Os Irmãos Karamázov

Fiódor Dostoiévski · Capítulo 46 de 50

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Os Irmãos Karamázov

Capítulo 48

Só restaria um hosana. Mas isto não basta para a vida, é preciso que esse hosana passe pelo cadinho da dúvida, etc. " Aliás, não me meto em tudo isto, não fui eu quem inventou a crítica, não sou o responsável por ela.

Pois bem! tenho servido de bode expiatório, obrigaram-me a fazer crítica e a vida começou. Compreendemos essa comédia; quanto a mim, aspiro ao nada. Não, é preciso que vivas, dizem-me, porque sem ti nada existiria. Se tudo fosse razoável na terra, nada se passaria nela. Sem ti, nada de acontecimentos; ora, são precisos os acontecimentos. Cumpro, pois, minha missão, bem a contragosto, para suscitar acontecimentos, e realizo o irracional, cumprindo ordem. As pessoas levam essa comédia a sério, malgrado todo o seu espírito. Para elas é uma tragédia. Sofrem, evidentemente... em compensação, vivem, uma vida real e não imaginária, porque o sofrimento é a vida. Sem o sofrimento, que prazer ofereceria ela?

Tudo se assemelharia a um Te-Deum interminável; é santo, mas bastante tedioso. E eu? Eu sofro e, no entanto, não vivo. Sou a incógnita de uma equação. Sou o espectro da vida, que perdeu a noção das coisas, e esqueço até o meu nome. Ris?... Não, não ris, zangas-te de novo, como sempre. Ser-47 Palavras de Khlestakov, em O Inspetor, de Gógol, 3. o ato, cena 6.

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te-ia preciso sempre inteligência; ora, repito-te, daria toda essa vida sideral, todos os graus, todas as honras, para encarnar-me na pele duma vendedora obesa e ir queimar velas na igreja.

— Tu também não crês em Deus — disse Ivã, com um sorriso cheio de ódio.

— Como dizer, se falas seriamente...

— Deus existe ou não existe? — insistiu Ivã encolerizado.

— Ah! é sério, então? Meu caro, Deus é-me testemunha de que não sei de nada, não posso dizer melhor.

— Não, tu não existes, tu és eu mesmo e nada mais! Não passas de uma quimera!

— Se queres, tenho a mesma filosofia que tu, é verdade. Je pense,

donc je suis, 48 eis o que é certo; quanto ao resto, quanto a todos esses mundos, Deus e o próprio Satã, tudo isso não me é provado. Têm eles uma existência própria, ou serão apenas uma emanação de mim, o desenvolvimento sucessivo de meu "eu", que existe temporal e pessoalmente... mas detenho-me, porque tenho a impressão de que vais bater-me.

— Farias melhor se me contasses uma anedota!

— Eis uma, precisamente no quadro de nosso tema, isto é, mais uma lenda que anedota. Tu me censuras minha incredulidade. Mas, meu caro, não sou eu só assim: entre nós, todos estão agora perturbados por causa das ciências de vocês. Enquanto havia os átomos, os cinco sentidos, os quatro elementos, a coisa ia bem ainda. Os átomos já eram conhecidos na Antigüidade. Mas vocês descobriram "a molécula química", "o protoplasma", e o diabo sabe ainda o quê! Aprendendo isso, os nossos baixaram a cauda. Foi a barafunda; sobretudo a superstição, os mexericos proliferaram; fica sabendo que temos disso, tanto quanto vocês, talvez mesmo um pouco mais, e afinal também as declarações: há igualmente entre nós uma seção em que recebemos certas "informações". Pois bem, essa lenda de nossa Idade Média, da nossa, não da de vocês, não merece nenhum crédito, exceto entre gordas vendedoras, as nossas, não as de 48 "Penso, logo existo. " (Descartes.)

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vocês. Tudo quanto existe entre vocês existe também entre nós: revelo-te este mistério por amizade, se bem que seja proibido. Essa lenda fala, pois, do paraíso. Havia na terra certo filósofo que negava tudo, as leis, a consciência, a fé, sobretudo a vida futura. Morreu pensando entrar nas trevas do nada e ei-lo em presença da vida futura. Espanta-se, indigna-se:

"Isto", diz ele, "é contrário às minhas convicções". E foi condenado por isso... Desculpa-me, transmito-te esta lenda como ma contaram... Portanto, foi ele condenado a percorrer nas trevas 1 quatrilhão de quilômetros (porque contamos também em quilômetros, agora), e quando tiver ele acabado o seu quatrilhão, as portas do paraíso se abrirão diante dele e tudo lhe será perdoado...

— Que tormentos há no outro mundo, além do quatrilhão? — perguntou Ivã com estranha animação.

— Que tormentos? Ah! não me fales! Outrora, havia-os para todos os gostos; agora, é sempre mais o sistema das torturas morais, "os remorsos da consciência" e outras pataratas. Devemos isso à "doçura dos costumes" de vocês. E quem tira proveito disso? Somente os que não têm consciência, porque zombam dos remorsos! Em compensação, as pessoas decentes, que conservaram o sentimento da honra, sofrem... Eis o que acontece com as reformas operadas em terreno mal preparado e copiadas de instituições estrangeiras. São deploráveis! O fogo de outrora valia melhor. O condenado ao quatrilhão olha, pois, em redor de si, depois se deita atravessado na estrada: "Não ando, por princípio recuso!" Pega a alma de um ateu russo esclarecido e mistura-a com a do profeta Jonas, que se aborreceu três dias e três noites na barriga de uma baleia, e obterás o nosso pensador recalcitrante.

— Sobre que se estendeu ele?

— Havia certamente alguma coisa sobre a qual se estenderia. Não estás brincando?

— Viva! — exclamou Ivã, com a mesma animação. Escutava com uma curiosidade inesperada. — Pois bem! Continua ele deitado?

— Mas não, ao fim de mil anos, levantou-se e pôs-se a andar.

— Que asno! — Ivã deu uma risada nervosa e pôs-se a refletir. —

Não será a mesma coisa ficar deitado eternamente ou marchar 1

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quatrilhão de verstas? Mas perfaz isso 1 bilhão de anos?

— E até mesmo mais. Se houvesse um lápis e papel, poder-se-ia calcular. Faz muito tempo que ele chegou e é aqui que começa a anedota.

— Como? Mas onde arranjou ele 1 bilhão de anos?

— Pensas sempre na nossa terra atual! A terra reproduziu-se talvez 1 milhão de vezes; gelou-se, fendeu-se, desagregou-se, depois decompôs-se em seus elementos, e de novo as águas recobriram a terra. Em seguida, foi novamente um cometa, depois um sol donde saiu o globo. Esse ciclo se repete talvez uma infinidade de vezes, sob a mesma forma, até o mínimo detalhe. É mortalmente aborrecedor...

— Pois bem! Que aconteceu quando ele acabou?

— Assim que ele entrou no paraíso, dois segundos, de relógio na mão, não se tinham passado (se bem que seu relógio, na minha opinião, deve ter-se decomposto em seus elementos durante a viagem) e já exclamava que, por aqueles dois segundos, bem valia fazer não só 1

quatrilhão de quilômetros, mas 1 quatrilhão de quatrilhões, à quatrilhonésima potência! Em suma, cantou hosanas, exagerou mesmo, a ponto de pensadores mais dignos recusarem estender-lhe a mão nos primeiros tempos; tornara-se demasiado bruscamente conservador. É o temperamento russo. Repito-o, é uma lenda. Eis as idéias que têm curso entre nós a respeito dessas matérias.

— Apanhei-te! — exclamou Ivã com uma alegria quase infantil, como se lhe voltasse a memória. — Fui eu mesmo que inventei essa anedota do quatrilhão de anos! Tinha então dezessete anos, estava no ginásio... Contei-a a um de meus camaradas, Koróvkin, em Moscou... Essa anedota é muito característica, tinha-a esquecido, mas lembrei-me dela inconscientemente; não foste tu que a contaste! É assim que uma multidão de coisas nos volta à memória, quando marchamos para o suplício... ou quando sonhamos. Pois bem, não passas de um sonho!

— A violência com que me negas assegura-me que, apesar de tudo, crês em mim — disse o cavalheiro jovialmente.

— Absolutamente! Não creio em ti nem uma centésima parte!

— Mas uma milésima crês. As doses homeopáticas são talvez as mais fortes. Confessa que crês em mim, pelo menos uma décima milésima 659

parte...

— Não! — gritou Ivã irritado. — Aliás, gostaria bem de crer em ti!

— Eh! eh! eh! Por fim, confessou! Mas sou bom, vou ajudar-te. Fui eu que te apanhei! Contei-te, de propósito, essa anedota para desenganar-te definitivamente a meu respeito.

— Mentes. O fim de tua aparição é convencer-me de tua existência.

— Precisamente. Mas as hesitações, a inquietação, o conflito entre a fé e a dúvida constituem por vezes tal sofrimento para um homem escrupuloso como tu, que melhor vale enforcar-se. Sabendo que crês um pouco em mim, contei-te essa anedota para entregar-te definitivamente à dúvida. Conduzo-te entre a fé e a* incredulidade alternativamente, não sem um fito. É um novo método; quando cessares completamente de crer em mim, por-te-ás a assegurar-me que não sou um sonho, que existo verdadeiramente, conheço-te: então meu fito será atingido. Ora, meu fito é nobre. Depositarei em ti um minúsculo germe de fé que dará nascimento a um carvalho, um carvalho tão grande que será teu refúgio e quererás fazer-te anacoreta, porque é teu vivo desejo em segredo, nutrir-te-ás de gafanhotos, prepararás a tua salvação r. o deserto.