Os Irmãos Karamázov

Fiódor Dostoiévski · Capítulo 6 de 50 · parte 1/2

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Os Irmãos Karamázov

Capítulo 6

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.

hábito, ai de mim! Ora, se falo por vezes fora de propósito, é intencionalmente, com o fim de fazer rir e ser agradável. É preciso ser agradável, não é verdade? Há sete anos, cheguei a uma cidadezinha para tratar duns negocinhos, umas contas a meias com uns negociantezinhos.

Fomos à casa do isprávnik, uma vez que tínhamos algo a pedir-lhe e para convidá-lo a comer conosco. Aparece o isprávnik: era um homem de alta estatura, gordo, louro e carrancudo — os indivíduos mais perigosos em semelhante caso, pois a bílis os atormenta. Abordo-o com a desenvoltura de um homem do mundo: "Senhor Isprávnik", disse eu, "o senhor será talvez, por assim dizer, o nosso

Naprávnik?" 6 "Que Naprávnik?", perguntou ele. Vi imediatamente que aquilo não pegava, que ele continuava todo grave; obstinei-me: "É uma brincadeira, quis tornar todos alegres, porque o Senhor Naprávnik é um chefe de orquestra conhecido; ora, para a harmonia de nosso empreendimento, precisamos justamente duma espécie de chefe de orquestra". A explicação e a comparação eram razoáveis, não? "Perdão", disse ele, "sou isprávnik e não permito que se façam trocadilhos a respeito de minha profissão." Volta as costas e retira-se. Corro atrás dele, gritando: "Sim, sim, o senhor é isprávnik e não Naprávnik". "Não", replicou ele, "o senhor disse, sou Naprávnik." Imaginem que isso fez fracassar nosso negócio! Nem por isso me emendei. Prejudico-me por causa de minha amabilidade! Certa vez, há muitos anos, dizia eu a uma personagem importante: "Sua esposa é uma mulher coceguenta", no sentido de ser muito sensível em questões de honra, de qualidades morais, por assim dizer, ao que ele me replica: "O senhor lhe fez cócegas?" Não pude conter-me, banquemos o amável, pensei: "Sim, fiz-lhe cócegas"; mas então quem me fez cócegas foi ele... Aconteceu há muito tempo, por isso não tenho vergonha de contá-lo; é sempre assim que causo prejuízo a mim mesmo.

— È está causando agora — murmurou Miúsov, com desagrado.

O stáriets examinava um a um, em silêncio.

— Deveras? Imagine que já o sabia, Piotr Alieksándrovitch, e, até mesmo, saiba que pressentia o que faço, desde que comecei a falar, e até mesmo, saiba-o, pressentia que seria o senhor o primeiro a observar-me isso. Nesses momentos, quando vejo que minhas pilhérias não dão 6 Nome forjado. Do verbo naprávliat, endireitar, dirigir.

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resultado, reverendíssimo senhor, minhas bochechas começam a dessecar-se na direção das gengivas, tenho quase como uma convulsão; isto remonta à minha mocidade, quando era parasita em casa dos nobres e ganhava meu pão por meio dessa habilidade. Sou um palhaço autêntico, inato, reverendíssimo senhor, a mesma coisa que um idiota; não nego que um espírito mau more talvez em mim, bem modesto, cm todo caso; se fosse mais importante, ter-se-ia alojado em outra parte, somente não no senhor, Piotr Alieksándrovitch, porque o senhor não é importante. Em compensação, creio, creio em Deus. Nestes últimos tempos, tinha dúvidas; mas agora espero sublimes palavras. Pareço-me com o filósofo Diderot, reverendíssimo senhor. Sabe o senhor, santíssimo padre, como se apresentou ele diante do metropolita Platon, no reinado da Imperatriz Catarina? Entrou e largou sem mais: "Não há Deus**. Ao que o grande prelado respondeu, de dedo erguido: "O insensato disse em seu coração:

'não há Deus!*** Imediatamente Diderot lançou-se a seus pés: "Creio", exclamou ele, "e quero ser batizado”. Batizaram-no ali mesmo. A Princesa Dachkova foi a madrinha, e Potiomkin o padrinho...

— Fiódor Pávlovitch, é intolerável! Porque o senhor mesmo sabe que está mentindo e que essa estúpida anedota é falsa; por que fazer-se malicioso? — proferiu com voz trêmula Miúsov, que já não se podia conter.

— Toda a minha vida pressenti que era isso uma mentira! — exclamou Fiódor Pávlovitch, entusiasmando-se. — Em compensação, senhores, dir-lhes-ei toda a verdade. Eminente stáriets, perdoe-me, eu mesmo Inventei esse fim, ainda há pouco, com o batismo de Diderot; isto jamais me ocorrera antes. Inventei-o para dar certo ar picante ao caso. Se me faço de malicioso, Piotr Alieksándrovitch, é para ser mais gentil. De resto, por vezes, não sei eu mesmo por quê. Quanto a Diderot, ouvi contar isto: "O

insensato disse..." umas vinte vezes na minha juventude, pelos proprietários de terras do país, quando morava entre eles; ouvi-o dizer, Piotr Alieksándrovitch, de sua própria tia, Mavra Fomínichna. Até agora, estão todos persuadidos de que o ímpio Diderot fora à casa do metropolita Platon para discutir a existência de Deus...

Uy Miúsov levantara-se, não somente porque perdera a paciência, mas achava-se fora de si. Estava furioso e compreendia que isso o tornava ridículo. Com efeito, passava-se na cela algo de intolerável. Havia 38

quarenta ou cinqüenta anos, ainda no tempo dos precedentes stártsi, os visitantes reuniam-se naquela cela, mas sempre com a mais profunda veneração. Quase todos quantos eram admitidos compreendiam que lhes era concedido um insigne favor. Muitos, dentre eles, punham-se de joelhos e assim ficavam durante toda a visita. Pessoas de posição elevada, eruditos e até mesmo livres-pensadores, vindos, quer por curiosidade, quer por qualquer outro motivo, achavam um dever o testemunhar ao stáriets profunda deferência e grandes atenções, durante toda a entrevista — quer fosse pública ou privada —, tanto mais quanto não havia questão de dinheiro. Só havia o amor e a bondade, em presença do arrependimento e da sede de resolver algum difícil problema moral ou uma crise da vida do coração. Assim, as piadas a que se entregara Fiódor Pávlovitch, chocantes em tal lugar, haviam provocado o embaraço e o espanto das testemunhas, em todo caso, de várias dentre elas. Os religiosos, que permaneciam impassíveis, fixavam sua atenção no que iria dizer o stáriets, mas pareciam já prestes a levantar-se como Miúsov.

Aliócha tinha vontade de chorar e curvava a cabeça. Toda a sua esperança repousava em seu irmão Ivã, o único cuja influência seria capaz de deter seu pai, e estava estupefato por vê-lo sentado, imóvel, de olhos baixos, aguardando com curiosidade o desenlace daquela cena, como se fosse completamente estranho a ela. Era impossível a Aliócha olhar para Rakítin (o seminarista), com o qual vivia quase em intimidade: conhecia seus pensamentos (era, aliás, o único a conhecê-los em todo o mosteiro).

— Desculpe-me... — começou Miúsov, dirigindo-se ao stáriets — se pareço tomar parte nessa indigna pilhéria. Errei ao acreditar que, até mesmo um indivíduo da qualidade de Fiódor Pávlovitch, visitando uma personalidade tão respeitável, saberia compreender suas obrigações ...

Não pensava que seria preciso desculpar-me por ter vindo com ele...

Piotr Alieksándrovitch não acabou e, todo confuso, queria sair já do quarto.

— Não se inquiete, rogo-lhe — disse o stáriets, que, erguendo-se sobre seus pés débeis, pegou Piotr Alieksándrovitch pelas duas mãos e obrigou-o a tornar a sentar-se. — Acalme-se, rogo-lhe. O senhor é meu hóspede.

Dito isto, e após uma reverência, voltou a sentar-se no diva.

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— Eminente stáriets, diga-me, será que minha vivacidade o ofende? — exclamou, de repente, Fiódor Pávlovitch, agarrando-se nos dois braços da poltrona, como prestes a saltar, de acordo com a resposta que recebesse.

— Rogo-lhe igualmente que não se inquiete e não se constranja — declarou o stáriets com majestade. — Não se constranja, esteja como que em sua casa. Sobretudo não tenha tanta vergonha de si mes mo, porque todo o mal vem daí.

— Completamente como em minha casa? Isto é, ao natural? Oh! é demais, é muito demais. Aceito, porém, com enternecimento! Sabe, meu venerando padre? Não me leve a mal mostrar-me ao natural, é por demais arriscado... eu mesmo não chego a esse ponto. Digo isto para que o senhor se previna. Pois bem! o resto está ainda enterrado nas trevas do desconhecido, se bem que alguns quisessem enforcar-me. Isto dirige-se ao senhor, Piotr Alieksándrovitch; quanto ao senhor, santa criatura, eis o que declaro: "Estou transbordante de entusiasmo!" — Levantou-se e, de braços para o ar, proferiu:

— "Bendito o ventre que te concebeu e benditos os peitos que te amamentaram, os peitos sobretudo!" Com aquela sua observação de há pouco: "Não tenha tanta vergonha de si mesmo, porque todo o mal vem daí", o senhor como que me transpassou e leu em mim. Justamente, quando me dirijo às pessoas, parece-me que sou a mais vil de todas e que todo mundo me toma por um palhaço; então digo a mim mesmo:

"Sejamos palhaço, não temo vossa opinião, porque vós sois todos, até o derradeiro, mais vis do que eu!" Eis por que sou palhaço, por vergonha, eminente padre, por vergonha. Somente por timidez é que me faço de valentão. Porque se estivesse certo, ao entrar, de que todos me acolheriam como um ser simpático e ajuizado, meu Deus!, como eu seria bom!

Mestre*— pôs-se de repente de joelhos —, que é preciso fazer para ganhar a vida eterna?

Mesmo então, era difícil saber se brincava ou cedia ao enternecimento. O stáriets ergueu os olhos para ele e declarou, sorrindo: Há muito tempo que o senhor mesmo sabe o que é preciso fazer; não lhe falta senso: não se entregue à embriaguez e à intemperança de linguagem; não se entregue à sensualidade, sobretudo ao amor ao 40

dinheiro; e feche seus botequins de bebida, pelo menos dois ou três, se não pode fechá-los todos. * Mas sobretudo, antes de tudo, não minta.

— É a propósito de Diderot que o senhor diz isso?

— Não, não é a propósito de Diderot. Sobretudo não minta ao senhor mesmo. Aquele que mente a si mesmo e escuta sua própria mentira vai ao ponto de não mais distinguir a verdade, nem em si, nem em torno de si; perde pois o respeito de si e dos outros. Não respeitando ninguém, deixa de amar; e para se ocupar, e para se distrair, na ausência de amor, entrega-se às paixões e aos gozos grosseiros; chega até a bestialidade em seus vícios, e tudo isso provém da mentira contínua a si mesmo e aos outros. Aquele que mente a si mesmo pode ser o primeiro a ofender-se. É por vezes bastante agradável ofender a si mesmo, não é verdade? Um indivíduo sabe que ninguém o ofendeu, mas que ele mesmo forjou uma ofensa e mente para embelezar, enegrecendo de propósito o quadro, que se ligou a uma palavra e fez dum montículo uma montanha — ele próprio o sabe, portanto é o primeiro a ofender-se, até o prazer, até experimentar uma grande satisfação, e por isso mesmo chega ao verdadeiro ódio... Mas levante-se, sente-se, rogo-lhe; isto também é um gesto falso...

— Bem-aventurado! Deixai-me beijar-vos a mão. — Fiódor Pávlovitch levantou-se e pousou os lábios sobre a mão descarnada do stáriets. — Justamente, justamente, ofender-se a si mesmo causa prazer. O

senhor disse-o tão bem, como jamais o ouvi dizer. Justamente, justamente, senti prazer em toda a minha vida com as ofensas, por um sentimento de estética, porque ser ofendido não somente causa prazer, mas por vezes é belo. Eis o que o senhor esqueceu, eminente stáriets: a beleza! Notá-lo-ei no meu caderninho! Quanto a mentir, não faço senão isso em toda a minha vida, a cada dia e a cada hora. Na verdade, sou mentira e o pai da mentira!

Aliás, creio que não é o pai da mentira, embaraço-me nos textos, pois bem, o filho da mentira, e isto basta. Somente... meu anjo... pode-se por vezes florear a respeito de Diderot! Isto não faz mal, ao passo que certas palavras podem fazer mal. Eminente stáriets, a propósito, recordo-me de que, há três anos, tinha prometido a mim mesmo vir aqui informar-me e descobrir com insistência a verdade; peça somente a Piotr Alieksándrovitch que não me interrompa. Eis de que se trata. É verdade, reverendo padre, o que se conta em alguma parte das Vidas dos Santos, a respeito 41

dum santo taumaturgo, que sofreu o martírio pela fé e, depois de ter sido decapitado, ergueu do chão sua cabeça e, "beijando-a delicadamente", a carregou muito tempo em seus braços? É verdade ou não, meus padres?

— Não, não é verdade — disse o stáriets.

— Não há nada de semelhante em nenhuma Vidas dos Santos. A propósito de que santo diz o senhor que se relata esse fato? — perguntou um religioso, o padre bibliotecário.

— Ignoro qual. Não tenho conhecimento disso. Induziram-me em erro. Ouvi-o dizer e sabe por quem? Por esse mesmo Piotr Alieksándrovitch Miúsov, que ainda há pouco se zangava a respeito de Diderot; era ele quem contava isso.

— Jamais lhe contei isso, pela razão muito justa de que não converso nunca com o senhor.

— É verdade que não contou isso a mim, mas numa reunião social em que me encontrava há quatro anos. Se lembrei o fato, é que o senhor abalou minha fé com essa narrativa cômica. Piotr Alieksán-drovitch. O

senhor de nada sabia, mas voltei para minha casa com a fé abalada e desde então vacilo cada vez mais. Sim, Piotr Alieksándrovitch, foi o senhor causa duma grande queda. Ê coisa bem diversa de Diderot!

Fiódor Pávlovitch acalorava-se duma maneira patética, se bem que fosse evidente para todos que ele de novo não fazia senão exibir-se. Mas Miúsov estava exacerbado.

— Que absurdo, como tudo isso, aliás! — murmurou ele. — Talvez tenha-o dito uma vez, na verdade... mas não ao senhor. Falaram-me disso.

Ouvi em Paris um francês contar que se lê entre nós este episódio na missa, nas Vidas dos Santos, Foi um erudito que tem especialmente estudado a estatística da Rússia... há muito tempo. Quanto a mim, não lia as Vidas dos Santos e não as lerei... Pode-se bem dizer coisas durante o jantar... Nós estávamos jantando, então...

— Sim, os senhores estavam jantando então e eu perdi a fé! — disse para aborrecê-lo Fiódor Pávlovitch.

— Que me importa sua fé! — ia gritar Miúsov, mas conteve-se e proferiu com desprezo: — O senhor emporcalha literalmente tudo quanto toca.

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O stáriets levantou-se de repente.

— Desculpem-me, senhores, deixá-los a sós por alguns minutos —

disse ele, dirigindo-se a todos os visitantes —, mas já me esperavam antes da chegada dos senhores. Quanto ao senhor, abstenha-se de mentir —

acrescentou, voltando-se para Fiódor Pávlovitch, com o rosto alegre. Saiu da cela. Aliócha e o noviço lançaram-se a ajudá-lo a descer a escada. Aliócha sufocava; sentia-se feliz por sair, feliz igualmente por ver o stáriets alegre e não ofendido. O stáriets dirigia-se para a galeria, a fim de abençoar aquelas que o esperavam, mas Fiódor Pávlovitch deteve-o às portas da cela.

— Bem-aventurado! — exclamou ele, sentimentalmente. — Permita-me que lhe beije ainda uma vez a mão! Com o senhor, pode-se conversar, pode-se viver. O senhor pensa que minto sempre assim e que banco de palhaço? Era para verificar se se pode viver com o senhor, se há lugar para minha humildade ao lado de sua altivez. Passo-lhe um certificado de sociabilidade! Agora, nem mais uma palavra. Vou sentar-me e ficar em silêncio. Cabe ao senhor falar, Piotr Alieksándrovitch, o senhor passa a ser a personagem principal... por dez minutos.

III

AS MULHERES CRENTES

Embaixo da galeria de madeira que dava para o muro exterior do recinto apertavam-se umas vinte mulheres do povo. Tinham-nas prevenido de que o stáriets sairia afinal e haviam-se agrupado à espera. As proprietárias Khokhlakovi esperavam-no igualmente, mas num quarto da galeria, reservado às visitantes de qualidade. Eram duas: a mãe e a filha. A primeira, senhora rica e sempre trajada com gosto, era ainda bastante jovem e de exterior bastante agradável, de olhos vivos e quase negros.

Tinha apenas 33 anos e estava viúva havia cinco. Sua filha, de catorze anos, tinha as pernas paralíticas. A pobre menina não andava mais havia seis meses; carregavam-na numa cadeira de rodas. Tinha um rosto delicioso, um pouco emagrecido pela doença, mas alegre. Algo de folgazão brilhava nos seus grandes olhos sombrios, de longas pestanas. Desde a primavera estava a mãe disposta a levá-la ao estrangeiro, mas trabalhos efetuados em 43 suas terras haviam-nas retardado. Desde uma semana, viviam em nossa cidade, mais por negócios que por devoção, mas já haviam visitado o stáriets três dias antes. Agora voltavam e, embora sabendo que o stáriets não podia quase receber mais ninguém, suplicavam que lhes concedesse

"a felicidade de ver o grande curador". Aguardando a vinda dele, a mãe estava sentada ao lado da poltrona de sua filha; a dois passos mantinha-se de pé um velho monge, vindo dum longínquo convento do norte e que desejava receber a bênção do stáriets. Mas este, quando apareceu na galeria, dirigiu-se diretamente ao povo. A multidão comprimia-se em torno do patamar de três degraus que reunia a galeria baixa ao solo. O

stáriets manteve-se no degrau superior, revestiu-se da estola e pôs-se a abençoar as mulheres que o cercavam. Trouxeram-lhe uma possessa que seguravam pelas duas mãos. Assim que ela avistou o stáriets, foi tomada dum soluço, lançando gemidos e sacudida por espasmos, como numa crise de eclampsia. Tendo-lhe coberto a cabeça com a estola, pronunciou o stáriets sobre ela uma curta prece e ela acalmou-se imediatamente. Ignoro o que se passa agora, mas na minha infância tive muitas vezes ocasião de ver e de ouvir essas possessas, nas aldeias e nos conventos. Levadas à missa, ganiam e ladravam na igreja, mas quando traziam o santo sacramento e elas dele se aproximavam, a "crise demoníaca" cessava imediatamente e as doentes se acalmavam sempre por certo tempo. Ainda menino, isso me espantava e me surpreendia bastante. Ouvia então certos proprietários rurais e sobretudo professores da cidade responderem às minhas perguntas que era aquilo uma simulação para não trabalhar e que se podia sempre reprimi-la, mostrando severidade. Citavam-se em apoio disto diversas anedotas. Mais tarde, soube com espanto, de médicos especialistas, que não havia ali nenhuma simulação, que era uma terrível doença das mulheres, atestando, mais particularmente na Rússia, a dura condição de nossa camponesa. Provinha de trabalhos estafantes, executados muito cedo, após laboriosos partos mal efetuados, sem nenhuma ajuda médica; além disso, desespero, maus tratos, etc., etc., o que certas naturezas femininas não podem suportar, malgrado o exemplo geral. A cura estranha e súbita de uma possessa presa de convulsões, desde que a aproximavam das sagradas espécies, cura atribuída então à simulação e, além do mais, a um ardil empregado, por assim dizer, pelos próprios "clérigos", efetuava-se provavelmente também da maneira mais natural. As mulheres que conduziam a doente, e sobretudo ela própria, 44

estavam persuadidas, como duma verdade evidente, de que o espírito impuro que a possuía não poderia jamais resistir na presença do santo sacramento, diante do qual inclinavam a infeliz. De modo que, numa mulher nervosa e psiquicamente doente, produzia-se sempre (e isto devia ser) como que um abalo nervoso de todo o organismo, abalo causado pela expectativa do milagre da cura e pela fé absoluta na sua realização. E ele se realizava, nem que fosse por um minuto. Foi o que ocorreu, assim que o stáriets cobriu a doente com a estola.

Muitas das mulheres que se comprimiam em redor dele vertiam lágrimas de enternecimento e de entusiasmo, sob a impressão daquele minuto; outras avançavam para beijar nem que fosse a orla do hábito dele; algumas lamentavam-se. Ele as abençoava a todas e conversava com elas.

Conhecia já a possessa, que morava numa aldeia a 6 verstas do mosteiro; não era a primeira vez que lha traziam.

— Eis uma que vem de longe! — disse ele, apontando uma mulher ainda jovem, mas muito magra e desfeita, o rosto mais enegrecido que queimado. Estava de joelhos e fitava o stáriets com um olhar imóvel. Seu olhar tinha qualquer coisa de desvairado.

— Venho de longe, bátiuchka, de longe, a 300 verstas daqui. De longe, meu pai, de longe — repetiu a mulher como um estribilho, balançando a cabeça da direita para a esquerda, com a face apoiada na palma de sua mão. Falava como que se lamentando. Há no povo uma dor silenciosa e paciente; entra em si mesma e se cala. Mas há uma outra que explode: manifesta-se por lágrimas e se expande em lamentações, sobretudo entre as mulheres. Não é mais ligeira que a dor silenciosa. As lamentações só se acalmam roendo e dilacerando o coração. Semelhante dor não quer consolações, repasta-se com a idéia de ser inextinguível. As lamentações são apenas a necessidade de irritar cada vez mais a ferida.

— A senhora é da cidade, sem dúvida? — continuou o stáriets, olhando-a com curiosidade.

— Moramos na cidade, bátiuchka; somos do campo, mas moramos na cidade. Vim para ver-te. Ouvimos falai de ti, bátiuchka. Enterrei meu filhinho bem novo, fui rogar a Deus, estive em três conventos e disseram-me: "Vai lá embaixo também, Nastássiuchka", isto é, vir ter com o senhor, bátiuchka, com o senhor. Vim, estava ontem de noite na igreja e eis-me aqui.

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— Por que choras?

— Choro pelo meu filho, bátiuchka; ele estava com três anos, ia fazê-los dentro de três meses. Ê por causa dele que me atormento. Era o último; Nikítuchka e eu tivemos quatro, mas os meninos não ficam em nossa casa, bem-amado, não ficam. Enterrei os três primeiros, não tinha tanto pesar, mas este último, não posso esquecê-lo. É como se tivesse ficado diante de mim, não se vai embora. Estou de alma ressequida. Contemplo sua roupinha, sua camisinha, suas botinas, e soluço. Exponho tudo quanto restou depois dele, cada coisa, contemplo-as e choro. Digo a Nikítuchka, meu marido: "Ah, meu senhor, deixa-me ir em peregrinação". Ele é cocheiro, temos de tudo, meu pai, temos de tudo, vivemos por nossa conta, tudo nos pertence, os cavalos e os carros. Mas de que servem agora todos esses bens? Sem mim, meu Nikítuchka deve ter-se posto a beber, decerto, e, já antes, assim que eu me afastava fraquejava ele. Mas agora não penso mais nele, há três meses que abandonei a casa. Esqueci tudo e não quero mais lembrar-me de nada; que farei dele agora? Rompi com ele e com todos. E agora não desejaria ver minha casa e meus bens e preferiria mesmo ter perdido a vista.

— Escuta, mãe — proferiu o stáriets. — Outrora um grande santo avistou no templo uma mãe que chorava como tu, também por causa de seu filho único que o Senhor havia igualmente chamado a si. "Não sabes", disse-lhe o santo, "como são atrevidas essas criancinhas diante do trono de Deus? Não há mesmo ninguém mais atrevido, no reino dos céus. 'Senhor.

Tu nos deste a vida', dizem eles a Deus, 'mas apenas vimos o dia. Tu no-la tomaste.' Pedem e reclamam tão atrevidamente que o Senhor faz deles logo anjos. Por isso", disse o santo, "rejubila-te e não chores, teu filho acha-se agora na casa do Senhor, no coro dos anjos." Eis o que disse, nos tempos antigos, o santo à mulher que chorava. Era um grande santo e nada podia dizer-lhe que não 'fosse verdade. Sabe pois, mãe, que teu filho também se acha decerto diante do trono do Senhor, regozija-se, diverte-se e roga a Deus por ti. Podes chorar, mas rejubila-te.

A mulher escutava-o, com a face na mão, inclinada. Suspirou profundamente.

— Era da mesma maneira que Nikítuchka me consolava: "Não és razoável", dizia ele, "por que chorar? Nosso filho, decerto, canta agora com os anjos junto do Senhor". Diz-me isto e ele mesmo chora, vejo suas 46

lágrimas. "Eu sei", digo eu, "Nikítuchka. Onde estaria ele senão na casa do Senhor? Somente não está mais aqui conosco, neste momento, bem perto, como ficava outrora." Oh! se eu pudesse revê-lo uma vez, uma vez apenas, sem me aproximar dele, sem falar, ocultando-me em um canto. Vê-lo somente um minuto, ouvi-lo brincar lá fora, vir, como vinha por vezes, gritar com sua vozinha: "Mamãe, onde estás?" Se eu pudesse ouvir seus pezinhos trotarem pelo quarto; bem muitas vezes, lembro-me, corria para mim com gritos e risadas. Se pudesse ao menos ouvi-lo! Mas ele não está mais lá, bátiuchka, e não o ouvirei nunca mais! Eis o seu cinto, mas ele não está mais lá e tudo acabou para sempre!...

Tirou do seu seio o cinturãozinho de passamanaria de seu filho; assim que o olhou, foi abalada por soluços, ocultando os olhos com seus dedos através dos quais corriam torrentes de lágrimas.

— Ah! — exclamou o stáriets —, isto é o antigo "Raquel chorando seus filhos sem poder ser consolada, porque eles não mais existem". Tal é a sorte que vos está destinada neste mundo, ó mães! Não te consoles, não é preciso que te consoles, chora, mas cada vez que chorares, lembra-te de que teu filho é um dos anjos de Deus, que, lá do alto, te olha e te vê, que se rejubila com tuas lágrimas e mostra-as ao Senhor; por muito tempo ainda tuas lágrimas maternais correrão, mas afinal tornar-se-ão uma alegria tranqüila, tuas lágrimas amargas serão lágrimas de enternecimento e de purificação, que salvam do pecado. Rogarei pelo repouso da alma de teu filho. Como se chamava ele?

— Alieksiéi, bátiuchka,

— Um belo nome. Tinha por santo padroeiro Alieksiéi, "homem de Deus"?

— Sim, bátiuchka, Alieksiéi, "homem de Deus".

— Que grande santo! Rogarei por ele, mãe, não esquecerei tua aflição em minhas preces; rogarei também pela saúde de teu marido, mas é um pecado abandoná-lo, volta para ele, toma bastante cuidado com ele.

Lá do alto, teu filho vê que abandonaste seu pai e chora por vós. Por que perturbar a sua beatitude? Ele vive, porque a alma vive eternamente; não está em casa, mas encontra-se bem perto de vós, invisível. Como virá ele à tua casa, se dizes que a detestas? Para quem virá ele, se não vos encontra em casa, se não vos encontra juntos, o pai e a mãe? Ele te aparece agora e 47 ficas atormentada; então enviar-te-á doces sonhos. Volta para teu marido, mãe, hoje mesmo.

— Irei, bem-amado, segundo a tua palavra; leste em meu coração.

Nikítuchka, tu me esperas, meu querido, tu me esperas — começava a mulher a lamentar-se, mas já o stáriets se voltava para uma velhinha, vestida não de peregrina, mas de citadina. Pelos seus olhos, via-se que tinha um caso, que viera para comunicar alguma coisa. Era a viúva dum suboficial, morador de nossa cidade. Seu filho, Vássienhka, empregado num comissariado, partira para Irkutsk, na Sibéria. Escrevera duas vezes, mas havia um ano que estava ela sem notícias; havia-se informado, mas na verdade não sabia mesmo onde informar-se.

— Um dia destes, Stiepanida Ilínichna Biedriáguina, uma rica comerciante, me dizia: "Escreve o nome de teu filho num papel, Prókhorovna, vai à igreja e encomenda preces pelo repouso de sua alma.

Sua alma ficará angustiada e ele te escreverá. É este", afirmou Stiepanida Ilínichna, "um meio seguro e freqüentemente posto em prática". Tenho somente dúvidas... Tu, que és nossa luz, dize-me se isso é verdade ou mentira, bem ou mal?

— Guarda-te bem disso. É até vergonhoso pedi-lo. Como se pode rezar pelo repouso de uma alma viva, e ainda por cima sua própria mãe?

É um grande pecado, como a feitiçaria; somente tua ignorância vale-te o perdão. Reza, antes, pela saúde dele à Rainha dos Céus, a Pronta Medianeira, Auxiliadora dos Pecadores, a fim de que ela te perdoe o teu erro. Escuta, Prókhorovna: ou teu filho voltará em breve para ti, ou enviará decerto uma carta. Fica sabendo. Vai em paz, teu filho está vivo, digo-te.

— Bem-amado, que Deus te recompense, a ti, nosso benfeitor, que reza por nós todos e pelos nossos pecados...

Mas o stáriets já havia notado na multidão o olhar ardente, dirigido para ele, duma camponesa de aspecto de tuberculosa, acabada, se bem que ainda jovem. Ela olhava em silêncio, seus olhos imploravam alguma coisa, mas parecia temer aproximar-se.

— Que queres, minha cara?

— Alivia minha alma, bem-amado * — murmurou ela, docemente.

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Sem pressa, pôs-se de joelhos, prosternou-se a seus pés. — Pequei, meu bom pai, e tenho medo do meu pecado.

O stáriets sentou-se sobre o derradeiro degrau. A mulher aproximou-se dele, sempre de joelhos.

— Sou viúva há três anos — começou ela à meia voz. — Era penoso viver com meu marido, era velho e batia-me duramente. Estava deitado, doente, e, pensava eu, olhando-o: "Mas se ele se restabelecer e se levantar de novo, que acontecerá então?" E esta idéia não me deixou mais...

— Espera — disse o stáriets, e aproximou seu ouvido dos lábios dela.

A mulher continuou com uma voz que mal se ouvia. Logo terminou.

— Há três anos? — perguntou o stáriets.

— Três anos. A princípio, não pensava nisso, mas a doença chegou e estou cheia de angústia.

— Vens de longe?

— Caminhei 500 verstas.

— Confessaste-te?

— Confessei-me duas vezes.

— Foste admitida à comunhão?

— Admitiram-me. Tenho medo; tenho medo de morrer.

— Não temas nada e nunca tenhas medo, não te apoquentes. Contanto que o arrependimento perdure, Deus perdoa tudo. Não há pecado sobre a terra que Deus não perdoe àquele que se arrepende sinceramente.

O homem não pode cometer pecado tão grande que esgote o amor infinito de Deus. Porque, poderá haver pecado que ultrapasse o amor de Deus?

Sem cessar, não sonhes senão com o arrependimento e bane todo temor.

Crê que Deus te ama como não podes imaginá-lo, se bem que te ame em teu pecado e com teu pecado. Haverá mais alegria nos céus por um pecador que se arrepende do que por dez justos. Não te aflijas a respeito dos outros e não te irrites com as injúrias. Perdoa em teu coração ao defunto todas as suas ofensas contra ti, reconcilia-te com ele em verdade.

Se te arrependes, é que o amas. Ora, se amas, serás já de Deus... O amor tudo redime e tudo salva. Se eu, um pecador como tu, me enterneci, se 49

tive piedade de ti, com mais forte razão o Senhor. O amor é um tesouro tão inestimável que em troca podes adquirir o mundo inteiro e redimir não só teus pecados, mas os dos outros. Vai e não temas nada.

Fez três vezes sobre ela o sinal-da-cruz, tirou de seu pescoço uma pequena, imagem, passou-a no pescoço da pecadora, que se prosternou em silêncio até o chão. Ele se levantou e olhou alegremente uma mulher robusta que trazia nos braços um bebê.

— Venho de Vichegórie, bem-amado.

— Tu te cansaste andando 6 verstas com esse menino. Que queres?

— Vim ver-te. Não é a primeira vez, já te esqueceste? Tens memória fraca, se não te lembras de mim. Dizia-se lá em nossa aldeia que estavas doente. "Pois bem", pensei, "eu mesma irei vê-lo!" Vejo que não tens nada.

Viverás ainda vinte anos, palavra! Não rezam bastante por ti? Como haverias de cair doente?

— Obrigado por tudo, minha cara.

— A propósito, tenho um pequeno pedido a fazer-te. Aqui estão 60

copeques. Dá-os a uma outra mais pobre do que eu. Ao vir para cá, pensava: "Valerá melhor entregá-los a ele, que saberá a quem dá-los".

— Obrigado, minha cara, obrigado, minha boa mulher, eu te amo.

Não deixarei de fazer o que pedes. É uma menina que tens nos braços?

— Uma menina, bem-amado, Lisavieta.

— Que o senhor vos abençoe a todas duas, a ti e à pequena Lisavieta, Tu alegraste meu coração, mãe. Adeus, minhas queridas filhas.

Abençoou a todas e fez-lhes uma profunda reverência.

IV

UMA DAMA SEM MUITA FÉ

A dama proprietária, recentemente chegada, testemunha dessa conversação com as mulheres do povo e da bênção, vertia suaves lágrimas que enxugava com seu lenço. Era uma mulher da sociedade, sensível, de tendências virtuosas. Quando o stáriets a abordou, por fim, acolheu-o com 50

entusiasmo.

— Experimentei uma tal impressão, contemplando essa cena enternecedora... — a emoção cortou-lhe a palavra. — Oh! Compreendo que o povo vos ame, eu mesma amo o povo. Como não se haveria de amar nosso excelente povo russo, tão ingênuo na sua grandeza?

— Como vai sua filha? Quis de novo entreter-se comigo?

— Oh! Pedi instantemente, tenho suplicado, estava pronta a me pôr de joelhos e a ficar três dias diante de vossas janelas, até que me deixásseis entrar. Vimos, grande curador, exprimir-vos todo o nosso reconhecimento entusiasta. Porque fostes vós que curastes Lisa, completamente, quinta-feira, rezando diante dela e impondo-lhe as mãos. Tínhamos pressa em beijar essas mãos, em testemunhar nossos sentimentos e nossa veneração.

— Eu a curei, diz a senhora? Ela, porém, está ainda deitada em sua poltrona.

— Mas as febres noturnas desapareceram completamente há dois dias, a partir de quinta-feira — disse a dama com uma solicitude nervosa. — Não é tudo: suas pernas fortificaram-se. Esta manha, levantou-se de boa saúde. Olhai suas cores e seus olhos que brilham. Chorava constantemente, agora já, está alegre, jovial. Hoje, exigiu que a pusessem de pé e manteve-se um minuto sozinha, sem nenhum apoio. Quer apostar comigo que dentro de quinze dias dançará uma quadrilha? Mandei chamar o Doutor Herzenstube; ele levanta os olhos e diz: "Estou admirado, não compreendo nada disso". E queríeis vós que não vos incomodássemos, que não acorrêssemos aqui, para agradecer-vos? Lisa, vamos, agradece!

O rostinho de Lisa tornou-se subitamente sério. Ergueu-se de sua poltrona tanto quanto pôde e, fitando o stáriets, juntou as mãos, mas não pôde conter-se e pôs-se a rir.

— É dele que rio, dele — disse ela, mostrando Aliócha, contrariada por não poder impedir-se de rir. Observando-se o rapaz, que se mantinha por trás do stáriets, ter-se-ia visto que suas faces se cobriam dum rápido rubor. Seus olhos brilharam e ele os baixou.

— Ela tem um recado para você, Alieksiéi Fiódorovitch... Como vai você? — continuou ela dirigindo-se a Aliócha e estendendo-lhe a mão deliciosamente enluvada. O stáriets voltou-se e examinou Aliócha. Este 51

aproximou-se de Lisa e estendeu-lhe a mão, sorrindo acanhadamente. Lisa assumiu um ar grave.

— Catarina Ivânovna pediu-me que lhe remetesse isto — e entregou-lhe uma pequena carta. — Ela lhe pede que vá vê-la o mais cedo possível e sem falta.

— Ela me pede que eu vá à casa dela? Por quê?... — murmurou Aliócha com profundo espanto. Seu rosto tornou-se preocupado.

— Oh! Ê a propósito de Dimítri Fiódorovitch e... de todos esses últimos acontecimentos — explicou rapidamente a mãe. — Catarina Ivânovna firmou-se agora numa decisão... mas para isso deseja vê-lo ...

Por quê? Ignoro-o, decerto, mas pediu ela que fosse o mais cedo possível e você não deixará de ir lá, os sentimentos cristãos o obrigam a isto.

— Vi-a uma vez ao todo — continuou Aliócha, sempre perplexo.

— Oh! É uma criatura tão nobre, tão inacessível!... Quando menos pelos seus sofrimentos... Considere o que tem ela suportado, o que ela suporta agora e o que a espera... Tudo isto é horrível, horrível!

— Está bem, irei — decidiu Alieksiéi, depois de ter lido o bilhete, curto e enigmático, que não continha nenhuma explicação, a não ser a súplica instante para que ele fosse.

— Ah! Como é gentil de sua parte — exclamou Lisa,

animadamente. — Dizia eu a mamãe: "Ele jamais irá, está tratando de sua salvação". Como você é bom! Sempre pensei que você era bom. É um prazer dizer-lho agora!

— Lisa! — disse gravemente a mãe, que, aliás, sorriu.

— Você nos esqueceu, Alieksiéi Fiódorovitch, não quer absolutamente visitar-nos. Entretanto, Lisa me disse duas vezes que só se encontrava bem em sua companhia. — Aliócha ergueu seus olhos baixos, corou de novo e sorriu sem saber por quê. Aliás o stáriets não o observava mais. Entrara em conversa com o monge que aguardava sua vinda, como o dissemos, ao lado da cadeira de Lisa. Era, pelo que se via, um monge duma condição das mais modestas, de idéias estreitas e paradas, mas crente e obstinado a seu modo. Contou que vivia longe, no norte, em Obdorsk, no Convento de São Silvestre, pobre mosteiro, que só contava nove monges. O stáriets - abençoou-o, convidou-o a vir à sua cela, quando 52

bem lhe parecesse.

— Como tentais semelhantes coisas? — perguntou o monge, mostrando gravemente Lisa. Fazia alusão à sua "cura".

— É ainda demasiado cedo para falar disso. Um alívio não é a cura completa e pode ter outras causas. Mas o que pôde passar-se é unicamente devido à vontade de Deus. Tudo vem dele. Venha ver-me, padre —

acrescentou ele —, eu não poderei vir sempre; estou doente e sei que meus dias estão contados.

— Oh! não, não, Deus não vos arrebatará de nós, vivereis ainda muito tempo, muito tempo — exclamou a mãe. — Além disso, qual a vossa doença? Pareceis de tão bom aspecto, alegre e feliz.

— Sinto-me muito melhor hoje, mas sei que não é por muito tempo.

Conheço agora a fundo minha doença. Se lhe pareço tão alegre, nada me pode causar mais prazer que ouvi-la dizer isso. Porque a felicidade é o fim do homem, e aquele que tem sido completamente feliz tem o direito de dizer a si mesmo: "Cumpri a lei divina nesta terra". Os justos, os santos, os mártires todos foram felizes.

— Oh! As ousadas, as sublimes palavras! — exclamou a mãe. — Elas nos traspassam! Entretanto, onde está a felicidade? Quem pode dizer-se feliz? Oh! já que tivestes a bondade de permitir que vos viéssemos ser ainda hoje, escutai tudo quanto não vos disse na derradeira vez, tudo quanto não ousava dizer-vos, aquilo de que sofro desde tanto tempo!

Porque eu sofro, desculpai-me, eu sofro... —' e, num ímpeto de fervor, juntou as mãos diante dele.

— De que, particularmente?

— Sofro... porque não creio...

— Não crê em Deus?

— Oh! Não, não, não ouso pensar nisso, mas a vida futura, que enigma! E ninguém pode responder a isto! Escutai-me, vós que conheceis a alma humana e a curais; sem dúvida, não ouso pedir-vos que me acrediteis absolutamente, mas asseguro-vos, da maneira mais solene, que não é por leviandade que falo agora, essa idéia da vida de além-túmulo me emociona até o sofrimento, até o espanto e o pavor... E não sei a quem dirigir-me, não ousei toda a minha vida... Agora me permito dirigir-me a 53

vós... Oh! Deus! Por quem me tomais?

Bateu as mãos uma contra a outra.

— Não se inquiete com a minha opinião — respondeu o stáriets. —

Creio perfeitamente na sinceridade de sua angústia.

— Oh! Como vos sou grata! Vede: fecho os olhos e sonho. Se todos acreditam, donde vem isto? Assegura-se que tudo isto provém a princípio do medo, inspirado pelos fenômenos grandiosos da natureza, mas que nada existe. Pois bem! penso eu, acreditei toda a minha vida; morrerei e não haverá nada e somente "a relva brotará sobre o tumulo", como se exprime um escritor. É horrível! Como recuperar a fé? Aliás, cri somente na minha infância, mecanicamente, sem pensar em nada... Como me convencer? Vim inclinar-me diante de vós e rogar-vos que me esclareçais.

Porque se deixo passar a ocasião presente nunca mais me responderão.

Como persuadir-me? De acordo com que provas? Quanto sou infeliz! Em redor de mim, ninguém se preocupa com isto, quase ninguém; ora, não posso suportar isto sozinha. É esmagador!

— Decerto, é esmagador. Mas onde nada se pode provar, pode a gente persuadir-se.

— Como? De que maneira?

— Pela experiência do amor que age. Esforce-se por amar seu próximo com ardor e sem cessar. À medida que progredir no amor, convencer-se-á a senhora da existência de Deus e da imortalidade de sua alma. Se for até a abnegação total no seu amor ao próximo, então acreditará indubitavelmente e nenhuma dúvida mesmo poderá aflorar sua alma. Está isto demonstrado pela experiência.

— O amor que age! Eis ainda uma questão, e que questão! Vede: amo tanto a humanidade que, acreditaríeis vós?, sonho por vezes abandonar tudo quanto tenho, deixar Lisa e fazer-me irmã de caridade.

Fecho os olhos, sonho e devaneio; nesses momentos, sinto em mim uma força invisível. Nenhum ferimento, nenhuma chaga purulenta poderia horrorizar-me. Eu as pensarei, as lavarei com minhas próprias mãos, serei a enfermeira desses pacientes, prestes a beijar suas úlceras...

— Já é muito que a senhora tenha tais pensamentos. Por acaso 54

acontecer-lhe-á praticar verdadeiramente uma boa ação.

— Sim, mas poderia eu suportar muito tempo tal existência? —

continuou a dama, apaixonadamente, com um ar quase desvairado. — Eis a questão capital, a que mais me atormenta. Fecho os olhos e pergunto a mim mesma: "Persistidas muito tempo nessa via? Mas se o doente, cujas úlceras tu lavas, te pagar com ingratidão, se puser a atormentar-te com seus caprichos, sem apreciar nem notar teu devotamento, se gritar contra ti, se se mostrar exigente e queixar-se mesmo à diretoria (como acontece muitas vezes quando se sofre muito), farás então o quê? Continuará o teu amor?" Imaginai que já decidi, com um arrepio: "Se há alguma coisa que possa esfriar imediatamente meu amor *que age* em favor da humanidade, é unicamente a ingratidão". Numa palavra: trabalho por um salário, exijo-o imediatamente, sob forma de elogios e de amor em troca do meu. De outro modo, não posso amar ninguém.

Depois de haver-se assim fustigado, num acesso de sinceridade, ela fitou o stáriets com um atrevimento provocante.

— É exatamente o que me contava, há muito tempo, aliás, um médico — observou o stáriets.-—- Era um homem de idade madura e verdadeiramente inteligente, exprimia-se tão francamente quanto a senhora, se bem que brincando, mas com tristeza. "Eu amo", dizia ele, "a humanidade, mas admiro-me de mim mesmo. Tanto mais amo a humanidade em geral, quanto menos amo as pessoas em particular, como indivíduos. Muitas vezes tenho sonhado apaixonadamente em servir à humanidade, e talvez tivesse verdadeiramente subido ao calvário por meus semelhantes, se tivesse sido preciso, muito embora não possa viver com ninguém dois dias no mesmo quarto. Sei-o por experiência. Desde que alguém está junto de mim, sua personalidade oprime meu amor-próprio e constrange minha liberdade. Em 24 horas, posso mesmo antipatizar com. as melhores pessoas uma, porque fica muito tempo na mesa, outra, porque está resfriada e só faz espirrar. Torno-me o inimigo, dos homens, apenas se acham eles em contato comigo. Em compensação, invariavelmente, quanto mais detesto as pessoas em particular, tanto mais ardo de amor pela humanidade em geral."

— Mas que fazer? Que fazer em semelhante caso? É de desesperar.

— Não, porque basta que a senhora fique desolada. Faça o que 55

puder e ser-lhe-á levado isso em conta. A senhora já fez muito para ser capaz de conhecer-se a si mesma, de maneira tão profunda, tão sincera. Se me falou agora com tal franqueza, unicamente para receber meus elogios pela sua veracidade, não atingirá nada, seguramente, no domínio do amor que age. Tudo se limitará a sonhos e sua vida escoar-se-á como um sonho.

Então, naturalmente, esquecerá a vida futura e para o fim tranqüilizar-se-á duma maneira ou de outra.

— Vós me acabrunhais! Compreendo somente agora, como acabais de dizer-me, que, ao contar-vos o horror que sinto pela ingratidão, esperava vossos elogios à minha sinceridade, e nada mais. Sugerisies, captastes meus pensamentos para mos revelardes.

— Fala sério? Pois bem! depois de tal confissão, creio que a senhora é boa e sincera. Se não atingir a felicidade, lembre-se sempre de que está no bom caminho e trate de não sair dele. Sobretudo, evite toda mentira, particularmente a mentira para consigo mesma. Observe sua mentira, examine-a a cada instante. Evite também a repugnância para com os outros e para consigo mesma: o que lhe parece mau na senhora mesma está purificado, pelo simples fato de que o notou na senhora. Evite também o temor, se bem que seja ele somente a conseqüência de toda mentira. Não tema jamais sua própria covardia na procura do amor, não se deixe mesmo atemorizar demais pelas suas más .ações a esse propósito.

Lamento nada poder dizer-lhe de mais rejubilante, porque o amor que age, comparado com o amor contemplativo, é algo de cruel e de atemorizante.

O amor contemplativo tem sede de realização imediata e de atenção geral.

Chega-se ao ponto de dar sua vida, com a condição de que isso não dure muito tempo, e que tudo se acabe rapidamente, como no palco, sob os olhares e os elogios. O amor atuante é o trabalho e o domínio de si, e para alguns toda uma ciência. Ora, predigo-lhe que no momento mesmo em que a senhora verificar com terror que, malgrado todos os seus esforços, não somente não se aproximou a senhora do alvo, mas até mesmo dele se afastou — nesse momento, predigo-lhe —, a senhora atingirá o alvo e verá acima da senhora a força misteriosa do Senhor, que a terá guiado com amor, sem que a senhora soubesse. Desculpe-me não poder demorar mais tempo com a senhora. Esperam-me. Adeus.

A dama chorava.

— Lisa, Lisa, abençoai-a — disse ela com ímpeto.

56

— Ela não merece ser amada. Vi-a divertir-se todo o tempo —

brincou o stáriets. — Por que zombou de Alieksiéi?

Lisa, com efeito, dedicara-se todo o tempo a isso. Desde muito tempo, desde o ano anterior, notara que Aliócha se perturbava na sua presença, evitava olhá-la, e isto tornou-se muito divertido para ela. Fitava-o, buscava seu olhar. Não resistindo àquele olhar fixo obstinadamente sobre ele, Aliócha, impelido por uma força invisível, olhava-a por sua vez; imediatamente ela se abria num sorriso triunfante. Isto aumentava a confusão e o despeito de Aliócha. Afinal, afastou-se completamente dela, ocultando-se por trás do stáriets. Ao fim de alguns minutos, como que hipnotizado, voltou-se para ver se o olhavam. Lisa, quase fora de sua cadeira, observava-o de viés e esperava impaciente-mente que ele a olhasse; tendo assim captado o olhar dele, explodiu em tal gargalhada que o stáriets não pôde conter-se.

— Por que, sua brejeira, faz você que ele core dessa maneira?

Lisa ficou toda vermelha, seus olhos brilharam, seu rosto ficou sério e com voz lamentosa, indignada, disse nervosamente:

— Por que esqueceu ele tudo? Quando eu era bem pequenina, carregava-me em seus braços, brincávamos juntos. Foi ele quem me ensinou a ler, sabíeis? Há dois anos, ao partir, disse que não o esqueceria jamais, que éramos amigos para sempre, para sempre! E ei-lo agora que tem medo de mim, como se eu fosse comê-lo. Por que não se aproxima e não quer falar? Por qual razão não nos vem ver? Não é porque vós o retenhais, pois sabemos que ele vai a toda parte. Não é conveniente para mim convidá-lo. Deveria ele lembrar-se por primeiro, se não esqueceu. Não, agora trata de sua salvação! Por que o revestistes desse hábito de longas abas?... Se correr, cairá...

De súbito, não suportando mais, ocultou o rosto nas mãos e rebentou numa gargalhada nervosa, prolongada, silenciosa, que a sacudia toda.

O stáriets, que a havia escutado sorrindo, abençoou-a com ternura; ao beijar-lhe a mão, ela a apertou contra seus olhos e se pôs a chorar.

— Não vos zangueis comigo, sou uma bobinha, não valho coisa alguma... Aliócha tem talvez razão em não querer ir à casa duma moça tão ridícula.

57

— Eu lho mandarei lá, sem falta — cortou o stáriets.

V

ASSIM SEJA!

A ausência do stáriets durara cerca de 25 minutos. Era mais de meio-dia e meia e Dimítri Fiódorovitch, por causa de quem se havia convocado a reunião, ainda não tinha chegado. Mas tinham-no quase esquecido e quando o stáriets reapareceu na cela encontrou seus visitantes ocupados numa conversação bastante animada. Travava-se, sobretudo, entre Ivã Fiódorovitch e os dois religiosos. Miúsov a ela se misturava com ardor, mas sem grande êxito. Ficava em segundo plano e não lhe respondiam, o que só fazia aumentar sua irritabilidade. Anteriormente, já havia feito duelo de erudição com Ivã Fiódorovitch e não podia suportar de sangue-frio certa falta de atenções da parte deste último. "Até agora, pelo menos, estava eu ao nível de tudo quanto há de progressista na Europa, mas essa nova geração nos ignora totalmente'', pensava consigo mesmo. Fiódor Pávlovitch, que havia jurado ficar sentado sem dizer palavra, guardou silêncio por algum tempo, mas observava, com um sorriso zombeteiro, seu vizinho Piotr Alieksándrovitch, cuja irritação o alegrava visivelmente.

Desde muito tempo se dispunha a pagar-lhe na mesma moeda e não queria deixar passar a ocasião. Por fim, não se conteve mais, inclinou-se para o ombro de seu vizinho e mexeu com ele à meia voz.

— Por que não partiu ainda há pouco, depois da anedota do santo, e consentiu em ficar em companhia tão inconveniente? Ê que, sentindo-se humilhado e ofendido, ficou o senhor para mostrar seu espírito e tirar sua vingança. Agora o senhor não se irá embora, sem tê-lo mostrado.

— O senhor recomeça? Vou-me embora agora mesmo, pelo contrário.

— Será o último a sair — lançou-lhe Fiódor Pávlovitch.

O stáriets voltou quase imediatamente.

A discussão parou por um minuto, mas, tendo o stáriets retomado seu lugar, passou seu olhar sobre os assistentes como para convidá-los a continuar. Aliócha, que conhecia cada expressão de seu rosto, viu que ele 58

estava extenuado e exigia demais de suas forças. Nos últimos tempos de sua doença, desmaiava de fraqueza. A palidez que era o sintoma disto espalhava-se agora pelo seu rosto; tinha os lábios exangues, mas não queria evidentemente despedir a assembléia, tendo para isto suas razões.

Quais? Aliócha observava-o com atenção.

— Comentamos um artigo bastante curioso do senhor — explicou o Padre Iósif, o bibliotecário, designando Ivã Fiódorovitch. — Há muitas apreciações novas, mas a tese parece de dois gumes. É um artigo em resposta a um padre, autor de uma obra a respeito dos tribunais eclesiásticos e da extensão de seus direitos.

— Infelizmente, não li seu artigo, mas ouvi falar dele — respondeu o stáriets, olhando atentamente para Ivã Fiódorovitch.

— O senhor coloca-se dum ponto de vista bastante curioso —

continuou o padre bibliotecário. — Parece rejeitar absolutamente a separação da Igreja e do Estado na questão dos tribunais eclesiásticos.

— É curioso, mas em qual sentido? — perguntou o stáriets a Ivã Fiódorovitch.

Este respondeu-lhe afinal, não com um ar altivo, pedante, como Aliócha receava ainda na véspera, mas num tom modesto, discreto, excluindo qualquer segunda intenção.

— Parto do princípio de que esta confusão dos elementos essenciais da Igreja e do Estado, tomados separadamente, durará sem dúvida sempre, se bem que seja impossível e jamais se possa levá-la a um estado não somente normal mas um pouco conciliável, porque repousa sobre uma mentira. Um compromisso entre a Igreja e o Estado, em questões tais como a da justiça, por exemplo, é, na minha opinião, essencialmente impossível. O eclesiástico a quem replico sustenta que a Igreja ocupa no Estado um lugar preciso e definido. Objetar-lhe que a Igreja, pelo contrário, longe de ocupar apenas um canto no Estado, devia absorver o Estado inteiro, e que se isto é atualmente impossível, deveria ser, por definição, o alvo direto e principal de todo o desenvolvimento ulterior da sociedade cristã...

— Perfeitamente justo — declarou com voz firme e nervosa o Padre Paísi, religioso taciturno e erudito.

59

— É ultramontanismo puro! — exclamou Miúsov, cruzando as pernas em sua impaciência.

— Pois se nem sequer temos montes em nosso país! — exclamou o Padre Iósif, que continuou, dirigindo-se ao stáriets. — O senhor refuta os princípios "fundamentais e essenciais" de seu adversário, um eclesiástico, notai-o. Ei-los: em primeiro lugar: "Nenhuma associação pública pode nem deve atribuir-se o poder, dispor dos direitos políticos e civis de seus membros"; em segundo lugar: "O poder, em matéria civil e criminal, não deve pertencer à Igreja, porque é incompatível com sua natureza, como instituição divina e como associação que se propõe fins religiosos". Afinal, em terceiro lugar: "A Igreja é um reino que não é deste mundo".

— É este um jogo de palavras totalmente indigno de um eclesiástico! — interrompeu, de novo, o Padre Paísi, com impaciência. — Li a obra que o senhor refuta — disse ele, dirigindo-se a Ivã Fiódorovitch —, e fiquei surpreso diante das palavras daquele padre: "A Igreja é um reino que não é deste mundo". Se ela não é deste mundo, não poderia existir sobre a terra. No Santo Evangelho, as palavras "não és deste mundo" são empregadas num outro sentido. É impossível brincar com semelhantes palavras. Nosso Senhor Jesus Cristo veio precisamente estabelecer a Igreja sobre a terra. O reino dos céus, bem entendido, não é deste mundo, mas do céu, e nele só se entra pela Igreja, a qual foi fundada e estabelecida sobre a terra. Também os trocadilhos mundanos a este respeito são impossíveis e indignos. A Igreja é verdadeiramente um reino, está destinada a reinar, e finalmente seu reino se estenderá sobre o universo inteiro, temos disso a promessa...

Calou-se de repente, como que se contendo. Ivã Fiódorovitch, depois de havê-lo escutado com deferência e atenção, com a maior calma, continuou com a mesma simplicidade, dirigindo-se ao stáriets.

— A idéia mestra de meu artigo é que o cristianismo, nos três primeiros séculos de sua existência, aparece sobre a terra como uma Igreja e não era outra coisa. Quando o Estado romano pagão adotou o cristianismo, aconteceu que, tornado cristão, incorporou a si a Igreja, mas continuou a ser um Estado pagão numa multidão de atribuições. No fundo, era isso inevitável. Roma, como Estado, herdara por demais da civilização e da sabedoria pagas, como, por exemplo, os fins e as próprias bases do Estado. A Igreja do Cristo, entrada no Estado, não podia 60

evidentemente nada cortar de suas bases, da pedra sobre a qual repousava; só podia prosseguir os seus fins, firmemente estabelecidos e indicados pelo próprio Senhor, entre outros: converter em Igreja o mundo inteiro e, por conseqüência, o Estado pagão antigo. Dessa maneira (isto é, em vista do futuro), não era a Igreja que devia procurar para si um lugar definido no Estado, como "toda associação pública", ou como "uma associação que se propunha fins religiosos" (para empregar os termos do autor que refuto), mas, pelo contrário, todo Estado terrestre devia posteriormente converter-se em Igreja, não ser senão isso, renunciar a seus outros fins incompatíveis com os da Igreja. Isto não o humilha absolutamente, não diminui nem sua honra, nem sua glória, como grande Estado, nem a glória de seus chefes, mas isto a faz deixar a falsa via, ainda paga e errada, pela via justa, a única que leva aos fins eternos. Eis por que o autor do livro sobre as Bases da Justiça Eclesiástica teria pensado com justeza se, procurando e propondo essas bases, as tivesse considerado como um compromisso provisório, necessário ainda à nossa época pecadora e imperfeita, mas nada mais. Desde, porém, que o autor ousa declarar que as bases que propõe agora, e das quais o Padre lósif acaba de enumerar uma parte, são inabaláveis, primordiais, eternas, está ele em oposição direta à Igreja e sua predestinação santa imutável. Eis a exposição completa de meu artigo.

Continuar: parte 2 de 2