Os Irmãos Karamázov
Capítulo 35
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Aqui jaz Piron, sem valia, Nem mesmo foi da Academia.
"Então agarraram-me e chicotearam-me. "
— Mas por quê? por quê?
— Por causa de meus conhecimentos. Há muitos motivos pelos quais se pode açoitar um homem — concluiu sentenciosamente Maksímov.
— Basta, é idiota, estou mais que farta. E pensei que seria engraçado! — interrompeu Grúchenhka. Mítia apressou-se em deixar de rir. O
pan de pernas compridas levantou-se e se pôs a andar dum lado para outro, com o ar arrogante de um homem que se aborrece numa companhia que não é a sua.
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— Como ele anda! — disse Grúchenhka, com ar de desprezo. Mítia inquietou-se; além do mais tinha notado que o pan do cachimbo olhava-o com irritação.
— Pánie — exclamou ele —, bebamos! — Convidou também o outro que passeava e encheu três copos com champanha.
— À Polônia, pánowie! Bebo à vossa Polônia!
— Com muito gosto, pánie, bebamos — disse o pan de cachimbo com ar importante, mas afável.
— E o outro pan também. Como se chama ele?... Tome um copo, ilustríssimo.
— Pan Vrubliévski35 — disse o outro.
Pan Vrubliévski aproximou-se da mesa, bamboleando-se. — À Polônia, pánowie, viva! — gritou Mítia, erguendo seu copo.
Entrechocaram os copos. Mítia encheu de novo os três copos,
— Agora, à Rússia, pánowie, e sejamos irmãos.
— Serve-nos também — disse Grúchenhka. — Quero brindar à Rússia.
— Eu também — disse Kolgánov.
— E então, então — apoiou Maksímov — , beberei à velha vovòzinha.
— Todos, todos! — gritou Mítia. — Patrão, uma garrafa! Trouxeram as três garrafas que restavam.
— À Rússia, viva!
Todos beberam, exceto os pánowie. Grúchenhka esvaziou seu copo dum gole.
— E então, pánowie, é assim que sois?
Pan Vrubliévski pegou seu copo, ergueu-o e disse com voz aguda:
— À Rússia, nos seus limites de 1772! 36
35 Literalmente: interesseiro. Nome forjado. De rubi, rublo.
36 Antes da partilha e anexação da Polônia.
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— Muito bem! — aprovou o outro pan. Ambos esvaziaram seus copos.
— Sois uns imbecis, pánowie! — disse bruscamente Mítia. — Pánie! — exclamaram os dois poloneses, eretos como gaios. Pan Vrubliévski, sobretudo, estava indignado.
— Não posso amar o meu país? — gritou.
— Silêncio! Nada de brigas! — gritou imperiosamente Grúchenhka, batendo com o pé. Tinha o rosto vermelho, os olhos cintilantes. O efeito do vinho fazia-se sentir. -Mítia ficou com medo.
— Pánowie, perdoem. É culpa minha. Pan Vrubliévski, não o farei mais!...
— Mas cala-te afinal, senta-te, imbecil! — apostrofou-o Grúchenhka.
Todos se sentaram e ficaram calados.
— Senhores, sou a causa de tudo! — continuou Mítia, que nada compreendera do repente de Grúchenhka. — Pois bem! que vamos fazer...
para divertir-nos?
— Com efeito, a gente se aborrece aqui — disse, displicentemente, Kolgánov.
— Se jogássemos baralho, como ainda há pouco... ih! ih! ih!
— Baralho? Boa idéia! — aprovou Mítia. — Se os pánowie con-sentirem.
— Pozno, pánie — respondeu de mau-humor o pan do cachimbo.
— É verdade — apoiou pan Vrubliésvki.
— Pozno? Que quer dizer pozno? — Perguntou Grúchenhka.
— Quer dizer que já é tarde, páni — explicou o pan do divã. — Para ele sempre é tarde. Sempre acha tudo impossível — quase gritou, zangada, Grúchenhka. — Que tristes convivas! Destilam aborrecimento e querem impô-lo aos outros. Antes de tua chegada, Mítia, estavam todos calados, fazendo-se de orgulhosos.
— Minha deusa — replicou o pan do cachimbo —, dizes a verdade.
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É tua frieza que me torna triste. Estou pronto, pánie — disse, voltando-se para Mítia.
— Começa, pánie — disse Mítia, destacando de seu maço duas cédulas de 100 rublos que colocou em cima da mesa. — Quero fazer-te ganhar muito dinheiro. Pega as cartas e mantém a banca!
— O baralho deve ser o do patrão — disse gravemente o pan baixinho.
— Será o melhor — aprovou pan Vrubliévski.
— O baralho do patrão, pois seja! Está muito bem, pánowie! Cartas!
O hospedeiro trouxe um baralho lacrado e anunciou a Mítia que as moças reuniam-se, que os judeus chegariam em breve, mas que a tieliega das provisões ainda não chegara. Mítia correu logo ao quarto vizinho para dar ordens. Havia somente três moças e Maria não estava lá ainda. Não sabia bem o que fazer e ordenou apenas que fossem distribuídos com as moças as guloseimas e bombons da caixa. — E vodca para Andriéi —
acrescentou. — Eu o ofendi.
Foi então que Maksímov, que o havia seguido, tocou-lhe no ombro, cochichando:
— Dê-me 5 rublos. Gostaria de jogar também, ih! ih! ih!
— Perfeitamente. Aqui estão 10. Se perderes, torna a procurar-me... — Muito bem — murmurou Maksímov, que tornou a entrar na sala.
Mítia voltou pouco depois e pediu desculpas por ter-se feito esperar. Os pánowie já haviam tomado lugar e deslacrado o baralho, com ar muito mais amável e quase gentil. O pan do divã, que estava fumando outra cachimbada, preparava-se para baralhar as cartas. Seu rosto tinha algo de solene.
— Aos seus lugares, pánowie — exclamou pan Vrubliévski.
— Não quero mais jogar — observou Kolgánov. — Já perdi 50
rublos ainda há pouco.
— O pan foi infeliz, mas a sorte pode mudar — insinuou o pan do cachimbo.
— Quanto possui a banca? — perguntou Mítia.
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— Talvez 100 rublos, pánie, talvez 200. Tanto quanto queiras apostar.
— Um milhão! — disse Mítia, rindo.
— O capitão talvez tenha ouvido falar de pan Podvisótski.
— Que Podvisótski?
— Em Varsóvia, a banca agüenta todas as apostas. Chega Podvisótski, vê milhares de moedas de ouro, joga contra a banca. O banqueiro diz:
"Pánie Podvisótski, jogas com ouro, ou sob palavra?" "Sob palavra, pánie", diz Podvisótski. "Tanto melhor. " O banqueiro corta e Podvisótski junta as moedas de ouro. "Espera, pánie", diz o banqueiro. Abre uma gaveta e dá-lhe 1 milhão: "Toma, eis tua conta!" A banca era de 1 milhão. "Ignorava-o", disse Podvisótski. "Pan Podvisótski", disse o banqueiro, "ambos jogamos sob palavra. " Podvisótski pegou o milhão.
— Não é verdade — disse Kolgánov.
— Pan Kolgánov, entre pessoas decentes não se fala assim.
— É assim que um jogador polonês dará 1 milhão! — exclamou Mítia, mas logo se conteve. — Perdão, pánie, não tenho razão de novo.
Certamente dará ele 1 milhão sob palavra de honra, a honra polonesa. Eis 10 rublos no valete.
— E eu 1 rublo na dama de copas, na bonitinha pánienxa — declarou Maksímov, e, como para dissimulá-lo aos olhares, aproximou-se da mesa e fêz por baixo um sinal-da-cruz. Mítia ganhou, o rublo também.
— Dobro! — gritou Mítia.
— E eu, ainda 1 rublinho, um simples rublinho — murmurou bea-tificamente Maksímov, encantado por haver ganho.
— Perdido! — gritou Mítia. — Dobro!
— Perdeu de novo.
— Pare — disse, de súbito, Kolgánov.
Mítia dobrava sempre sua parada, mas perdia a cada jogada. E os
"rublinhos" ganhavam sempre.
— Perdeste 200 rublos, pánie. Será que apostas ainda? — perguntou o pan do cachimbo.
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— Como, já 200? Pois seja, ainda 200! — E Mítia ia colocar as notas sobre a dama, quando Kolgánov cobriu-a com a mão.
— Basta! — gritou ele, com sua voz sonora.
— Que tem o senhor? — perguntou Mítia.
— Basta, não quero! O senhor não jogará mais.
— Por quê?
— Porque não. Pare, vá-se embora! Não o deixarei jogar mais. Mítia olhava-o com espanto.
— Deixa, Mítia, ele talvez tenha razão; já perdeste muito — proferiu Grúchenhka, num tom singular. Os dois pánowie levantaram-se com ar muito ofendido.
— Está brincando, pánie? — perguntou o mais baixo, fixando severamente Kolgánov.
— Como ousa o senhor? — disse arrebatadamente, por sua vez, Vrubliévski.
— Nada de gritos, nada de gritos! Ah! os galos-da-índia! — exclamou Grúchenhka.
Mítia olhava a uns e a outros sucessivamente: algo o impressionou no rosto de Grúchenhka, ao mesmo tempo que uma idéia nova e estranha lhe vinha ao espírito.
— Páni Agripina! — começou ô pan baixinho, rubro de cólera. De repente, Mítia aproximou-se dele e bateu-lho no ombro.
— Excelência, duas palavras.
— Que deseja, pánie?
— Vamos ao quarto vizinho. Dir-te-ei duas palavras que irão agradar-te.
O pan baixinho admirou-se e olhou Mítia, apreensivo; mas consentiu imediatamente, com a condição de que o pan Vrubliévski o acompanharia.
— É teu guarda-costas? Pois seja, que venha ele também, sua presença é, aliás, necessária... Vamos, pánowie!...
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— Aonde vão? — perguntou Grúchenhka, inquieta.
— Voltaremos agora mesmo — respondeu Mítia. Seu rosto exprimia a resolução e a coragem, tinha um ar bem diferente daquele de uma hora antes, à sua chegada. Conduziu os pánowie não à peça à direita, onde se reunia o coro, mas a um quarto de dormir, repleto de malas, de arcas, com dois grandes leitos e uma montanha de travesseiros. A um canto, uma vela ardia sobre uma mesinha. O pan e Mítia instalaram-se frente a frente e pan Vrubliévski ao lado deles, com as mãos atrás das costas. Os poloneses tinham ar severo, mas intrigado.
— Em que posso servi-lo, senhor? — murmurou o mais baixo.
— Serei breve, pánie. Aqui tenho dinheiro — e exibiu seu maço de cédulas. — Se queres 3 000 rublos, toma-os e vai-te embora.
O pan olhava-o atentamente.
— Três mil, pánie? — Trocou um olhar com Vrubliévski.
— Três mil, pánowie, 3 000! Escuta, vejo que és um homem ajuizado.
Toma 3 000 rublos e vai-te para o diabo com Vrubliévski, ouviste? Mas imediatamente, agora mesmo e para sempre! Sairás por esta porta. Levarei teu sobretudo ou tua peliça. Atrelarão para ti uma tróica, e boa noite, hein?
Mítia esperava a resposta com segurança. O rosto do pan tomou uma expressão das mais decididas.
— E os rublos?
— Aqui, estão, pánie: 500 rublos como sinal, imediatamente, e 2 500
amanhã na cidade. Juro pela minha honra que os terás, ainda que fosse preciso arrancá-los de baixo da terra!
Os poloneses trocaram novo olhar. O rosto do mais baixo tornou-se hostil.
— Setecentos, 700 imediatamente! — acrescentou Mítia, sentindo que a coisa ia atrapalhar-se. — Pois bem, pánie, não me acreditas? Não posso dar-te os 3 000 rublos duma vez. Voltarias amanhã para junto dela.
Aliás, não os tenho comigo, estão na cidade — balbuciou Mítia, perdendo coragem a cada palavra. — Palavra de honra, num esconderijo...
Vivo sentimento de amor-próprio brilhou no rosto do pan baixinho.
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— É tudo quanto queres? — perguntou, ironicamente. — Fora! Que vergonha! — E cuspiu. Pan Vrubliévski imitou-o.
— Tu cospes, pánie — disse Mítia, desolado Dor causa de seu fracasso —, porque pensas tirar vantagem de Grúchenhka. Sois, todos dois, uns idiotas!
— Isto me ofende profundamente! — disse o pan baixinho, vermelho como uma lagosta e, no cúmulo da indignação, saiu do quarto com Vrubliévski, que se bamboleava. Mítia seguiu-os, todo confuso. Temia Grúchenhka, pressentindo que o pan iria queixar-se. Foi o que aconteceu.
Com um ar teatral, plantou-se diante de Grúchenhka e repetiu:
— Páni Agripina, fui profundamente ofendido!
Mas Grúchenhka, como que queimada ao vivo, perdeu a paciência e gritou, vermelha de cólera:
— Fala russo, nem uma palavra de polonês! Falavas russo outrora.
Tê-lo-ias esquecido em cinco anos?
— Páni Agripina...
— Chamo-me Agrafiena, sou Grúchenhka! Fala russo, se queres que te escute!
O pan, sufocado, gaguejou com ênfase, estropiando as palavras:
— Páni Agrafiena, vim para esquecer o passado e tudo perdoar até este dia...
— Perdoar como? Foi para perdoar que vieste? — interrompeu Grúchenhka, que se levantou.
— Isto mesmo, páni, porque tenho coração generoso. Mas tive grande surpresa vendo teus amantes. Pan Mítia ofereceu-me 3 000 rublos para que eu me vá embora. Cuspi-lhe na cara.
— Como? Ele te oferecia dinheiro por mim? É verdade, Mítia?
Ousaste-o? Estou, pois, à venda?
— Pánie, pánie — disse Mítia —, ela é pura e jamais fui seu amante!
Mentiste...
— Como ousas defender-me diante dele? Não foi por virtude que 440
me conservei pura, nem por temor de Kuzmá, era para ter o direito de tratar de miserável esse homem. Recusou ele deveras teu dinheiro?
— Pelo contrário, aceitava-o; somente queria os 3 000 rublos imediatamente e eu só lhe dava 700 rublos de entrada.
— Está claro; soube que tenho dinheiro, eis por que quer casar comigo.
— Páni Agripina, sou um cavalheiro... sou... um nobre polonês e não um vagabundo! Vim para casar contigo, mas não encontro mais a mesma páni, a de hoje é uma teimosa e desavergonhada.
— Volta para donde vens! Vou mandar pôr-te para fora daqui! Tola que fui por atormentar-me durante cinco anos! Mas não era por causa dele que me atormentava, era o meu rancor que eu acarinhava. Aliás, meu amante não era isso. Parece mais o pai dele! Onde encomendaste uma peruca? O outro ria, cantava, era um falcão, mas tu não passas de uma galinha molhada! E eu que passei cinco anos em lágrimas, ó tola criatura!
Recaiu sobre a poltrona e ocultou seu rosto nas mãos. Naquele momento, no quarto vizinho, o coro das moças, afinal reunido, entoou uma ousada canção dançável.
— Isto é uma Sodoma! — gritou pan Vrubliévski. — Patrão, ponha para fora essas desavergonhadas!
O hospedeiro, que esperava desde muito tempo na porta, adivinhando pelos gritos que estavam a brigar, entrou sem demora.
— Que berros são esses? — apostrofou ele Vrubliévski.
— Animal!
— Animal? Com que cartas estavas jogando ainda há pouco? Dei-te um baralho novinho. Que fizeste dele? Empregaste cartas falsas! Isso podia levar-te à Sibéria, sabes tu? Porque equivale a passar moeda falsa... — Indo ao divã, pôs a mão entre o espaldar e unia almofada, retirando dali o baralho lacrado.
— Ei-lo, o meu baralho, intato. — Elevou-o no ar e mostrou-o aos assistentes. — Vi-o operar e substituir suas cartas pelas minhas. És um velhaco e não um pan.
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— E eu vi o outro pan trapacear duas vezes! — disse Kolgánov.
— Ah! que vergonha, que vergonha! — Grúchenhka juntou as mãos, corando. — Meu Deus, que homem ele se tornou!
— Bem o imaginava! — disse Mítia.
Então, pan Vrubliévski, confuso e exasperado, gritou para Grúchenhka, ameaçando-a com o punho:
— Rameira!
Mítia já se havia lançado sobre ele; agarrou-o, ergueu-o e carregou-o num abrir e fechar de olhos até o quarto onde tinham estado antes.
— Larguei-o no soalho! — anunciou, ao voltar, resfolegante. —
Debate-se o canalha, mas não voltará!... — Fechou um dos batentes da porta e, mantendo o outro aberto, gritou para o pan baixinho:
— Excelência, não gostaria de fazer-lhe companhia? Rogo-lhe...
— Mítri Fiódorovitch — disse Trifon Borísovitch —, retoma deles teu dinheiro então! É como se eles te houvessem roubado.
— Faço-lhes presente de meus 50 rublos — disse Kolgánov.
— E eu dos meus 200. Que isto lhes sirva de consolação!
— Bravo, Mítia! Que grande coração! — gritou Grúchenhka num tom em que vibrava viva irritação.
O pan baixinho, rubro de cólera, mas que nada perdera de sua dignidade, dirigiu-se para a porta; de repente parou e disse a Grúchenhka:
— Páni, se queres seguir-me, vem, se não, adeus!
Gravemente, sufocado de indignação e de amor-próprio ferido, saiu.
Sua vaidade era extrema; mesmo depois do que se passara, esperava ainda que a páni o seguiria. Mítia fechou a porta.
— Fecha-os — disse Kolgánov. Mas a fechadura rangeu do lado deles. Tinham-se fechado eles próprios.
— Bravo! — gritou Grúchenhka, com raiva implacável. — Assim é que deve ser!
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VIII
DELÍRIO
Começou então quase uma orgia, uma festa de arromba.
Grúchenhka foi a primeira a pedir bebida:
— Quero embriagar-me como da outra vez, lembras-te, Mítia, quando nos conhecemos!
Mítia delirava quase, pressentia "sua felicidade". Aliás, Grúchenhka afastava-o de seu lado a cada instante:
— Vai divertir-te, dize-lhes que dancem e se divirtam como da outra vez!
Estava superexcitada. O coro se reunia no quarto vizinho. Aquele em que se achavam era exíguo, separado em duas partes por uma cortina de chita da Índia, por trás da qual um imenso leito com um edredão e uma montanha de travesseiros. Todos os quartos de aparato daquela casa possuíam um leito. Grúchenhka instalou-se à porta; era dali que olhava o coro e as danças, por ocasião do primeiro festim deles. As mesmas moças encontravam-se, ali os judeus com seus violinos e suas cítaras tinham chegado, bem como a famosa tieliega com as provisões. Mítia movimentava-se no meio de toda aquela gente. Homens e mulheres acorriam, despertados e farejando um rega-bofe enorme, como um mês antes. Mítia cumprimentava e beijava os conhecidos, servindo de beber a quem chegava. Somente as moças apreciavam o champanha, os mujiques preferiam o rum e o conhaque, sobretudo o ponche. Mítia ordenou que preparassem chocolate para as moças e conservassem ferventes a noite inteira três samovares para oferecer chá e ponche a quantos os quisessem.
Em suma, uma pândega extravagante começou. Mítia sentia-se ali no seu elemento e animava-se à medida que a desordem aumentava. Se um mujique lhe tivesse então pedido dinheiro, teria tirado seu maço de notas e distribuído à direita e à esquerda sem contar. Eis sem dúvida por que, a fim de preservar Mítia, o dono da casa, Trifon Borísovitch, que renunciara a deitar-se naquela noite, quase não o deixava. Não bebia (um copo de ponche ao todo), velando, cuidadosamente, à sua maneira, pelos interesses de Mítia. Quando se tornava preciso, detinha-o, afetuosa e 443
servilmente, e pregava-lhe um sermão, impedindo-o de distribuir como "da outra vez" aos mujiques "charutos, vinho do Reno" e, Deus nos guarde, dinheiro. Indignava-se ao ver as moças comerem bombons e bebêrem licores.
— Estão cheias de piolhos, Mítri Fiódorovitch; meter-lhes-ia de bom grado o pé em certo lugar, isto seria mesmo fazer-lhes honra. Mítia lembrou-se de Andriéí e mandou levar-lhe ponche: "Ofendi-o ainda há pouco", repetia com voz enternecida. Kolgánov recusou a princípio beber e o coro lhe desagradou muito, mas, depois de ter absorvido dois copos de champanha, tornou-se bastante alegre e achou tudo perfeito, os cantos e a música. Maksímov, satisfeito e meio bêbado, não o deixava. Grúchenhka, a quem o vinho subia à cabeça, apontava Kolgánov a Mítia: "Que rapaz gentil!" E Mítia corria a beijar todos dois. Pressentia muitas coisas; ela não lhe dissera nada ainda de semelhante e retardava o momento; por vezes somente lançava-lhe um olhar cheio de ardor. De repente, pegou-lhe na mão e fê-lo sentar-se ao lado dela.
— Que chegada a tua ainda há pouco! Tive tanto medo! Querias ceder-me a ele, não é? É verdade?
— Não queria perturbar a tua felicidade. Ela, porém, não o escutava.
— Está bem, vai, diverte-te, não chores, eu te chamarei de novo.
Deixou-o, voltou a escutar as canções, a olhar as danças, enquanto o acompanhava com o olhar; ao fim de um quarto de hora, tornou a chamá-lo.
— Fica aqui, conta-me, como soubeste de minha partida, quem foi o primeiro a informar-te?
Mítia começou seu relato desordenadamente, duma maneira incoerente, por vezes franzia as sobrancelhas e parava.
— Que tens? — perguntava-lhe ela.
— Nada. Deixei lá embaixo um doente. Para que ele fique curado, para saber que ficará curado, daria dez anos de minha vida!
— Deixa-o tranqüilo, esse teu doente. Então querias matar-te amanhã, bobinho, por quê? Gosto dos desmiolados, como tu — murmurou ela, com a voz um tanto pastosa. — Então estás disposto a tudo por minha causa, não é? E querias deveras matar-te amanhã? Espera, dir-te-ei talvez 444
uma palavrinha... não hoje, amanhã. Quererias hoje? Não, não quero... Vai divertir-te.
Uma vez, no entanto, ela o chamou com ar preocupado.
— Por que estás triste? Porque estás triste, vejo-o — acrescentou ela, com os olhos fitos nos dele. — Por mais que beijes os mujiques e te movimentes, bem o percebo. Uma vez que estou alegre, fica alegre também... Amo alguém aqui... adivinha quem! Olha, ele adormeceu, o coitado, está bêbado.
Falava de Kolgánov, que estava embriagado, com efeito, e dormitava em cima do divã. Mas, de parte a embriaguez, sentia ele tristeza ou, como dizia, "tédio". As canções das moças, que se tornavam por demais lascivas e licenciosas, à medida que bebiam, tinham acabado por aborrecê-lo. O mesmo com as danças; duas moças, disfarçadas de urso, eram
"exibidas" por Stiepanida, uma mocetona armada dum cacete.
"Entusiasmo, Maria", gritava, "se não, toma cuidado!" Finalmente, os ursos rolaram no soalho duma maneira indecente, com explosões de gargalhadas dum público grosseiro.
— Que se divirtam, que se divirtam! — disse sentenciosamente Grúchenhka, num ar extasiado. — É o dia deles. Por que não haveriam de divertir-se?
Kolgánov olhava com ar de desgosto:
— Como são baixos esses costumes populares! — observou, afastando-se. Ficou sobretudo chocado por uma canção "nova", com um estribilho alegre, em que um bárin em viagem interrogava as moças: O bárin às moças perguntou: Gostam de mim, gostam de mim, meninas?
Mas estas acham que não podem amá-lo: O bárin me surraria E eu dele não gostaria. Depois foi a vez de um cigano, que não é mais feliz: O cigano há de roubar E eu lágrimas derramar. Outras personagens desfilam, fazendo a mesma pergunta, até um soldado, repelido com desprezo: O soldado levará Seu saco e eu atrás. . . Seguia-se um verso dos mais cínicos, cantado abertamente e que fazia furor entre os ouvintes. Acabava-se pelo comerciante: O mercador às moças perguntou: Gostam de mim, gostam de mim, meninas? Dele, elas gostam muito porque O mercador será rico E eu dona de tudo fico. Kolgánov zangou-se: 445
— Só falta nessa canção um ferroviário ou um judeu para fazer perguntas às moças. Garanto que ganhariam para todos.
Quase ofendido, declarou que se entediava, sentou-se no divã e adormeceu. Seu rosto gentil, um pouco empalidecido, repousava sobre a almofada.
— Olha como ele é belo — disse Gruchenhka a Mítia. — Passei-lhe a mão pelos cabelos, dir-se-ia linho...
E, inclinando-se sobre ele, beijou-lhe com ternura a testa. Kolgánov abriu logo os olhos, olhou-a, ergueu-se, perguntou com ar preocupado:
— Onde está Maksímov?
— Eis o que lhe faz falta! — Gruchenhka pôs-se a rir. — Fica comigo um minuto. Mítia, vai procurar o Maksímov dele.
Maksímov não largava as moças, exceto para ir beber licores. Já bebêra duas xícaras de chocolate. Estava com o nariz escarlate, os olhos úmidos e ternos. Aproximou-se e declarou que ia dançar A Tamanqueira.
— Na minha infância ensinaram-me essas danças mundanas...
— Vai com ele, Mítia, eu o verei dançar daqui.
— Eu também vou olhar — exclamou Kolgánov, declinando ingenuamente do convite de Gruchenhka para ficar com ela. E todos foram ver.
Maksímov dançou, com efeito, mas não obteve êxito, salvo da parte dê Mítia. Sua dança consistia em saltitar com contorsões, com as solas do sapato no ar; a cada salto, Maksímov batia com a mão na sola. Isto desagradou a Kolgánov, mas Mítia beijou o dançarino.
— Obrigado, deves estar fatigado. Queres bombons, heín? Um charuto, talvez?
— Um cigarro.
— Queres beber?
— Tomei licores... Não tem bombons de chocolate?
— Há uma porção em cima da mesa, escolhe, meu anjo!
— Não, prefiro os de baunilha... para os velhos... ih! ih! ih!
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— Não, irmão, não há desses.
— Escute! — disse o velho, inclinando-se para o ouvido de Mítia. —
Aquela moça ali, a Maria, ih! ih! ih! Gostaria bem de conhecê-la, graças à sua bondade...
— Vejam só isso! Estás brincando, camarada.
— Não faço mal a ninguém — murmurou humildemente Maksímov.
— Bem, bem. Aqui, camarada, a gente tem de contentar-se com cantar e dançar, ainda que, afinal... Espera... Regala-te, bebe, diverte-te.
Tens necessidade de dinheiro?
— Depois, talvez — sorriu Maksímov.
— Bem, bem.
Mítia tinha a cabeça em fogo. Saiu para o alpendre que cercava uma parte do prédio. O ar fresco lhe fêz bem. Só na escuridão, segurou a cabeça com as duas mãos. Suas idéias esparsas agruparam-se de súbito e tudo se aclarou a uma luz terrível... "Se tenho de matar-me é agora ou nunca", pensou ele. "Pegar uma pistola e acabar neste canto escuro!" Cerca de um minuto ficou indeciso. Ao vir a Mókroie, tinha na consciência a vergonha, o roubo cometido e o sangue derramado... Mas sentia-se mais à vontade.
Tudo estava acabado. Gruchenhka, cedida a um outro, não existia mais para ele. Sua decisão fora fácil de tomar, parecia pelo menos inevitável e necessária, pois por que haveria de viver doravante? Mas a situação não era mais a mesma. Aquele fantasma terrível, aquele homem fatal, o amante de outrora, desaparecera sem deixar traços. A aparição temível tornava-se um boneco ridículo que se trancava a chave. Gruchenhka tem vergonha e adivinha em seus olhos quem é que ela ama. Bastaria agora viver, e é impossível, oh! maldição! "Meu Deus, ressuscita aquele que jaz perto da paliçada! Afasta de mim esse cálice amargo! Porque tu praticaste milagres para pecadores como eu! E se o velho vive ainda? Oh! então, lavarei a vergonha que pesa sobre mim, restituirei o dinheiro roubado, arrancá-lo-ei de sob a terra... A infâmia só terá deixado traços em meu coração para sempre. Mas não, são sonhos impossíveis! Oh! maldição!"
Um raio de esperança aparecia-lhe, no entanto, nas trevas. Correu para o quarto, para ela, para sua rainha por toda a eternidade. "Uma hora, um minuto de seu amor não valem o resto da vida, ainda mesmo nas 447
torturas da vergonha? Vê-la, a sós, ouvi-la, não pensar em nada, esquecer tudo, pelo menos nesta noite por uma hora, um instante!" Ao tornar a entrar, encontrou o hospedeiro Trifon Borísovitch, que lhe pareceu sombrio e preocupado.
— Então, Borísovitch, estavas à minha procura?
— Não — o hospedeiro pareceu constrangido —, por que haveria de procurá-lo? Onde estava o senhor?
— Por que estás tão carrancudo? Estarias zangado? Espera, vais poder deitar-te... Que horas são?
— Já deve passar de 3 horas.
— Vamos acabar, vamos acabar.
— Mas não adianta nada. Enquanto o senhor quiser... "Que há?", pensou Mítia correndo para a sala de dança. Gruchenhka não estava mais ali. No quarto azul Kolgánov dormitava sobre o divã. Mítia olhou por trás das cortinas. Sentada sobre uma mala, com a cabeça inclinada sobre o leito, ela chorava copiosamente, esforçando-se por abafar seus soluços. Fez sinal a Mítia para se aproximar e tomou-lhe a mão.
— Mítia, Mítia, eu o amava! Não cessei de amá-lo durante cinco anos. Era a ele que eu amava ou ao meu rancor? Era a ele, oh! era a ele!
Menti, dizendo o contrário!... Mítia, tinha eu dezessete anos então, era ele tão terno, tão alegre, cantava-me canções... ou então assim me parecia a mim, meninota tola. Agora, meu Deus, não é mais absolutamente o mesmo. Seu rosto mudou, não o reconhecia. Ao vir aqui, pensava todo o tempo: "Como irei abordá-lo, que lhe direi, que olhares trocaremos?"...
Minha alma desf alecia... e foi como se recebesse um balde de água suja.
Dir-se-ia um professor sisudo. Cheguei a ficar boba. Pensei a princípio que a presença de seu comprido camarada o constrangia. Pensei, ao olhá-los: por que não acho nada para dizer-lhe? .Sabes, foi a mulher dele que o estragou, a tal pela qual me abandonou... Ela o metamorfoseou, Mítia, que vergonha! Oh! que vergonha sinto, Mítia, vergonha por toda a minha vida!
Maldito sejam esses cinco anos!
Desfez-se de novo em lágrimas, sem largar a mão de Mítia.
— Mítia, meu querido, não te vás, quero dizer-te uma coisa —
murmurou ela, erguendo a cabeça. — Escuta, dize-me a quem amo. Amo 448
alguém aqui, quem é? — Um sorriso brilhou em seu rosto cheio de lágrimas. — À entrada dele, meu coração desfaleceu: 'Tola, eis aquele a quem amas", disse meu coração. Tu apareceste e tudo se iluminou. "De quem tem ele medo?", pensei. Porque tu tinhas medo, não podias falar.
"Não é deles que ele tem medo", disse a mim mesma. "Haverá homem que lhe cause medo? Eu só é que causo, eu só." Porque Fiénia te contou, bobinho, o que gritei a Aliócha pela janela: amei Mítia durante uma hora e parto para amar... outro. Mítia, como pude pensar que amaria outro depois de ti? Perdoas-me, Mítia? Amas-me? Amas-me tu?
Levantou-se, pôs as mãos nos ombros dele. Mudo de felicidade, contempla-lhe ele os olhos, o sorriso; de repente, apertou-a em seus braços.
— Tu me perdoas o ter-te feito sofrer? Era por maldade que eu vos torturava a todos. Foi por maldade que| enlouqueci o velho... Lembras-te do copo que partiste em minha casa? Lembrei-me disso e fiz o mesmo hoje bebendo ao "meu coração vil". Mítia, por que não me beijas? Depois de um beijo tu me olhas, tu me escutas... Para que escutar-me? Beija-me com mais força, assim. Não se deve amar pela metade! Serei agora tua escrava, tua escrava por toda a vida! É doce ser escrava! Beija-me! Faze-me sofrer, faze de mim o que qui-seres... Oh! é preciso fazer-me sofrer... Pára, espera, depois, não quero assim... — E ela o repeliu, de repente. — Vai-te, Mítia, vou beber, quero embriagar-me, dançarei bêbeda, quero-o, quero-o.
Libertou-se dele e saiu. Mítia seguiu-a, cambaleando. "Aconteça o que acontecer, não importa, daria o mundo inteiro por este instante", pensava ele. Grúchenhka bebeu dum trago um copo de champanha, que a aturdiu. Sentou-se numa cadeira, sorrindo de felicidade. Suas faces coloriram-se, sua vista turvou-se, seu olhar apaixonado fascinava. O
próprio Kolgánov ficou encantado e aproximou-se dela.
— Sentiste quando te beijei ainda há pouco, enquanto dormias? —
murmurou ela. — Estou bêbeda agora, e tu? Por que não bebes, Mítia? Eu bebi...
— Já estou embriagado... de ti, e quero ficar bêbado de vinho. —
Bebeu ainda um copo e — isto pareceu-lhe estranho — esse derradeiro copo embriagou-o de repente, a ele que suportara a bebida até então. A partir daquele momento, tudo girou em torno dele, como no delírio.
Andava, ria, falava a todo mundo, não se conhecia mais. Só um 449
sentimento ardente se manifestava nele por momentos "como brasa na alma", lembrou-se ele mais tarde. Aproximava-se dela, contemplava-a, escutava-a... Ela se tornou bastante loquaz, chamando todos, atraindo alguma moça do coro, que mandava embora depois de tê-la beijado, ou por vezes com um sinal-da-cruz. Estava a ponto de chorar. O "velhinho", como chamava a Maksímov, divertia-a bastante. A cada instante vinha ele beijar-lhe a mão, e acabou por dançar de novo, acompanhando-se de uma velha canção de estribilho arrebatante:
O porco, gru, gru, gru,
A bezerra mé, mé, mé,
O pato, coen, coen,
O ganso, quá, quá, quá,
No quarto a franga corria,
Cá, có, có, cantando ia.
— Dá-lhe alguma coisa, Mítia, ele é pobre. Ah! os pobres, os ofendidos!... Sabes tu, Mítia, quero entrar para um convento. Ê sério, irei algum dia. Lembrar-me-ei toda a vida do que me disse Aliócha hoje.
Dancemos agora. Amanhã, no convento, hoje, no baile. Quero fazer loucuras, boa gente, Deus as perdoará. Se eu fosse Deus, perdoaria a todo mundo: "Meus caros pecadores, perdôo a todos". Irei implorar meu perdão: "Perdoai a uma tola, boa gente". Sou uma besta feroz, eis o que sou. Mas quero rezar. Dei uma pequena cebola. Uma miserável como eu quer rezar! Mítia, não os impeça de dançarem. Todo mundo é bom, sabes?
Todo mundo. A vida é bela. Por mau que se seja, é bom viver... Somos bons e maus ao mesmo tempo... Dizei-me, rogo-vos, por que sou tão boa?
Porque sou muito boa...
Assim divãgava Grúchenhka à medida que a embriaguez a dominava. Declarou que queria dançar, levantou-se, cambaleando.
— Mítia, não me dês mais vinho, mesmo se eu pedir. O vinho perturba-me e tudo gira, até mesmo a estufa. Mas quero dançar. Vão ver como danço bem...
Era uma intenção decidida; exibiu um lenço de batista que pegou por uma ponta para agitá-lo ao dançar. Mítia apressou-se, as moças se 450
calaram, prontas a entoar, ao primeiro sinal, a toada da dança russa. Ao saber que Grúchenhka queria dançar, Maksímov lançou um grito de alegria, saltitou diante dela, cantando:
Pernas finas, ancas torneadas, Cauda em forma de trombeta. Ela, porém, o afastou com uma rabanada do lenço.
— Psiu! Que todos venham olhar-me. Mítia, chama também os que estão fechados... Por que fechá-los? Dize-lhes que vou dançar, que eles venham ver-me...
Mítia bateu vigorosamente à porta dos poloneses.
— Ei! vocês aí... Podvisótski! Saiam! Ela vai dançar e chama-os.
— Laidakf — resmungou um dos poloneses.
— E tu és mais que um laidak, és um canalha!
— Por que não pára o senhor de mexer com a Polônia? — observou gravemente Kolgánov, igualmente bêbado.
— É bom, meu rapaz! Mas o que eu disse dirige-se a ele e não à Polônia. O miserável não a representa. Cala-te, meu bonitote, come bombons.
— Que criaturas! Por que não querem eles fazer a paz? — murmurou Grúchenhka, que avançou para dançar. O coro repercutiu. Ela entreabriu os lábios, agitou seu lenço e, depois de ter balanceado, parou no meio da sala.
— Não tenho forças... — murmurou ela, com voz extinta. — Desculpem-me, não posso... perdão.
Saudou o coro, fêz reverências à direita e à esquerda.
— Ela bebeu, a bonita senhora — disseram vozes.
— A madama tomou um pileque — explicou, com uma risadinha, Maksímov às moças.
— Mítia, leva-me... toma-me...
Mítia ergueu-a em seus braços e foi depositar seu precioso fardo sobre o leito. "Agora, vou-me embora", pensou Kolgánov, e, deixando a sala, fechou atrás de si a porta do quarto azul. Mas nem por isso deixou a 451
festa de continuar cada vez mais barulhenta. Grúchenhka estava deitada, Mítia colou seus lábios aos dela.
— Deixa-me — implorou ela —, não me toques antes que eu seja tua... Disse que seria tua... poupa-me... Perto dele, é impossível, causa-me horror isto.
— Obedeço! Nem mesmo em pensamento... Respeito-te! Sim, é repugnante aqui. — Sem afrouxar seu abraço, ajoelhou-se junto do leito.
— Muito embora sejas violento, sei que és nobre... É preciso que seja honestamente doravante... Sejamos honestos e bons, não nos assemelhemos aos animais... Leva-me para bem longe, entendes?... Não quero aqui, mas longe, longe...
— Sim, sim. — Mítia apertou-a. — Levar-te-ei, partiremos... Oh! daria toda a minha vida. por um ano contigo, só para nada saber desse sangue.
— Que sangue?
— Nada — e Mítia rangeu os dentes. — Grucha, queres que seja honestamente, mas sou um ladrão. Roubei Katka. Oh! vergonha! oh!
vergonha!
— Katka? Aquela senhorita? Nã*o, nada lhe tomaste. Reembolsa-a, toma meu dinheiro... Por que gritas? Tudo quanto me pertence é teu. De que serve o dinheiro? Nós o gastamos sem poder impedir-nos disso.
Iremos de preferência cavar a terra. É preciso trabalhar, entendes? Aliócha ordenou-o. Não serei tua amante, mas tua mulher, tua escrava, trabalharei para ti. Iremos cumprimentar a senhorita, pedir-lhe perdão, e partiremos.
Se ela recusar, tanto pior. Entrega-lhe seu dinheiro e ama-me. Esquece-a.
Se a amas ainda, estrangulo-a... Furar-lhe-ei os olhos com uma agulha...
— É a ti que amo, a ti somente. Amar-te-ei na Sibéria.
— Por que na Sibéria? Pois seja. na Sibéria, se quiseres. Que me importa?... Trabalharemos... há neve... Gosto de viajar sobre a neve... e o tintineio da si neta... Estás ouvindo? Uma sínêta tilin-ta... Onde é?
Viajantes que passam... parou.
Fechou os olhos e pareceu adormecer. Uma sinêta, com efeito, havia tilintado ao longe. Mítia reclinou a cabeça sobre o peito de Grúchenhka.
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Não reparava que a campainha tinha cessado de tilintar e que às canções e ao tumulto havia sucedido na casa um silêncio de morte. Grúchenhka abriu os olhos.
— Que há? Dormi? Ah! sim, a sinêta... Sonhei que viajava sobre a neve... a sinêta tilintava e adormeci. íamos os dois juntos, longe, longe.
Beijava-te, apertava-me contra ti, tinha frio e a neve cintilava...
Não sabes como ela cintila ao clarão da lua? Cria-me noutro lugar que não na terra... Desperto, meu bem-amado, junto de ti. Que bom!
— Perto de ti — murmurou Mítia, cobrindo de beijos o peito e as mãos de sua amada. De repente pareceu-lhe que ela olhava diretamente à sua frente, por cima de sua cabeça, com um olhar estranhamente fixo. A surpresa, quase o terror, pintou-se em seu rosto.
— Mítia, quem é esse que nos está olhando? — cochichou ela. Mítia voltou-se e viu alguém que havia afastado as cortinas e os examinava.
Levantou-se e avançou vivamente para o indiscreto.
— Venha cá, peço-lhe — disse uma voz decidida.
Mítia saiu de trás das cortinas e parou. O quarto estava cheio de novas personagens.. Mítia sentiu um arrepio na espinha, estremeceu.
Reconhecera todos imediatamente. Aquele velho de elevada estatura, de sobretudo, com uma insígnia no casquete de seu uniforme, é o is-právnik Mikhail Makráritch. Aquele janota tuberculoso, de botas irrepro-cháveis, é o suplente. Tem um cronômetro de 400 rublos, ele o mostrou. Aquele rapaz de óculos, baixinho... Mítia esqueceu seu nome, mas conhece-o, viu-o: é o juiz de instrução, que acaba de sair da Escola de Direito. Este aqui, é o stanovói, Mavríki Mavríkitch, um de seus conhecidos. E aqueles, com suas placas de metal, que fazem? E depois dois mujiques... Ao fundo, perto da porta, Kolgánov e Trifon Baríso-vitch...
— Senhores... Que há, senhores? — proferiu a princípio Mítia, que, de repente, prosseguiu com voz forte:
— Com-pre-endo!
O rapaz de óculos aproximou-se dele e disse com ar importante, mas com um pouco de pressa:
— Temos de dizer-lhe... numa palavra, peço-lhe que venha aqui, 453
perto do divã... É necessário que tenhamos uma explicação.
— O velho! — exclamou Mítia, exaltado. — O velho ensangüentado! ... Compreendo!
E deixou-se cair sobre uma cadeira.
— Compreendes? Compreendeste? Parricida, monstro, o sangue de teu velho pai grita contra ti! — berrou de repente o velho isprávnik, aproximando-se de Mítia. Estava fora de si, vermelho, trêmulo de cólera.
— Mas é impossível, Mikhail Makáritch! — exclamou o rapaz baixinho. — Não é assim, não é assim!... Não teria jamais esperado semelhante coisa do senhor!...
— Mas está delirando, senhores, delirando! — continuou o isprávnik.
— Olhem-no: à noite, bêbado em companhia de uma mulher perdida, manchado do sangue de seu pai... Está delirando!...
— Rogo-lhe instantemente, meu caro Mikhail Makáritch, que mo-dere seus sentimentos — gaguejou o suplente, senão serei obrigado a tomar...
O pequeno juiz de instrução interrompeu-o e proferiu com voz firme e grave:
— Senhor tenente reformado Karamázov, devo declarar-lhe que o senhor é acusado de ter matado seu pai, Fiódor Pávlovitch, assassinado esta noite.
Acrescentou alguma coisa, o suplente igualmente, mas Mítia escutava sem compreender. Olhava-os a todos com um olhar estupidifiçado.
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LIVRO IX
O PROCESSO PREPARATÓRIO
I
INICIA SUA CARREIRA O FUNCIONÁRIO PIERKHÓTIN
Piotr Ilitch Pierkhótin, que deixamos batendo com todas as suas forças no portão da Casa Morózova, acabou naturalmente fazendo que lhe abrissem. Ouvindo tamanho barulho, Fiénia, ainda mal reposta de seu terror, quase teve uma crise de nervos: imaginou que era Dimítri Fiódorovitch que voltava (se bem que tivesse assistido à sua partida), porque só ele podia bater tão insolentemente. Correu para o porteiro, que despertara com o barulho, e suplicou-lhe que não abrisse. Mas ele, tendo ficado sabendo o nome do visitante e seu desejo de vei Fiedóssia Márkovna para tratar de um negócio importante, decidiu deixá-lo entrar.
Piotr Ilitch pôs-se a interrogar a moça e descobriu logo o fato mais importante: ao lançar-se à procura de Grúchenhka, Dimítri Fiódorovitch levara um pilão e voltara de mãos vazias, mas ensangüentadas. "O sangue pingava", exclamou Fiénia, imaginando na sua perturbação aquela horrenda circunstância. Piotr Ilitch vira aquelas mãos e ajudara a lavá-las; não se tratava de saber se tinham secado rapidamente, mas se Dimítri Fiódorovitch tinha ido verdadeiramente à casa de seu pai com o pilão, e donde se podia concluir isso. Piotr Ilitch insistiu neste ponto e, muito embora nada haja em suma sabido de certo, ficou quase convencido de que Dimítri Fiódorovitch só pudera ter ido à casa de seu pai e que, por conseqüência, deveria ter-se passado lá alguma coisa. "Quando ele voltou", acrescentou Fiénia, "e quando lhe confessei tudo, perguntei-lhe: 'Dimítri Fiódorovitch, por que tem o senhor as mãos em sangue?' Respondeu-me que era sangue humano e que acabara de matar alguém. Assim confessou, arrependendo-se, depois saiu correndo como um louco. Pus-me a pensar:
'Onde bem pode ir agora? Irá a Mókroie matar minha patroa'. Corri então à casa dele para suplicar-lhe que a poupasse. Ao passar diante da venda dos Plastunovi, vi-o quando ia partir, mas de mãos limpas." (Fiénia notara este detalhe.) A avó confirmou o relato de sua neta. Piotr Ilitch deixou a 455
casa ainda mais perturbado do que quando nela entrara.
Parecia que o mais simples seria agora ir à casa de Fiódor Pávlovitch informar-se se nada acontecera; em caso afirmativo, e uma vez ciente, iria à casa do ispravnik. Piotr Ilitch estava bem decidido a isso. Mas a noite estava escura, ò portão maciço, conhecia muito pouco Fiódor Pávlovitch; se, à força de bater, lhe abrissem e nada se tivesse passado, no dia seguinte o malicioso Fiódor Pávlovitch iria contar na cidade, como uma anedota, que, à meia-noite, o funcionário Pierkhótin, a quem não conhecia, forçara sua porta para saber se ele, Fiódor, não tinha sido assassinado. Seria um escândalo! Ora, Piotr Ilitch temia o escândalo mais que qualquer coisa. No entanto, o sentimento que o impelia era tão poderoso que, depois de ter batido o pé com cólera e haver invectivado a si mesmo, lançou-se noutra direção, para a casa da Senhora Khokhlakova. Se ela respondesse negativamente à pergunta, a respeito dos 3 000 rublos dados àquela hora a Dimítri Fiódorovitch, iria procurar o isprávnik, sem passar em casa de Fiódor Pávlovitch; senão, deixaria tudo para o dia seguinte e voltaria para sua casa. Compreende-se bem que a decisão do jovem de se apresentar às 11 horas da noite em casa de conhecida senhora da sociedade, obrigá-la a levantar-se talvez para fazer-lhe uma pergunta singular, arriscava a provocar um escândalo bem maior que ir pedir informação em casa de Fiódor Pávlovitch. Mas tal é muitas vezes a sorte, sobretudo em semelhantes casos, das decisões das pessoas mais fleumatícas. Piotr Ilitch não estava de todo fleumático naquele momento! Lembrou-se toda a sua vida de como a inquietação insopitável que se apoderara dele degenerou em suplício e árrastou-o contra a sua vontade. Bem entendido, injuriou-se durante todo o caminho por causa daquele tolo passo que dava, mas "irei até o fim!", repetia pela décima vez, rangendo os dentes, e manteve sua palavra.
Soavam 11 horas, quando chegou à casa da Senhora Khokhlakova.
Penetrou com bastante facilidade no pátio, mas o porteiro não pôde dizer-lhe com certeza se a senhora já estava deitada, como era costume seu àquela hora. "Faça-se anunciar e verá bem se o recebem ou não." Piotr Ilitch subiu, mas as dificuldades começaram. O lacaio não queria anunciá-lo; acabou por chamar a arrumadeira. Num tom polido, mas firme, Piotr Ilitch rogou-lhe que dissesse à sua ama que o funcionário Pierkhótin desejava falar-lhe a respeito dum assunto importante, sem o que não se teria permitido incomodá-la; "anuncie-me nestes termos", insistiu ele.
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Esperou no vestíbulo. A Senhora Khokhlakova já se achava no seu quarto de dormir. A visita de Mítia perturbara-a, pressentia para a noite uma dor de cabeça certa em semelhante caso. Ficou surpresa, mas recusou com irritação receber o jovem funcionário, se bem que a visita de um desconhecido, a semelhante hora, superexcitasse sua curiosidade feminina.
Mas Piotr Ilitch teimou desta vez como um mulo; vendo-se repelido, insistiu imperiosamente e fêz dizer nos mesmos termos "que se tratava dum assunto muito importante, e que a senhora lamentaria talvez depois não o ter recebido". A criada de quarto olhou-o com espanto e voltou para levar o recado. A Senhora Khokhlakova ficou estupefata, refletiu, perguntou que aspecto tinha o visitante e soube que estava bem trajado, era jovem e bastante polido. Notemos, de passagem, que Piotr Ilitch era belo rapaz e sabia disso. A Senhora Khokhlakova decidiu aparecer. Estava em roupão de quarto e de chinelas e lançou um xale preto sobre os ombros. O funcionário foi convidado a entrar no salão. A dona da casa apareceu com ar interrogador, e, sem mandar o visitante sentar-se, convidou-o a explicar-se.
— Permito-me incomodá-la, minha senhora, a respeito de nosso conhecido comum, Dimítri Fiódorovitch Karamázov — começou Pierkhótin; mal, porém, havia pronunciado este nome, viva irritação pintou-se no rosto de sua interlocutora. Abafou ela um grito e interrompeu-o com cólera:
— Será que haverão de atormentar-me ainda por muito tempo com tão horrível personagem? Como ousou o senhor incomodar uma dama a quem não conhece, a semelhante hora... para lhe falar de um indivíduo que, aqui mesmo, há três horas, veio assassinar-me, bateu com o pé e saiu duma maneira escandalosa? Saiba, senhor, que darei queixa contra o senhor; queira jetirar-se imediatamente... Sou mãe, vou... eu...
— Então queria ele matá-la também?
— Será que ele já matou alguém? — perguntou impetuosamente a Senhora Khokhlakova.
— Queira conceder-me um minuto de atenção, minha senhora, e lhe explicarei tudo — respondeu com firmeza Pierkhótin. — Hoje, às 5 horas da tarde, o Senhor Karamázov me pediu emprestados 10 rublos, na qualidade de amigo, e sei positivamente que ele estava sem dinheiro; às 9
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horas, foi à minha casa tendo na mão um maço de cédulas de 100 rublos, para cerca de 2 000 ou 3 000 rublos. As mãos e o rosto ensangüentados, tinha o ar de um louco. À minha pergunta, donde provinha tanto dinheiro, respondeu textualmente que o recebera da senhora e que a senhora lhe adiantava uma soma de 3 000 rublos para que ele partisse em busca de minas de ouro...
O rosto da Senhora Khokhlakova exprimiu uma emoção súbita.
— Meu Deus! Foi o seu velho pai que ele matou! — exclamou ela, juntando as mãos. — Não lhe dei o dinheiro, absolutamente! Oh! corra, corra!... Não diga mais nada! Salve o velho, corra à casa do pai dele!
— Permita, minha senhora, com que então não lhe deu o dinheiro?
Está bem certa de não lhe ter dado nenhuma soma?
— Nenhuma, nenhuma. Recusei, porque não sabia ele apreciar. Partiu furioso, batendo os pés. Lançou-se contra mim, recuei... Imagine —
porque nada quero ocultar-lhe — que cuspiu em cima de mim! Mas por que ficar de pé? Sente-se... Desculpe-me, eu... Ou antes, corra a salvar aquele desgraçado velho de uma morte horrível!
— Mas se já o matou?
— Com efeito, meu Deus! Que vamos fazer agora? Que pensa o senhor que é preciso fazer?
Entretanto fizera Piotr Ilitch sentar-se e tomara lugar em frente dele.
Este expôs-lhe brevemente os fatos de que fora testemunha, contou sua recente visita à casa de Fiénia e falou do pilão. Todos esses detalhes transtornaram a dama, que lançou um grito e pôs a mão diante dos olhos.
— Imagine o senhor que pressenti tudo isso! É um dom que tenho, todos os meus pressentimentos se realizam. Quantas vezes tenho olhado para aquele terrível homem pensando: acabará matando-me. E eis que aconteceu... Ou antes, se não me matou agora como a seu pai, foi graças a Deus, que me protegeu; além do mais, teve vergonha, porque eu lhe havia amarrado ao pescoço, aqui mesmo, uma pequena imagem, proveniente das relíquias de Santa Bárbara, mártir... Estive bem perto da morte naquele minuto. Tinha-me aproximado completamente dele, que me estendia o pescoço! Sabe o senhor, Piotr Ilitch (o senhor disse, creio, que é esse o seu nome), não creio nos milagres, mas aquela imagem, aquele 458
milagre evidente em meu favor, isto me impressiona e recomeço a crer em não importa o quê. Ouviu falar do stáriets Zósima?... Aliás, não sei o que digo... Imagine que ele cuspiu em mim com aquela imagem no pescoço...
Cuspiu somente, sem matar-me, e... e eis para o que ele correu! Que vamos fazer agora? Que pensa o senhor?
Piotr Ilitch levantou-se e declarou que ia à casa do ispravnik contar tudo e este agiria como lhe conviesse.
— Ah! É um homem excelente, conheço Mikhail Makárovitch. Vá ter com ele sem falta. Como o senhor é engenhoso, Piotr Ilitch! No seu lugar, jamais teria pensado nisso!
— Tanto mais que me acho eu mesmo em bons termos com o ispravnik — observou Piotr Ilitch, visivelmente desejoso de escapar àquela dama expansiva que não o deixava despedir-se.
— Sabe duma coisa? Venha contar-me o que tiver visto e sabido... as verificações... o que se fará dele... Diga-me, a pena de morte não existe entre nós? Venha sem falta, ainda mesmo às 3 horas da manhã, até mesmo às 4... Mande acordar-me, sacudir-me, se não me levantar... Aliás, não dormirei, sem dúvida. E se eu o acompanhasse?
— N...ão, mas se certificar por escrito, para o que der e vier, que não deu o dinheiro a Dimítri Fiódorovitch, isto poderia servir... na ocasião...
— Decerto! — aprovou a Senhora Khokhlakova, lançando-se para sua escrivaninha. — Sabe? Estou impressionada e confundida com a sua engenhosidade, a sua perícia nessas questões... Serve aqui? Isto me causa grande prazer...