Os Irmãos Karamázov

Fiódor Dostoiévski · Capítulo 28 de 50

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Os Irmãos Karamázov

Capítulo 28

000 mártires encarregados do conhecimento maldito do bem e do mal.

Morrerão tranqüilamente, extinguir-se-ão mansamente em teu nome e no outro mundo nada encontrarão senão a morte. Mas nós guardaremos o segredo; nós os ninaremos, para sua felicidade, com uma recompensa eterna no céu. Porque, se houvesse outra vida, não seria decerto para criaturas como eles. Profetiza-se que voltarás para vencer de novo, cercado de teus eleitos, poderosos e orgulhosos; diremos que eles só se salvaram a si mesmos, ao passo que nós salvamos o mundo inteiro. Dizem que a fornicadora, montada na besta e tendo nas mãos a taça do mistério, será desonrada, que os fracos se revoltarão de novo, rasgarão sua púrpura e desnudarão seu corpo 'impuro'. Eu me levantarei então e te mostrarei os bilhões de felizes que não conheceram o pecado. E nós, que nos sobrecarregamos com seus pecados, para sua felicidade, nós nos ergueremos diante de ti, dizendo: 'Não te tememos; também eu estive no deserto, vivi de gafanhotos e de raízes; também eu abençoei a liberdade com que gratificaste os homens e me preparava para figurar entre teus eleitos, os poderosos e os fortes, ardendo por completar-lhes o numero.

Mas dominei-me e não quis servir uma causa insensata. Voltei a juntar-me àqueles que corrigiram tua obra. Abandonei os orgulhosos, voltei aos humildes, para fazer a felicidade deles. O que te digo se realizará e nosso império se edificará. Repito-te, amanhã, a um sinal meu, verás aquele rebanho dócil trazer carvões acesos para a fogueira a que subirás, por teres vindo estorvar nossa obra. Porque, se alguém mereceu mais que todos a fogueira, foste tu.

Amanhã, queimar-te-ei. Dixi. " 28

Ivã parou. Exaltara-se ao discorrer e falava com animação; ao terminar, sorriu.

28 "Tenho dito. " Expressão latina empregada antigamente no final dos discursos.

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Aliócha escutara em silêncio, com uma emoção extrema. Por várias vezes, tinha querido interromper seu irmão, mas contivera-se.

— Mas... é absurdo! — exclamou, corando. — Teu poema é um elogio de Jesus e não uma censura... como o querias. Quem acreditará no que dizes da liberdade? É assim que se deve compreendê-la? É essa a concepção da Igreja Ortodoxa?... É Roma, e não toda, são os piores elementos do catolicismo, os inquisidores, os jesuítas!... Não existe personagem fantástico como o teu inquisidor. Quais são esses pecados dos outros dos quais se assume a carga? Quem são esses detentores do mistério, que se encarregam do anátema pela felicidade dos homens?

Quando se viu isso? Conhecemos os jesuítas, fala-se mal deles, mas são semelhantes aos teus? De modo algum!... É simplesmente o exército romano, o instrumento da futura dominação universal, com um imperador, o pontífice romano, à sua frente... eis o ideal deles, não há aí mistério nenhum, nem tristeza sublime... A sede de reinar, a vulgar cobiça dos vis bens terrestres... uma espécie de servidão futura em que eles se tornariam proprietários de terras... eis tudo. Talvez mesmo não creiam em Deus. Teu inquisidor não passa de uma ficção...

— Pára, pára! — disse, rindo, Ivã. — Como te acaloras! Uma ficção, dizes? Pois seja, evidentemente. No entanto, crês verdadeiramente que todo o movimento católico dos derradeiros séculos seja apenas inspirado pela sede do poder, em vista somente dos bens terrestres? Não será o Padre Paísi quem. te ensina isto?

— Não, não, pelo contrário, o Padre Paísi falou uma vez no teu mesmo sentido... mas, decerto, não disse de todo a mesma coisa —

emendou Aliócha.

— Eis uma informação preciosa, apesar do teu "não de todo a mesma coisa". Mas por que os jesuítas e os inquisidores ter-se-iam unido unicamente em vista da felicidade terrestre? Não se pode encontrar entre eles um só mártir, presa dum nobre sofrimento e amando a humanidade?

Suponhamos que entre essas criaturas sedentas somente de bens materiais seja encontrada uma só como o meu velho inquisidor, que viveu de raízes no deserto e encarniçou-se em domar seus sentidos para se tornar livre, para atingir a perfeição; no entanto, sempre amou a humanidade. De repente, vê claro, dá-se conta de que é uma felicidade medíocre atingir a liberdade perfeita, quando milhões de criaturas permanecem para sempre 274

desgraçadas, demasiado fracas para usar de sua liberdade, de que esses revoltados débeis não poderão jamais terminar sua torre, e de que não é para tais gansos que o grande idealista sonhou sua harmonia. Depois de ter compreendido tudo isto, meu inquisidor volta atrás e... alia-se às pessoas de espírito. Será, pois, impossível?

— Alia-se a quem, a que pessoas de espírito? — exclamou Aliócha, quase zangado. — Não têm espírito, não detêm mistérios, nem segredos...

O ateísmo, eis o segredo deles. Teu inquisidor não crê em Deus.

— Pois bem, e se assim fosse? Adivinhaste, afinal. É bem isto, eis todo o segredo, mas não é um sofrimento, pelo menos para um homem como ele, que sacrificou sua vida a seu ideal no deserto e não cessou de amar a humanidade? No declínio de seus dias convence-se claramente de que somente os conselhos do grande e terrível espírito poderiam tornar suportável a existência dos revoltados débeis, "desses seres abortados, criados por derrisão". Compreende que é preciso escutar o espírito profundo, esse espírito de morte e de ruína, e, para isto fazer, admitir a mentirá e a fraude, conduzir cientemente os homens à morte e à ruína, enganando-os durante o caminho todo, para ocultar-lhes para onde os leva, e para que esses lastimáveis cegos tenham a ilusão da felicidade.

Nota isto: a fraude em nome daquele no qual o velho acreditou ardentemente durante toda a sua vida! Não é uma desgraça? E se se encontra, seja apenas uma criatura semelhante, à frente desse exército

"ávido de poder em vista apenas de bens vis", não é bastante para suscitar uma tragédia? Bem mais ainda, basta um só chefe semelhante para encarnar a verdadeira idéia diretriz do catolicismo romano, com seus exércitos e seus jesuítas, a idéia superior. Declaro-te que estou persuadido de que esse tipo único jamais faltou entre os que estão à testa do movimento. Quem sabe se não houve talvez alguns entre os pontífices romanos? Quem sabe? Talvez aquele maldito velho, que ama tão obstinadamente a humanidade, à sua maneira, exista ainda agora em vários exemplares, e isto não por efeito do acaso, mas sob a forma de uma aliança, de uma liga secreta, organizada desde muito tempo para manter o mistério, roubá-lo aos desgraçados e aos fracos, para torná-los felizes?

Deve certamente ser assim, é fatal. Imagino mesmo que os franco-maçons têm um mistério análogo na base de sua doutrina e é por isso que os católicos odeiam os franco-maçons; vêem neles uma concorrência, a difusão da idéia única, quando deve haver um só rebanho sob um só 275

pastor. Aliás, defendendo meu pensamento, tenho o ar de um autor que não suporta tua crítica. Basta disso.

— Talvez sejas tu mesmo um franco-maçom — deixou escapar de súbito Aliócha. — Não crês em Deus — acrescentou com profunda tristeza.

Parecera-lhe que seu irmão o olhava com ar zombeteiro. — Como acabou teu poema? — continuou, de olhos baixos. — Ou já se acabou?

— Queria acabá-lo assim: o inquisidor se cala, espera um momento a resposta do prisioneiro. Seu silêncio lhe pesa. O cativo escutou-o todo o tempo, fixando-o com seu olhar penetrante e calmo, visivelmente decidido a não lhe dar resposta. O velho queria que ele lhe dissesse alguma coisa, ainda mesmo palavras amargas e terríveis. De repente, o prisioneiro aproxima-se em silêncio do nonagenário e beija-lhe os lábios exangues. É

toda a sua resposta. O velho estremece, seus lábios tremem, vai à porta, abre-a e diz: "Vai-te e não voltes mais... nunca mais!" E deixa que ele se vá pelas trevas da cidade. O prisioneiro sai.

— E o velho?

— O beijo queima-lhe o coração, mas ele persiste na sua idéia.

— E tu estás com ele, também tu! — exclamou amargamente Aliócha.

— Que absurdo, Aliócha! É apenas um poema destituído de sentido, a obra dum fedelho estudante que jamais fez versos. Pensas que vou agora meter-me com os jesuítas, juntar-me àqueles que corrigiram sua obra? Oh!

Senhor! que me importa? Já to disse: assim que atingir os meus trinta anos, quebrarei a taça.

— E os brotos tenros, os túmulos queridos, o céu azul, a mulher amada? Como viverás, qual será teu amor por eles? — exclamou Aliócha, cheio de dor. — Pode-se viver com tanto inferno no coração e na cabeça?

Sim, vais juntar-te a eles... se não, tu te suicidarás, desesperado.

— Há em mim uma força que resiste a tudo! — declarou Ivã, com um frio sorriso.

— Qual?

— A dos Karamázovi... a força que eles haurem de sua baixeza.

— Quer dizer mergulhar na corrupção, perverter sua alma, não é?

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— Poderia ser isso também... Talvez escape a isso até os trinta anos e depois...

— Como poderás escapar a isso? É impossível, com tuas idéias.

— Também karamazovianas!

— Quer dizer que "tudo é permitido", não é?

Ivã franziu o cenho e empalideceu estranhamente.

— Ah! apanhaste ao vôo aquela frase de ontem que tanto ofendeu Miúsov... e que Dimítri repetiu tão ingenuamente. Pois seja, "tudo é.

permitido", já que se disse isto. Não me retrato. Aliás, Mítia formulou-a bastante bem.

Aliócha examínava-o em silêncio.

— Na véspera de partir, meu irmão, pensava que tinha só a ti no mundo, mas vejo agora que, mesmo em teu coração, não há mais lugar para mim, meu caro eremita. Não renegarei esta fórmula de que "tildo é permitido" e serás tu então que me renegarás, não é?

Aliócha aproximou-se dele e beijou-lhe suavemente os lábios.

— É um plágio! — exclamou Ivã, de súbito exaltado. — Tiraste isto do meu poema. Agradeço-te, no entanto. É tempo de partir, Aliócha, para ti e para mim.

Saíram. No patamar, pararam.

— Escuta, Aliócha — disse Ivã num tom firme —, se posso ainda amar os brotos primaveris, será graças à tua lembrança. Bastar-me-á saber que estás aqui, em alguma parte, para retomar gosto pela vida. Estás contente? Se quiseres, toma isto como uma declaração de amizade. Agora, sigamos cada qual para seu lado. E chega, entendes-me?

Quer dizer que, se não partir amanhã (o que não é provável) e nos encontrarmos de novo, nem uma palavra a respeito dessas questões. Peço-te formalmente. E, quanto a Dimítri, rogo-te também que não me fales mais dele, nunca mais. O assunto está esgotado, não? Em troca, prometo-te, aos trinta anos, quando eu quiser "atirar minha taça", voltar a conversar ainda contigo, onde quer que te aches, ainda que esteja eu na América.

Interessar-me-á muito então ver o que te tornaste. Eis uma promessa 277

solene, com efeito. Nós nos despedimos por dez anos, talvez. Vai ter com teu pater seraphicus, que está morrendo; se morresse em tua ausência, haverias de ficar zangado comigo porque te retive. Adeus; beija-me ainda uma vez, e agora vai-te...

Ivã afastou-se e seguiu seu caminho sem voltar-se. Fora assim que Dimítri partira na véspera, em condições muitíssimo diversas, é verdade.

Essa observação estranha atravessou como uma flecha o espírito entris-tecido de Aliócha. Ficou alguns instantes a acompanhar seu irmão com o olhar. De repente, percebeu, pela primeira vez, que Ivã gingava ao andar e que tinha, visto de costas, o ombro direito mais baixo que o outro. Mas de súbito Aliócha deu meia volta e dirigiu-se, quase correndo, para o mosteiro. A noite caía; estava inquieto, invadido por um pressentimento indefinível. Como na véspera, o vento elevou-se e os pinheiros centenários rugitavam lúgubremente, quando entrou no bosque do eremitério. Corria quase. "Pater seraphicus, donde tirara ele esse nome? Ivã, pobre Ivã, quando tornarei a ver-te?... Aqui está o eremitério, Senhor! Sim, é ele, o pater seraphicus, que me salvará... dele para sempre!"

Várias vezes, mais tarde, admirou-se de ter podido, após a partida de Ivã, esquecer-se tão totalmente de Dimítri, a quem prometera a si mesmo, naquela manhã mesma, procurar e descobrir, embora tivesse de passar a noite fora do mosteiro.

VI

ONDE REINA AINDA A OBSCURIDADE

Por seu lado, depois de ter deixado Aliócha, dirigiu-se Ivã Fiódorovitch à casa de seu pai. Coisa estranha, sentiu de repente uma ansiedade intolerável, que aumentava à medida que se aproximava da casa. Não era a sensação que lhe causava espanto, mas a impossibilidade de defini-la. Conhecia a ansiedade por experiência e não o surpreendia senti-la naquele momento, quando, depois de ter rompido com tudo quanto o retinha naqueles lugares, ia engajar-se numa via nova e desconhecida, sempre também solitária, cheio de esperança sem finalidade, de confiança excessiva na vida, mas incapaz de precisar sua expectativa e suas esperanças. Naquele instante, se bem que apreendesse 278

o desconhecido, não era isso que o atormentava. "Não será a aversão pela casa paterna?", pensava ele. "Seria na verdade isso, tanto ela me repugna, muito embora lhe transponha os umbrais hoje pela derradeira vez... Mas não, não é isso. Foram talvez as despedidas com Aliócha, depois de nossa conversa. Conservei-me calado por tanto tempo, sem dignar-me falar, e eis que passo a acumular tantos absurdos. " Na realidade, podia ser o despeito da inexperiência e da vaidade juvenis, o despeito de não ter revelado seu pensamento, sobretudo com uma criatura como Aliócha, de.

quem esperava ele certamente muito em seu foro íntimo. Sem dúvida, esse despeito existia, era fatal, mas havia outra coisa. "Estar ansioso até a náusea e não poder precisar o que quero. Não pensar, talvez... "

Ivã Fiódorovitch tentou "não pensar", mas nada conseguiu. O que o irritava sobretudo era que aquela ansiedade tinha uma causa fortuita, exterior, sentia-o ele. Um ser ou um objeto obsedava-o vagamente, da mesma maneira que se tem por vezes diante dos olhos, sem que se perceba, durante um trabalho ou uma conversação animada, alguma coisa irritante até o sofrimento, até que nos vem por fim a idéia de afastar aquele objeto incômodo, muitas vezes uma bagatela: uma coisa que não está no lugar, um lenço caído no chão, um livro fora da estante, etc. De muito mau humor, chegou Ivã à casa paterna; a quinze passos da porta ergueu os olhos e adivinhou de repente o motivo de sua perturbação.

Sentado num banco, perto do portão, o criado Smierdiákov tomava fresco. Ao primeiro olhar compreendeu Ivã que aquele Smierdiákov o incomodava e que sua alma não podia suportá-lo. Foi como um raio de luz. Ainda há pouco, quando Aliócha contava seu encontro com Smierdiákov, sentira uma sombria repulsa, e, por contragolpe, animosidade. Em seguida, durante a conversa, não pensou mais naquilo, mas, desde que se encontrou só, a sensação esquecida emergiu do inconsciente.

"Será possível que esse miserável me inquiete a tal ponto?", pensava ele, exasperado.

Com efeito, havia pouco, sobretudo nos últimos dias, tomara aversão àquele homem. Ele próprio acabara por notar aquela antipatia crescente. O que a agravava talvez é que, no começo de sua estada entre nós, experimentava Ivã Fiódorovitch por Smierdiákov uma espécie de simpatia. Achara-o a princípio muito original e conversava habitualmente com ele, julgando-o um pouco limitado ou antes inquieto, e sem 279

compreender o que podia mesmo atormentar constantemente aquele contemplador. Entretinham-se também com questões filosóficas, perguntando mesmo por que a luz brilhava no primeiro dia — quando o sol, a lua e as estrelas só tinham sido criados no quarto dia — e a maneira de compreender isso. Mas em breve Ivã Fiódorovitch convenceu-se de que Smierdiákov interessava-se mediocremente pelos astros e que lhe era preciso outra coisa. Manifestava um amor-próprio excessivo e ofendido.

Isto desagradou bastante a Ivã e engendrou sua aversão. Mais tarde sobrevieram incidentes desagradáveis, o aparecimento de Grúchenhka, as brigas de Dimítri com seu pai; houve barulhos. Se bem que Smierdiákov sempre falasse com agitação, não se podia nunca saber o que desejava ele para si mesmo. Alguns de seus desejos, quando os formulava involuntariamente, impressionavam pela sua incoerência. Eram constantemente perguntas, alusões que ele não explicava, interrompendo-se ou falando de outra coisa no momento mais animado. Mas o que exasperava Ivã e acabara por tornar-lhe Smierdiákov antipático era a familiaridade chocante que este lhe testemunhava cada vez mais. Não que fosse descortês, pelo contrário; mas Smierdiákov chegara a um ponto, Deus sabe por que, em que se acreditava solidário com Ivã Fiódorovitch; exprimia-se sempre como se existisse entre eles uma aliança secreta conhecida só dos dois e incompreensível para os que os cercavam. Ivã Fiódorovitch levou muito tempo para compreender a causa de sua repulsa crescente e só muito recentemente dera-se conta disso. Queria passar irritado e desdenhoso, sem nada dizer a Smierdiákov, mas este se levantou e esse gesto revelou a Ivã Fiódorovitch seu desejo de falar-lhe em particular. Olhou-o e parou, e o fato de agir assim, em lugar de passar adiante como era sua intenção, transtornou-o. Olhava com cólera e repulsa aquela figura de eunuco, de cabelos penteados sobre as têmporas, com uma mecha levantada. O olho esquerdo piscava maliciosamente, como para dizer-lhe: "Tu não passarás, vês bem que nós, gente de espírito, temos de conversar". Ivã Fiódorovitch estremeceu.

"Para trás, miserável! Que há de comum entre nós, imbecil?!", quis gritar; mas em lugar dessa descompostura, e para grande assombro seu, proferiu coisa bem diversa:

— Meu pai ainda está dormindo? — perguntou, num tom resignado, e, sem pensar nisso, sentou-se no banco. Um instante, quase teve medo, lembrou-se depois. Smierdiákov mantinha-se diante dele, com as mãos 280

atrás das costas, e olhava-o com segurança, quase com severidade.

— Repousa ainda — disse, sem se apressar. (Foi ele quem me dirigiu por primeiro a palavra!) — O senhor me causa espanto — acrescentou depois de algum silêncio, os olhos baixos com afetação, brincando com a ponta de sua botina engraxada, com o pé direito para a frente.

— Que é que te causa espanto? — perguntou secamente Ivã Fiódorovitch, esforçando-se por conter-se, mas nauseado por sentir viva curiosidade, que queria satisfazer a qualquer preço.

— Por que não vai a Tchermachnia? — perguntou Smierdiákov, com um sorriso familiar. "Deves compreender meu sorriso, se és um homem de espírito", parecia dizer seu olho esquerdo.

— Que irei fazer em Tchermachniá? — admirou-se Ivã Fiódorovitch.

Houve um silêncio.

— Fiódor Pávlovitch rogou-lhe insistentemente — disse por fim, sem se apressar, como se não ligasse nenhuma importância à resposta dele:

"Indico-te um motivo de terceira ordem, unicamente para dizer alguma coisa".

— Com os diabos! Fala mais claramente. Que queres? — exclamou Ivã Fiódorovitch, com cólera, tornando-se grosseiro.

Smierdiákov puxou o pé direito para junto do esquerdo, endireitou-se, sempre com o mesmo sorriso fleumático.

— Nada de sério... Era só por falar.

Novo silêncio. Ivã Fiódorovitch compreendia que deveria levantar-se, zangar-se; Smierdiákov mantinha-se diante dele e parecia esperar: "Vejamos, zangar-te-ás ou não?" Tinha pelo menos a impressão disso. Por fim, fez um movimento para levantar-se. Smierdiákov aproveitou a ocasião.

— Terrível situação a minha, Ivã Fiódorovitch, não sei como sair do aperto — disse com voz firme, depois do que suspirou. Ivã tornou a sentar-se.

— Ambos perderam a cabeça, dir-se-iam crianças. Falo de seu pai e de seu irmão Dimítri Fiódorovitch. Daqui a pouco, Fiódor Pávlovitch vai-se levantar e perguntar-me a cada instante: "Por que ela não veio?", até 281

meia-noite e mesmo depois. Se Agrafiena Alieksándrovna não vier (creio que não tem ela absolutamente intenção disso), amanhã de manhã virá ele perguntar-me de novo: 'Por que ela não veio? Quando virá ela?", como se fosse culpa minha! Do outro lado, é a mesma história; ao cair da noite, por vezes antes, chega seu irmão, armado: "Toma cuidado, tratante, queima-panelas, se a deixas passar sem me prevenir, matar-te-ei em primeiro lugar!" De manhã, atormenta-me ele como Fiódor Pávlovitch, tanto que pareço também responsável perante ele pelo fato de não ter vindo sua dama. A cólera deles cresce todos os dias, a ponto de sonhar eu por vezes em suicidar-me, tal é o medo que tenho. Não espero nada de bom.

— Por que te meteste nisto? Por que te tornaste o espião de Dimítri Fiódorovitch?

— Como agir de outro modo? Aliás, não me meti em nada, se quer saber. No começo calava-me, não ousando replicar. Fez ele de mim seu servidor. Depois, são ameaças contínuas: "Eu te matarei, patife, se a deixares entrar". Estou certo, senhor, de ter amanhã uma longa crise.

— Que crise?

— Mas uma crise longa, muito longa. Durará várias horas, um dia ou dois, talvez. Uma vez, durou três dias, ficando eu sem conhecimento.

Caíra do celeiro. Fiódor Pávlovitch mandou chamar Herzenstube, que prescreveu gelo sobre o crânio, depois outro remédio. Estive à morte.

— Mas dizem que é impossível prever as crises de epilepsia. Como podes saber que será amanhã? — perguntou Ivã Fiódorovitch com uma curiosidade a que se misturava cólera.

— É verdade.

— Além do mais, caíras do celeiro daquela vez.

— Poderei cair amanhã, porque subo lá todos os dias. Se não for no celeiro, cairei na adega. Vou lá também todos os dias.

Ivã examinou-o longamente.

— Tu tramas alguma coisa que não compreendo bem — disse ele em voz baixa, mas com ar ameaçador. — Não terás a intenção de simular uma crise por três dias?

— Se eu pudesse simular — não passa de um brinquedo, quando se 282

tem experiência —, teria plenamente o direito de recorrer a esse meio para salvar minha vida, porque quando estou nesse estado, até mesmo se Agrafiena Alieksandrovna chegasse, seu irmão não poderia exigir contas a um doente. Teria vergonha.

— Com os diabos! — exclamou Ivã Fiódorovitch, com as feições contraídas pela cólera. — Por que tens de temer sempre pela tua vida? As ameaças de Dimítri são falas de um homem furibundo e nada mais.

Matará alguém, mas não tu.

— Matar-me-ia como a uma mosca, a mim em primeiro lugar. Receio ainda mais passar por seu cúmplice, se ele atacasse loucamente seu pai.

— Por que te acusariam de cumplicidade?

— Porque lhe revelei um segredo... os sinais.

— Que sinais? Que o diabo te leve! Fala claramente.

— Devo confessar — disse arrastadamente Smierdiákov, com ar doutorai —, temos um segredo, Fiódor Pávlovitch e eu. O senhor sabe sem dúvida que desde alguns dias ele se tranca com ferrolho assim que chega a noite. Nestes tempos, o senhor regressa cedo, sobe imediatamente para seus aposentos, ontem mesmo nem chegou a sair, de modo que ignora talvez com que cuidado ele se embarricava. Se Gregório Vassílievitch chegasse, ele só lhe abriria a porta depois de reconhecer-lhe a voz. Mas Gregório Vassílievitch não vem, porque sou eu somente que sirvo nos aposentos de seu pai — decidiu ele assim desde aquela intriga com Agrafiena Alieksandrovna; de acordo com suas instruções, passo a noite no pavilhão; até meia-noite devo montar guarda, vigiar o pátio, para o caso de ela vir; desde alguns dias a espera o torna louco. Eis seu raciocínio.

"Dizem que ela tem medo dele (de Dimítri Fiódorovitch, entende-se), portanto virá de noite pelo pátio; fica de vigia lá até depois de meia-noite.

Assim que ela chegar lá, corre a bater na porta ou na janela no jardim, duas vezes de leve, assim, depois três vezes mais depressa, toc, toc, toc.

Então compreenderei que é ela e te abrirei devagarzinho a porta. " Deu-me outro sinal para os casos extraordinários, primeiro, dois golpes depressa, toc, toc, depois, após um intervalo, uma vez forte. Compreenderá que há novidade e me abrirá e eu farei meu relatório. Isto no caso em que viessem de parte de Agrafiena Alieksándrovna, ou se Dimítri Fiódorovitch che-283

gasse, a fim de assinalar sua aproximação. Ele tem muito medo e mesmo se estivesse trancado com sua beldade e o outro chegasse, sou obrigado a informá-lo disso imediatamente, dando três pancadas. O primeiro sinal, cinco pancadas, quer pois dizer: "Agrafiena Alieksándrovna chegou"; o segundo, três pancadas, significa: "Negócio urgente". Fez-me ensaiar várias vezes. E como ninguém no mundo conhece esses sinais, exceto ele e eu, abrir-me-á sem hesitar, nem chamar (receia muito fazer barulho). Ora, Dimítri Fiódorovitch está ao corrente desses sinais.

— Por quê? Foste tu que lhos transmitiste? Como ousaste?

— Tinha medo. Podia eu guardar o segredo? Dimítri Fiódorovitch insistia cada dia: "Tu me enganas, tu me ocultas alguma coisa! Quebrar-te-ei as pernas!" Falei para provar-lhe minha submissão e persuadi-lo de que não o engano, bem pelo contrário.

— Pois bem, se pensas que ele quer entrar por meio deste sinal, impede-o!

— E se eu tiver minha crise, como lho impedirei, admitindo que o ouse? Ele é tão violento!

— Que o diabo te carregue! Por que estás tão certo de ter uma crise amanhã? Zombas de mim!

— Não mo permitiria; aliás, não é momento para riso. Pressinto que terei uma crise, basta o medo para provocá-la

— Se estiveres deitado, será Gregório quem vetará. Previne-o, ele o impedirá.

— Não ouso revelar os sinais a Gregório Vassílievitch, sem a permissão do patrão. Aliás, Gregório Vassílievitch está doente desde ontem e Marfa Ignátievna prepara-se para cuidar dele. É bastante curioso: ela conhece e tem de reserva uma infusão fortíssima, feita de certa erva, é um segredo. Três vezes por ano, dá esse remédio a Gregório Vassílievitch, quando tem ele seu lumbago e fica como que paralítico. Pega ela um guardanapo embebido desse licor e esfrega-lhe com ele as costas uma meia hora, até que lhe fique a pele avermelhada e até mesmo inchada.

Depois dá-lhe a beber o resto do frasco, recitando uma oração. Ela mesma toma um pouco. Não tendo ambos costume de beber, caem ali mesmo e adormecem num sono profundo que dura muito tempo. Ao despertar, 284

Gregório Vassílievitch está quase sempre curado, ao passo que sua mulher fica com enxaqueca. De sorte que, se amanhã Marfa Ignátievna puser seu projeto em execução, não ouvirão eles Dimítri Fiódorovitch e o deixarão entrar. Estarão dormindo.

— Que absurdo! Tudo se arranjará como de propósito: tu terás tua crise, os outros estarão adormecidos. É de acreditar-se que tens intenções... — exclamou Ivã Fiódorovitch, franzindo o cenho.

— Como poderia eu arranjar tudo isso... e para que, quando tudo depende unicamente de Dimítri Fiódorovitch?... Se ele quiser agir, agirá, senão não irei procurá-lo para empurrá-lo para a casa de seu pai.

— Mas por que viria ele, e às ocultas ainda por cima, se Agrafiena Alieksandrovna não vem, como tu mesmo dizes? — prosseguiu Ivã Fiódorovitch, pálido de cólera. — Eu também sempre pensei que era uma fantasia do velho, que jamais aquela criatura viria aqui à casa dele. Por que, pois, Dimítri forçaria a porta? Fala, quero conhecer teu pensamento.

— O senhor mesmo sabe por que ele virá, de que adianta aqui meu pensamento? Virá ele por animosidade ou por desconfiança, se eu estiver doente, por exemplo; terá dúvidas e quererá explorar ele próprio os aposentos, como ontem de noite, ver se ela não teria entrado sem que ele o soubesse. Sabe também que Fiódor Pávlovitch preparou um grande envelope contendo 3 000 rublos, selado com três sinêtes e amarrado por uma fita. Escreveu de seu próprio punho: "Para meu anjo, Grúchenhka, se ela quiser vir". Três dias depois, acrescentou: "Para minha franguinha". Aí tem o senhor o perigo!

— Que absurdo! — exclamou Ivã Fiódorovitch fora de si. — Dimítri não irá roubar dinheiro e matar seu pai ao mesmo tempo. Ontem, teria podido matá-lo como um louco furioso por causa de Grúchenhka, mas não irá roubar.

— Tem ele extrema necessidade de dinheiro, Ivã Fiódorovitch. O

senhor nem mesmo pode fazer idéia — explicou Smierdiákov com grande calma e bem nitidamente. — Aliás, acha ele que esses 3 000 rublos lhe pertencem e declarou-me: "Meu pai me deve justamente 3 000 rublos".

Além do mais, Ivã Fiódorovitch, considere isto: está ele quase certo de que Agrafiena Alieksandrovna, se o quiser, obrigará Fiódor Pávlovitch a casar-se com ela. Acho que ela não virá, mas talvez queira ela algo mais, queira 285

tornar-se uma dama. Sei que seu amante, o comerciante Samsónov, dizia-lhe francamente que não seria este um mau negócio, e ria. Ela mesma não é tola; não tem razão nenhuma para casar-se com um pobretão como Dimítri Fiódorovitch. Neste caso, Ivã Fiódorovitch, sabe o senhor muito bem que nem o senhor nem seus irmãos herdarão de seu pai 1 rublo sequer, porque se Agrafiena Alieksandrovna casar com ele, será para pôr tudo em seu nome e ficar com todos os seus capitais. Se o pai dos senhores morrer agora, receberá cada um 40 000 rublos, até mesmo Dimítri Fiódorovitch, a quem ele detesta tanto, porque seu testamento ainda não está feito... Dimítri Fiódorovitch está ao corrente de tudo isto...

As feições de Ivã contraíram-se. Corou.

— Por que, pois — interrompeu bruscamente —, me aconselhas a partir para Tchermachniá? Que tencionavas com isso? Após minha partida, acontecerá aqui alguma coisa.

Ofegava.

— Justamente — disse num tom calmo Smierdiákov, fixando Ivã Fiódorovitch.

— Como justamente? — repetiu Ivã Fiódorovitch, procurando conter-se, com o olhar ameaçador.

— Digo isto por compaixão pelo senhor. No seu lugar, largaria tudo... para me afastar de tal negócio — replicou Smierdiákov, com ar franco. Ambos se calaram.

— Tens cara dum chapado imbecil... e dum perfeito canalha!

Ivã Fiódorovitch levantou-se dum salto. Queria transpor a pequena porta, mas parou e voltou para Smierdiákov. Passou-se então algo de estranho: Ivã Fiódorovitch mordeu os lábios, cerrou os punhos e esteve a ponto de lançar-se contra Smierdiákov. Este percebeu isso a tempo, estremeceu e recuou. Mas nada de desagradável aconteceu, e Ivã Fiódorovitch, silencioso e perplexo, dirigiu-se para a porta.

— Parto amanhã para Moscou, se o queres saber, amanha de manhã, eis tudo! — gritou ele, com raiva, surpreendido ele mesmo por ter podido dizer isto a Smierdiákov.

— Perfeito! — replicou este, como se já o esperasse. — Somente, 286

talvez tenham de telegrafar-lhe para lá, caso aconteça alguma coisa.

Ivã Fiódorovitch voltou-se de novo, mas uma mudança súbita operara-se em Smierdiákov. Toda a sua familiaridade displicente desaparecera; todo o seu rosto exprimia uma atenção e uma expectativa extremas, mas tímidas e servis. "Não acrescentaras nada?", ' lia-se no seu olhar fixo sobre Ivã Fiódorovitch.

— E não me chamariam também de Tchermanchniá, se acontecesse alguma coisa? — vociferou Ivã Fiódorovitch, elevando a voz sem saber por quê.

— Também o avisarão em Tchermachma... — murmurou Smierdiákov, em voz baixa, sem cessar de fitar Ivã bem nos olhos.

— Somente Moscou é longe e Tchermachniá é perto; será que lamentas as despesas da viagem, que insistes por Tchermachniá, ou me lamentas por ter eu de dar uma grande volta?

— Justamente — murmurou Smierdiákov, com voz mal segura e um sorriso vil, pronto de novo a saltar para trás. Mas, com grande surpresa sua, Ivã Fiódorovitch desatou a rir. Transposta a porta, ria ainda. Quem o tivesse observado naquele instante não teria atribuído aquele riso à jovialidade. Ele próprio não teria podido explicar o que sentia. Andava maquinalmente.

VII

DÁ GOSTO FALAR COM UM HOMEM DE ESPÍRITO

Falava sozinho também. Encontrando Fiódor Pávlovitch no salão, gritou-lhe, gesticulando: "Subo ao meu quarto, não irei aos seus aposentos... adeus!", e passou, evitando olhar seu pai. Sem dúvida, sua aversão pelo velho dominou-o naquele momento, mas essa animosidade manifestada com tal sem-cerimônia surpreendeu o próprio Fiódor Pávlovitch. Tinha evidentemente algo de urgente a dizer a seu filho e viera a seu encontro com este fim; diante daquela indelicada acolhida, calou-se e acompanhou-o com um olhar irônico até que ele desapareceu.

— Que tem ele? — perguntou a Smierdiákov, que chegava.

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— Está zangado. Quem sabe por quê? — respondeu evasivamente Smierdiákov.

— Ao diabo sua zanga! Apressa-te em trazer-me o samovar e vai-te.

Nada de novo?

Vieram então as perguntas de que Smierdiákov acabava de queixar-se a Ivã Fiódorovitch, referentes à visitante esperada, mas silenciamos a respeito. Meia hora mais tarde, a casa estava fechada e o velho apaixonado pôs-se a andar para lá e para cá, com o coração palpitante, aguardando o sinal convencionado. Por vezes, olhava as janelas sombrias, mas só via a noite.

Já era bastante tarde e Ivã Fiódorovitch não dormia. Meditava e só se deitou às 2 horas. Não exporemos o curso de seus pensamentos; não chegou o momento de entrar naquela alma; chegará a vez dela. Seria, aliás, bastante árduo, porque não eram pensamentos, mas antes uma agitação vaga. Ele próprio sentia que perdia pé. Desejos estranhos o atormentavam: assim, depois da meia-noite, sentiu uma vontade irresistível de descer, de abrir a porta e ir ao pavilhão dar uma surra em Smierdiákov, mas, se lhe tivessem perguntado por que, não teria podido indicar um só motivo, salvo talvez que aquele lacaio se lhe tornara odioso, como o pior ofensor que existisse. Por outra parte, uma timidez inexplicável, humilhante, invadiu-o várias vezes, paralisando suas forças físicas. Sua cabeça girava, doía-lhe. Uma sensação de ódio aguilhoava-o, como se fosse ele vingar-se de alguém. Odiava até mesmo Aliócha, lembrando-se de sua recente conversa, e, por instantes, detestava a si mesmo. Esquecera Catarina Ivânovna e admirou-se mais tarde, lembrando-se de que na véspera, quando se gabava diante dela de partir para Moscou no dia seguinte, dizia a si mesmo: "É absurdo, não partirás e não romperás tão facilmente, fanfarrão!" Muito tempo depois, lembrou-se Ivã Fiódorovitch com repulsa de que, naquela noite, foi de mansinho, como se temesse ser percebido, abrir a porta, saiu para o patamar e pôs-se a escutar as idas e vindas de seu pai no andar térreo; escutou por muito tempo, com estranha curiosidade, retendo sua respiração e com o coração batendo. Ele próprio ignorava por que agia assim. Toda a sua vida tratou aquele processo como indigno, considerando-o, no fundo de sua alma, o mais vil que tinha a censurar-se. Não sentia então nenhum ódio contra Fiódor Pávlovitch, mas somente uma curiosidade intensa; que poderia ele estar fazendo lá 288

embaixo? Via-o olhando as janelas sombrias, parando de repente no meio do quarto para escutar se não batiam. Por duas vezes, saiu Ivã Fiódorovitch assim para o patamar. Cerca das 2 horas, quando tudo ficou calmo, ele próprio se deitou, ávido de sono, porque se sentia extenuado.

Na verdade, adormeceu profundamente, sem sonhos, e, quando despertou, já era dia. Ao abrir os olhos, surpreendeu-se ao sentir uma energia extraordinária, levantou-se, vestiu-se à pressa e pôs-se a arrumar sua mala. A lavadeira acabava justamente de trazer-lhes a roupa branca e ele sorriu ao pensar que nada se opunha à sua repentina partida. Era repentina, com efeito. Se bem que Ivã Fiódorovitch tivesse declarado na véspera a Catarina Ivânovna, a Aliócha, a Smierdiákov, que partia no dia seguinte para Moscou, lembrava-se de que, ao meter-se na cama, não pensava em partir, pelo menos não imaginava que, ao despertar, começaria a arrumar sua mala. Por fim, ficou ela pronta, bem como seu saco de viagem; eram já 9 horas, quando Marfa Ignátievna veio perguntar-lhe, como de costume: "Toma o chá em seu quarto ou vai descer?" Desceu quase alegre, muito embora suas palavras e seus gestos traíssem certa agitação. Saudou afavelmente seu pai, perguntou mesmo pela sua saúde, mas sem esperar sua resposta declarou-lhe que partia dentro de uma hora para Moscou e pediu que preparassem cavalos. O velho escutou-o sem o menor espanto, descuidou mesmo de mostrar, por convenção, um ar aflito; em compensação, agitou-se, lembrando-se muito a propósito de um negócio importante para ele.