Os Irmãos Karamázov

Fiódor Dostoiévski · Capítulo 15 de 50 · parte 1/3

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Os Irmãos Karamázov

Capítulo 14

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Tchermachniá, irei encontrar-te lá e te levarei um presente. Mostrar-te-ei lá uma mocinha, atrás de quem ando há muito tempo. Anda ainda descalça, mas não tenhas medo das moças descalças, não se deve desprezá-las, elas são umas pérolas!...

E estalou um beijo na mão.

— Para mim — animou-se subitamente, como que desembriagado por um instante, abordando seu tema favorito —, para mim... Ah! meus filhos, meus leitõezinhos... para mim... jamais encontrei uma mulher feia, eis minha máxima! Compreendem? Não, não podem. Não é sangue, é leite que corre nas veias de vocês, ainda não quebraram a casca completamente!

Na minha opinião, pode-se encontrar em toda mulher algo de muito interessante, que lhe é particular, somente é preciso saber descobri-lo, eis o quid! É um talento! Para mim nunca houve feionas. Basta o sexo e é já muito... Mas isto está fora do alcance de vocês! Até mesmo entre as solteironas velhas, encontram-se por vezes encantos tais, que a gente pergunta a si mesmo como é que imbecis puderam deixá-las envelhecer sem as notar! É preciso em primeiro lugar surpreender uma dessas que andam descalças, é assim que se deve fazer. Não o sabias? É preciso que ela fique maravilhada e

confusa por ver um bárin 14 amoroso do focinhozinho dela. Por sorte, há e sempre haverá senhores para tudo ousar e criadas para obedecer-lhes. Basta isto para felicidade da existência! A propósito, Aliócha, sempre causei espanto à tua defunta mãe, mas duma outra maneira. Por vezes, depois de havê-la privado de carícias, expandia-me diante dela num momento dado, caía a seus joelhos, beijando-lhe os pés, e sempre lhe provocava uma risadinha convulsiva, aguda mas sem estrépito. Ela não ria de outra forma. Sabia que sua crise começava sempre assim, que no dia seguinte ela gritaria como uma possessa, e que aquela risadinha só exprimia a aparência de um entusiasmo; mas era sempre isto!

A gente sempre encontra, quando sabe procurar. Um dia um tal Bieliávski, um rico bonitão, que lhe fazia a corte e freqüentava nossa casa, esbofeteou-me na presença dela. Mansa como um carneiro, pensei que ela ia bater-me: "Tu foste batido, ele te esbofeteou!", dizia ela. 'Tu me vendias a ele... Como ousou ele, na minha presença? Trata de não me aparecer, corre a desafiá-lo a um duelo!... " Conduzi-a então ao mosteiro, onde 14 Senhor. Tratamento respeitoso dado outrora às pessoas da classe privilegiada. Atualmente, emprega-se no sentido irônico de comodista, preguiçoso.

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rezaram sobre ela para acalmá-la, mas, juro-te perante Deus, Aliócha, jamais ofendi a minha pequena endemoniada. Uma vez somente, foi no primeiro ano de nosso casamento, rezava ela demais, observava estritamente as festas da Virgem, e recusava-me a entrada de seu quarto.

"Vou curá-la de seu misticismo!", pensava eu. "Vês", disse, "este ícone que tens como milagroso? Tiro-o, vou cuspir em cima dele na tua presença e nenhum castigo sofrerei!" "Meu Deus, ela vai Tratar-me", digo a mim mesmo. Ela, porém, teve apenas um sobressalto, juntou as mãos, ocultou seu rosto, foi tomada dum tremor e caiu sobre o soalho... Aliócha! Aliócha!

Que tens? Que tens?

O velho levantou-se, aterrorizado. Desde que se começou a falar de sua mãe, o rosto de Aliócha alterava-se pouco a pouco; corou, seus olhos cintilaram, seu lábios tremeram... O velho bêbedo nada notara, até o momento em que Aliócha teve uma crise estranha, reproduzindo, traço por traço, o que acabava ele de contar a respeito da "endemoniada". De-súbito, levantou-se da mesa, exatamente como sua mãe, de acordo com a narrativa, juntou as mãos, ocultou o rosto, deixou-se cair sobre sua cadeira, todo sacudido por uma crise de histeria, acompanhada de lágrimas silenciosas.

— Ivã! Ivã! Água, depressa! Completamente como a mãe dele. Tira água com a colher grande e asperge-o, como eu fazia com ela. É por causa de sua mãe, por causa de sua mãe... — murmurou ele a Ivã.

— Sua mãe era também a minha, suponho, que pensa o senhor? —

não pôde Ivã impedir-se de dizer, com um desprezo cheio de cólera. Seu olhar faiscante fez o velho estremecer. Coisa estranha, por um instante, o velho pareceu perder de vista que a mãe de Aliócha era também a de Ivã...

— Como, tua mãe? — murmurou, sem compreender. — Por que dizes isto? A propósito de que mãe? Será que ela... Ah! diabo! é também a tua! Pois bem, onde tinha eu a cabeça? Desculpa-me, mas eu acreditava, Ivã... Eh! eh! eh! — Parou, com um sorriso idiota de bêbedo. No mesmo instante, um barulho reboou no vestíbulo, gritos furiosos se elevaram, a porta abriu-se e Dimítri Fiódorovitch irrompeu na sala. O velho apavorado precipitou-se para Ivã.

— Ele vem matar-me! Não me entregues! — exclamou ele, agarrado às abas do paletó de Ivã.

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IX

OS SENSUAIS

Gregório e Smierdiákov acorriam atrás de Dimítri. No vestíbulo, tinham lutado com ele, para impedi-lo de entrar (de conformidade com as instruções dadas por Fiódor Pávlovitch alguns dias antes). Aproveitando-se do fato de ter Dimítri Fiódorovitch, ao penetrar na sala, parado um minuto para orientar-se, deu Gregório volta à mesa, fechou os dois batentes da porta do fundo, que dava para os aposentos interiores, e conservou-se diante dessa porta, de braços estendidos em cruz, pronto a defender-lhe a entrada até o derradeiro suspiro. Vendo isso, Dimítri rugiu mais do que gritou e precipitou-se contra Gregório.

— Então ela está aí! Foi lá que a esconderam! Para trás, patife!

Quis afastar Gregório, mas este o repeliu. Louco de raiva, Dimítri ergueu a mão e golpeou Gregório com toda a sua força. O velho caiu como que ceifado e Dimítri, pulando por cima de seu corpo, forçou a porta.

Smierdiákov, pálido e tremendo, ficara na outra extremidade da mesa, apertado contra Fiódor Pávlovitch.

— Ela está aqui — gritou Dimítri Fiódorovitch. — Acabo de vê-la dirigir-se para esta casa, mas não pude alcançá-la. Onde está ela? Onde está ela?

Aquele grito de "ela está aqui" causou uma impressão inexplicável em Fiódor Pávlovitch; todo o seu pavor desapareceu.

— Detenham-no, de tenham-no! — guinchou ele, precipitando-se no encalço de Dimítrí. Enquanto isso, Gregório havia-se levantado, mas ainda estava zonzo. Ivã Fiódorovitch e Aliócha correram para deter seu pai. No quarto vizinho, ouviu-se o barulho de um objeto que caía e se quebrava.

Era um grande vaso de vidro (de pouco valor), sobre um pedestal de mármore em que Dimítri tropeçara ao passar.

— Socorro! — urrou o velho.

Ivã e Aliócha alcançaram-no e arrastaram-no à força para a sala de jantar.

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— Por que o persegue? Ele seria capaz de matá-lo! — exclamou com cólera Ivã Fiódorovitch.

— Vânia, Aliócha! Ela está aqui, Grúchenhka; ele mesmo disse que a viu entrar.

Fiódor Pávlovitch perdia o fôlego. Não esperava Grúchenhka naquela ocasião e a notícia imprevista de sua presença perturbava sua razão.

Estava todo tremente, como que perdera o espírito.

— O senhor mesmo viu que ela não veio — gritou Ivã.

— Mas talvez pela outra entrada?

— Está fechada essa entrada, e o senhor tem a chave... Dimítri tornou a aparecer na sala de jantar. Naturalmente, havia encontrado aquela entrada fechada e era mesmo Fiódor Pávlovitch que tinha a chave dela em seu bolso. Todas as janelas estavam igualmente fechadas; Grúchenhka não pudera, pois, entrar nem sair por nenhuma via de acesso.

— Detenham-no! — vociferou Fiódor Pávlovitch, assim que avistou Dimítri. — Roubou dinheiro no meu quarto de dormir! — Arrancando-se dos braços de Ivã, lançou-se de novo contra Dimítri. Este ergueu as mãos e, agarrando o velho pelos dois únicos tufos de cabelo que lhe restavam nas têmporas, fê-lo dar uma piruêta e atirou-o violentamente no soalho. Deu-lhe ainda dois ou três golpes com o tacão no rosto, quando ele estava caído. O velho lançou um gemido agudo. Ivã, embora mais fraco que Dimítri, agarrou-o pelo braço e afastou-o do velho. Aliócha, ajudando-o com todas as suas forças, agarrara seu irmão pela frente.

— Louco, tu o mataste! — gritou Ivã.

— Tem o que merece! — exclamou Dimítri, ofegante. — Se não o matei; voltarei. Vocês não o resguardarão.

— Dimítri, fora daqui agora mesmo! — gritou imperiosamente Aliócha.

— Alieksiéi! Só tenho confiança em ti; dize-me se Grúchenhka estava aqui há pouco ou não. Eu mesmo a vi costear a sebe e desaparecer nesta direção. Chamei-a, ela fugiu...

— Juro-te que ela não estava aqui e que ninguém a esperava!

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— Mas eu a vi... portanto ela... Saberei agora mesmo onde ela está...

Adeus, Alieksiéi! Nem uma palavra a Esopo a respeito do dinheiro, mas vai imediatamente à casa de Catarina Ivânovna e dize-lhe: "Ele me ordenou que a saudasse, precisamente que a saudasse e tornasse a saudar!" Descreve-lhe a cena.

Enquanto isso, Ivã e Gregório tinham levantado e instalado o velho numa poltrona. Seu rosto estava ensangüentado, mas não perdera os sentidos. Parecia-lhe sempre que Grúchenhka se encontrava em alguma parte da casa. Dimítri lançou-lhe um olhar de ódio ao retirar-se.

— Não me arrependo de ter derramado teu sangue! — exclamou ele. — Toma cuidado, velho, vigia teu sonho, porque eu também tenho um. Eu mesmo te maldigo e te renego para sempre...

Lançou-se para fora da sala.

— Ela está aqui, ela está certamente aqui — estertorou o velho com uma voz mal perceptível, fazendo sinal a Smierdiátov.

— Não, ela não está aqui, velho insensato — gritou com raiva Ivã. —

Bem! ei-lo que desmaia! Água, um guardanapo! Apressa-te, Smierdiákov!

Smierdiákov correu a buscar água. Depois que lhe tiraram a roupa, levaram o velho para o quarto de dormir e deitaram-no na cama. Cercaram-lhe a cabeça com um guardanapo molhado. Enfraquecido pelo conhaque, pelas emoções violentas e pelos golpes, fechou ele os olhos e adormeceu assim que pousou a cabeça no travesseiro. Ivã Fiódorovitch e Aliócha voltaram ao salão. Smierdiákov retirou os cacos do vaso partido.

Gregório mantinha-se perto da mesa, sombrio, de cabeça baixa.

— Devias também molhar tua cabeça e deitar-te — disse-lhe Aliócha. — Nós cuidaremos dele; meu irmão golpeou-te violentamente a cabeça.

— Ele o ousou! — proferiu Gregório, com ar sombrio.

— Ousou também contra seu pai, não somente contra ti! — observou Ivã, com os lábios contraídos.

— Lavei-o pequenino na gamela e ele ousou! — repetiu Gregório.

— Com os diabos! Se eu não o tivesse retido, tê-lo-ia matado. Pouco faltou a Esopo para morrer — murmurou Ivã a Aliócha.

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— Que Deus o preserve! — exclamou Aliócha.

— Por quê? — continuou Ivã, no mesmo tom, com o rosto numa contração de ódio. — Que os répteis se devorem entre si, tal é seu destino!

Aliócha estremeceu.

— Bem entendido, não deixarei que se dê um assassinato, como fiz agora. Fica aqui, Aliócha, vou andar no pátio, começo a ter dor de cabeça.

Aliócha foi para o quarto de dormir e ficou uma hora à cabeceira de seu pai, por trás do biombo. De súbito, o velho abriu os olhos e olhou-o muito tempo em silêncio, esforçando-se visivelmente por coordenar suas lembranças. Uma agitação extraordinária pintou-se em seu rosto.

— Aliócha — cochichou ele, apreensivo —, onde está Ivã?

— No pátio; está com dor de cabeça. De guarda a nós.

— Dá-me o espelhinho que está ali.

Aliócha entregou-lhe um espelhinho oval, que se achava sobre a cômoda. O velho mirou-se nele. O nariz estava bastante inchado e, na testa, acima da sobrancelha esquerda, via-se uma equimose roxa.

— Que diz Ivã? Aliócha, meu querido, meu único filho, tenho medo de Ivã; tenho mais medo dele do que do outro. Só de ti ê que não tenho medo.

— Não tenha medo tampouco de Ivã; ele se zanga, mas o defenderá.

— Aliócha, e o outro? Correu para a casa de Grúchenhka? Meu anjo, dize-me a verdade: estava Grúchenhka ainda há pouco aqui ou não?

— Ninguém a viu! É uma ilusão, ela não estava ali!

— Mítia quer casar com ela, sabes?

— Ela não quererá. -

— Ela não quererá, ela não quererá a preço nenhum — exclamou o velho, fremente de alegria, como se nada lhe pudessem dizer de mais agradável no momento. No seu entusiasmo, agarrou a mão de Aliócha e a apertou contra seu coração. Lágrimas mesmo brilharam em seus olhos. —

Toma essa imagem da Virgem de que falei ainda há pouco, leva-a contigo.

E permito que voltes ao mosteiro... Estava brincando, não te zangues. A 149

cabeça me dói, Aliócha... tranqüiliza-me, sê meu bom anjo, dize a verdade!

— Sempre a mesma idéia, se ela veio ou não — disse tristemente Aliócha.

— Não, não, acredito em ti. Mas vai à casa de Grúchenhka ou procura vê-la; pergunta-lhe o mais breve possível — penetra seu segredo — quem ela prefere, ele ou eu? Podes ou não?

— Se a encontrar, perguntar-lhe-ei — murmurou Aliócha, confuso.

— Não, ela não to dirá — interrompeu o velho —, é uma criança terrível. Começará por beijar-te, dizendo que é a ti que ela quer. É astuta e descarada, não, não podes ir à casa dela.

— Com efeito, meu pai, não estaria absolutamente bem.

— Aonde te enviava ele, ainda há pouco, quando gritou: "Vai", ao retirar-se?

— À casa de Catarina Ivânovna.

— Para lhe pedir dinheiro?

— Não, para isso não.

— Ele não tem dinheiro, nem 1 copeque. Escuta, Aliócha, refletirei durante a noite. Vai-te... talvez a encontres. Vem ver-me amanhã de manhã sem falta. Tenho alguma coisa para dizer-te. Virás?

— Virei.

— Terás o ar de vir saber notícias de mim. Não digas a ninguém que te chamei. Nem uma palavra a Ivã.

— Está entendido.

— Adeus, meu anjo. Tomaste minha defesa, ainda há pouco, não o esquecerei nunca. Dir-te-ei uma palavra amanhã... mas isto exige reflexão.

— Como se sente agora?

— Amanhã estarei de pé, completamente restabelecido, de perfeita saúde!...

No pátio, Aliócha encontrou Ivã sentado em um banco, perto do portão; anotava qualquer coisa a lápis no seu caderno. Aliócha informou-o 150

de que o velho recuperara os sentidos e deixava que ele passasse a noite no mosteiro.

— Aliócha, sentiria grande prazer em ver-te amanhã de manhã —

disse Ivã, num tom amável, de todo inesperado para Aliócha.

— Estarei amanhã em casa das senhoras Khokhlakovi, talvez também em casa de Catarina Ivânovna, se não a encontrar em casa agora.

— Vais lá mesmo? É para "saudá-la, saudá-la" — pilheriou Ivã.

Aliócha perturbou-se.

— Penso ter compreendido as exclamações de Dimítri e um pouco o que se passou. Ele pediu que fosse vê-la para dizer-lhe que ele... pois bem... numa palavra, para despedir-se.

— Meu irmão, como terminará esse pesadelo para Dimítri e para nosso pai? — exclamou Aliócha.

— É difícil adivinhá-lo. Talvez dê tudo em nada. Aquela mulher é um monstro. Em todo caso, é preciso que o velho fique em casa e que Dimítri aqui não entre.

— Meu irmão, permite-me ainda uma pergunta. Pode dar-se que cada qual tenha o direito de julgar seus semelhantes e de decidir quem é digno de viver e quem não o é?

— Que vem fazer aqui a apreciação dos méritos? O coração humano não se baseia sobre os méritos para resolver essa questão, mas sobre outros motivos bem mais naturais. Quanto ao direito, quem, pois, não tem o direito de desejar?

— Não a morte de outrem.

— E por que não a morte? De que serve mentir a si mesmo, quando todos vivem assim e sem dúvida não podem viver de outro modo? Pensas no que disse ainda há pouco, que "os dois répteis se devoram um ao outro"? Crês-me capaz, como Dimítri, de derramar o sangue de Esopo, de matá-lo, enfim?

— Que dizes, Ivã? Jamais me veio tal idéia! E não creio que Dimítri...

— Obrigado — disse Ivã, sorrindo. — Fica sabendo que o defenderei sempre. Mas, no caso particular, deixo o campo livre a meus desejos. Até 151

amanhã. Não me julgues, não me olhes como a um celerado —

acrescentou.

Apertaram-se as mãos mais cordialmente do que jamais o fizeram.

Aliócha compreendeu que seu irmão se aproximava dele com um certo fim, intencionalmente.

X

OS DOIS JUNTOS

Aliócha saiu da casa de seu pai mais abatido e mais acabrunhado do que à sua chegada. Suas idéias eram fragmentárias, confusas; ele próprio se dava conta de que temia reuni-las, tirar uma conclusão geral das contradições dolorosas de que se compusera aquele dia. Experimentava um sentimento vizinho do desespero, o que jamais lhe acontecera. Uma questão dominava as outras, fatal e insolúvel: que aconteceria a seu pai e Dimítri em presença daquela mulher terrível? Vira-os engalfinhados. O

único verdadeiramente infeliz era seu irmão Dimítri; a fatalidade o tocaiava. Outros encontravam-se misturados a tudo isso e talvez mais do que parecia antes a Aliócha. Era enigmático. Ivã dera os primeiros passos para ele, esperados desde muito tempo, e agora sentia ele certa apreensão.

Outra coisa estranha: enquanto antes ia à casa de Catarina Ivânovna numa extraordinária perturbação, nenhuma sentia agora; apressava-se mesmo, como se esperasse dela uma indicação. No entanto, o recado era ainda mais penoso de dar: a questão dos 3 000 rublos estava liquidada e Dimítri, sentindo-se definitivamente desonrado, cairia cada vez mais baixo. Além disso, devia Aliócha narrar a Catarina Ivânovna a cena que acabava de desenrolar-se em casa de seu pai.

Eram 7 horas e a noite estava a cair, quando Aliócha chegou à casa de Catarina Ivânovna, que morava num prédio vasto e confortável da Rua Grande. Sabia que ela vivia com duas tias. Uma, a tia de sua irmã Agáfia Ivânovna, era aquela pessoa silenciosa que tomara conta dela depois que saíra do internato. A outra era uma senhora de Moscou, bastante digna, mas sem fortuna. Sabia-se que as duas senhoras se submetiam em tudo a Catarina Ivânovna e só permaneciam em sua companhia para manter o decoro. Catarina Ivânovna só dependia de sua benfeitora, a generala, cuja 152

saúde a retinha em Moscou e a quem estava ela obrigada a dar, duas vezes por semana, notícias suas pormenorizadas.

Quando Aliócha, no vestíbulo, fez-se anunciar pela arrumadeira que lhe abrira a porta, sabia-se já no salão de sua chegada, evidentemente (talvez o tivessem visto pela janela); o fato é que ele ouviu rumor, passos precipitados ressoaram com um frufru de vestidos, duas ou três mulheres teriam saído correndo. Aliócha achou estranho que sua chegada produzisse tal agitação. Fizeram-no entrar logo para o saião, uma grande peça mobiliada com elegância, que nada tinha de provinciana, Muitos canapés, divas, poltronas, mesas e centros; quadros nas paredes, vasos e lâminas, um molho de flores, havendo mesmo um aquário, perto da janela.

O crepúsculo ensombrecia a sala. Aliócha avistou em cima dum canapé uma mantilha de seda abandonada, e sobre a mesa, em frente, duas xícaras onde restava chocolate, biscoitos, uma taça de cristal com passas de uvas, outra com bombons. Vendo aquela refeição, adivinhou Aliócha que havia convidados e franziu o cenho. Mas logo o reposteiro se ergueu e Catarina Ivânovna entrou a passos rápidos, estendendo-lhe as duas mãos com alegre sorriso. Ao mesmo tempo, uma criada trouxe e colocou em cima da mesa duas velas acesas.

— Louvado seja Deus, ei-lo afinal! Rezei a Deus o dia inteiro para que você viesse! Sente-se.

A beleza de Catarina Ivânovna já havia impressionado Aliócha três semanas antes, quando Dimítri o levara à casa dela para apresentá-lo, porque ela desejava muito conhecê-lo. Não haviam conversado por ocasião daquela entrevista. Pensando que Aliócha estava muito acanhado, Catarina Ivânovna quis pô-lo à vontade e conversou todo o tempo com Dimítri. Aliócha mantivera-se em silêncio, mas observara muitas coisas.

Impressionaram-no o porte nobre, a desenvoltura altiva, a segurança da orgulhosa moça. Seus grandes olhos negros e brilhantes pareceram-lhe em perfeita harmonia com a palidez mate de seu rosto oval. Mas seus olhos, seus lábios encantadores, por mais capazes que fossem de excitar o amor de seu irmão, não poderiam talvez retê-lo por muito tempo. Foi quase franco com Dimítri, quando este, após a visita, insistiu, rogando-lhe que não ocultasse a impressão que lhe causara sua noiva.

— Serás feliz com ela, mas talvez não uma felicidade calma.

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— Meu irmão, mulheres como essa permanecem iguais a si mesmas, não se resignam diante do destino. De modo que pensas que não a amarei sempre?

— Não, tu a amarás sempre, é possível, mas não serás talvez sempre feliz com ela...

Aliócha exprimira sua opinião corando aborrecido por ter, para ceder aos rogos de seu irmão, formulado idéias tão "tolas", porque sua opinião lhe parecera a ele próprio bastante tola, logo que fora emitida.

Tivera vergonha de haver-se exprimido tão categoricamente a respeito de uma mulher. Sua surpresa foi tanto maior sentindo, ao primeiro olhar lançado agora sobre Catarina Ivânovna, que se tinha talvez enganado então no seu julgamento. Desta vez o rosto da moça irradiava uma bondade ingênua e uma sinceridade ardente. Da "altivez e orgulho" de então, que haviam impressionado tanto Aliócha, não restava senão uma nobre energia, uma confiança serena e forte em si mesma. Ao primeiro olhar, às primeiras palavras, compreendeu Aliócha que o trágico de sua situação a respeito do homem a quem ela tanto amava não lhe escapava e que, talvez, já soubesse de tudo. E no entanto, malgrado isso, seu rosto radiante exprimia a fé no futuro. Aliócha sentiu-se culpado perante ela, vencido e cativo ao mesmo tempo. Além disso, observou, às suas primeiras palavras, que se encontrava ela numa violenta agitação, talvez insólita nela, e que confinava mesmo com a exaltação.

— Eu o esperava, porque é só de você, agora, que posso saber toda a verdade.

— Vim... — gaguejou Aliócha — eu... ele me enviou.

— Ah! ele o enviou? Está bem. Pressentia isso. Agora, sei tudo, tudo — disse Catarina Ivânovna, com os olhos cintilantes. — Espere, Alieksiéi Fiódorovitch, vou dizer-lhe por que desejava tanto vê-lo. Sei muito mais do que você mesmo; não são notícias que reclamo de você.

Quero saber de sua derradeira impressão sobre Dimítri, quero que você me conte o mais francamente, o mais grosseiramente que puder (oh! não se acanhe!), o que pensa dele agora e de sua situação depois da entrevista de vocês, hoje. Valerá isto talvez melhor que uma explicação entre nós dois, uma vez que não quer ele mais vir ver-me. Compreendeu o que espero de você? Agora, por qual motivo o enviou? Fale francamente, não 154

mastigue as palavras...

— Encarregou-me de... saudá-la, de dizer-lhe que não viria mais e de saudá-la...

— Saudar? Disse assim, foi assim que se exprimiu?

— Sim.

— Talvez se haja enganado, por acaso, e não empregou a palavra devida.

— Não, insistiu precisamente para que eu lhe repetisse essa palavra

"saudar". Recomendou-ma três vezes.

O sangue subiu ao rosto de Catarina Ivânovna.

— Ajude-me, Alieksiéi Fiódorovitch, tenho agora necessidade de você. Eis o que penso, diga-me se tenho ou não razão: se ele o tivesse encarregado de saudar-me, ligeiramente, sem insistir na transmissão da palavra, sem sublinhá-la, tudo estaria acabado. Mas se se apoiou particularmente neste termo, se lhe ordenou expressamente que me transmitisse essa "saudação", é que estava superexcitado, fora de si talvez. A decisão que tomou terá espantado a ele próprio! Não me deixou com segurança, precipitou-se ladeira abaixo. O sublinhamento dessa palavra tem o sentido de uma bravata...

— É isto, é isto — afirmou Aliócha. — Tenho a mesma impressão.

— Neste caso, nem tudo está perdido! Está ele apenas desesperado, posso ainda salvá-lo. Não lhe falou ele de dinheiro, de 3 000 rublos?

— Não somente me falou deles, mas é talvez isso que mais o acabrunha. Disse que nada mais lhe importa agora, agora que perdeu sua honra — respondeu Aliócha, que se sentia renascer para a esperança e entrevia a possibilidade de salvar seu irmão. — Mas sabe... de que dinheiro se trata? — acrescentou ele, e de repente calou-se.

— Desde muito tempo que o sei e com certeza. Telegrafei para Moscou, onde nada tinham recebido. Ele não remeteu o dinheiro, mas eu me calei. Soube na última semana como estava ele necessitado... Só tenho um fito em tudo isto: é que ele saiba a quem se dirigir e onde encontrar a amizade mais fiel. Mas não quer ele crer que seu mais fiel amigo sou eu; só considera a mulher, em mim. Atormentei-me a semana inteira: como 155

fazer para que ele não core diante de mim por ter gasto esses 3 000 rublos?

Que se envergonhe ele diante de todos e se envergonhe de si mesmo, mas não diante de mim! Como ignora ele até agora tudo quanto posso suportar por ele? Como pode ele me desconhecer, depois de tudo quanto se passou?

Quero salvá-lo para sempre. Que deixe de ver em mim sua noiva! E teme pela sua honra para comigo? Mas não receia abrir-se a você, Alieksiéi Fiódorovitch. Por que não mereci ainda sua confiança? Pronunciou estas derradeiras palavras com os olhos cheios de lágrimas.

— Devo relatar-lhe — disse Aliócha, com voz trêmula — a cena que acaba de ter ele com seu pai. — E contou tudo: como Dimítri o havia mandado pedir dinheiro, depois irrompera na casa, batera em Fiódor Pávlovitch e, na ocasião, recomendara com insistência a Aliócha que viesse "saudá-la". — Ele foi à casa daquela mulher... — acrescentou Aliócha, em voz baixa.

— Pensa que não suportarei sua ligação com aquela mulher? Ele também o pensa, mas não casará com ela. — Soltou uma risadinha nervosa. — Será que um Karamázov pode queimar-se com um ardor eterno? É um entusiasmo passageiro, não é amor. Ele não casará com ela, porque ela não o quererá — disse, com o mesmo riso estranho.

— Ele se casará talvez com ela — disse tristemente Aliócha, de olhos baixos.

— Ele não se casará com ela, afirmo-lhe! Aquela moça é um anjo!

Sabia-o? Sabia-o? — exclamou Catarina Ivânovna, com um calor extraordinário. — Ê a mais fantástica das criaturas. É sedutora, decerto mas tem um caráter nobre e bom. Por que me olha desse jeito, Alieksiéi Fiódorovitch? Talvez minhas palavras lhe causem espanto, talvez não me acredite. Agrafiena Alieksándrovna, meu anjo — exclamou ela, de súbito, com os olhos voltados para a peça vizinha —, venha cá, este gentil rapaz está ao corrente de todos os nossos negócios, apareça, pois!

— Só esperava seu chamado — disse uma voz doce e até mesmo melíflua.

O resposteiro ergueu-se e... Grúchenhka em pessoa, risonha, alegre, caminhou para a mesa. Aliócha sentiu uma comoção. Os olhos fixos nela, 156

não podia desviá-los de seu rosto. Ei-la, aquela mulher temível, "aquele monstro", como a chamara seu irmão Ivã meia hora antes. No entanto, tinha ele diante de si a criatura mais vulgar, mais simples à primeira vista, uma mulher encantadora e boa, bonita, decerto, mas parecendo-se com todas as mulheres bonitas "comuns". Na verdade, era até mesmo bela, bastante bela, uma beleza russa, a que suscita tantas paixões. De estatura bastante elevada, sem igualar, no entanto, a de Catarina Ivânovna (que era muito alta), forte, com movimentos mansos e silenciosos, como que enlanguecidos numa doçura de acordo com sua voz. Adiantou-se, não como Catarina Ivânovna, mas com um passo firme e seguro, embora silencioso. Não fazia quase, ruído ao andar. Deixou-se cair numa poltrona, com um rumor leve de seu elegante vestido de seda preta, cobriu friorentamente com um xale de lã seu pescoço branco como neve e seus largos ombros. Tinha 22 anos e seu rosto indicava essa idade. Sua pela era muito branca, com um matiz de reflexos rosa-pálido, o oval do rosto um tanto largo, o maxilar inferior um pouco saliente. O lábio superior era delgado, o inferior, que avançava, duas vezes mais forte e tumido. Uma manífica cabeleira castanha muito abundante, supercílios escuros, admiráveis olhos dum cinzento azulado de longos cílios: o mais indiferente, o mais distraído dos homens, perdido na multidão, passeando, não teria deixado de parar diante daquele rosto e de recordá-lo por muito tempo. O que mais impressionava Aliócha era sua expressão infantil e ingênua. Tinha ela um olhar e alegria de criança, aproximara-se da mesa verdadeiramente alvoroçada, como se esperasse alguma coisa, curiosa e impaciente. Seu olhar alegrava a alma, sentia-o Aliócha. Havia ainda nela algo de que não teria ele podido ou sabido dar conta, mas que sentia talvez inconscientemente, aquela languidez de movimentos, aquela ligeireza felina de seu corpo, no entanto, vigoroso e gordo. Seu xale desenhava espáduas cheias, um firme busto de mulher jovem. Aquele corpo prometia talvez as formas da Vênus de Milo, mas já em proporções um tanto exageradas, adivinhava-se. Conhecedores da beleza russa, ao examinar Grúchenhka, teriam predito com certeza que, ao aproximar-se dos trinta anos, aquela beleza tão fresca ainda perderia sua harmonia, alterar-se-ia, o rosto se empastaria; rugas se formariam rapidamente na testa e em redor dos olhos; a tez murcharia, avermehar-se-ia talvez; numa palavra, era a beleza do diabo, beleza efêmera, tão freqüente na mulher russa. Aliócha, bem entendido, não pensava nisso, mas, embora sob o 157

encanto, perguntava a si mesmo com mal-estar e como a contragosto: por que arrasta ela assim as palavras e não pode falar naturalmente?

Grúchenhka achava decerto bonito aquele rotacismo e aquelas entonações cantantes. Não era senão um hábito de mau gosto, índice de uma educação inferior, duma falsa noção das conveniências. No entanto, aquela fala afetada parecia a Aliócha quase incompatível com aquela expressão ingênua e radiosa, aquele brilho dos olhos ridentes duma alegria de bebê. Catarina Ivânovna fizera-a sentar-se em frente de Aliócha e beijara várias vezes com entusiasmo seus lábios sorridentes. Parecia apaixonada por ela.

— Vemo-nos pela primeira vez, Alieksiéi Fiódorovitch — disse ela, encantada. — Queria conhecê-la, vê-la, ir à casa dela; ela mesma, porém, veio ao meu primeiro chamado. Estava certa de que arranjaríamos tudo!

Meu coração pressentia-o... Tinham-me rogado que desistisse desse passo, mas previa-lhe o resultado e não me enganei. Grúchenhka explicou-me todas as suas intenções; veio como um anjo bom trazer-me a paz e a alegria...

— Você não me desdenhou, cara senhorita — disse Grúchenhka, com uma voz arrastada e seu doce sorriso.

— Evite dizer-me tais palavras, encantadora mágica! Desdenhá-la?

Vou beijar mais uma vez seu lindo lábio. Tem o ar de estar intumescido, pois vou torná-lo mais intumescido ainda... Veja como ri. Alieksiéi Fiódorovitch, é uma alegria para o coração olhar esse anjo...

Aliócha corava e estremecia ligeiramente.

— Você está-me mimando, cara senhorita, mas não mereço talvez suas carícias.

— Não as merece! — exclamou com o mesmo calor Catarina Ivânovna. — Saiba, Alieksiéi Fiódorovitch, que temos aí uma cabeça fantasista, independente, mas um coração altivo, oh! muito altivo! É nobre e generosa, Alieksiéi Fiódorovitch, sabia-o? Era apenas infeliz, pronta inteiramente a sacrificar-se a um homem talvez indigno ou leviano. Havia um oficial a quem amava, deu-lhe tudo, há muito tempo isso, cinco anos, e ele a esqueceu, casou-se. Tendo ficado viúvo, escreveu, está a caminho, é a ele somente, fique sabendo, que ama e sempre amou! Ele chega, e Grúchenhka será de novo feliz, depois de ter sofrido durante cinco anos.

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Que se lhe pode censurar? Quem pode gabar-se de ter-lhe conquistado as belas graças? Aquele velho negociante impotente, mas era antes um pai, um amigo, um protetor; encontrou-a desesperada, atormentada, abandonada... Porque queria ela afogar-se, aquele velho a salvou, salvou-a!

— Você me defende demais, cara senhorita, vai um pouco longe demais — disse de novo, arrastadamente, Grúchenhka.

— Eu a defendo? Cabe a mim defendê-la, ousaríamos nós defendê-la?

Grúchenhka, meu anjo, dê-me sua mão. Olhe essa mãozinha rechonchuda, essa deliciosa mãozinha. Alieksiéi Fiódorovitch: está. vendo-a? Foi ela que me trouxe a felicidade, que me ressuscitou, vou beijá-la dos dois lados...

assim, assim!

Beijou três vezes, como que arrebatada, a mão verdadeiramente encantadora, talvez demasiado rechonchuda, de Grúchenhka. Esta, com um riso nervoso e sonoro, consentia na carícia; mirava a "cara senhorita" e tinha prazer com aquilo... "Ela talvez se exalte demasiado", pensou Aliócha. Corou, seu coração não estava tranqüilo.

— Quer fazer-me corar, cara senhorita, beijando assim minha mão diante de Alieksiéi Fiódorovitch.

— Mas foi minha intenção fazê-la corar? — proferiu Catarina Ivânovna um pouco admirada. — Ah! minha cara, como me compreende mal!

— Mas talvez não me compreenda tampouco, cara senhorita. Sou talvez pior do que pareço. Tenho coração mau, sou caprichosa. Foi somente para zombar do pobre Dimítri Fiódorovitch que o conquistei.

— Mas agora você o salvará, prometeu-o. Far-lhe-á compreender, revelar-lhe-á que desde muito tempo ama outro pronto a desposá-la...

— Mas não, não lhe prometi nada de semelhante. Foi você quem disse tudo isso e não eu.

— Compreendi-a mal então — declarou Catarina Ivânovna, que baixou a voz e empalideceu ligeiramente. — Você prometeu...

— Ah! não, angélica senhorita, não lhe prometi nada — interrompeu-a Grúchenhka, com a mesma expressão alegre, tranqüila, inocente. —

Veja, digna senhorita, como sou má e voluntariosa. O que me agrada, 159

faço-o; ainda há pouco talvez lhe haja feito uma promessa, e agora digo a mim mesma: se Mítia viesse a agradar-me de novo, porque já um vez me agradou quase uma hora, talvez vá dizer-lhe que fique morando comigo a partir de hoje... Veja como sou inconstante...

— Ainda há pouco falava você de maneira totalmente diversa... —

murmurou Catarina Ivânovna.

— Sim, ainda há pouco! Mas tenho o coração terno, sou tola! Basta pensar em tudo quanto ele sofreu por mim; se, de volta para minha casa, tiver piedade dele, que acontecerá?

— Eu não esperava...

— Oh! senhorita, quanto é boa e nobre comparada comigo! E talvez, agora, vai deixar de amar-me vendo meu caráter. Dê-me sua bonita mão, angélica senhorita — pediu ela, tomando com respeito a mão de Catarina Ivânovna. — Vou beijar sua mão, cara senhorita, como fez você à minha.

Deu-me três beijos, deveria dar-lhe bem uns trezentos para ficar quite.

Assim será, e depois, seja o que Deus quiser: talvez seja sua escrava e haverei de querer comprazê-la em tudo quanto Deus queira, sem convenção alguma nem promessas. Dê-me sua mão, sua linda mão, cara senhorita, bela entre todas!

Levou docemente aquela mão a seus lábios, com o fito estranho de

"saldar a conta" dos beijos recebidos. Catarina Ivânovna não retirou sua mão. Havia escutado com tímida esperança a derradeira promessa de Gruchenhka, por mais estranhamente expressa que tivesse sido, de

"comprazê-la em tudo"; olhava-a com ansiedade bem dentro dos olhos; via ali a mesma expressão ingênua e confiante, a mesma jovialidade serena... "Ela é talvez demasiado ingênua!", disse a si mesma Catarina Ivânovna, num clarão de esperança. Entretanto Gruchenhka, encantada com aquela "linda mãozinha", levava-a lentamente aos lábios. Ia quase tocar-lhe quando a reteve para refletir.

— Sabe, meu anjo — disse ela, arrastadamente, com sua voz mais melíflua —, feitas as contas, não lhe beijarei a mão. — E soltou uma risadinha alegre.

— Como queira... Que tem? — estremeceu Catarina Ivânovna.

— Lembre-se disso: você beijou minha mão, mas eu não beijei a sua.

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Um clarão brilhou nos seus olhos. Fitava com obstinação Catarina Ivânovna.

— Insolente! — exclamou esta, que começava a compreender. Levantou-se vivamente, tomada de cólera. Sem se apressar, Gruchenhka fez o mesmo.

— Vou contar a Mítia que você beijou minha mão, mas que eu não quis beijar a sua. Isto vai fazê-lo rir.

— Fora daqui, canalha!

— Ah! que vergonha! É indecente de sua parte empregar tais palavras, cara senhorita.

— Fora daqui, fêmea vendida! — vociferou Catarina Ivânovna. Todo o seu rosto convulsionado tremia.

— Vendida, seja. Você mesma, mocinha, saía à noite à busca de dinheiro entre rapazes, traficando seus encantos; sei de tudo.

Catarina Ivânovna lançou um grito, quis atirar-se contra ela, mas Aliócha reteve-a com todas as suas forças.

— Não se mova, nem uma palavra! Não lhe responda, ela partirá agora mesmo!

As duas parentas de Catarina Ivânovna e a arrumadeira acorreram ao seu grito. Precipitaram-se para ela.

— Está bem! Vou-me embora — declarou Gruchenhka, tomando sua mantilha de cima do diva. — Aliócha, meu bem, acompanha-me!

— Vá-se o mais depressa possível — implorou Aliócha, de mãos juntas.

— Aliócha querido, acompanha-me. De caminho, dir-te-ei uma palavra, algo de muito gentil! Foi por ti, Aliócha, que representei essa cena.

Vem, meu caro, não lamentarás ter vindo.

Aliócha voltou-se, torcendo as mãos. Gruchenhka saiu rindo, sono-ramente.

Catarina Ivânovna teve um ataque de nervos; soluçava, espasmos sufocavam-na. Todos se mostravam solícitos em torno dela.

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— Eu a havia prevenido — disse-lhe a mais velha das tias — e desaconselhado tal passo... você é demasiado viva... pode-se arriscar tal coisa? Você não conhece essas criaturas e dizem dessa que é a pior de todas... Você só faz o que lhe dá na cabeça!

— É uma teoriza! — vociferou Catarina Ivânovna. — Por que me reteve, Alieksiéi Fiódorovitch? Ter-lhe-ia batido, batido...

Estava incapaz de conter-me diante de Alieksiéi, talvez mesmo não o quisesse.

— Merecia ser chicoteada em público, pela mão do carrasco. Alieksiéi aproximou-se da porta.

— Oh! meu Deus! — exclamou Catarina Ivânovna, juntando as mãos. — Mas ele! Pôde ser tão desleal, tão inumano?! Por que foi ele que contou àquela criatura o que se passou naquele dia fatal e para sempre maldito! "Você ia traficar seus encantos, cara senhorita!" Ela sabe! Seu irmão é um canalha, Alieksiéi Fiódorovitch!

Aliócha quis dizer alguma coisa, mas não encontrou uma palavra sequer; seu coração cerrava-se a ponto de doer-lhe.

— Vá-se embora, Alieksiéi Fiódorovitch! Tenho vergonha, é horrível!

Amanhã... Rogo-lhe, de joelhos, venha amanhã. Não me julgue, perdoe-me, não sei de que sou capaz!

Aliócha saiu cambaleante. Teria querido também chorar; de repente a criada alcançou-o.

— A senhorita esqueceu-se de entregar-lhe esta carta da Senhora Khokhlakova; estava com ela desde o jantar.

Aliócha pegou o pequeno envelope côr-de-rosa e meteu-o quase inconscientemente no bolso.

XI

OUTRA REPUTAÇÃO PERDIDA

Da cidade ao mosteiro era apenas 1 versta. Aliócha caminhava rapidamente pela estrada, deserta àquela hora. Era quase noite e difícil, a 162

trinta passos, distinguir os objetos. Em meio do caminho, no centro duma encruzilhada, elevava-se um salgueiro isolado, sob o qual percebia-se um vulto. Mal Aliócha chegara àquele local, o vulto destacou-se da árvore e lançou-se a ele gritando:

— A bolsa ou a vida!

— Como, és tu, Mítia! — exclamou, espantado, Aliócha, bastante comovido.

— Ah! ah! não esperavas por isto, hein? Perguntava a mim mesmo onde esperar-te. Perto da casa dela? Há três caminhos que partem dali e eu podia não te encontrar. Tive a idéia afinal de esperar-te aqui, porque devias necessariamente passar por esta estrada, uma vez que não há outra para ir ao mosteiro. Pois bem, dize-me a verdade, esmaga-me como a uma barata... Que tens, então?

— Não é nada, irmão... É o medo! Ah! Dimítri! Ainda há pouco, esse sangue de nosso pai (Aliócha pôs-se a chorar, desde muito tinha vontade disso, parecia-lhe que alguma coisa se dilacerava dentro dele). Tu quase o mataste... tu o amaldiçoaste... e eis que agora... aqui... fazes brincadeira... a bolsa ou a vida!

— Ah! sim. Pois bem! É indecente? Não convém isto à situação?

— Mas não, dizia isto...

— Espera, olha essa noite; vê como está sombria, aquelas nuvens, esse vento que se levantou. Oculto sob o salgueiro, esperava-te e, de repente, disse a mim mesmo (Deus me seja testemunha!): "Que adianta sofrer ainda, por que esperar? Eis um salgueiro, tenho meu lenço e minha camisa, a corda ficaria trançada em breve, com meus suspensórios ainda por cima... A terra ficaria livre de mim, não mais a desonraria com a minha presença!" E eis que ouço os teus passos. Senhor, foi como se um raio descesse sobre mim! "Há pois um homem a quem amo, ei-lo, esse homenzinho, o meu querido irmãozinho, a quem amo mais que tudo no mundo e é o único a quem amo!" Tão vivo era meu afeto naquele minuto que pensei: "Vou atirar-me ao seu pescoço!" Mas veio-me uma idéia estúpida: "Para diverti-lo, vou fazer-lhe medo". E gritei como um imbecil:

Continuar: parte 2 de 3