Os Irmãos Karamázov

Fiódor Dostoiévski · Capítulo 12 de 50

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Os Irmãos Karamázov

Capítulo 11

Pensas que eu queria pedir-lhe a mão? Absolutamente. Queria somente me vingar de sua indiferença a meu respeito. Foi então uma farra de arrebentar. Por fim; o tenente-coronel infligiu-me três dias de detenção.

Naquela ocasião, nosso pai enviou-me 6 000 rublos em troca de uma renúncia formal a todos os meus direitos e pretensões à fortuna de minha mãe. Nada entendia disso então; até minha chegada aqui, irmão, até estes últimos dias e talvez mesmo agora, nada compreendi dessas disputas de dinheiro entre mim e meu pai. Mas, para o diabo tudo isso, tornaremos a falar. Já de posse desses 6 000 rublos* a carta de um amigo me fez ciente de uma coisa bastante interessante, a saber, que estavam descontentes com o nosso tenente-coronel, suspeito de malversações, e que seus inimigos lhe preparavam uma surpresa. Com efeito, o chefe da divisão apareceu para dirigir-lhe vigorosa reprimenda. Pouco depois foi obrigado a demitir-se. Não te contarei todos os detalhes desse negócio; tinha ele, 116

com efeito, inimigos; ocorreu na cidade brusco resfriamento de relações com ele e toda a sua família; todo mundo os abandonava. Foi então que pus em prática minha primeira treta: encontro Agáfia Ivânovna, de quem me mantinha sempre amigo, e digo-lhe: "Faltam 4 500 rublos na caixa de seu pai..." "Como? Quando o general veio, recentemente, a soma estava completa. ." "Estava então, mas não mais agora." Ela ficou apavorada.

"Não me apavore, rogo-lhe, donde soube isso?" "Tranquilize-se", digo-lhe

"não falarei a ninguém, sabe você que a esse respeito sou um tumulo.

Queria somente dizer-lhe isto, de qualquer modo: quando reclamarem de seu pai esses 4 500 rublos que lhe faltam, em vez de passar em julgamento na sua idade e ser degradado, mande-me sua irmã secretamente; acabo de receber dinheiro, remeter-lhe-ei a soma e ninguém ficará sabendo de nada." "Ah! que patife é você!", disse ela. "Que canalha! Como ousa?" Ela foi-se embora, sufocada de indignação, e gritei-lhe às costas que o segredo seria inviolàvelmente guardado. Aquelas duas mulheres, Agáfía e sua tia, eram verdadeiros anjos; adoravam a altiva Cátia*, serviam-na humildemente. Agáfia deu parte de nossa conversa à sua irmã, como vim a saber mais tarde. Era justamente o que me era preciso.

"Entrementes, chega novo major para tomar o comando do batalhão.

O velho coronel cai doente; fica no quarto dois dias inteiros e não presta suas contas. O Doutor Krávtchenko assegura que a doença não é simulada.

Mas eis o que eu sabia com certeza, e desde muito tempo: após cada revisão de seus chefes, o coronel fazia desaparecer certa soma por algum tempo; isto remontava a quatro anos. Emprestava-a a um homem de toda confiança, um negociante, viúvo barbudo, de óculos de ouro, Trífonov.

Este ia à feira, servia-se do dinheiro para seus negócios e restituía-o logo ao coronel, com um presente e uma boa comissão. Mas desta vez, Trífonov, à sua volta da feira, nada entregara (soube-o, por acaso, de seu filho, um fedeiho, garoto pervertido dos que mais o sejam). O coronel acorreu:

'Jamais recebi nada do senhor11, respondeu o velhaco. O infeliz não põe mais pé fora de casa, com a cabeça enrolada num penso, as três mulheres aplicando-lhe gelo sobre o crânio. Chega um ordenança com a ordem de entrega da caixa imediatamente, dentro de duas horas. Ele assinou, vi mais tarde sua assinatura no registro, levantou-se, dizendo que ia vestir seu uniforme, e passou para seu quarto de dormir. Ali pegou seu fuzil de 11 Diminutivo de Catarina.

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caça, carregou-o com baia, descalçou seu pé direito, apoiou a arma contra o peito, tateando com o pé para premir o gatilho. Mas Agáfia, que não esquecera minhas palavras, suspeitava de alguma coisa; tendo-se aproximado furtivamente, vigiava-o. Precipitou-se, cercou-o com seus braços pelas costas; o tiro partiu para o ar, sem ferir ninguém. Os outros acorreram, arrancaram-lhe a arma, segurando-o pelas mãos... Encontrava-me então em casa, ao crepúsculo, a ponto de sair, vestido, penteado, o lenço perfumado; pegara meu casquete; de repente, a porta se abre e vejo entrar Catarina lvânovna.

"Há coisas estranhas: ninguém a notara na rua, quando vinha ela para minha casa, nem visto, nem conhecido. Eu morava em casa de duas mulheres de funcionários, pessoas idosas; faziam elas o serviço, para tudo me escutavam com deferência e guardaram por ordem minha segredo absoluto. Compreendi no mesmo instante do que se tratava. Ela entrou, de olhar fito em mim; seus olhos sombrios exprimiam a decisão, a audácia mesmo, mas o jeito de seus lábios revelava a perplexidade.

"— Minha irmã me disse que o senhor daria 4 500 rublos, se eu viesse buscá-los... em pessoa. Eis-me aqui... dê-me o dinheiro!... —

Sufocava, tomada de terror; sua voz extinguiu-se, seus lábios tremiam...

Aliócha, tu me escutas ou dormes?"

— Mítia, sei que me dirás toda a verdade — replicou Aliócha, comovido.

— Podes contar com isso, não me pouparei. Meu primeiro pensa mento foi o de um Karamázov. Um dia, irmão, fui picado por uma centopeia e tive de ficar quinze dias de cama, com febre; pois bem, senti então no coração a picada da centopeia, um animal venenoso, bem sabes.

Eu a examinava de alto a baixo. Viste-a? É uma beleza.

Mas era bela então pela sua nobreza moral, pela sua grandeza de alma e pelo seu devotamento filial, a meu lado, vil e repugnante personagem. Era, no entanto, de mim que "toda" ela dependia, corpo e alma, como que prisioneira. Confessar-to-ei: aquele pensamento, o pensamento da centopéia, dominou-me o coração com tal intensidade que acreditei morrer de angústia. Parecia que nenhuma luta era possível: conduzir-me baixamente, como uma tarântula venenosa, sem sombra de compaixão... Isso atravessou-me mesmo o espírito. No dia seguinte, bem 118

entendido, iria eu pedir-lhe a mão, para terminar tudo da maneira mais nobre e ninguém teria sabido nada do caso. Porque, se tenho instintos baixos, sou contudo leal. E, de súbito, ouço que me murmuram ao ouvido:

"Amanhã, quando fores oferecer-lhe tua mão, ela não se mostrará e mandará expulsar-te pelo cocheiro. 'Podes difamar-me pela cidade', dirá ela, 'não tenho medo de ti!'" Olhei para a jovem a fim de ver se aquela voz não mentia. A expressão de seu rosto não deixava nenhuma dúvida, porme-iam pela porta afora. A cólera dominou-me, tive vontade de pregar-lhe a peça mais vil, uma sujeira de bodegueiro: olhá-la ironicamente e, enquanto ela se conservasse diante de mim, consterná-la, tomando a inflexão de que só são capazes os bodegueiros:

"— Quatro mil rublos! Mas eu estava brincando! A senhorita contou muito facilmente com isso! Duzentos rublos, com prazer e de boa vontade; mas 4 000 é dinheiro, isso não se pode dá-lo assim levianamente. A senhorita incomodou-se por coisa alguma.

"Vês tu, teria eu tudo perdido, ela teria fugido, mas aquela vingança infernal teria compensado o resto. Eu lhe teria pregado essa peça, pronto a lamentá-la em seguida a vida inteira! Acreditarás que, em semelhantes minutos, jamais olhei uma mulher, quem quer que ela fosse, com um ar de ódio — mas, juro-o sobre a cruz, durante alguns segundos contemplei-a com um ódio intenso, o ódio que só está separado do amor mais ardente por um cabelo. Aproximei-me da janela, apoiei a fronte na vidraça gelada, lembro-me de que o frio fazia-me o efeito de uma queimadura. Não a retive muito tempo, fica tranqüilo; fui à minha mesa, abri uma gaveta, dela retirei um cheque de 5 000 rublos ao portador, que se encontrava no meu dicionário francês. Sem dizer uma palavra, mostrei-lho, dobrei-o, entreguei-lho, depois eu mesmo abri a porta da antecâmara e fiz uma profunda saudação. Ela estremeceu toda, olhou-me fixamente um segundo, ficou branca como um linho e, sem proferir uma palavra, sem brusquidão, mas ternamente, docemente, prosternou-se a meus pés, com a fronte no chão, não como uma pensionista, mas à russa! Levantou-se e fugiu. Após sua partida, tirei minha espada e quis matar-me, por que, não sei dizê-lo; teria sido absurdo, evidentemente; sem dúvida, por entusiasmo. Compreendes que possa a gente matar-se de alegria? Mas limitei-me a beijar a lâmina e repu-la na bainha... Poderia muito bem não ter-te falado disso. Parece-me, aliás, que floreei um tanto, para me gabar, contando-te as lutas de minha consciência. Mas que importa! Ao diabo 119

todos os espiões do coração humano! Eis toda a minha aventura com Catarina Ivânovna. És o único, com Ivã, a conhecê-la."

Dimítri Fiódorovitch levantou-se, dando alguns passos com hesitação, tirou seu lenço, enxugou a testa, depois tornou a sentar-se, mas num outro lugar, sobre o banco em frente, contra a outra parede, de modo que Aliócha teve de voltar-se totalmente para seu lado.

V

CONFISSÃO DE UM CORAÇÃO ARDENTE E DESBOCADO

— Pois bem! — disse Aliócha. — Conheço agora a primeira parte do caso.

— Isto é, um drama, que se passou lá. A segunda parte será uma tragédia e se desenrolará aqui.

— Não compreendo nada dessa segunda parte.

— E eu, será que eu compreendo alguma coisa?

— Escuta, Dimítri, há um ponto importante. Dize-me, ainda és noivo?

— Não fiquei noivo imediatamente, mas só três meses depois daquele acontecimento. No dia seguinte, disse a mim mesmo que estava tudo liquidado, terminado, que não haveria conseqüências. Ir pedi-la em casamento pareceu-me uma baixeza. De seu lado, não me deu ela sinal de vida durante as seis semanas que passou ainda na cidade. De parte uma exceção, entretanto: no dia seguinte à sua visita, a arrumadeira delas introduziu-se em minha casa e, sem dizer uma palavra, entregou-me um envelope a mim endereçado. Abro-o: continha o restante dos 5 000 rublos.

Fora preciso restituir 4 500, a perda de venda da obrigação ultrapassava 200 rublos. Ela me restituía 260, creio — não me lembro exatamente —, e sem uma palavra de explicação. Procurei no pacote um sinal qualquer a lápis, nada! Fiz farra com o que me restava de meu dinheiro, a tal ponto que o novo major se viu forçado a fazer-me censuras. O tenente-coronel entregara sua caixa intacta, para espanto geral, porque acreditava-se a coisa impossível. Depois do que, caiu doente, ficou três semanas de cama e sucumbiu em cinco dias a um amolecimento cerebral. Enterraram-no 120

com honras militares, porque não tivera ele tempo de ser reformado.

Catarina Ivânovna, sua irmã e sua tia, dez dias após o enterro, partiram para Moscou. No dia de sua partida somente (não as havia revisto), recebi um bilhete azul, com esta única linha escrita a lápis: "Escrever-lhe-ei.

Espere. C."

"Em Moscou, os negócios delas arranjaram-se duma maneira tão rápida quão extraordinária, tal como um conto das Mil e Uma Noites. A principal parenta de Catarina Ivânovna, uma generala, perdeu bruscamente suas duas sobrinhas, suas herdeiras mais próximas, mortas, na mesma semana, de varíola. Transtornada, ligou-se a Cátia como à sua própria filha, vendo nela sua derradeira esperança, refez seu testamento em seu favor e deu-lhe — de mão para mão — 80 000 rublos de dote, para dispor deles à sua vontade. É histérica; tive ocasião de observá-la mais tarde em Moscou. Uma bela manhã, recebo pelo correio 4 500 rublos, com extrema surpresa minha, bem entendido. Três dias depois chega a carta prometida. Tenho-a ainda, conservá-la-ei até minha morte; queres que ta mostre? Não deixes de lê-la: oferece-se ela mesma a partilhar minha vida.

'Amo-o loucamente; que não me ame, não me importa, contente-se em ser meu marido. Não se espante, não o incomodarei em nada; serei um de seus móveis, o tapete sobre o qual você anda... Quero amá-lo eternamente, salvá-lo-ei de você mesmo...' Aliócha, sou mesmo indigno de repetir estas linhas em minha vil linguagem, com o tom de que jamais pude corrigir-me! Até agora, essa carta traspassou-me o coração e acreditas que me sinto à vontade hoje? Respondi-lhe imediatamente (era-me impossível ir a Moscou). Escrevi com minhas lágrimas. Envergonhar-me-ei eternamente de lhe ter lembrado que era ela agora rica e dotada — e eu sem recursos.

Falei de dinheiro. Deveria ter-me contido, mas minha pena traiu-me.

Escrevi também a Ivã, então em Moscou, e expliquei-lhe tudo quanto era possível, uma carta de seis páginas; mandei Ivã à casa dela. Que tens que te faz olhar-me? Sim, Ivã apaixonou-se por ela; ainda o está agora, sei disso. Cometi uma tolice, do ponto de vista mundano, mas talvez seja essa tolice que nos salvará a todos. Não vês que ela o honra, que o estima?

Pode ela, depois de ter-nos comparado um com o outro, amar um homem tal como eu, sobretudo depois do que se passou aqui?"

— Estou persuadido de que é um homem como tu que ela devo amar, e não um homem como ele.

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— É sua própria virtude que ela ama e não a mim — deixou Dimítri escapar, malgrado seu, com irritação. Pôs-se a rir, mas de súbito seus olhos cintilaram; tornou-se totalmente vermelho e deu um violento murro sobre a mesa.

— Juro-o, Aliócha — exclamou ele, num acesso de furor não fingido contra si mesmo —, podes crê-lo ou não, mas, tão verdade como Deus é santo e que o Cristo é Deus, e, se bem que haja eu zombado de seus nobres sentimentos, não duvido da angélica sinceridade deles; sei que minha alma é um milhão de vezes mais vil que a dela. É nesta certeza que consiste a tragédia. A bela desgraça! Declame-se um pouco! Eu também declamo e, no entanto, sou perfeitamente sincero. Quanto a Ivã, imagino que deve ele maldizer a natureza, ele que é tão inteligente! Quem teve a preferência? Um monstro tal como eu, que não pude arrancar-me da devassidão, quando todos me observavam e isto sob os olhos de minha noiva! E sou eu preferido? Mas por quê? Porque aquela moça quer, como prova de reconhecimento, constranger-se a uma existência desgraçada! É

absurdo! Jamais falei a Ivã neste sentido, e ele, bem entendido, jamais fez a menor alusão a isso; mas o destino se cumprirá, cada qual segundo seus méritos; o réprobo afundar-se-á definitivamente no lamaçal de que gosta.

Estou dizendo incoerências, as palavras não exprimem meu pensamento, como se as empregasse ao acaso, mas o que fixei realizar-se-á. Afogar-me-ei na lama e ela casará com Ivã.

— Irmão, espera — interrompeu Aliócha, numa agitação extraordinária. — Há um ponto que ainda não me explicaste; continuas seu noivo.

Como queres romper, se ela a isso se opõe?

— Sou noivo, recebemos a bênção oficial. Ocorreu em .Moscou, quando cheguei em grande cerimônia, com os ícones. A generala nos abençoou; imagina que chegou mesmo a felicitar Cátia: "Escolheste bem", disse ela. "Leio em seu coração." Quanto a Ivã, não lhe agradou; ela não lhe dirigiu nenhum cumprimento. Em Moscou tive longas conversas com Cátia; pintei-me nobremente, tal como era, com toda a sinceridade. Ela tudo escutou:

Houve um enleio encantador

E ternas palavras ouviram-se...

Houve também palavras altivas. Arrancou-me a promessa de 122

corrigir-me. Prometi. E eis em que ponto estou.

— E então, o quê?

— Chamei-te, trouxe-te aqui hoje, lembra-te, para enviar-te hoje mesmo à casa de Catarina Ivânovna, e...

— Que mais?

— Dize-lhe que não irei mais à casa dela, cumprimentando-a de minha parte.

— Será possível?

— Não, é impossível; assim, peço-te que vás lá em meu lugar, não poderia dizer-lhe isto eu mesmo.

— E tu, aonde irás?

— Voltarei ao meu lodaçal.

— Isto é, à casa de Gruchka! — exclamou tristemente Aliócha, juntando as mãos. — Rakítin tinha, pois, razão. E eu que acreditava que era apenas uma ligação passageira!

— Um noivo com uma amante!. Seria possível, com tal noiva e aos olhos de todos? Não perdi de todo a honra. Desde o momento em que passei a freqüentar Grúchenhka, deixei de ser noivo e homem honesto, dou-me conta disso. Que tens para me olhar assim? Fui à casa dela a primeira vez na intenção de bater-lhe. Soubera, e sei agora de fonte limpa, que aquele capitão, delegado por meu pai, entregara a Grúchenhka uma ordem de pagamento assinada por mim; tratava-se de processar-me na justiça, na esperança de abater-me e de obter minha desistência. Queriam amedrontar-me. Ia eu pois surrá-la. Já tivera ocasião de vê-la ligeiramente.

Uma mulher muito ordinária. Sabia da estória daquele velho comerciante seu amante, que não durará muito mais tempo, mas lhe deixará uma bela soma. Sabia que ela era também gananciosa, emprestando com usura, velhaca e debochada, sem compaixão! Fui para dar-lhe uma correção e fiquei em casa dela. Aquela mulher é a peste. Contaminei-me, tenho-a na pele. Tudo está acabado doravante, não há mais outra perspectiva. O ciclo dos tempos passou. Eis onde me encontro. Como que de propósito tinha eu então 3 000 rublos no bolso. Fomos a Mókroie, a 25 verstas daqui, mandei buscar ciganos, ofereci champanha a todos os mujiques, às 123

mulheres e às moças do local. Três dias depois, estava sem nada. E pensas que obtive o mínimo favor? Nada ela me mostrou. Asseguro-te, é toda sinuosa. A intrujona, seu corpo lembra uma cobra, vê-se isso em suas pernas, até o dedo mindinho de seu pé esquerdo que tem essa sinuosidade.

Vi-o e beijei-o, mas foi tudo, juro^te. Ela me disse: "Queres, casarei contigo, embora pobre. Se me prometes não me bater e deixar-me fazer tudo quanto quiser, talvez me case", e riu, e ri também agora!

Dimítri Fiódorovitch ergueu-se presa duma espécie de furor. Tinha ar de ébrio. Seus olhos estavam injetados de sangue.

— Pretendes seriamente casar com ela?

— Se ela consentir, será imediatamente; se recusar, ficarei ainda assim com ela, serei seu criado. Tu, tu... Aliócha... — Parou diante dele e se pôs a sacudi-lo violentamente pelos ombros. — Sabes tu, inocente, que tudo isso é delírio, um delírio inconcebível, porque há nisso uma tragédia?

Fica sabendo, Aliócha, que posso ser um homem perdido, de paixões vis, mas que Dimítri Karamázov jamais será um ladrão, um vulgar ratoneiro.

Pois bem, fica sabendo agora que sou esse ladrão, esse ratoneiro! Quando ia eu à casa de Grúchenhka para castigá-la, naquela manhã mesma Catarina Ivânovna mandoú-me chamar e pediu-me com grande segredo (ignoro por qual motivo) que eu fosse à sede da província enviar 3 000

rublos a Agáfia Ivânovna, em Moscou. Ninguém devia saber disso na cidade. Fui à casa de Grúchenhka com aqueles 3 000 rublos no bolso e serviram eles para pagar nossa excursão a Mókroie. Em seguida, fiz que ia à sede da província, que tinha enviado o dinheiro; quanto ao recibo,

"esqueci-me" de lho levar, malgrado minha promessa. Agora, que pensas?

Irás dizer-lhe: "Ele manda cumprimentá-la". Ela te perguntará: "E o dinheiro?" E tu lhe responderás: "Ele é uma criatura de uma sensualidade animal, uma criatura vil, incapaz de conter-se. Em lugar de enviar seu dinheiro, gastou-o, não podendo resistir à tentação". Mas podes também acrescentar: "Dimítri Fiódorovitch não é um ladrão; aqui estão os seus 3

000 rublos que ele restitui, envie-os a senhorita mesma a Agáfia Ivânovna e receba as homenagens dele". Seria apenas meio mal, não, porém, se ela te perguntar: "Onde está o dinheiro?"

— Mítia, és desgraçado, mas não tanto quanto pensas. Não te mates de desespero!

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— Pensas que vou estourar os miolos, se não conseguir reembolsar esses 3 000 rublos? Absolutamente. Não tenho a mínima coragem agora; mais tarde, talvez... agora vou à casa de Gruchenhka... Lá deixarei a pele.

— Então?

— Casarei com ela, se ela me quiser; quando seus amantes chegarem, passarei para o quarto vizinho. Estarei lá para engraxar os sapatos deles, aquecer o samovar, levar recados...

— Catarina Ivânovna compreenderá tudo — declarou solenemente Aliócha. — Compreenderá teu profundo pesar e te perdoará. Tem espírito elevado, verá que não se pode ser mais desgraçado do que tu.

— Ela não perdoará tudo — sorriu Mítia. — Há nisso uma coisa imperdoável aos olhos de toda mulher. Sabes o que vale mais a pena fazer?

— Que é?

— Entregar-lhe os 3 000 rublos.

— Onde arranjá-los? Escuta, tenho 2 000, Ivã dar-te-á 1000, e estará completa a conta.

— Quando receberei os teus 3 000 rublos? És ainda menor, quanto ao mais é preciso absolutamente que rompas com ela por mim, hoje mesmo, entregando o dinheiro ou não, porque não posso demorar mais tempo, no ponto em que estão as coisas. Amanhã, já seria demasiado tarde.

Vai à casa de papai.

— À casa de nosso pai?

— Sim, primeiro à casa dele. Pede-lhe o dinheiro.

— Mítia, ele jamais o dará.

— Ora essa, sei bem disso! Alieksiéi, sabes o que seja o desespero?

— Sim.

— Escuta, juridicamente, ele não me deve nada. Recebi minha parte, sei disso. Mas, moralmente, deve-me ele alguma coisa, sim ou não? Foi com os 28 000 rublos de minha mãe que ele ganhou 100 000. Que me dê apenas 3 000 rublos, não mais, e terá salvo minha alma do inferno e muitos pecados lhe serão perdoados. Contentar-me-ei com essa soma, 125

juro-te, ele não ouvirá mais falar de mim. Forneço-lhe uma derradeira ocasião de ser um pai. Dize-lhe que é Deus que lha oferece.

— Mítia, ele não os dará a preço algum.

— Sei bem disso, tenho a certeza. Agora sobretudo! Mas há melhor.

Nestes últimos dias, soube ele pela primeira vez seriamente (note este advérbio) que Gruchenhka não estava brincando e se decidiria talvez a dar o salto, a casar-se comigo. Conhece o caráter daquela gata. Pois bem, dar-me-ia ele dinheiro ainda por cima, para favorecer a coisa, quando está louco por ela? Não é tudo, escuta isto. Há já cinco dias, pôs ele de parte 3

000 rublos em notas de 100, num grande envelope com cinco sinêtes, amarrado por uma fita côr-de-rosa. Vês como estou a par? O envelope traz escrito: "Para meu anjo, Grúchenhka, se consentir em vir à minha casa".

Ele mesmo rabiscou isso, às ocultas, e todo mundo ignora que tem ele esse dinheiro, exceto o criado Smierdiákov, em quem confia ele tanto quanto em si mesmo. Há três ou quatro dias que aguarda Grúchenhka, na esperança de que ela irá buscar o envelope; ela fê-lo saber "que talvez fosse". Se ela for à casa do velho, poderei eu esposá-la? Compreendes tu agora por que me escondo aqui e tocaio?

— Ela?

— Sim. As proprietárias cederam um quartinho a Fomá, antigo soldado de nossa guarnição. Está a serviço delas, monta guarda de noite e caça tetrazes durante o dia. Instalei-me em casa dele; essas mulheres e ele ignoram meu segredo, isto é, que estou aqui de tocaia.

— Somente Smierdiákov o sabe?

— Sim. Será ele quem me advertirá, se Grúchenhka for à casa do velho.

— Foi ele quem te falou do pacote?

— Com efeito. É um grande segredo. O próprio Ivã ignora. O velho mandou-o dar um passeio a Tchermachniá por dois ou três dias; apareceu um comprador para a madeira, oferecendo 8 000 rublos; o velho pediu a Ivã que o ajudasse, que fosse em lugar dele. Quer afastá-lo para receber Grúchenhka.

— Ele a espera, por conseguinte, hoje?

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— Não, ela não irá hoje, de acordo com certos indícios. Decerto que não! — exclamou Mítia. — É também a opinião de Smierdiákov. Papai está agora à mesa com Iva, a beber. Vai, pois, Alieksiéi, e pede-lhe esses 3.000 rublos.

— Mítia, meu caro, que tens pois? — exclamou Aliócha, saltando de seu lugar para examinar o rosto desvairado de Dimítri. Acreditou por um instante que ele estivesse louco.

— Pois bem! O quê? Não perdi a razão — declarou ele, de olhar fixo e quase solene. — Não temas. Sei o que digo, creio nos milagres.

— Nos milagres?

— Nos milagres da Providência. Deus conhece meu coração.' Vê meu desespero. Permitiria ele que se realizasse tal horror? Aliócha, creio nos milagres, vai!

— Irei. Dize-me, esperar-me-ás aqui?

— Decerto. Compreendo que será demorado, não se pode abordá-lo diretamente. Está bêbedo agora. Esperarei aqui, três, quatro, cinco horas, mas fica sabendo que hoje, até mesmo à meia-noite, deves ir à casa de Catarina, com ou sem dinheiro. Dirás: "Dimítri Fiódorovitch pediu-me que lhe apresentasse seus cumprimentos". Quero que lhe repitas esta frase exatamente.

— Mítia! E se Grúchenhka for hoje... ou amanhã, ou depois de amanhã?

— Grúchenhka? Vigiarei, forçarei a porta, impedirei.

— Mas se...

— Então, matarei. Não suportarei isso.

— A quem matarás?

— O velho. Nela não tocarei.

— Irmão, que dizes?

— Não sei, não sei... Talvez mate, talvez não mate. Receio que sua cara se me torne odiosa, naquele momento. Odeio sua papada, seu nariz, seus olhos, seu sorriso impudente. Dão-me náuseas. Esse ódio é que me 127

causa medo. Não poderia resistir a ele.

— Irei, Mítia. Creio que Deus arranjará tudo da melhor forma possível e nos poupará essas coisas horríveis.

— E eu aguardarei o milagre. Mas se ele não se realizar, então...

Aliócha, pensativo, dirigiu-se para a casa de seu pai.

VI

SMIERDIÁKOV

Encontrou Fiódor Pávlovitch ainda à mesa. Como de hábito, a mesa fora posta no salão e não na sala de jantar. Era a peça maior da casa, mobiliada com certa pretensão antiquada. Os móveis, bastante antigos, eram brancos, cobertos por um estofo vermelho, meio seda, meio algodão.

Havia tremós de molduras pretensiosas, esculpidas à velha moda, igualmente brancas e douradas. Nas paredes, cuja tapeçaria branca estava rasgada em muitos lugares, figuravam dois grandes retratos, o de um antigo governador-geral da província, e o de um prelado, também morto desde muito tempo. No ângulo que fazia face à porta de entrada encontravam-se vários ícones, diante dos quais ardia uma lâmpada durante a noite, menos por devoção do que para iluminar a sala. Fiódor Pávlovitch deitava-se muito tarde, às 3 ou 4 horas da madrugada, e até então passeava de lá para cá ou meditava em sua poltrona. Tornara-se isso um hábito. Passava muitas vezes a noite sozinho, depois de ter despedido os criados, mas a maior parte do tempo o criado Smierdiákov dormia na antecâmara, deitado em cima de uma comprida arca. À chegada de Aliócha, o jantar estava no fim, haviam-se servido a sobremesa e o café.

Fiódor Pávlovitch gostava de doces, após o jantar, com conhaque. Ivã estava tomando café com seu pai. Os criados, Gregório e Smierdiákov, conservavam-se perto da mesa. Amos e servidores achavam-se visivelmente de bom humor. Fiódor Pávlovitch ria às gargalhadas; desde o vestíbulo, reconheceu Aliócha sua risada semelhante a latidos, que lhe era tão familiar. Concluiu dali que seu pai, ainda longe da embriaguez, encontrava-se em felizes disposições.

— Ei-lo afinal! — exclamou Fiódor Pávlovitch, encantado com a 128

chegada de Aliócha. — Vem sentar-te conosco. Queres café forte? É

famoso e está fervendo. Não te ofereço conhaque porque estás jejuando.

Mas se quiseres... Não, dar-te-ei antes licores de boa qualidade.

Smierdiákov, abre o armário, eles se acham na segunda prateleira, à direita, aqui estão as chaves. Ufa!

Aliócha fez gesto de que recusava os licores.

— Servi-los-ão mesmo assim para nós, já que não queres. Dize-me, já jantaste?

Aliócha respondeu que sim; na realidade, comera um pedaço de pão e beber a um copo de kvas na cozinha do padre abade.

— Tomarei de bom grado uma xícara de café quente.

— Ah! o espertalhão! Não recusa o café! Será preciso esquentá-lo?

Mas não, está ainda fervendo. É café famoso, preparado por Smierdiákov.

É mestre em fazer café, tortas e sopas de peixe. Virás um dia tomar a sopa de peixe aqui. Avisa-me com antecedência. A propósito, não te disse que transportasses teu colchão e teus travesseiros hoje mesmo? Já o fizeste? Ah!

ah! ah!

— Não, não os trouxe — respondeu Aliócha, também rindo.

— Ah! tiveste medo, no entanto, tiveste medo! Serei capaz de fazer-te sofrer, meu querido? Escuta, Ivã, não posso resistir, quando ele me fita nos olhos, rindo. A alegria dilata-me as entranhas, somente ao vê-lo.

Gosto dele! Aliócha, vem receber minha bênção.

Aliócha levantou-se, mas Fiódor Pávlovitch reconsiderara.

— Não, farei somente um sinal-da-cruz, assim, vai-te sentar. Pois bem, ficarás contente, a propósito de teu assunto favorito, vais rir. A burra de Balaão falou, e que linguagem a dela!

A burra de Balaão não era outro senão o criado Smierdiákov, rapaz de 24 anos, insociável e taciturno, embora não fosse selvagem ou acanhado; pelo contrário, era arrogante e parecia desprezar todo mundo.

Chegou o momento de falar a seu respeito, ainda que pouco. Educado por Marfa Ignátievna e Gregório Vassílievitch, o garoto, "natureza ingrata", segundo a expressão de Gregório, crescera selvagem no seu canto. Na sua infância, tinha prazer em enforcar os gatos, enterrando-os depois com 129

grande cerimonial. Para fazer isto, cobria-se com uma colcha de cama, à guisa de casula, e cantava, agitando um simulacro de turíbulo por cima do cadáver. Tudo isso no maior mistério. Gregório surpreendeu-o um dia e chicoteou-o rudemente. Durante uma semana, o garoto enfurnou-se num canto, olhando de través. "Ele não gosta de nós, o monstro", dizia Gregório a Marfa. "Aliás, não gosta de ninguém. És verdadeiramente um ser humano?", perguntou ele uma vez a Smierdiákov. "Mas não, nasceste da umidade do banheiro..." Smierdiákov, como se viu posteriormente, jamais lhe perdoara essas palavras. Gregório ensinou-o a ler e a história sagrada desde que completou doze anos. Mas esta tentativa foi infeliz. Um dia, numa das primeiras lições, o menino pôs-se a rir.