Os Irmãos Karamázov
Capítulo 25
24 A Virgem entre os condenados.
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quando Deus lhe mostra os pés e as mãos de seu filho traspassados pelos cravos e lhe pergunta: "Como poderei eu perdoar a seus carrascos?", ordena ela a todos os santos, a todos os mártires, a todos os anjos que caiam de joelhos com ela e implorem o perdão para os pecadores, sem distinção. Afinal, obtém a cessação dos tormentos, cada ano, da sexta-feira santa a Pentecostes, e os condenados, do fundo do inferno, agradecem a Deus e exclamam: "Senhor, tua sentença é justa!" Pois bem! Meu pequeno poema teria sido nesse gosto, se tivesse aparecido naquela época. Deus aparece; não diz nada, só faz passar. Quinze séculos decorreram, desde que ele prometeu voltar ao seu reino, depois que seu profeta escreveu:
"Voltarei em breve. Quanto ao dia e à hora, o próprio Filho não os conhece, mas somente meu Pai que está no céu", segundo suas próprias palavras na terra. E a humanidade o espera com a mesma fé de outrora, uma fé mais ardente ainda, porque quinze séculos se passaram desde que o céu deixou de dar testemunhos ao homem.
Daquilo que o coração diz O céu não dá testemunho.
E só resta a fé no referido coração. É verdade que numerosos milagres se verificavam então; santos realizavam curas maravilhosas. A Rainha dos Céus visitava certos justos, de acordo com a biografia deles.
Mas o diabo não dorme; a humanidade começou a duvidar da autenticidade daqueles milagres. Naquele momento nascia na Alemanha uma terrível heresia que negava os milagres. "Uma grande estrela, ardente como um facho, caiu sobre as fontes das águas, que se tornaram amargas.
" 25 A fé dos fiéis só fez redobrar. As lágrimas da humanidade elevam-se para ele como outrora, aguardam-no, amam-no, espera-se nele como antes... Depois de tantos séculos, a humanidade reza com fervor: "Senhor Deus, dignai-vos aparecer-nos", depois de tantos séculos grita ela para ele, ele que quis, na sua misericórdia infinita, descer entre seus fiéis. Outrora, já havia visitado justos, mártires, santos anacoretas, como o narram suas biografias. Entre nós, Tiútchev, que acreditava profundamente na verdade de suas palavras, proclamou que Sob o peso da cruz, esmagador, O Rei dos Céus, de servo disfarçado, Toda te percorreu, terra natal, O solo teu inteiro abençoando. Mas eis que quis ele mostrar-se por um instante pelo menos ao povo sofredor e miserável, ao povo que se arrastava no pecado, mas que o 25 Do Apocalipse, de São João.