Os Irmãos Karamázov
Capítulo 32
"Três dias depois celebraram-se umas bodas em Caná da Galiléia; encontrava-se lá a Mãe de Jesus.
"E foi também convidado Jesus com seus discípulos para as bodas.
" 32
— As bodas?... — Esta idéia turbilhonava no espírito de Aliócha. —
Ela também é feliz... foi a um festim... Não, decerto, não levou faca... Era simplesmente uma palavra desagradável... Devem-se perdoar sempre as palavras desagradáveis. Consolam a alma... Sem elas a dor seria insuportável. Rakítin seguiu pelo beco. Enquanto pensar ele em seus agravos, seguirá sempre por um beco... Mas a estrada, a grande estrada reta, clara, cristalina, com o sol resplandecente, no final... Que é que se lê?
"... E, faltando o vinho, a mãe de Jesus disse-lhe: 'Não têm vinho'", ouviu Aliócha.
— Ah! sim, perdi o começo. É pena, gosto dessa passagem: as bodas de Cana, o primeiro milagre... Que belo milagre! Foi consagrado à alegria e não ao luto... "Quem ama os homens, ama também sua alegria... " O
defunto repetia isto a cada instante, era uma de suas idéias principais...
"Não se pode viver sem alegria", * disse Mítia... "Tudo quanto é verdadeiro e belo respira sempre o perdão", dizia ele também.
"... E Jesus disse-lhe: 'Mulher, que nos importa a mim e a ti isso?
Ainda não chegou a minha hora*.
"Disse sua mãe aos que serviam: 'Fazei tudo o que ele vos disser'. "
— Fazei... Dai alegria a gente muito pobre... Muito pobres, seguramente, pois que até mesmo em suas bodas o vinho faltou... Os histo-riadores contam que em torno do lago de Genesaré e na região estava 32 São João, C. II, vs. 1-10.
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então disseminada a população mais pobre que se possa imaginar... E sua mãe, de grande coração, sabia que ele não viera somente cumprir sua missão, sublime, mas que partilhava da alegria ingênua das pessoas simples e ignorantes que o convidavam cordialmente para suas humildes bodas. "Minha hora ainda não chegou. " Fala com um doce sorriso (deve ter-lhe sorrido ternamente). Na realidade, pode dar-se que tenha baixado à terra para multiplicar o vinho em bodas de pobres? Mas fez o que ela lhe pedia...
"... Disse-lhes Jesus: 'Enchei as talhas de água'. E encheram-nas até em cima.
"Então disse-lhes Jesus: 'Tirai agora e levai ao mestre-sala'. E eles levaram.
"E o mestre-sala, logo que provou a água convertida em vinho, como não sabia donde lhe viera aquele vinho, ainda que o soubessem os serventes, porque tinham tirado a água, chamou o esposo e disse-lhe:
"— Todo homem põe primeiro o bom vinho e quando já o têm bebido bem, então apresenta o inferior; tu, ao contrário, tiveste o bom vinho guardado até agora. "
— Mas que acontece? Por que o quarto está oscilando? Ah! sim... são as bodas, o casamento... bem, decerto. Eis os convidados, os jovens esposos, a multidão alegre e... onde está então o prudente mestre-sala?
Que é isso? O quarto oscila de novo... Quem se levanta na grande mesa?
Como... ele também está aqui? Mas estava no seu caixão... Levantou-se, viu-me, vem para cá... Meu Deus!...
Com efeito, ele se aproximou, o velhinho seco, de rosto sulcado de rugas, rindo docemente. O caixão desapareceu, ele está vestido como ontem, em companhia deles, quando seus visitantes se reuniram. Seu rosto está descoberto, seus olhos brilham. Como pode ser isto, também ele no festim, também ele convidado para as bodas de Cana?
— Tu estás também convidado, meu querido, com todas as regras —
disse sua voz tranqüila. — Por que te escondes aqui, não te vêem... Vem para junto de nós.
É sua voz, a voz do stáriets Zósima... como não haveria de ser ele, pois está chamando? O stáriets toma a mão de Aliócha, que se levantou.
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— Regozijemo-nos — prosseguiu o ancião —, bebamos o vinho novo, o vinho da grande alegria. Vês aqueles convidados? Eis o noivo e a noiva, eis o prudente mestre-sala, prova o vinho novo. Por que estás surpreendido por ver-me? Dei uma cebola e eis-me aqui. Muitos dentre nós não deram senão uma cebola, uma bem pequena cebola... Que são nossas obras? E tu também, meu terno e manso rapaz, tu também soubeste hoje dar uma cebola a uma faminta. Começa tua obra, meu querido! Estás vendo o nosso Sol, tu o percebes?
— Tenho medo... não ouso olhar... — balbuciou Aliócha.
— Não tenhas medo dele. Sua majestade é terrível. Sua grandeza nos esmaga, mas sua misericórdia é sem limites; por amor fêz-se semelhante a nós e se rejubila conosco, muda a água em vinho, para não interromper a alegria dos convidados, aguarda outros, chama-os continuamente por todos os séculos dos séculos. E eis que trazem o vinho novo, vê os copos...
Algo ardia no coração de Aliócha, enchia-o até doer-lhe, lágrimas de alegria derramaram-se de sua alma... Estendeu os braços, lançou um grito, despertou...
De novo o caixão, a janela aberta, e a leitura calma, grave, ritmada do Evangelho. Mas Aliócha não escutava mais. Coisa estranha, ador-mecera de joelhos e encontrava-se agora de pé. De súbito, como erguido de seu lugar, aproximou-se em três passos do ataúde, bateu mesmo com o ombro no Padre Paísi sem dar-se conta disso. O padre ergueu os olhos, mas retomou logo sua leitura, percebendo que o rapaz não se achava em seu estado normal. Aliócha contemplou um instante o caixão, o morto que estava dentro dele estendido, de rosto coberto, com o ícone sobre o peito, o capuz encimado pela cruz de oito braços. Acabava de ouvir sua voz, ecoava ainda em seus ouvidos. Escutou ainda, esperou... de súbito, voltou-se bruscamente e saiu da cela.
Desceu o patamar sem se deter. Sua alma exaltada tinha sede de liberdade, de espaço. Acima de sua cabeça, a abóbada celeste estendia-se até o infinito, as estrelas calmas cintilavam. Do zênite ao horizonte aparecia, indistinta ainda, a Via-Láctea. A noite serena envolvia a terra. As torres brancas e as cúpulas douradas destacavam-se sobre o céu de safira.
As opulentas flores de outono, em redor da casa, haviam adormecido até a 372
manhã. A calma da terra parecia confundir-se com a dos céus, o mistério terrestre confinava com o das estrelas. Aliócha, imóvel, olhava; de súbito, como que ceifado, prosternou-se.
Ignorava por que estreitava a terra, não compreendia por que teria querido, irresistivelmente, abraçá-la toda inteira, mas abraçava-a chorando, inundando-a com suas lágrimas, e prometia a si mesmo, com exaltação, amá-la sempre. "Rega a terra com lágrimas e alegria e ama-a... "
Estas palavras repercutiam em sua alma. A respeito de que choraria? Oh!
no seu êxtase, chorava mesmo a respeito daquelas estrelas que cintilavam no infinito, e não se envergonhava daquela exaltação. Dir-se-ia que os filhos daqueles mundos inumeráveis convergiam em sua alma e que toda ela fremia, em contato com os outros mundos. Teria querido perdoar, a todos e por tudo, e pedir perdão, não por ele, mas pelos outros e por tudo,
"os outros o pedirão por mim". Estas palavras também lhe vinham à memória. De mais a mais, sentia claramente e como que tangivelmente algo de firme e de inabalável penetrar na sua alma. Uma idéia apoderava-se de seu espírito, por toda a sua vida e para sempre. Havia-se prosternado fraco adolescente e reergueu-se lutador sólido para o resto de seus dias. Teve consciência disto, e sentiu-o naquele momento de sua crise.
E nunca mais, dali por diante, pôde Aliócha esquecer aquele instante.
"Minha alma foi visitada naquela hora", dizia ele, mais tarde, crendo firmemente na verdade de suas palavras.
Três dias depois, deixou o mosteiro, de conformidade com a vontade de seu stáriets, que lhe havia ordenado que "vivesse no mundo".
LIVRO VIII
MÍTIA
I
KUZMÁ SAMSÓNOV
Dimítri Fiódorovitch, a quem Grúchenhka, ao voar para uma vida nova, fizera transmitir seu derradeiro adeus, querendo que ele se lembrasse por toda a sua vida duma hora de amor, estava naquele momento 373
às voltas com as piores dificuldades. Como ele mesmo o disse mais tarde, poderia ter sofrido uma congestão cerebral, naqueles dois últimos dias, no estado em que se encontrava. Aliócha não pudera descobri-lo na véspera e não fora ele ao encontro marcado por Ivã no botequim. Seus tocadores mantiveram silêncio, de conformidade com suas instruções. Durante aqueles dois dias, esteve literalmente em apertos, "lutando com seu destino para salvar-se", segundo sua expressão. Ausentou-se mesmo algumas horas da cidade, para um negócio urgente, malgrado seu temor de deixar Grúchenhka sem vigilância. O inquérito ulterior precisou o emprego de seu tempo da maneira mais formal; limitar-nos-emos a notar os fatos essenciais nos dois dias que precederam a catástrofe que se abateu sobre ele.
Se bem que Grúchenhka o tivesse amado durante uma hora, ela o atormentava por vezes impiedosamente. A princípio, nada podia ele conhecer de suas intenções; era impossível penetrá-las pela doçura ou pela violência. Ter-se-ia zangado e desviado dele completamente. Tinha ele a intuição de que ela se debatia na incerteza, sem poder decidir-se; de modo que pensava ele, não sem razão, que devia ela por vezes detestá-lo, a ele e à sua paixão. Tal era talvez o caso, mas não podia compreender exatamente o que causava a ansiedade de Grúchenhka. Na verdade, toda a questão que o atormentava se resumia numa alternativa: ele, Mítia, ou Fiódor Pávlovitch. Aqui é preciso notar um fato certo; estava persuadido de que Fiódor Pávlovitch não deixaria de oferecer a Grúchenhka sua mão (se já não o fizera), e não acreditava um instante sequer que o velho libertino esperasse arranjar tudo com 3 000 rublos. Assim raciocinava Mítia, conhecendo Grúchenhka e seu caráter. Eis por que podia parecer-lhe por vezes que o tormento de Grúchenhka e sua indecisão provinham unicamente do fato de não saber ela qual escolher; ignorando qual dos dois lhe traria mais vantagem. Quanto ao próximo regresso do oficial, do homem que desempenhara um papel fatal em sua vida e cuja chegada esperava ela com tanta emoção e terror — coisa estranha, não pensava ele nisso absolutamente. É verdade que Grúchenhka mantivera silêncio a respeito naqueles últimos dias. No entanto, sabia ele da carta recebida um mês antes, e conhecia mesmo uma parte de seu conteúdo. Gruchenhka lha havia então mostrado num momento de irritação, sem que ele ligasse importância àquilo, o que a surpreendeu. Teria sido difícil explicar por quê; talvez simplesmente porque, acabrunhado pela sua funesta 374
rivalidade com seu pai, nada pudesse imaginar de mais perigoso naquele momento. Não acreditava num noivo surgido não se sabia donde, após cinco anos de ausência, nem em sua próxima chegada, anunciada aliás em termos vagos. A carta era nebulosa, enfática, sentimental, e Gruchenhka lhe dissimulara as derradeiras linhas, que falavam mais claramente de retorno. Mais ainda, Mítia lembrou-se posteriormente do ar de desdém de Gruchenhka por aquela mensagem vinda da Sibéria. Limitou a isso suas confidencias a respeito daquele novo rival, de sorte que pouco a pouco esqueceu ele o oficial. Pensava somente que em todo caso um conflito com Fiódor Pávlovitch estava iminente e devia ter seu desenlace em primeiro lugar. Cheio de ansiedade, esperava a cada instante a decisão de Gruchenhka e acreditava que ela viria bruscamente, por inspiração. Se ela fosse dizer-lhe: "Toma-me, sou tua para sempre", estaria tudo terminado; levá-la-ia consigo para o mais longe possível, senão mesmo para o fim do mundo, para o fim de Rússia; casar-se-iam e instalar-se-iam, incognitamente, ignorados de todos. Então começaria uma vida nova, regenerada, virtuosa, com que ele sonhava apaixonadamente. O lamaçal em que se atolara voluntariamente causava-lhe horror e, como muitos em semelhante caso, contava sobretudo com a mudança de ambiente; escapar àquelas pessoas, às circunstâncias, fugir daquele lugar maldito, seria a renovação completa, a existência transformada. Eis no que acreditava e o que o fazia languescer.
Isto unicamente no caso em que a questão fosse resolvida felizmente.
Havia bem outra solução, outra saída, terrível, porém. Se de repente ela lhe dissesse: "Vaí-te, escolhi Fiódor Pávlovitch, casarei com ele, não tenho necessidade de ti", então... oh! então... Mítia ignorava, aliás, o que aconteceria então, ignorou-o até o derradeiro momento, deve-se-lhe fazer esta justiça. Não tinha intenções determinadas, o crime não foi premeditado. Contentava-se com tocaiar, espionar, atormentava-se, mas não encarava senão um desenlace feliz. Repelia mesmo toda e qualquer outra idéia. Era aqui que começava novo tormento, que surgia nova circunstância, acessória, mas fatal e insolúvel.
No caso em que ela dissesse: "Sou tua, leva-me", como a levaria ele?
Onde arranjaria o dinheiro? Precisamente então, as rendas que recebia desde anos dos pagamentos regulares de Fiódor Pávlovitch estavam esgotadas. Decerto, Gruchenhka tinha dinheiro, mas Mítia se mostrava a este respeito dum orgulho violento; queria levá-la e começar uma 375
existência nova com seus recursos pessoais e não os dela. A idéia mesma de poder recorrer à sua bolsa inspirava-lhe profundo desgosto. Não me estenderei a este respeito, não o analisarei, limitando-me a anotá-lo; tal era seu estado d'alma naquele momento. Podia isso provir inconscientemente dos remorsos secretos que experimentava por haver-se desonestamente apropriado do dinheiro de Catarina Ivânovna: "Sou um miserável aos olhos de uma, sê-lo-ei de novo aos olhos da outra", dizia a si mesmo então, como ele próprio o confessou posteriormente. "Se Gruchenhka o souber, não quererá semelhante indivíduo. Portanto, onde encontrar fundos, ou arranjar esse fatal dinheiro? Senão tudo fracassará, por falta de recursos.
Que vergonha!"
Sabia talvez onde encontrar esse dinheiro. Não direi mais no momento, porque tudo se esclarecerá, mas explicarei sumariamente em que consistia para ele a pior dificuldade: para arranjar aqueles recursos, para ter o direito de tomá-los, seria preciso em primeiro lugar restituir a Catarina Ivânovna seus 3 000 rublos, senão "sou um larápio, um canalha, e não quero começar assim uma vida nova", decidiu Mítia, e resolveu tudo subverter se fosse preciso, mas restituir em primeiro lugar e a qualquer preço aquela soma a Catarina Ivânovna. Deteve-se nesta decisão, por assim dizer, nas derradeiras horas de sua vida, após sua derradeira entrevista com Aliócha na antevéspera, na estrada. Instruído por seu irmão a respeito da maneira pela qual Grúchenhka insultara sua noiva, reconheceu que era um miserável e rogou-lhe que a informasse disto, "se isto pudesse aliviá-la". Na mesma noite, sentiu em seu delírio que valia mais "matar e roubar alguém, contanto que restituísse o dinheiro de Cátia".
"Serei um assassino e um ladrão para todo mundo, seja; irei de preferência para a Sibéria a deixar Cátia dizer que roubei seu dinheiro para fugir com Grúchenhka e começar uma vida nova! Isto é impossível!" Assim falava Mítia, rilhando os dentes, e havia motivo para que receasse por momentos uma congestão cerebral. Mas continuava a lutar...
Coisa estranha: dir-se-ia que com semelhante resolução não lhe restava em partilha senão o desespero, porque onde arranjar tal soma e sobretudo um pobretão como ele? Entretanto, esperou até o fim arranjar aqueles 3 000 rublos, contando que lhe caíssem eles nas mãos duma maneira qualquer, ainda mesmo do céu. É o que acontece àqueles que, como Dimítri, só sabem desperdiçar seu patrimônio, sem ter nenhuma idéia da maneira pela qual se adquire o dinheiro. Era uma tempestade no 376
seu crânio desde o encontro com Aliócha, estando todas as suas idéias enredadas. Assim começou ele pela tentativa mais estranha, porque pode dar-se o caso de que, em semelhantes transes, as empresas mais extravagantes pareçam as mais realizáveis a semelhantes pessoas. Resolveu ir encontrar o comerciante Samsónov, protetor de Grúchenhka, e submeter-lhe um plano, segundo o qual este lhe adiantaria logo a soma desejada.
Estava seguro de seu plano do ponto de vista comercial, perguntando a si mesmo somente como acolheria Samsónov sua proposta, se quisesse encará-la doutra maneira. Mítia não conhecia aquele comerciante senão de vista e jamais lhe havia falado Mas desde muito tempo tinha a convicção de que aquele velho libertino, cuja vida estava por um fio, não se oporia a que Grúchenhka refizesse a sua, casando-se com um homem seguro, até mesmo desejá-lo-ia e facilitaria as coisas, chegada a ocasião. Por ouvir dizer, ou de acordo com certas palavras de Grúchenhka, concluía igualmente que o velho talvez o preferisse a Fiódor Pávlovitch como marido da jovem. Numerosos leitores acharão talvez cínica a expectativa, de parte de Dimítri Fiódorovitch, de semelhante socorro, e a intenção de tirar sua noiva das mãos de seu protetor. Posso simplesmente fazer notar que o passado de Grúchenhka parecia definitivamente enterrado aos olhos de Mítia. Pensava nele cheio de misericórdia e decidira com todo o ardor de sua paixão que, desde que Grúchenhka lhe tivesse dito que o amava e ia casar-se com ele, estariam ambos logo regenerados, desembaraçados de seus vícios, não tendo senão virtudes; perdoar-se-iam mutuamente suas faltas e começariam uma nova existência. Quanto a Kuzmá Samsónov, via nele um homem fatal no passado de Grúchenhka, que não o havia, no entanto, jamais amado, um homem agora "passado", também ele fora de conta. Não poderia fazer sombra a Mítia aquele velho débil cuja ligação se tornara paternal, por assim dizer, e isto desde cerca de um ano. Em todo caso, dava Mítia prova duma grande ingenuidade, porque, com todos os seus vícios, era um homem bastante ingênuo. Essa ingenuidade persuadia-o de que o velho Kuzmá, a ponto de deixar este mundo, experimentava sincero arrependimento pela sua conduta para com Grúchenhka, que não tinha protetor e amigo mais devotado do que aquele velho doravante inofensivo.
No dia seguinte à sua conversação com Aliócha nos campos, Mítia, que quase não havia dormido, apresentou-se cerca das 10 horas da manhã em casa de Samsonov e fêz-se anunciar. A casa era velha, sombria, 377
espaçosa, de um andar, com dependências e um pavilhão. No rés-do-chão moravam os dois filhos dele, casados, sua irmã bastante idosa e sua filha.
Dois caixeiros, um dos quais tinha numerosa família, ocupavam o pavilhão. Todo aquele mundo necessitava de espaço, enquanto o velho vivia sozinho no primeiro andar, não querendo lá nem mesmo sua filha, que cuidava dele e devia subir cada vez que ele tinha necessidade dela, malgrado sua asma inveterada. O primeiro andar compunha-se de grandes peças aparatosas, mobiliadas no velho estilo comercial, com intermináveis fileiras de poltronas maciças e de cadeiras de acaju ao longo das paredes, lustres de cristal cobertos de capas e tremós. Essas peças estavam vazias e inabitadas, confinando-se o velho no seu quartinho de dormir lá no fundo, onde o serviam uma velha criada de touca e um rapaz que se mantinha em cima de uma arca no vestíbulo. Quase não podendo mais andar, por causa de suas pernas inchadas, só raramente se levantava da poltrona, sustentado pela velha, para dar uma volta pelo quarto.
Mesmo com ela se mostrava severo e pouco comunicativo. Quando o informaram da chegada do "capitão", recusou recebê-lo. Mítia insistiu e fêz-se anunciar de novo. Kuzmá Samsonov informou-se então do ar do visitante, se tinha bebido ou fazia barulho. "Não", respondeu o rapaz, "mas não quer ir-se embora. " A uma nova recusa, Mítia, que previra o caso e tomara suas precauções, escreveu a lápis: "Para um negócio urgente, a respeito de Agrafiena Alieksándrovna", e enviou o bilhete ao velho.