Os Irmãos Karamázov
Capítulo 5
Entraram quase ao mesmo tempo que o stáriets, que, desde a chegada deles, havia saído de seu quarto de dormir. Na cela, tinham sido precedidos por dois religiosos do eremitério: um era o padre bibliotecário, o outro o Padre Paísi, doente, malgrado sua idade pouco avançada, mas erudito, segundo se dizia. Achava-se ainda ali um rapaz (ficou de pé todo o tempo), parecendo ter 22 anos de idade, de sobrecasaca, seminarista e futuro teólogo, protegido pelo mosteiro e pela confraria. Era de estatura bastante elevada, tinha o rosto fresco, os pômulos salientes, com olhinhos castanhos de olhar inteligente. Seu rosto exprimia deferência, mas sem 34
obsequiosidade. Não cumprimentou os visitantes, considerando-se não como igual deles, mas como um subalterno.
O stáriets Zósima apareceu, em companhia de um noviço e de Aliócha. Os religiosos levantaram-se, fizeram-lhe profunda reverência, com os dedos tocando a terra, receberam sua bênção, beijaram-lhe a mão.
A cada um deles, o stáriets respondeu com uma reverência semelhante, com os dedos tocando a terra, pedindo-lhes por sua vez sua bênção.
Aquela cerimônia, marcada de grande seriedade, nada tendo da etiqueta vulgar, exalava uma espécie de emoção. No entanto, pareceu a Miúsov que aquilo se fazia com uma finalidade de sugestão premeditada.
Conservava-se à frente de seus companheiros. Teria sido conveniente, quaisquer que fossem suas idéias — e por simples polidez, para se conformar com os usos —, que se aproximassem do stáriets para receber sua bênção, se não para beijar-lhe a mão. Foi no que pensara na véspera, mas as reverências e os beijos dos monges fizeram-no mudar de resolução.
Fez uma reverência grave e digna, de homem da sociedade, e foi sentar-se.
Fiódor Pávlovitch fez a mesma coisa, macaqueando dessa vez Miúsov. A saudação de Ivã Fiódorovitch foi das mais corteses, mas também ele conservou seus braços ao longo dos quadas. Quanto a Kolgánov, tal era sua confusão que não fez saudação nenhuma. O stáriets deixou recair sua mão prestes a abençoá-los e convidou todos a sentarem-se. O sangue subiu às faces de Aliócha, estava envergonhado. Seus maus pressentimentos realizavam-se.
O stáriets tomou lugar num pequeno diva de couro — móvel bastante antigo — e fez seus visitantes sentarem-se perto da parede em frente, em quatro cadeiras de acaju, recobertas de couro bastante surrado.
Os religiosos instalaram-se de lado, um na porta, outro na janela. O
seminarista, Aliócha e o noviço ficaram de pé. A cela não era vasta e mostrava certo ar de coisa velha. Continha somente alguns móveis e objetos grosseiros, pobres, o estritamente necessário. Dois jarros de flores na janela; a um canto, numerosos ícones; um deles representava uma Virgem de grandes dimensões, pintada
provavelmente muito tempo antes do Raskol. 5 Uma lâmpada ardia diante dela. Não longe, dois outros ícones de revestimentos cintilantes, depois dois querubins esculpidos, pequenos 5 Literalmente: cisão. Seita religiosa dos "velhos crentes" que provocou o cisma na Igreja russa, em meados do século XVII, contra as reformas do Patriarca Nikhon.
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ovos de porcelana, um crucifixo de marfim, com uma Mater Dolorosa que o abraçava, e algumas gravuras estrangeiras, reproduções de grandes pintores italianos dos séculos passados. Ao lado dessas obras de valor, exibiam-se litografias russas para uso do povo, representando santos, mártires, prelados, as quais se vendiam por alguns copeques em todas as feiras. Miúsov lançou uma olhadela rápida sobre aquelas imagens, depois fixou seu olhar no stáriets. Respeitava sua maneira de ver, fraqueza desculpável, seguramente, se se considerar que já tinha cinqüenta anos, idade em que um homem do mundo, inteligente e opulento, leva-se sempre mais a sério, por vezes mesmo contra a sua vontade.
Desde o começo, o stáriets causara-lhe desagrado. Havia efetivamente em sua figura algo que teria desagradado a muitos outros que não apenas a Miúsov. Era um homenzinho curvado, de pernas muito fracas, de sessenta anos somente, mas que parecia ter dez anos mais, por causa de sua doença. Todo o seu rosto, aliás bastante seco, estava sulcado de pequenas rugas, sobretudo em redor dos olhos. Tinha os olhos claros, não muito grandes, vivos e brilhantes como dois pontos luminosos. Seus cabelos grisalhos chegavam-lhe apenas às têmporas; sua barba, pequena e rala, acabava em ponta; os lábios, delgados como duas correias, sorriam freqüentemente; o nariz agudo lembrava um pássaro.
"Segundo toda a aparência, uma alma malévola e arrogante", pensou.
Em geral, estava muito descontente consigo mesmo.
O soar da hora ajudou o início do diálogo. Um pequeno relógio de pesos bateu doze pancadas.
— A hora exata — exclamou Fiódor Pávlovitch — e meu filho Dimítri Fiódorovitch que não chega! Peço-lhe desculpas por ele, santo stáriets! (Aliócha estremeceu ao ouvir aquelas palavras de "santo stá-riets".) Sou sempre pontual, dentro do minuto, lembrando-me de que a pontualidade é a polidez dos reis.
— No entanto, o senhor não é nenhum rei — resmungou Miúsov, incapaz de conter-se.
— Ê verdade, não o sou. E imagine, Piotr Alieksándrovitch, que eu mesmo o sabia, palavra! E falo sempre assim, fora de propósito! Vossa Reverência — exclamou ele, de súbito, num tom patético — tem diante de si um verdadeiro palhaço. É minha maneira de apresentar-me. Um velho 36