Os Irmãos Karamázov
*
Às tuas suspeitas renuncia.. *
Eu não me embriago, "beberico", como diz aquele porco do Rakítin, teu amigo, e o dirá ainda, mesmo quando se tornar conselheiro de Estado.
Senta-te, Aliócha; gostaria de apertar-te em meus braços, de esmagar-te, porque, no mundo inteiro, crê-me, na verdade, na verdade, não amo senão a ti! Pronunciou as derradeiras palavras numa espécie de frenesi.
— A ti e também a uma debochada pela qual me embeicei, para desgraça minha. Mas embeiçar-me não é amar. A gente pode emberçar-se e odiar. Lembra-te disto. Até aqui, falo alegremente. Senta-te à mesa, perto de mim, para que te veja. Tu me escutarás em silêncio e direi tudo, porque o momento de falar chegou. Mas fica sabendo, refleti, é preciso falar verdadeiramente baixo porque aqui há talvez orelhas às escutas. Saberás tudo, disse: a continuação virá. Por que tinha eu tamanha vontade de verte, desde cinco dias que aqui estou e ainda há pouco? É que tu me és necessário... é que a ti somente direi tudo... é que amanhã uma vida acaba e outra começa para mim. Já experimentaste alguma vez em sonho a sensação de rolar num precipício? Pois bem, agora caio realmente. Oh!
não tenho medo e tu também não. Isto é, sim, tenho medo, mas é um medo suave, ou antes, embriaguez... E depois, para o diabo! Que importa!
Espírito forte, espírito fraco, espírito de mulher, que importa? Louvemos a natureza! Vê que belo sol, que céu puro, por toda parte folhagens verdes; é na verdade ainda o verão. Estamos às 4 horas da tarde, está tudo calmo!. .
Aonde ias?
— Ia à casa de meu pai e queria ver, de passagem, Catarina.
— À casa dela e à casa de papai? Que coincidência! Pois, por que te chamei, por que te desejava do fundo do coração, com todas as fibras de meu ser? Precisamente para mandar-te à casa de papai, depois à casa dela, a fim de acabar isso de uma vez com um e com outra. Enviar um anjo!
Teria podido enviar não importa quem, mas era-me preciso um anjo. E eis que ias tu mesmo para lá!
— Deveras? Querias mandar-me lá? — perguntou Aliócha, com uma expressão dolorosa.
— Espera, tu o sabias. Vejo que compreendeste tudo; mas cala-te.
* Versos de um poema de Niekrássov
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Não me lamentes, não chores!
Dimítri levantou-se, com ar meditativo:
— Foi ela quem te chamou; deve ter-te escrito, senão não irias...
— Aqui está seu bilhete... — Aliócha tirou-o de seu bolso. Mítia leu-o rapidamente.
Versos de um poema de Niekrássov.
— E tomavas o caminho mais curto! Ó deuses! Agradeço-vos o tê-lo dirigido para este lado e trazido para mim, tal como o peixinho de ouro que foi cair nas mãos do velho pescador, segundo o conto popular. Escuta, Aliócha, escuta meu irmão, Agora, resolvi dizer tudo. É preciso que me expanda, afinal! Depois de ter-me confessado a um anjo do céu, vou confessar-me a um anjo da terra. Porque és um anjo. Tu me escutarás e me perdoarás... Tenho necessidade de ser absolvido por um ser mais nobre do que eu. Escuta, pois. Suponhamos que duas criaturas se libertem das servidões terrestres e planem numa região superior, uma delas, pelo menos. Que esta, antes de voar ou desaparecer, se aproxima da outra e lhe diga: "Faze por mim isto ou aquilo", coisas que jamais se costumam exigir, que só se pedem no leito de morte. Será que o que fica se recusará, se é um amigo, um irmão?
— Eu o farei, mas dize-me de que se trata, e dize-me quanto antes —
falou Aliócha.
— Depressa... Hum! Não te apresses, Aliócha. Apressando-te, atormentas-te. É inútil apressar-se agora. O mundo entra agora numa era nova. Que pena, Aliócha, que nunca te entusiasmes. Mas que digo eu? Sou eu que careço de entusiasmo! Que digo eu, tolo que sou?
Homem, sê nobre!
De quem é este verso?
Aliócha resolveu esperar. Compreendera que toda a sua atividade, com efeito, estava talvez concentrada agora naquele lugar. Mítia ficou um momento pensativo, de cotovelos sobre a mesa, a fronte na mão. Ambos mantinham-se calados.
— Aliócha, somente tu me escutarás sem rir. Gostaria de começar...
minha confissão... por um hino à alegria, como Schiller, An die Freude!
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Mas não sei alemão, sei somente que é An die Freude. Não vás imaginar que tagarelo sob o domínio da embriaguez. Para embriagar-me são precisas duas garrafas de conhaque.
Como Sileno vermelho
No seu asno vacilante.
Ora, não bebi um quarto de garrafa e não sou Sileno. Não Sileno, mas Hércules, porque tomei uma resolução heróica. Perdoa-me essa aproximação de mau-gôsto, terás bem mais outras coisas a perdoar-me hoje. Não te inquietes, não invento, falo seriamente e vou direto ao fato.
Não serei duro ao»disparo como um judeu. Espera, como é que é mesmo?
Ergueu a cabeça, refletiu, depois começou a recitar com entusiasmo:
Nu, tímido, selvagem, se ocultava
O troglodita nas cavernas;
O nômade nos campos pervagava
A devastá-los sem cessar;
O caçador com sua lança e flechas,
Terrível, as florestas percorria;
Desgraça para os náufragos lançados
Pelas ondas naquela praia inóspita.
Das alturas do Olimpo, Ceres
Desce, à procura de Prosérpina,
Ao seu amor arrebatada;
A seus olhos o mundo é todo horror.
Nenhum asilo, nem mesmo oferendas
À deusa são apresentadas.
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Aqui não se conhece culto aos deuses, Nem templos há para adorá-los.
Os frutos do pomar, as uvas doces
Não alegram nenhum festim;
Só os restos das vítimas fumegam
Sobre as aras ensangüentadas.
E em vão de Ceres vaga o triste olhar;
Por toda parte avista o homem
Numa profunda humilhação.
Soluços escaparam-se do peito de Mítia; agarrou Aliócha pela mão.
— Amigo, amigo, sim, na humilhação, na humilhação ainda agora!
O homem sofre na terra males sem conta. Não penses que seja eu apenas um boneco vestido de oficial, bom para beber e para fazer farras. A humilhação, que é a partilha do homem, eis, irmão, quase o único objeto de meu pensamento. Deus me guarde de mentir e de gabar-me. Penso nesse homem humilhado, porque sou ele eu mesmo.
Para que possa sair da abjeção
O homem, por força de sua alma,
Deve aliança eterna concluir
Com sua velha mãe, a Terra.
Somente, porém, como concluir essa aliança eterna? Não fecundo a terra, abrindo-lhe o seio; far-me-ei mujique ou pastor? Ando sem saber para onde vou, para a luz radiosa ou para a vergonha infecta. Está nisso a desgraça, porque tudo é enigma neste mundo. Quando me achava mergulhado na mais abjeta degradação (era todo o tempo), sempre reli esses versos a respeito de Ceres e da miséria do homem. Corrigiram-me?
Não! Porque sou um Karamázov! Porque, quando rolo no abismo, é diretamente, de cabeça à frente; agrada-me mesmo cair assim, vejo beleza nessa queda. E do seio da vergonha entôo um hino. Sou maldito, vil e degradado, mas beijo a fímbria da veste em que se envolve o meu Deus; 111
sou a estrada diabólica, mas sou, no entanto, teu filho, Senhor, e te amo, sinto a alegria sem a qual o mundo não poderia subsistir.
A alegria eterna anima
Toda a alma da criação,
Transmite a chama da vida
Na força oculta dos germes;
Foi quem fez surgir a relva,
Transformou o caos em sóis,
Espalhados nos espaços
Longe da vista dos homens.
Tudo quanto na boa Natureza
Respira, dela extrai sua alegria,
Arrasta atrás de si seres e povos;
Foi ela quem nos deu
Amigos na desgraça,
Dos cachos d'uva o suco,
Das Graças a grinalda,
Ao inseto, a luxúria...
E o Anjo, para levar-nos
À presença de Deus.
Mas basta de versos. Deixa-me chorar. Que seja um absurdo de que o mundo inteiro zombe, exceto tu. Eis teus olhos brilhando. Basta de versos. Quero agora falar-te dos "insetos", daqueles a quem Deus gratificou com a luxúria. Eu mesmo sou um deles e isso se aplica a mim.
Nós, Karamázovi, somos todos assim; esse inseto vive em ti, que és um 112
anjo, e aí suscita tempestades. Porque a sensualidade é uma tempestade e até mesmo algo mais. A beleza é uma coisa terrível e espantosa. Terrível, porque indefinível, e não se pode defini-la porque Deus só criou enigmas.
Os extremos se tocam, as contradições vivem juntas. Sou pouco instruído, irmão, mas tenho pensado muito nessas coisas. Quantos mistérios acabrunham o homem! Penetra-os e volta intacto. Assim a beleza. Não posso tolerar que um homem de grande coração e de alta inteligência comece pelo ideal da Madona e venha a acabar no de Sodoma. Mas o mais horrível é, trazendo no seu coração o ideal de Sodoma, não repudiar o da Madona, arder por ele como nos seus jovens dias de inocência. Não, o espírito humano é demasiado vasto, gostaria dê restringi-lo. O diabo é quem sabe de tudo. O coração acha beleza até na vergonha, no ideal de Sodoma, que é o da imensa maioria. Conheces esse mistério? É o duelo do diabo e de Deus, sendo o coração humano o campo de batalha. Ora, fala-se daquilo que faz a gente sofrer. Vamos, pois, ao fato.
IV
CONFISSÃO DE UM CORAÇÃO ARDENTE. — ANEDOTAS
— Entregara-me à devassidão. Meu pai dizia ainda há pouco que gastei milhares de rublos para seduzir donzelas. Imaginação de porco! É
uma mentira, porque minhas conquistas não me custavam nada, a bem dizer. Para mim o dinheiro não passa do acessório, a encenação. Hoje, sou o amante de uma dama, amanhã de uma mulher das ruas. Divirto as duas, prodigando dinheiro aos punhados, com música e ciganos. Se for possível, dou dinheiro a elas, porque de qualquer forma o dinheiro não lhes desagrada; elas nos agradecem. Amaram-me senhoritas, não todas, mas as houve e muitas. Gostava dos becos, das vielas sombrias e desertas, teatro de aventuras, de surpresas, por vezes de pérolas na lama. Exprimo-me alegòricamente, irmão, esses becos só existiam figuradamente. Se fosses semelhante a mim, compreenderias. Gostava da devassidão pela sua abjeção mesma. Gostava da crueldade; não sou um percevejo, um inseto malfazejo? Um Karamázov, e está tudo dito! Uma vez, houve um grande piquenique, para onde fomos em sete tróicas, no inverno, num tempo sombrio; no trenó cobri de beijos minha vizinha, filha de um funcionário, sem fortuna, encantadora e tímida; no escuro, permitiu-me ela carícias de-113
masiado livres. A pobrezinha imaginava que no dia seguinte iria eu pedi-la em casamento (porque era eu apreciado como possível noivo); mas fiquei cinco meses sem dizer-lhe uma palavra. Muitas vezes, quando se dançava, via-a seguir-me com o olhar num canto do salão, com os olhos a arderem duma terna indignação. Esse jogo só fazia deitar minha sensualidade perversa. Cinco meses depois, casou-se ela com um funcionário e partiu... furiosa e talvez amando-me ainda. Vivem felizes, agora. Nota que ninguém sabe de nada, sua reputação está - intacta; malgrado meus vis instintos e meu amor à baixeza, não sou desonesto. Tu coras. Teus olhos cintilam. Estás farto dessa lama. No entanto, não passam de grinaldas à Paulo de Kock. Tenho, irmão, um álbum inteiro de recordações. Que Deus as guarde a essas queridas criaturas. No momento de romper, evitava as querelas. Jamais vendi nem comprometi nenhuma.
Mas isto basta. Crês que te chamei somente por causa dessas sujeiras? Não, foi a fim de contar-te algo de mais curioso; mas não fiques surpreendido pelo fato de não ter eu vergonha diante de ti, sinto-me mesmo à vontade.
— Fazes alusão ao meu rubor — observou, de súbito, Aliócha. —
Não são tuas palavras, nem mesmo tuas ações que me fazem corar. Coro porque sou igual a ti.
— Tu? Estás indo um pouco longe.
— Não, não exagero — declarou Aliócha, com calor. (Via-se que estava presa dessa idéia desde muito tempo.) — A escada do vício é a mesma para todos. Acho-me no primeiro degrau; estás mais alto, no décimo terceiro, admitamos. Acho que é absolutamente a mesma coisa: uma vez posto o pé no primeiro degrau, é preciso galgar todos.
— O melhor, então, é não começar?
— Evidentemente, se é possível.
— Pois bem, és capaz?
— Creio que não.
— Cala-te, Aliócha, cala-te, meu querido, tenho vontade de beijar-te a mão cheio de enternecimento. Ah! essa marota da Gruchenhka conhece os homens; dizia-me, uma vez, que um dia ou outro te devoraria. Está bem, calo-me! Mas deixemos esse terreno emporcalhado pelas moscas para chegar à minha tragédia, emporcalhada, também ela, pelas moscas, 114
isto é, por todas as espécies de baixezas possíveis. Se bem que o velho tenha mentido a respeito de minhas pretensas seduções, isto aconteceu-me, no entanto, uma vez somente; e ainda assim não chegou a executar-se. Ele, que me censurava coisas imaginárias, nada sabe disso; não o contei a ninguém, és o primeiro a quem falo, exceto Ivã, bem entendido. Ele sabe de tudo desde muito tempo. Mas Ivã é mudo como o tumulo.
— Como o tumulo?
— Sim.
Aliócha redobrou de atenção.
— Embora alferes num batalhão de linha, era objeto de certa vigilância, a modo dum deportado. Mas acolhiam-me bastante bem na cidadezinha. Prodigalizava dinheiro, acreditavam-me rico e eu acre ditava que o era. Devia agradar também por outras razões. Embora abanando a cabeça por causa de minhas estroinices, tinham afeição por mim. Meu tenente-coronel, um velho, antipatizou comigo de repente. Pôs-se a amofinar-me, mas eu tinha costas largas; toda a cidade ficou a meu lado, não podia ele fazer grande coisa. A culpa era minha; por tola altivez, não lhe prestava eu as homenagens a que tinha ele direito. Aquele velho teimoso, bom homem no íntimo e muito hospitaleiro, fora casado duas vezes. Era viúvo. Sua primeira mulher, de baixa condição, deixara-lhe uma filha tão simples quanto ela mesma. Tinha a moça então 24 anos e vivia com seu pai e sua tia materna. Longe de ter a ingenuidade silenciosa de sua tia, a isso juntava muita vivacidade. Jamais encontrei caráter feminino mais encantador. Chamava-se Agáfia, imagina, Agáfia Ivânovna.
Bastante bonita, ao gosto russo, grande, de boas carnes, de belos olhos, mas de expressão um pouco vulgar. Ficara solteira, malgrado dois pedidos de casamento, e conservava sua jovialidade. Travei amizade com ela, tudo muito direito, com muita honestidade. Porque travei mais de uma amizade feminina, perfeitamente pura. Falava com ela em termos bastante livres e ela só fazia rir. Muitas mulheres gostam dessa liberdade de expressão, nota-o bem; além do mais, era muito divertido com uma moça igual a ela. Um traço ainda: não se podia qualificá-la de senhorita.
Sua tia e ela viviam em casa de seu pai, numa espécie de rebaixa mento voluntário, sem se igualarem ao resto da sociedade. Estimavam-na, apreciavam seus talentos de costureira, porque não cobrava ela nada, trabalhando por gentileza para suas amigas, sem todavia recusar o 115
dinheiro, quando lhe era oferecido. Quanto ao coronel, era um dos homens notáveis do lugar. Vivia à larga. Toda a cidade era recebida em sua casa; ceava-se, dançava-se. Por ocasião de minha entrada para o batalhão, só se falava, na cidade, da próxima chegada da segunda filha do coronel. Famosa pela sua beleza, acabava de sair de um internato aristocrático da capital. É Catarina Ivânovna, a filha da segunda mulher do coronel. Esta última era nobre, de grande casa, mas não trouxera dote algum ao marido; sei-o de boa fonte. Era de boa família, com algumas esperanças, mas nada de efetivo. No entanto, quando a jovem chegou para uma temporada, a cidadezinha ficou como que galvanizada; nossas damas mais distintas, duas excelências, uma coronela, e todas as outras, em seguimento, disputavam-na; festejavam-na, era a rainha dos bailes, dos piqueniques; organizaram-se quadros vivos em benefício de não sei quais professoras. Quanto a mim, caio-me, farreio; imaginei então uma pilhéria à minha moda, que deu que falar à cidade inteira. Uma noite, em casa do comandante da bateria, Catarina Ivânovna lançou-me um olhar de alto a baixo; não me aproximei dela, desdenhando travarmos conhecimento.
Abordei-a algum tempo depois, igualmente num sarau. Falei-lhe. Olhou-me apenas, com os lábios desdenhosos. "Espera um pouco, pensei, vingar-me-ei!" Era eu então um sujeito verdadeiramente estourado na maior parte dos casos e sentia isso. Sentia sobretudo que Catarina, longe de ser uma pensionista ingênua, tinha caráter, altivez e verdadeira virtude, sobretudo muita inteligência e instrução, o que me faltava totalmente.