Os Irmãos Karamázov

Fiódor Dostoiévski · Capítulo 42 de 50

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Os Irmãos Karamázov

Capítulo 43

VIII

TERCEIRA E ÚLTIMA ENTREVISTA COM SMIERDIÁKOV

Durante o trajeto, um vento áspero e fresco começou a soprar, o mesmo que de manhã, trazendo uma neve fina, espessa e seca. Caía ela sem aderir ao solo, o vento fazia-a turbilhonar e dentro em breve desencadeou-se uma verdadeira tormenta. Na parte da cidade em que morava Smierdiákov, quase não há lampiões. Ivã marchava no escuro, orientando-se instintivamente. A cabeça doía-lhe. As têmporas latejavam-lhe, seu pulso estava precipitado. Um pouco antes de chegar à casinha de Maria Kondrátievna, encontrou um mujique embriagado, de cafetã remendado, que caminhava em ziguezague, invectivando, interrompendo-se por vezes para entoar

uma canção com sua voz rouca: Para Piter43 partiu Vanka, Por ele não esperarei.

Mas parava sempre no segundo verso e recomeçava suas impreca-ções. Desde bom tempo, sentia Ivã Fiódorovitch inconscientemente verdadeiro ódio contra aquele indivíduo; de repente deu-se conta disso.

Imediatamente, teve uma vontade irresistível de matá-lo. Justamente naquele momento encontraram-se lado a lado, e o mujique, cambaleando, deu violento encontrão em Ivã. Este repeliu com raiva o bêbado, que caiu sobre a terra gelada, exalou um gemido e calou-se. Jazia de costas, desmaiado. "Ele vai gelar!", pensou Ivã, que prosseguiu seu caminho.

No vestíbulo, Maria Kondrátievna, que viera abrir, com uma vela na mão, disse-lhe em voz baixa que Páviel Fiódorovitch (isto é, Smierdiákov) estava muito mal e parecia fora de juízo, tendo mesmo recusado tomar o chá.

— Está fazendo barulho, então? — indagou Ivã.

— Pelo contrário, está completamente calmo, mas não o retenha demasiado tempo... — pediu Maria Kondrátievna.

Ivã entrou na isbá.

Estava esta sempre bastante aquecida, mas notavam-se algumas mu-43 Petersburgo, na linguagem do povo.

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danças no quarto; um dos bancos dera lugar a um grande divã de falso acaju, recoberto de couro, arranjado como cama, com travesseiros bastante limpos. Smierdiákov estava sentado, sempre metido no seu velho roupão de quarto. Tinham posto a mesa diante do divã, de sorte que restava pouco espaço. Em cima, um grosso volume de capa amarela. Acolheu ele Ivã com um longo olhar silencioso, não parecendo absolutamente surpreendido pela sua visita. Tinha mudado muito fisicamente, com o rosto bastante emagrecido e amarelo, os olhos cavados, as pálpebras inferiores arroxeadas.

— Estás verdadeiramente doente? — disse Ivã Fiódorovitch. — Não te reterei muito tempo, conservarei mesmo meu sobretudo. Posso sentar-me?

Aproximou uma cadeira da mesa e sentou-se.

— Por que não falas? Só tenho uma pergunta a fazer-te, mais juro-te que não partirei sem resposta. Catarina Ivânovna veio ver-te?

Smierdiákov não respondeu, fez um gesto apático e virou-se.

— Que tens?

— Nada.

— Nada, como?

— Está bem! Sim, ela veio, que é que tem o senhor com isso? Deixe-me tranqüilo.

— Não, não te deixarei. Fala, quando veio ela?

— Ora, já perdi a lembrança.

Smierdiákov sorriu com desdém. De repente, voltou-se para Ivã, com o olhar carregado de ódio, como um mês antes.

— Creio que o senhor também está doente. Como tem as faces cavadas, o ar desfeito!

— Deixa minha saúde e responde à minha pergunta.

— Por que seus olhos estão tão amarelos? O senhor deve estar-se atormentando.

Pôs-se a rir, escarninho.

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— Escuta, já te disse que não partirei sem resposta — exclamou Ivã exasperado.

— Por que essa insistência? Por que me tortura? — disse Smierdiákov, num tom doloroso.

— Que diabo! Não és tu quem me interessa. Responde e ir-me-ei imediatamente.

— Nada tenho a responder-lhe.

— Asseguro-te que te obrigarei a falar.

— Por que se inquieta o senhor? — Smierdiákov fitou-o com desgosto, mais do que com desprezo. — Porque é amanhã o julgamento? Mas o senhor não arrisca nada, tranqüilize-se pois, afinal! Vá tranqüilamente para sua casa, durma em paz, nada tem a temer.

— Não te compreendo... por que haveria eu de temer amanhã? — disse Ivã, espantado e, de repente, sentiu-se gelado de medo. Smierdiákov mirava-o de alto a baixo.

— O senhor não com-pre-ende? — disse ele, num tom de censura.

— Que necessidade experimenta um homem inteligente de representar semelhante comédia?

Ivã olhava-o sem falar. O tom inesperado, tão arrogante, com que lhe falava seu antigo lacaio, exorbitava do comum.

— Digo-lhe que o senhor nada tem a temer. Não deporei contra o senhor, não há provas. Veja como suas mãos tremem. Por que isso? Volte à sua casa, não é o senhor o assassino!

Ivã estremeceu, lembrou-se de Aliócha.

— Sei que não sou eu... — murmurou ele.

— O senhor o sa-be?

Ivã levantou-se e agarrou-o pelo ombro.

— Fala, réptil! Dize tudo!

Smierdiákov não se mostrou nada amedrontado. Olhou somente Ivã com um ódio louco.

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— Então, foi o senhor que matou, se é assim — murmurou ele com raiva.

Ivã deixou-se recair sobre sua cadeira, parecendo meditar. Sorriu maldosamente.

— Sempre a mesma história, como da outra vez?

— Sim, o senhor compreendia tudo da vez passada, compreende agora ainda.

— Compreendo somente que estás louco.

— E isto não o aborrece? Estamos aqui, creio, na intimidade, de que serve enganar-nos, representar uma comédia mutuamente? Ou então quer ainda lançar tudo sobre mim só, à minha cara? O senhor matou, é o senhor o principal assassino, não fui senão seu auxiliar, seu fiel instrumento, o senhor sugeriu, eu realizei.

— Realizou? Foste tu que mataste?

Sentiu como uma comoção no cérebro, um arrepio glacial percorreu-o todo. Por sua vez, Smierdiákov observava-o com espanto. O terror de Ivã impressionava-o afinal pela sua sinceridade.

— Não sabia, pois, de nada? — disse ele com desconfiança. Ivã continuava a olhá-lo, sua língua estava como que paralisada.

Para Piter partiu Vanka, Por ele não esperarei,

creu ele, de súbito, ouvir.

— Sabes, tenho medo de que sejas um fantasma — murmurou ele.

— Não há fantasma aqui, exceto nós dois, e ainda um terceiro. Sem dúvida, está aí, agora.

— Quem? Que terceiro? — proferiu Ivã cheio de medo, olhando em redor de si, como se procurasse alguém.

— É Deus, a Providência, que está aqui, perto de nós, mas é inútil procurá-lo, o senhor não o encontrará.

— Mentiste, não foste tu que mataste! — vociferou Ivã. — Estás louco, ou me exasperas à vontade, como da outra vez!

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Smierdiákov, nada amedrontado, observava-o atentamente. Não podia dominar sua desconfiança, parecia-lhe que Ivã sabia de tudo e simulava ignorância para rejeitar todas as culpas sobre ele só.

— Espere — disse ele afinal, com uma voz fraca e, retirando sua perna esquerda de sob a mesa, pôs-se a arregaçar sua calça. Smierdiákov usava meias brancas e chinelos. Sem pressa, tirou sua liga e meteu a mão em sua meia. Ivã Fiódorovitch, que o olhava, estremeceu, de súbito, de terror.

— Demente! — berrou ele. Levantou-se dum salto, recuou vivamente batendo com as costas na parede, onde ficou como que pregado, com os olhos fixos em Smierdiákov, cheio dum terror louco. Imper-turbável, continuava Smierdiákov a cascavilhar na meia, esforçando-se por pegar alguma coisa. Conseguiu-o por fim e Ivã viu-o retirar papéis ou um maço de papéis, que depositou em cima da mesa.

— Eis! — disse ele em voz baixa.

— O quê?

— Queira olhar.

Ivã aproximou-se da mesa, pegou o maço e começou a desfazê-lo, mas de repente retirou seus dedos como ao contato de um réptil repugnante, temível.

— Seus dedos tremem convulsivamente — notou Smierdiákov e ele mesmo, sem se apressar, desdobrou o papel. Sob o envelope, havia três pacotes de cédulas de 100 rublos.

— Está tudo aí, os 3 000, não precisa contar. Tome — disse designando as cédulas. Ivã tombou sobre sua cadeira. Estava branco como linho.

— Fizeste-me medo... com essa meia... — proferiu ele, com estranho sorriso.

— Então, deveras, não sabia ainda?

— Não, não sabia, acreditava que tivesse sido Dimítri. Ah! meu irmão! meu irmão! — Pegou a cabeça entre as mãos. — Escuta: tu mataste só, sem meu irmão?

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— Somente com o senhor, com o senhor só. Dimítri Fiódorovitch está inocente.

— Está bem... está bem... Falaremos de mim em seguida. Mas por que tremo dessa maneira?... Não posso articular as palavras.

— O senhor era atrevido então, "tudo é permitido", dizia o senhor, agora está com medo! — murmurou Smierdiákov estupefato. — Quer limonada? Vou pedir. Refresca. Mas seria preciso cobrir primeiro isto.

Designava o maço de cédulas. Fez um movimento para a porta, a fim de chamar Maria Kondrátievna e dizer-lhe para trazer limonada; procurando com que ocultar o dinheiro, tirou a princípio seu lenço, mas, como este estivesse sujo demais, pegou de cima da mesa o grosso volume amarelo que Ivã havia notado ao entrar, e cobriu com ele as cédulas.

Aquele livro tinha como título: Sermões de Nosso Santo Padre Isaac, o Sírio.

— Não quero limonada — disse Ivã. — Senta-te e fala: como o fizeste? Dize tudo...

— O senhor deveria tirar seu sobretudo, senão ficará alagado de suor.

Ivã tirou seu sobretudo que atirou sobre o banco, sem se levantar.

— Fala, rogo-te, fala!

Parecia calmo. Estava certo de que Smierdiákov diria tudo agora.

— Como se passaram as coisas? — Smierdiákov suspirou. — Da maneira mais natural, segundo suas próprias palavras...

— Voltaremos a falar de minhas palavras — interrompeu Ivã, mas sem se zangar desta vez, como se estivesse totalmente senhor de si. —

Conta somente, em detalhe e com ordem, como deste o golpe. Sobretudo não esqueças os detalhes, rogo-te.

— O senhor tinha partido, caí na adega...

— Era uma crise, ou então simulavas?

— Simulava, é claro. Desci tranqüilamente até embaixo, estendi-me, depois do que comecei a gritar. E debati-me, enquanto me transportavam.

— Um instante. Simulaste também mais tarde, no hospital?

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— Absolutamente. No dia seguinte de manhã, ainda em casa, fui dominado por uma crise verdadeira, a mais forte desde anos. Fiquei dois dias inconsciente.

— Bem, bem. Continua.

— Puseram-me sobre um divã, por trás do biombo; esperava por isso mesmo, porque, quando eu estava doente, Marfa Ignátievna me instalava sempre para passar a noite no quarto deles. Sempre foi boa para mim, desde que nasci. Durante a noite, eu gemia, mas mansamente.

Esperava sempre Dimítri Fiódorovitch.

— Onde o esperavas, em tua casa?

— Por que em minha casa? Esperava sua vinda à casa do pai. Estava certo de que ele viria naquela mesma noite, porque, privado de minhas informações, devia fatalmente introduzir-se por meio de escalada e empreender alguma coisa.

— E se ele não tivesse vindo?

— Então, nada teria acontecido. Sem ele, eu não teria agido.

— Bem, bem... fala sem te apressares, sobretudo não omitas nada.

— Contava que ele mataria Fiódor Pávlovitch... decerto, porque eu o tinha preparado bem para isso... nos últimos dias... e sobretudo, conhecia os sinais. Desconfiado e arrebatado como era, não podia deixar de penetrar na casa. Esperava por isso.

— Um instante. Se ele tivesse matado, teria também tirado o dinheiro; devias raciocinar assim. Que teria restado para ti? Não o vejo.

— Mas não teria jamais encontrado o dinheiro. Disse-lhe que o dinheiro estava debaixo do colchão. Mentia. Antes estava numa caixinha.

Em seguida, como Fiódor Pávlovitch só confiava em mim no mundo, sugeri-lhe esconder o dinheiro por trás dos ícones, porque ninguém teria a idéia de procurá-lo ali, sobretudo, num momento de pressa. Meu conselho havia agradado a Fiódor Pávlovitch. Teria sido ridículo guardar o dinheiro debaixo do colchão, numa caixinha fechada à chave. Mas todos acreditaram nessa caixinha. Raciocínio estúpido. Portanto, se Dimítri Fiódorovitch tivesse assassinado, teria fugido ao menor alerta, como todos os assassinos, ou então tê-lo-iam surpreendido e detido. Podia eu assim, 640

no dia seguinte, ou na mesma noite, ir furtar o dinheiro, sendo tudo imputado a Dimítri Fiódorovitch.

— Mas se ele tivesse apenas golpeado, sem matar?

— Neste caso, não teria eu certamente ousado tirar o dinheiro, mas contava que ele golpearia Fiódor Pávlovitch até fazê-lo perder os sentidos; então eu me apossaria da bolada e lhe teria explicado em seguida que fora Dimítri Fiódorovitch quem roubara.

— Espere... não estou entendendo mais. Foi então Dimítri quem matou? Tu somente roubaste?

— Não, não foi ele. Decerto, eu poderia dizer-lhe, ainda agora, que foi ele... mas não quero mentir, porque... porque mesmo se, como o vejo, o senhor nada compreendeu até o presente e não simula para lançar todas as culpas sobre mim, é, no entanto, culpado de tudo; com efeito, o senhor estava prevenido do assassinato, o senhor me encarregou da execução e partiu. De modo que quero demonstrar-lhe esta noite que o principal, o único assassino foi o senhor, e não eu, se bem que tenha matado.

Legalmente, é o senhor o assassino.

— Como assim? Por que sou eu o assassino? — não pôde Ivã Fiódorovitch impedir-se de perguntar, esquecendo sua decisão de deixar para o fim da conversa o que lhe dizia respeito pessoalmente. — É sempre a propósito de Tchermachniá. Pára! Dize-me por que era preciso o meu consentimento, uma vez que havias tomado minha partida como um consentimento? Como me explicarás tu isso?

— Seguro de seu consentimento, sabia que, quando o senhor voltasse, não faria histórias com a perda desses 3 000 rublos, se por acaso a justiça suspeitasse de mim em lugar de Dimítri Fiódorovitch ou de cumplicidade com ele; pelo contrário, o senhor teria tomado minha defesa... Tendo herdado, graças a mim, poderia o senhor em seguida recompensar-me para o resto da vida, porque, se seu pai tivesse casado com Agrafiena Alieksándrovna, o senhor nada viria a receber.

— Ah! tinhas então a intenção de atormentar-me toda a vida! — disse Ivã de dentes cerrados. — E se eu não tivesse partido e te tivesse denunciado?

— Que poderia o senhor dizer? Que eu o aconselhara a partir para 641

Tchermachniá? Bobagens, tudo isso. Aliás, se o senhor tivesse ficado, nada teria acontecido, teria eu compreendido que o senhor não queria e manter-me-ia tranqüilo. Mas sua partida assegurava-me que o senhor não me denunciaria e fecharia os olhos a respeito desses 3 000 rublos. Não teria podido perseguir-me em seguida, porque teria eu contado tudo à justiça, não o roubo ou o assassinato, isto não o teria eu dito, mas que o senhor me havia impelido e que eu não consentira. Desta maneira, não poderia o senhor confundir-me, por falta de provas, e eu teria revelado com que ardor o senhor desejava a morte de seu pai, e todo mundo tê-lo-ia crido, dou-lhe minha palavra.

— Desejava eu tão intensamente a morte de meu pai?

— Decerto, e seu silêncio me autorizava a agir.

Smierdiákov estava muito enfraquecido e falava com lassidão, mas uma força interior galvanizava-o, tinha algum desígnio oculto, Ivã o pressentia.

— Continua tua narrativa.

— Continuemos! Estou deitado e ouço um grito do bárin. Gregório saíra um pouco antes. De repente, põe-se ele a gritar, depois tudo volta a silenciar. Espero, imóvel, meu coração bate, não podia agüentar mais.

Levanto-me, saio; à esquerda, a janela de Fiódor Pávlovitch estava aberta, avancei para escutar se dava ele sinal de vida, ouço o bárin agitar-se e suspirar. "Está vivo", penso. Aproximo-me da janela e grito ao bárin: "Sou eu". E ele me diz: "Veio, veio e fugiu". (Referia-se a Dimítri Fiódorovitch. )

"Matou Gregório!" "Donde?", pergunto-lhe em voz baixa. "Lá embaixo, no canto", e mostra-me. "Espere!", digo. Pus-me à sua procura e tropecei, perto do muro, em Gregório, que jazia desmaiado e todo ensangüentado.

"É então verdade que Dimítri Fiódorovitch veio", pensei, e resolvi levar a coisa a cabo. Mesmo que Gregório estivesse vivo ainda, nada veria, uma vez que estava sem sentidos. O único risco era Marfa Ignátievna levantar-se. Senti-o naquele momento, mas um frenesi apoderara-se de mim, a ponto de fazer-me perder a respiração. Voltei à janela do bárin: "Ela está aqui, Agrafiena Alieksándrovna veio, quer entrar". Ele estremeceu. "Onde, aqui, onde?" Susnira. ainda sem acreditar. "Ora, aqui, abra pois!" Olha-me pela janela, indeciso, temendo abrir; "tem medo de mim", pensei. É

engraçado; de repente, imaginei fazer sobre a vidraça o sinal da chegada 642

de Grúchenhka, diante dele, sob seus olhos; não acreditava ele nas palavras, mas, logo que eu bati, correu a abrir a porta. Eu queria entrar, ele barra-me a passagem. "Onde está ela, onde está ela?" Olha-me e palpita.

"Ah! pensei, se tem tal medo de mim, isto vai mal!" E minhas pernas bambeavam, tremia ao pensar que ele não me deixasse entrar, ou que chamasse, ou que Marfa Ignátievna chegasse. Não me lembro, mas devia estar muito pálido. Cochichei: "Ela está lá embaixo, sob a janela, como foi que não a viu?" "Traze-a, traze-a!" "Ela está com medo, os gritos amedrontaram-na, escondeu-se numa moita; chame-a o senhor mesmo do gabinete. " Correu para ali, pousou a vela sobre a janela: "Grúchenhka, Grúchenhka! estás aí?", gritava ele. Não queria debruçar-se, nem afastar-se de mim, não ousava, por causa do medo que eu lhe inspirava. "Ei-la", digo-lhe, "ei-la lá na moita, sorri para o senhor, está vendo?" Acreditou em mim de repente e se pôs a tremer, tão louco estava por aquela mulher; debruçou-se inteiramente. Agarrei então o pesa-papéis de ferro fundido, que estava em cima da mesa, o senhor se lembra?, pesa bem umas 3 libras, e assestei-lhe com todas as minhas forças uma pancada na cabeça, com o canto. Não lançou um grito, tombou. Dei-lhe mais dois golpes e senti que estava ele com o crânio partido. Tombou de costas, todo coberto de sangue. Examinei-me: nem um respingo; enxuguei o pesa-papéis, repu-lo em seu lugar, depois tirei o envelope de trás dos ícones, retirando dele o dinheiro e atirando-o ao chão com a fita côr-de-rosa. Fui ao jardim todo a tremer, diretamente àquela macieira ôca, que o senhor conhece. Tinha-a notado e pus de reserva papel e um trapo; enrolei a soma neles e meti-a no fundo do ôco. Ficou lá quinze dias, até minha saída do hospital. Voltei a deitar-me, pensando com terror: "Se Gregório estiver morto, poderá isto ir muito mal; mas, se voltar a si, estará tudo muito bem, porque Dimítri Fiódorovitch veio e, por conseqüência, matou e roubou". Na minha impaciência, pus-me a gemer para despertar Marfa Ignátievna. Esta se levantou por fim, chegou até junto de mim, depois, notando a ausência de Gregório, correu para o jardim, onde eu a ouvi gritar. Já estava eu tranqüilizado.

Smierdiákov parou. Ivã havia-o escutado num silêncio de morte, sem se mover, sem desfitar dele os olhos. Smierdiákov lançava-lhe por vezes uma olhadela, mas olhava sobretudo de lado. Terminada sua narrativa, pareceu emocionado, respirando com dificuldade, o rosto coberto de suor. Não se podia adivinhar se ele sentia remorsos.

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— Um instante — retomou Ivã, refletindo. — E a porta? Se ele só abriu a ti, como pôde Gregório tê-la visto aberta antes? Por que a viu ele bem em primeiro lugar? — Ivã interrogava com o tom mais calmo, nada irritado, de sorte que se alguém os tivesse observado naquele momento, do limiar, teria concluído que eles se entretinham pacificamente a respeito dum assunto qualquer.

— Quanto àquela porta que Gregório pretende ter visto aberta, não passa de um efeito de sua imaginação — disse Smierdiákov, com um sorriso. — Porque é um homem muito teimoso, terá acreditado ver e o senhor não conseguirá demovê-lo disso. É uma felicidade para nós que tenha ele formado uma idéia errônea; o depoimento dele acaba de confundir Dimítri Fiódorovitch.

— Escuta — disse Ivã, parecendo de novo atrapalhar-se —, escuta...

Tinha ainda muitas coisas a perguntar-te, mas esquecia-as... Ah! sim, dize-me somente, por que abriste e lançaste ao chão o envelope? Por que não ter saído com tudo?... De acordo com tua narrativa, pareceu-me que o tinhas feito de propósito, mas não lhe posso compreender a razão...

— Não agi sem motivos. Um homem inteirado de tudo, como eu, por exemplo, que talvez pôs o dinheiro no envelope, viu quando o lacravam e escreviam o endereço, por que tal homem, se cometeu o crime, haveria de deslacrar logo o envelope, com tal precipitação e estando seguro do conteúdo? Pelo contrário, metê-lo-ia simplesmente em seu bolso e se esquivaria. Dimítri Fiódorovitch teria agido de outro modo; não conhece o envelope senão por ouvir dizer e apressar-se-á em deslacrá-lo, assim que o encontrar, para verificar o conteúdo, depois atirá-lo-á no chão, sem refletir que ele constituirá uma peça acusadora, porque é um ladrão novato, jamais operou abertamente e é nobre de nascimento. Não teria vindo precisamente roubar, mas retomar seus bens, como o havia previamente declarado diante de todo mundo, vangloriando-se de ir à casa de Fiódor Pávlovitch para fazer justiça com suas próprias mãos. Por ocasião de meu depoimento, sugeri esta idéia ao procurador, mas sob forma de alusão, e de tal sorte que ele acreditou ter sido ele próprio quem a encontrou; estava encantado...

— Refletiste verdadeiramente em tudo isso no local e naquele momento? — exclamou Ivã Fiódorovitch estupefato. Observava de novo Smierdiákov, cheio de espanto.

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— Por favor, pode-se pensar em tudo numa tal pressa? Tudo isso estava combinado de antemão.

— Pois bem!... Pois bem! Foi o próprio diabo que te emprestou seu concurso! Não és bobo, és muito mais inteligente do que eu pensava...

Levantou-se para dar alguns passos pelo quarto, mas, como mal se podia passar entre a mesa e a parede, deu meia volta e tornou a sentar-se.

Foi o que talvez o exasperou; pôs-se de novo a vociferar.

— Escuta, miserável, vil criatura! Não compreendes então que se ainda não te matei, é porque te guardo para responder amanhã perante a justiça? Deus o vê (levantou a mão), talvez tenha eu sido culpado, talvez tenha desejado secretamente... a morte de meu pai, mas, juro-to, não te impeli absolutamente, não, não! Não importa, denunciar-te-ei eu mesmo amanhã, está decidido! Direi tudo, mas compareceremos juntos! E digas ou testemunhes o que quiseres a meu respeito, eu o aceito e não te temo; confirmarei tudo eu mesmo! Mas tu também, será preciso que confesses! É

preciso, é preciso, iremos juntos! Será assim!

Ivã exprimia-se com energia e solenidade: somente pelo seu olhar se via que manteria sua palavra.

— O senhor está doente, vejo, bem doente. Tem os olhos completamente amarelos — disse Smierdiákov, mas sem ironia e até mesmo com compaixão.

— Iremos juntos! — repetiu Ivã. — E se não vieres, confessarei tudo sozinho.

Smierdiákov pareceu refletir.

— Isto não se dará, o senhor não irá — disse ele, num tom categórico.

— Tu não me compreendes!

— O senhor terá demasiada vergonha de confessar tudo, aliás isso não serviria de nada, porque negarei ter falado tais coisas com o senhor, direi que o senhor está doente (vê-se bem) ou que se sacrifica por compaixão por seu irmão e me acusa porque jamais vali nada a seus olhos.

E quem lhe dará crédito? que prova tem o senhor?

— Escuta, tu me mostraste esse dinheiro para convencer-me.

Smierdiákov retirou o volume, descobrindo o maço.

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— Tome este dinheiro — disse ele suspirando.

— Decerto que o tomo! Mas por que mo dás, uma vez que mataste para obtê-lo? — E Ivã observou-o com estupefação.

— Não tenho mais necessidade dele — disse Smierdiákov, com voz trêmula. — Pensava a princípio, com este dinheiro, estabelecer-me em Moscou, ou mesmo no estrangeiro, era meu sonho, pois que tudo é permitido. Foi o senhor quem, com efeito, me ensinou isso e muitas vezes explicou-o: se Deus não existe, não há virtude e ela é inútil. Raciocinei assim.

— Chegaste a isso sozinho? — perguntou Ivã, com um sorriso constrangido.

— Sob a influência do senhor.

— Então tu crês em Deus, agora, pois que entregas o dinheiro?

— Não, não creio nele — murmurou Smierdiákov.

— Por que então o entregas?

— Deixe isso! — cortou Smierdiákov num gesto de lassidão. — O senhor mesmo repetia então que tudo é permitido. Por que está tão inquieto agora? Quer mesmo denunciar-se? Mas não há perigo! O senhor não irá! — afirmou ele, categórico.

— Haverás de ver!

— É impossível. O senhor é demasiado inteligente. Ama o dinheiro, eu o sei, as honras também, porque o senhor é muito orgulhoso, é doido pelo belo sexo, ama acima de tudo viver à sua vontade e independente.

Não haverá de querer estragar toda a sua vida, atraindo sobre si tal ignomínia. De todos os filhos de Fiódor Pávlovitch é o senhor aquele que mais se lhe assemelha, é a mesma alma.

— Não és na verdade bobo — disse Ivã, com estupor; o sangue subiu-lhe ao rosto. — Pensava que eras um tolo.

— Era por orgulho que o senhor o acreditava. Tome, pois, o dinheiro.

Ivã pegou o maço de cédulas e meteu-o no seu bolso, sem embrulhá-lo.

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— Mostrá-las-ei amanha no tribunal — disse ele.

— Ninguém lhe dará crédito. Não é o dinheiro que lhe falta no momento, o senhor põe no seu cofrezinho esses 3 000 rublos.

Ivã levantou-se.

— Repito-te que não te matei unicamente porque tenho necessidade de ti amanhã, não o esqueças!

— Pois bem! Mate-me, mate-me agora — disse Smierdiákov, com um ar estranho. — O senhor nem mesmo o ousa — acrescentou com um sorriso amargo —, o senhor não ousa mais nada, o senhor, tão ousado outrora!

— Até amanhã!... — E Ivã marchou para a porta.

— Espere... mostre-mas ainda uma vez.

Ivã tirou as cédulas, mostrou-lhas; Smierdiákov mirou-as uma dezena de vezes.

— Pois bem! vá... Ivã Fiódorovitch! — gritou ele, de repente.

— Que queres? — Ivã, que ia saindo, voltou-se.

— Adeus.

— Até amanhã.

Ivã saiu. A tormenta continuava. Marchou a princípio com passos seguros, mas se pôs dentro em pouco a combalear. "É algo físico", pensava, sorrindo. Uma espécie de alegria invadia-o. Sentia em si uma firmeza inabalável; as hesitações dolorosas daqueles últimos tempos tinham desaparecido. Sua decisão estava tomada e "já não voltaria atrás", dizia a si mesmo, cheio de felicidade. Naquele momento, tropeçou, esteve a ponto de cair. Parando, distinguiu a seus pés o mujique que ele havia derrubado, jacente no mesmo lugar, inerte. A neve quase lhe recobria o rosto. Ivã ergueu-o e carregou-o em seus ombros. Tendo avistado luz em uma casinhola, foi bater nos postigos e pediu ao proprietário que o ajudasse a transportar o mujique para uma casa particular, prometendo-lhe 3 rublos.

Não contarei pormenorizadamente como Ivã Fiódorovitch conseguiu ser bem sucedido em sua empresa e mandou examinar o mujique por um médico, pagando generosamente as despesas. Digamos somente que isso 647

exigiu quase uma hora. Mas Ivã ficou satisfeito. Suas idéias dispersavam-se: "Se não tivesse eu tomado uma resolução tão firme para amanhã", pensou ele de súbito, deliciado, "não teria ficado uma hora a ocupar-me com aquele mujique, teria passado de lado sem me inquietar... Mas como tenho a força de observar-me? E eles, que decidiram que me estou tornando louco!" Ao chegar diante da porta de sua casa, parou para perguntar a si mesmo: "Não faria eu melhor indo desde agora à casa do procurador e contar tudo?... Não, amanhã, tudo duma vez!" Coisa estranha, quase toda a sua alegria desapareceu no mesmo instante.

Quando entrou no seu quarto, uma sensação glacial constringiu-o, como a lembrança, ou antes, a evocação de não sei que de penoso ou repugnante, que se encontrava naquele momento naquele quarto e que lá já estivera.

Deixou-se cair sobre o divã. A velha criada trouxe-lhe o samovar, ele fez chá, mas não o bebeu; mandou a criada embora até o dia seguinte. Sentia-se tonto, cansado, indisposto. Foi adormecendo, mas pôs-se a andar para afugentar o sono. Parecia-lhe que delirava. Depois de se ter tornado a sentar, pôs-se a olhar, de tempos em tempos, em redor de si, como para examinar alguma coisa. Por fim seu olhar se fixou em um ponto. Sorriu, mas o rubor da cólera subiu-lhe ao rosto. Por muito tempo ficou imóvel, com a cabeça entre as mãos, fixando sempre o mesmo ponto, sobre o divã colocado contra a parede em frente. Visivelmente, alguma coisa naquele lugar o irritava, o inquietava.

IX

O DIABO. A ALUCINAÇÃO DE IVÃ FIÓDOROVITCH

Não sou médico e, no entanto, sinto que chegou o momento de fornecer algumas explicações sobre a doença de Ivã Fiódorovitch.

Digamos imediatamente que estava na iminência de uma febre nervosa, tendo a doença acabado por triunfar de seu organismo enfraquecido. Sem conhecer a medicina, arrisco esta hipótese de que tinha ele talvez conseguido, por um esforço de vontade, conjurar a crise, esperando, bem entendido, a ela escapar. Sabia-se doente, mas não queria abandonar-se à doença naqueles dias decisivos em que devia mostrar-se, falar ousadamente, justificar-se a seus próprios olhos. Tinha ido ver o médico vindo de Moscou a chamado de Catarina Ivânovna. Depois de havê-lo 648