhe faltava a respiração. Malgrado sua irritação, Rakítin olhava-o, espantado. Não esperava semelhante tirada da parte do pacífico Aliócha.

— Aqui temo-lo, um advogado! Estarias apaixonado por ela? Agrafiena Alieksándrovna, viraste a cabeça do nosso asceta! — exclamou ele com uma risada impudente.

Grúchenhka ergueu a cabeça, sorriu docemente para Aliócha, com o rosto ainda cheio das lágrimas que acabava de derramar.

— Deixa-o, Aliócha, meu querubim, vês como ele é. Que adianta falar-lhe? Mikhail Óssipovitch, queria pedir-te perdão, mas agora desisto disso. Aliócha, vem sentar-te aqui (ela pegou-lhe a mão e olhava-o, radiante), dize-me, será que eu o amo, sim ou não, ao meu sedutor?

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Perguntava-o a mim mesma, aqui, no escuro. Esclarece-me, chegou a hora, farei o que disseres. Será preciso perdoar?

— Mas já perdoaste.

— É verdade — disse Grúchenhka, pensativa. — Oh! o coração covarde! Vou beber à minha covardia. — Pegou um copo que esvaziou dum trago, depois atirou-o no chão. Havia crueldade em seu sorriso.

— Talvez não tenha ainda perdoado — disse ela, com ar ameaçador, de olhos baixos, como que falando a si mesma. — Talvez meu coração pense somente em perdoar. Vês tu, Aliócha? São meus cinco anos de lágrimas o que eu amava, a ofensa que sofri, e não ele.

— Pois bem! Não gostaria de estar em sua pele — disse Rakítin.

— Mas jamais o estarás, Rakitka. Limparás meus sapatos. Será nisto que te empregarei. Uma mulher como eu não foi feita para ti... E talvez também não para ele...

— Então, por que tão bem vestida?

— Não me censures o meu traje, Rakitka, não conheces o meu coração! Se quiser, agora mesmo mudarei de vestido. Não sabes por que o vesti. Talvez vá dizer-lhe: "Jamais me viste tão bela?" Quando ele me deixou, era eu uma mocinha de dezessete anos, magrela e chorona. Eu o acariciarei, excitá-lo-ei: "Vês o que me tornei? Então, meu caro, basta de conversa, isto põe-te água na boca, mas vai beber em outra parte!" Eis, Rakitka, para que servirá talvez este vestido. Estou arrebatada, Aliócha.

Posso rasgar este vestido, desfigurar-me, sair a pedir esmola. Sou capaz de ficar em minha casa agora, de devolver a Kuzmá seu dinheiro, seus presentes, e ir alugar-me a serviço diário. Pensas que me faltaria coragem, Rakitka? Basta que me levem aos extremos... Quanto ao outro, eu o enxotarei, zombarei dele...

Proferindo estas derradeiras palavras como numa crise, cobriu o rosto com as mãos, lançou-se sobre as almofadas, soluçando de novo.

Rakítin levantou-se.

— Está ficando tarde — disse ele —, não nos deixarão entrar no mosteiro.

Grúchenhka sobressaltou-se.

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— Como, Aliócha, queres deixar-me? — exclamou, com dolorosa surpresa. — Pensas fazê-lo? Transtornaste-me e agora eis de novo a noite, a solidão!

— Ele não pode, entretanto, passar a noite em tua casa. Mas, se ele quiser, fique. Vou-me embora sozinho! — disse malignamente Rakítin.

— Cala-te, malvado! — gritou Grúchenhka, encolerizada. — Nunca me disseste semelhantes palavras!

— Que palavras?

— Não sei, nada de extraordinário, mas ele revirou-me o coração...

O primeiro, o único que teve piedade de mim. Por que não vieste mais cedo, querubim? — E caiu de joelhos diante dele, como em êxtase. — Toda a minha vida, esperei alguém como tu, que me traria o perdão. Acreditei que me amariam por outro motivo que não apenas o de ser uma perdida...

— Que fiz eu por ti? — perguntou Aliócha, com um terno sorriso, inclinado sobre ela e tomando-lhe as mãos. — Dei uma cebola, a menor de todas, eis tudo!...

As lágrimas inundaram-lhe os olhos. Naquele momento, ouviu-se rumor, alguém entrava no vestíbulo; Gruchenhka levantou-se aterrorizada.

Fiénia irrompeu barulhentamente no quarto.

— Minha senhora, minha boa e querida senhora, o correio chegou —

exclamou ela alegremente, toda ofegante. — O tarantás chega de Mókroie, com o postilhão Timofiéi. Vão trocar de cavalos... Uma carta, senhora, eis aqui uma carta!

Brandia a carta, gritando. Gruchenhka apoderou-se dela, aproximou-a da vela. Era um bilhete de algumas linhas que leu num instante.

— Ele me chama! — Estava pálida, o rosto contraído por um sorriso mórbido. — Ele assobia para mim! Arrasta-te, cãozinho! — Mas ficou apenas um momento indecisa, de repente o sangue subiu-lhe ao rosto.

— Parto! Adeus, meus cinco anos! Adeus, Aliócha, a sorte está lançada... Afastem-se todos, vão-se embora, que eu não os veja mais!

Gruchenhka voa para uma vida nova. Não me guardes rancor, Rakitka. É talvez para a morte que sigo! Oh! sinto-me como que em-367

briagada!

Precipitou-se para seu quarto de dormir.

— Agora não precisa mais de nós — resmungou Rakítin. — Vamos embora. Essa música poderia muito bem recomeçar; estou com os ouvidos mais que cheios...

Aliócha deixou-se levar maquinalmente.

No pátio, viam-se idas e vindas à luz duma lanterna; trocava-se a atrelagem de três cavalos. Mal os dois jovens tinham descido o patamar, abriu-se a janela do quarto de dormir e a voz de Gruchenhka elevou-se, sonora.

— Aliócha, saúda teu irmão Mítia, dize-lhe que não guarde uma má lembrança de mim. Repete-lhe minhas palavras: "Foi a um miserável que Gruchenhka se deu e não a ti, que és nobre!" Acrescenta que Gruchenhka o amou durante uma hora, nada mais que uma hora; que ele se recorde sempre dessa hora, doravante, é Gruchenhka quem lho ordena... por toda a sua vida...

Acabou com soluços na voz. A janela tornou a fechar-se.

— Hum! — murmurou Rakítin rindo. — Ela estrangula Mítia e quer que ele se lembre disso toda a sua vida. Que ferocidade!

Aliócha pareceu não ter ouvido. Caminhava rapidamente ao lado de Rakítin; tinha o ar apalermado. Rakítin teve de súbito a sensação de que lhe metiam um dedo numa chaga viva. Esperara bem outra coisa ao pôr Aliócha em presença de Gruchenhka e estava decepcionado.

— É o polonês, o tal oficial dela — prosseguiu ele, contendo-se. —

Aliás, não é mais oficial agora, esteve servindo na Alfândega na Sibéria, na fronteira chinesa. Deve ser um pobre-diabo. Dizem que perdeu o lugar.

Tendo sabido que Gruchenhka tem dinheiro, voltou, isto explica tudo.

De novo, Aliócha pareceu não ter ouvido. Rakítin não se conteve mais.

— Então, converteste uma pecadora? Puseste uma mulher de má vida no bom caminho? Expulsaste os demônios, hein? Ei-los, os milagres que esperávamos: realizaram-se!

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— Pára com isso, Rakítin! — disse Aliócha. de alma dolorida.

— Tu me desprezas agora por causa dos 25 rublos que recebi? Vendi um verdadeiro amigo. Mas tu não és o Cristo e eu não sou Judas.

— Rakítin, asseguro-te que não pensava mais nisso, és tu quem o recordas.

Mas Rakítin estava exasperado.

— Que o diabo leve vocês todos! — vociferou de repente. — Por que, diabo, liguei-me a ti? Doravante, não quero mais saber de ti. Vai sozinho, eis teu caminho.

Dobrou numa outra rua, deixando Aliócha sozinho ali, nas trevas.

Aliócha saiu da cidade e voltou ao mosteiro pelos campos.

IV

AS BODAS DE CANÁ

Era já muito tarde para entrar no mosteiro, quando Aliócha chegou ao eremitério; o irmão porteiro introduziu-o por uma entrada particular.

Tinham soado 9 horas, a hora do repouso, após um dia tão agitado.

Aliócha abriu timidamente a porta e penetrou na cela do stáriets, onde se encontrava agora seu ataúde. Não havia ninguém, exceto o Padre Paísi, lendo o Evangelho diante do morto, e o jovem noviço Porfíri, esgotado pela conversação da derradeira noite e pelas emoções do dia; dormia o profundo sono da mocidade, deitado no chão, na peça vizinha. O Padre Paísi, que ouvira Aliócha entrar, nem mesmo voltou a cabeça. Aliócha ajoelhou-se num canto e pôs-se a rezar. Sua alma transbordava, mas suas sensações permaneciam confusas, uma afugentando a outra, numa espécie de movimento giratório uniforme. Coisa estranha, experimentava ele uma sensação de bem-estar e não se admirava disso. Contemplava de novo aquele morto que lhe era tão querido, mas a compaixão lacrimosa e dolorosa da manhã desaparecera. Ao entrar, caíra de joelhos diante do caixão como diante de um santuário e, no entanto, a alegria esplendia em sua alma. Um ar fresco entrava pela janela aberta. "O cheiro deve ter então aumentado, do contrário não se teriam decidido a abrir uma janela", pensou Aliócha. Mas não se sentia mais angustiado, nem indignado por 369 causa daquela idéia da corrupção. Pôs-se a rezar mansamente, e em breve percebeu que o fazia quase maquinalmente. Fragmentos de idéias surgiam, tais como fogos-fátuos; em compensação, reinavam em sua alma uma certeza, um apaziguamento de que tinha consciência. Punha-se a rezar com fervor, cheio de reconhecimento e de amor... Em breve passava para outra coisa, esquecendo a oração e o que a interrompera. Prestou ouvidos à leitura do Padre Paísi, mas acabou por dormitar, esgotado...