Os Irmãos Karamázov
29mas cuida
— Ah! Parece incrível! Nada me disseste ontem. Não importa, não é tarde demais. Faze-me um grande prazer, meu caro, passa por Tchermachniá. Basta dobrares à esquerda na estação de Volóvia, 1 dúzia de verstas no máximo, e lá estarás.
— Desculpe-me, mas não posso; há 80 verstas até a estação, o trem de Moscou parte às 7 horas da noite, tenho o tempo justo.
— Terás muito tempo, amanhã ou depois de amanhã, mas hoje vai a Tchermachniá. Que te custa tranqüilizar teu pai? Se não estivesse ocupado, teria eu mesmo ido lá desde muito tempo, porque o negócio é urgente, mas... não posso ausentar-me no momento... Vês? Possuo matas, em dois lotes, em Bieguítchev e em Diátchkino, nas charnecas. Os Máslovi, pai e filho, negociantes, só oferecem 8 000 rublos pela lenha; no ano passado apresentou-se um comprador que dava 12 000, mas não é daqui, nota bem.
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Porque não há comprador entre os daqui. Os Máslovi, que possuem centenas de milhares de rublos, é que fazem os preços: é preciso aceitar-lhes as condições, ninguém ousa disputar com eles. Ora, o Padre Ilinski escreveu-me na quinta-feira passada noticiando-me a chegada de Górstkin, também comerciante, que eu conheço e tem a vantagem de não ser daqui, mas de Pogrébov, não temendo, portanto, os Máslovi. Oferece 11 000
rublos, entendes-me? Ficará lá uma semana no máximo, escreveu-me o padreco. Irás negociar a coisa com ele...
— Escreva então ao padreco, ele se encarregará disso.
— Não saberá fazê-lo, eis a dificuldade. Esse padreco não entende nada disso. Vale seu peso em ouro, eu lhe confiaria 20 000 rublos sem recibo, mas não tem faro, é uma criança. Contudo, é um erudito, imagina só! Esse Górstkin tem o ar de um mujique, de blusa azul, mas é um perfeito tratante, eis a desgraça: mente. E por vezes a tal ponto que a gente pergunta por quê. Uma vez, contou que sua mulher tinha morrido e que ele se tornara a casar; era tudo mentira; sua mulher continua viva e surra-o regularmente. Trata-se, pois, agora, de saber se ele quer comprar mesmo por 11000 rublos.
— Mas eu tampouco entendo coisa alguma dessas espécies de negócios.
— Espera, sair-te-ás bem, vou dar-te todos os pormenores a respeito desse Górstkin. Há muito tempo que mantenho relações de negócios com ele. Escuta lá: é preciso olhar para a barba que ele tem, ruiva e maltratada.
Quando ela se agita e ele mesmo se zanga enquanto fala, a coisa vai bem, fala ele a verdade e quer ultimar; mas se acaricia sua barba com a mão esquerda, sorrindo, é que quer enrolar-nos, trapaceia. Inútil olhar-lhe os olhos, é água turva; olha sua barba.
Seu verdadeiro nome não é Górstkin, mas Liagávi; 29mas cuida de não chamá-lo Liagávi, pois se ofenderia. Se vês que o negócio se arranja, escreve-me umas linhas. Mantém o preço de 11 000 rublos. Podes baixar uns 1 000, mas não mais. Pensa pois, 8 e 1. 1, faz isto 3 000 de diferença. É para. mim dinheiro achado e tenho extrema precisão dele. Se me anunciares que a coisa é séria, haverei de achar tempo para dar um pulo até lá e ultimar o negócio. Que adianta deslocar-29 Literalmente: cão de caça. Apelido de Górstkin.
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me daqui agora, se o padre estiver enganado? Pois bem, irás ou não?
— Ah! não tenho tempo, dispense-me.
— Presta este serviço a teu pai, não me esquecerei disso. Vocês todos não têm coração. Que é para ti um dia ou dois? Aonde vais agora, a Veneza? Ela não vai desmoronar-se, tua Veneza. Teria bem mandado Aliócha, mas entende ele disso? Ao passo que tu és astuto, vejo-o bem.
Não és negociante de madeira, mas tens olho. Trata-se de ver se aquele homem fala seriamente ou não. Repito-o: olha sua barba; se ela mexer-se, é sério.
— Então, manda-me o senhor mesmo a essa maldita
Tchermachniá? — exclamou Ivã com um sorriso mau.
Fiódor Pávlovitch não notou ou não quis notar a maldade e reteve só o sorriso.
— Com que então, vais, não é? Vou dar-te um bilhete.
— Não sei, decidirei isso no caminho.
— Por que no caminho? Decide agora. Fechado o negócio, escreve-me duas linhas, entrega-as ao padre, que fará chegar às minhas mãos teu bilhete. Depois disso, estarás livre e poderás partir para Veneza. O pope te levará de carro à estação de Volóvia.
O velho exultava: escreveu umas linhas, mandou buscar um carro, serviu-se um pequeno almoço, conhaque. A alegria tornava-o habitualmente expansivo, mas desta vez parecia conter-se. Nem uma palavra a respeito de Dimítri Fiódorovitch. De modo algum afetado pela separação, nada achava para dizer. Ivã Fiódorovitch ficou impressionado: "Eu o aborrecia", pensava. Ao acompanhar seu filho, o velho agitou-se como se quisesse beijá-lo. Mas Ivã Fiódorovitch apressou-se em estender-lhe a mão, visivelmente desejoso de evitar o beijo. Ele compreendeu logo e parou.
— Deus te guarde! — repetiu ele do patamar. — Voltarás algum dia, não? Terei sempre prazer em ver-te! Que o Cristo esteja contigo!
Ivã Fiódorovitch subiu no tarantás.
— Adeus, Ivã não me queiras mal! — gritou-lhe uma última vez seu pai.
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Os criados, Smierdiákov, Marfa, Gregório, tinham vindo dizer-lhe adeus. Ivã deu a cada um 10 rublos. Smierdiákov correu a arranjar o tapete.
— Estás vendo? Vou a Tchermachniá... — deixou de súbito Ivã escapar, como contra sua vontade e com um riso nervoso. Muito tempo mais tarde lembrou-se disso.
— É então verdade o que se diz: dá gosto falar com um homem de espírito — replicou Smierdiákov, com um olhar penetrante.
O tarantás partiu a galope. O viajante estava preocupado, mas olhava avidamente os campos, os outeiros, um bando de gansos selvagens que voavam alto no céu claro. De repente, experimentou uma sensação de bem-estar. Tentou conversar com o cocheiro e interessou-se bastante por uma resposta do mujique; mas em breve deu-se conta de que seu espírito estava em outra parte. Calou-se, respirando com delícia o ar puro e fresco.
A lembrança de Aliócha e de Catarina Ivânovna atravessou-lhe o espírito; sorriu docemente, soprou os seus queridos fantasmas, que desapareceram.
"Mais tarde!", pensou. Chegaram bem depressa à estação de posta; os cavalos foram substituídos para se dirigirem a Volóvia. "Por que dá gosto falar com um homem de espírito, que queria ele dizer com isso?", perguntou a si mesmo, de súbito. "Por que lhe disse eu que ia a Tchermachniá?"
Chegado à estação de Volóvia, Ivã desceu e foi cercado pelos cocheiros: tratou o preço para Tchermachniá, 12 verstas por uma estrada vicinal. Mandou atrelar, entrou no posto, olhou a encarregada, tornou a sair para o patamar.
— Não vou mais a Tchermachniá. Terei tempo, irmãos, de chegar às 7 horas à estação?
— Às suas ordens. É preciso atrelar?
— Agora mesmo. Será que um de vocês não vai amanhã à cidade?
— Mítri irá justamente.
— Poderias tu, Mítri, prestar-me um obséquio? Vai à casa de meu pai, Fiódor Pávlovitch Karamázov, e dize-lhe que não fui a Tchermachniá.
— Por que não? Conhecemos Fiódor Pávlovitch desde muito tempo.
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— Toma, eis aqui uma gorjeta, porque não se pode contar muito com ele... — disse jovialmente Ivã Fiódorovitch.
— É verdade — disse Mítri rindo. —. Obrigado, senhor, darei seu recado.
Às 7 horas da noite, tomou Ivã o trem para Moscou. "Para trás todo o passado! Está acabado para sempre! Que não ouça mais falar dele! Para um novo mundo, para novas terras, sem olhar para trás!" Mas de repente sua alma ensombreceu-se e uma tristeza tal como nunca sentira apertou-lhe o coração. Meditou toda a noite. Somente pela manhã, ao chegar a Moscou, pareceu voltar a si.
— Sou um miserável! — disse.
Fiódor Pávlovitch, após a partida de seu filho, sentiu-se de coração leve. Durante duas horas, esteve quase feliz, com a ajuda do conhaque, quando sobreveio um incidente desagradável que o consternou; ao dirigir-se à adega, Smierdiákov caiu do primeiro degrau da escada. Marfa Ignátievna, que se achava no pátio, não viu a queda, mas ouviu o grito, o grito esquisito do epiléptico presa duma crise, que ela conhecia bem.
Tivera ele, ao descer os degraus, um ataque que o fizera rolar até embaixo sem conhecimento, ou então foram a queda e o choque que o provocaram?
Não se sabia de nada. O certo é que o encontraram no fundo da adega, torcendo-se em horríveis convulsões, os lábios espumantes. A princípio acreditou-se que ele se contundira, fraturara um membro, mas "o Senhor o preservara", segundo a expressão de Marfa Ignátievna. Estava indene, contudo custou um trabalhão fazê-lo subir. Conseguiu-se com a ajuda dos vizinhos. Fiódor Pávlovitch, que assistia à remoção, também ajudou.
Estava transtornado. O doente permanecia sem conhecimento: a crise, que cessara, recomeçou; concluiu-se disso que as coisas se passariam como no ano anterior, quando caíra ele do celeiro. Tinham-lhe então posto gelo na cabeça. Restava ainda algum na adega, que Marfa utilizou. Ao anoitecer, Fiódor Pávlovitch mandou chamar o Doutor Herzenstube, que chegou sem demora. Depois de ter examinado atentamente o doente (era o médico mais meticuloso da província, um velhinho respeitável), concluiu que era uma crise extraordinária, que podia ocasionar complicações; que, para o momento, não compreendia bem, mas que, no dia seguinte de manhã, se os remédios prescritos não tivessem agido, tentaria outro tratamento. Deitaram o doente no pavilhão, num quartinho contíguo ao 293
de Gregório. Em seguida, Fiódor Pávlovitch só teve aborrecimentos: a sopa, preparada por Marfa Ignátievna, comparada com a que fazia Smierdiákov, não passava de uma água suja; e a galinha estava tão dura que não havia jeito de trincá-la. Diante das amargas censuras, aliás justificadas, de seu amo, a boa mulher replicou que a galinha era velha e que ela mesma não era cozinheira de profissão. À noitinha, outro aborrecimento. Soube Fiódor Pávlovitch que Gregório, que estava doente desde a antevéspera, fora para a cama, presa de lumbago. Apressou-se em tomar o chá e trancou-se, extremamente agitado. Era a noite em que esperava, quase com certeza, a visita de Grúchenhka; pelo menos Smierdiákov lhe assegurara naquela manhã mesma que ela prometera vir. O coração do incorrigível velho batia violentamente; ia e vinha pelos quartos vazios, prestando ouvidos. Era preciso estar de vigia: talvez Dimítri Fiódorovitch o espionasse nos arredores e assim que ela batesse à janela (Smierdiákov afirmava que ela conhecia o sinal), seria preciso abrir-lhe imediatamente, não a retendo no vestíbulo, no receio de que ela se amedrontasse e fugisse.
Fiódor Pávlovitch estava inquieto, mas nunca esperança mais doce lhe havia embalado o coração: estava quase certo de que dessa vez ela viria.
LIVRO VI
UM MONGE RUSSO
I
O "STARIETS" ZÓSIMA E SEUS HÓSPEDES
Quando Aliócha entrou, ansioso, na cela do stariets, sua surpresa foi grande. Em lugar do moribundo, talvez sem conhecimento, que ele temia ver, encontrou-o sentado numa poltrona, enfraquecido, mas com ar alegre, disposto, cercado de visitantes com os quais se entretinha tranqüilamente.
Tinha-se levantado um quarto de hora, quando muito, antes da chegada de Aliócha; os visitantes reunidos na cela aguardavam seu despertar, confiantes na firme garantia do Padre Paísi de que "o mestre levantar-se-ia certamente para conversar ainda uma vez com aqueles a quem amava, como o prometera pela manhã". O Padre Paísi cria firmemente naquela promessa, como em tudo quanto o monge dizia, a ponto de, se o tivesse 294
visto sem conhecimento e até mesmo sem respiração, duvidar da própria morte e esperar que ele voltasse a si para cumprir sua palavra. De manhã mesmo, o stariets Zósima dissera-lhe, ao ir repousar: "Não morrerei sem entreter-me ainda uma vez convosco, meus bem-amados, verei vossos queridos rostos, expandir-me-ei pela derradeira vez". Os que se tinham reunido para aquela última entrevista eram os melhores amigos do stariets, desde muitos anos. Contavam-se quatro: os padres Iósif, Paísi e Mikhaií, este último superior do ascetério, homem de certa idade, bem menos culto que os outros, de condição modesta, mas de espírito firme, ao mesmo tempo sólido e cândido, ar rude, mas de coração temo, se bem que dissimulasse pudicamente essa ternura. O quarto era um velho monge simples, filho de pobres camponeses, o Irmão Anfim, muito pouco instruído, taciturno e manso, o mais humilde entre os humildes, parecendo sempre sob a impressão dum grande terror, que o teria dominado.
Esse homem timorato era bastante querido pelo stariets Zósima, que teve durante toda a sua vida muita estima por ele, se bem que só trocassem raríssimas palavras. No entanto, tinham percorrido juntos a santa Rússia durante anos. Remontava isso a quarenta anos, aos começos do apostolado do stariets; pouco depois de sua entrada em um mosteiro pobre e obscuro da província de Kostroma, acompanhou ele o Padre Anfim nas suas coletas em favor do dito mosteiro. Os visitantes mantinham-se no quarto de dormir do stariets, bastante exíguo, como já se disse, de modo que havia apenas lugar para eles quatro, sentados em torno de sua poltrona (ficando de pé o noviço Porfíri). Já estava escoro, o quarto era iluminado por lamparinas e círios acesos diante dos ícones. À
vista de Aliócha, que parará, embaraçado, na soleira, o stáriets mostrou um sorriso alegre e estendeu-lhe a mão.
— Boa tarde, meu doce amigo, chegaste. Sabia que virias. Aliócha aproximou-se, inclinou-se até o chão e pôs-se a chorar. Sentia um aperto de coração, a alma fremente, um desejo irreprimível de soluçar.
— Terás tempo de chorar — sorriu o stáriets, abençoando-o. — Vês?
Converso, tranqüilamente sentado, talvez viva ainda vinte anos, como mo desejou ontem aquela boa mulher de Vichegórie, com sua filhinha Lisavieta. Senhor, lembra-te delas! (e benzeu-se). Porfíri, levaste seu donativo aonde eu disse?
Referia-se aos 60 copeques dados com alegria por aquela mulher, 295
para remetê-los "a uma mais pobre do que ela". Tais donativos são uma penitência que a pessoa se impõe voluntariamente e devem provir do trabalho pessoal do doador. O stáriets tinha mandado Porfíri à casa de uma pobre viúva, reduzida à mendicidade com seus filhos, após um incêndio. O noviço respondeu imediatamente que fizera o necessário e entregara aquele donativo, de acordo com a ordem recebida, "da parte de uma benfeitora desconhecida".
— Levanta-te, meu caro — prosseguiu o stáriets —, para que eu te veja. Estiveste em casa dos teus e viste teu irmão?
Pareceu estranho a Aliócha que ele o interrogasse expressamente a respeito de um de seus irmãos, mas qual? Era, então, por causa desse irmão, talvez, que o enviara à cidade ontem e hoje.
— Vi um deles — respondeu.
— Quero falar do mais velho, diante do qual me prosternei.
— Vi-o ontem, mas foi-me impossível encontrá-lo hoje — disse Aliócha.