Os Irmãos Karamázov
Capítulo 16
À direita, igualmente perto do leito, estava sentada uma pessoa do sexo feminino, uma pobre criatura ainda jovem, duns vinte anos, mas corcunda e aleijada, de pés secos, como explicaram depois a Aliócha. Viam-se suas muletas a um canto, entre o leito e a parede. Os magníficos olhos da pobre moça fitavam Aliócha com doçura. Sentada à mesa e acabando a omelete, via-se uma personagem de 45 anos, de pequena estatura, magra, de constituição débil, cuja barba arruivada e rala assemelhava-se bastante a um esfregão de tília desfiado (esta comparação e sobretudo a palavra
"esfregão" surgiram ao primeiro lance de vista no espírito de Aliócha, lembrou-se ele mais tarde). Fora ele, evidentemente, quem respondera de dentro, porque não havia outro homem no quarto. Quando Aliócha entrou, levantou-se bruscamente, limpou a boca com um guardanapo esburacado e apressou-se em ir-lhe ao encontro.
— Um monge que pede esmolas para seu mosteiro encontrou a quem se dirigir! — proferiu a moça que se mantinha no ângulo da esquerda. O indivíduo que correra ao encontro de Aliócha girou nos calcanhares e respondeu-lhe num tom entrecortado.
— Não, Varvara Nikoláievna, não é isto, você não adivinhou! Permita-me que lhe pergunte — disse, voltando-se para Aliócha, — o que o levou a visitar... este antro?
Aliócha observou-o atentamente. Via aquele homem pela primeira vez. Havia nele algo de áspero, de apressado, de irritado. Tinha certamente bebido, mas não estava bêbedo. Seu rosto refletia uma caracterizada impudência e, ao mesmo tempo — coisa estranha —, uma 208
covardia visível. Assemelhava-se a um homem muito tempo submetido e sofredor, mas que de repente sentisse ímpetos de reerguer-se e de manifestar-se. Ou, melhor ainda, um homem que ardia do desejo de bater na gente, mas temendo nossos golpes. Nas suas palavras e na entonação de sua voz, bastante penetrante, distinguia-se uma espécie de humor esquisito, ora mau, ora tímido, intermitente e de tom desigual. Falara do antro, como a tremer, com os olhos arregalados e mantendo-se tão perto de Aliócha, que este deu maquinalmente um passo para trás. A personagem trazia um paletó de ganga, escuro, em muito mau estado, remendado, manchado. Suas calças, muito claras, como não se usam mais desde muito tempo, eram de quadrados dum pano muito ralo, esfiapadas embaixo, e subiam-lhe nas pernas a ponto de dar-lhe o ar dum menino que cresceu demais.
— Eu sou... Alieksiéi Karamázov... — respondeu Aliócha.
— Sei bem — replicou o outro, dando a entender que lhe conhecia a identidade. — E eu sou o Capitão Snieguiriov. Mas importa saber o que o traz...
— Vim por vir. De fato, queria dizer-lhe uma palavra, em meu no-me... se o permite...
— Neste caso, eis uma cadeira, queira sentar-se. É nas velhas comédias que diziam: "Queira sentar-se... "
Com um gesto pronto, o capitão agarrou uma cadeira livre (uma simples cadeira de mujique, de madeira), que colocou quase no meio do quarto; tomou outra igual para si e sentou-se diante de Aliócha, de novo tão perto que seus joelhos quase se tocavam.
— Nikolai Ilitch Snieguiriov, ex-capitão da infantaria russa, envilecido pelos seus vícios, mas apesar de tudo capitão. Deveria antes dizer: Capitão Slovoiérsov e não Snieguiriov, pois na segunda metade de minha vida comecei a empregar a letra "s". Esta letra "s" aprende-se
na abjeção. 16
— É assim mesmo — disse Aliócha, sorrindo. — Somente, aprende-16 Refere-se ao costume que havia, na época, de a gente pobre acrescentar um "s" ao fim das palavras, como deferência às pessoas importantes.
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se sem querer ou de propósito?
— Deus o vê, involuntariamente. Nunca a tinha dito, passei toda a minha vida sem dizê-la e, de repente, comecei a empregar o "s". Faz-se assim por força maior. Vejo que o senhor se interessa pelos problemas contemporâneos. Mas que pôde infundir-lhe tanta curiosidade? pois vivo em um meio impossível para receber-se alguém.
— Vim justamente por causa disso...
— Disso quê? — interrompeu o capitão, impaciente.
— A propósito de seu encontro com meu irmão, Dimítri
Fiódorovitch — replicou Aliócha, constrangido.
— Que encontro? Não será o mesmo, isto é, a respeito do "esfregão de tília"?
Avançou de tal maneira desta vez que seus joelhos bateram nos de Aliócha. Seus lábios cerrados formavam uma linha estreita.
— Que "esfregão de tília"? — murmurou Aliócha.
— É para se queixar de mim, papai, que ele veio! — ressoou uma voz por trás da cortina, uma voz já conhecida de Aliócha, a do menino de ainda há pouco. — Eu mordi o dedo dele hoje!
A cortina afastou-se e Aliócha avistou seu recente inimigo, no canto sob os ícones, sobre um leito formado por um banco e uma cadeira. O
menino estava deitado, coberto por seu pequeno sobretudo e por um velho cobertor acolchoado. Era visível que estava doente e com febre, a julgar por seus olhos ardentes. Intrépido, olhava para Aliócha, com ar de dizer: "Aqui em casa, nada me podes fazer".
— Como? Que dedo mordeu ele? — sobressaltou-se o capitão. — Foi o seu?
— Sim, o meu. Ainda há pouco, batia-se a pedradas na rua com seus camaradas; eram seis contra ele. Aproximei-me, atirou-me ele uma, depois outra à cabeça. Perguntei-lhe o que lhe tinha feito eu. De súbito, avançou e me mordeu cruelmente o dedo. Ignoro-o por quê.
— Vou açoitá-lo! — exclamou o capitão, que saltou da cadeira.
— Mas não me estou queixando, contava somente... Não quero que 210
o açoite! Aliás, creio que está doente...
— E pensava o senhor que eu ia fazer isso? Que eu ia agarrar Iliúchka e açoitá-lo diante do senhor para sua inteira satisfação? Quer isso imediatamente? — proferiu o capitão, voltando-se para Aliócha com um gesto ameaçador, como se quisesse lançar-se sobre ele. — Lamento o seu dedo, senhor, mas não quererá que antes de açoitar Iliúchka corte meus quatro dedos diante do senhor, com esta faca, para sua justa satisfação?
Penso que quatro dedos lhe bastarão, o senhor não reclamará o quinto, para aplacar sua sede de vingança!... — Parou de súbito, como sufocado.
Cada traço de seu rosto se agitava e se contraía, seu olhar era dos mais provocantes. Estava como que enlouquecido.
— Agora, compreendi tudo — disse Aliócha, num tom doce e triste sem se levantar. — De modo que tem o senhor um bom filho, que ama seu pai e lançou-se sobre mim por ser eu o irmão do ofensor do senhor...