Os Irmãos Karamázov
Capítulo 38
— Impeliram-me a isso, confesso-o, mas recusei. Isto, bem entendido, aqui entre nós, Karamázov, nem uma palavra a ninguém, entendeu?
Só ao senhor é que conto. Não tenho vontade nenhuma de cair entre as 564
patas da Terceira Seção e aprender lições na Ponte das Correntes.
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Lembra-se? É magnífico! Por que ri? Acha que lhe contei pilhérias?
("E se ele souber que só possuo aquele único número de O Sino** e que nada li além disso?", pensou Kólia, estremecendo. )
— Oh! não, não estou rindo e não penso absolutamente que você me mentiu. Eis por que não o penso: porque é, ai! a pura verdade! Diga-me, leu o Oniéguin, de Púchkin? Você falava de Tatiana...
— Não, ainda não, mas quero lê-lo. Não tenho preconceitos, Karamázov. Quero ouvir ambas as partes. Por que essa pergunta?
— Por coisa nenhuma.
— Diga, Karamázov, o senhor me despreza? — cortou Kólia, que se ergueu diante de Aliócha, como para se pôr em posição. — Por favor, fale francamente.
— Eu o desprezo? — Aliócha olhou-o com espanto. — Por que, afinal? Deploro somente que uma natureza encantadora como a sua, na aurora da vida, já esteja pervertida por tais absurdos.
— Não se inquiete pela minha natureza — interrompeu Kólia, não sem fatuidade —, mas quanto a suspeitoso, eu o sou. Tola e grosseiramente suspeitoso. O senhor sorriu ainda há pouco, e pareceu-me...
— Ah! sorri por uma razão bem diversa. Fique sabendo: li recentemente a opinião de um estrangeiro, um alemão que vivia na Rússia, a respeito da juventude estudantil de hoje: "Se mostrardes a um estudante russo", escreveu ele, "uma carta do firmamento, a respeito da qual não tinha ele até então nenhuma idéia, ele vo-la devolverá no dia Terceira Seção era a polícia secreta, cuja sede ficava perto da Ponte das Correntes.
Kolokol, em russo. Famosa revista fundada por Herzen, literato russo, contemporâneo de Dostoiévski, e partícipe do movimento revolucionário da época.
Era publicada em Londres e introduzida clandestinamente na Rússia. seguinte com correções". Conhecimentos nulos e uma presunção sem limites, eis o que queria dizer o alemão a respeito do estudante russo.
38 Perto da Ponte das Correntes Do edifício te recordarás.
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— Ah! é totalmente verdadeiro! — disse Kólia, numa explosão de riso. — É a própria verdade! Bravo, alemão! No entanto, aquele cabeça quadrada não encarou também o lado bom, que- pensa o senhor? A presunção, seja, isto vem da juventude, isto se corrige, se verdadeiramente deve ser corrigido; em compensação, há o espírito de independência desde os mais jovens anos, a audácia das idéias e das convicções, em lugar de seu servilismo rastejante diante da autoridade. No entanto, o alemão disse a verdade! Viva o alemão! Entretanto, é preciso sufocar os alemães.
Muito embora sejam fortes nas ciências, é preciso sufocá-los...
— Por que isso? — sorriu Aliócha.
— Ora essa! É pilhéria minha, possivelmente, convenho. Sou por vezes um capeta e, quando alguma coisa me agrada, não me contenho e sou capaz de proferir absurdos. A propósito, estamos aqui prosando e aquele doutor não acaba. Aliás, pode dar-se que esteja examinando a mamãe e a Nínotchka, a doente. Sabe duma coisa? Essa Nínotchka me agradou.
Quando eu ia saindo, sussurrou-me ela: "Por que não veio antes?", num tom de censura. Creio que ela é muito boa e digna de lástima.
— Sim, sim, você voltará e verá que criatura é ela. Precisa conhecer tais criaturas para saber apreciar muitas outras coisas que aprenderá precisamente em companhia delas — observou Aliócha com ardor. — É o melhor meio para você se transformar.
— Oh! quanto lamento e me censuro por não ter vindo antes! —
disse Kólia com amargura.
— Sim, é muito de lamentar. Viu a alegria do pobrezinho? E como se consumia ele à sua espera!
— Não me fale disso! Aviva meu pesar. Aliás, bem o mereci. Se não vim, foi por amor-próprio egoísta e por vil despotismo, do qual jamais pude desembaraçar-me, malgrado todos os meus esforços. Vejo-o agora, por muitas coisas sou um miserável, Karamázov!
— Não, você tem uma natureza encantadora, se bem que falsificada, e compreendo por que podia exercer tamanha influência sobre aquele menino nobre duma sensibilidade doentia! — respondeu calorosamente Aliócha.
— E é o senhor quem me diz isso? — exclamou Kólia. — Imagine 566
que pensei várias vezes, estando aqui, que o senhor me desprezava. Se soubesse como faço questão de sua opinião!
— Mas pode ser mesmo verdade que seja você tão desconfiado?
Nessa idade! Pois bem, imagine que ainda há pouco, ao olhá-lo, quando você contava, pensava justamente que você deveria ser muito desconfiado.
— Já o pensou? Que golpe de vista tem o senhor, vejam só! Aposto que foi quando falava eu do pato. Imaginei então que o senhor me desprezava profundamente, porque eu me esforçava por bancar o malicioso.
Detestei-o de repente por essa razão e comecei a perorar. Em seguida, pareceu-me (já aqui), quando eu disse: "Se Deus não existisse, era preciso inventá-lo", que me apressara por demais em exibir minha instrução, tanto mais quanto lera essa frase em alguma parte. Mas juro-lhe que não era por vaidade, mas à toa, ignoro por que, na minha alegria, verdadeiramente creio que foi na minha alegria... muito embora seja vergonhoso aborrecer as pessoas pelo fato de se estar alegre. Sei disso. Em compensação, estou persuadido agora de que o senhor não me despreza e que sonhei tudo isso.
Oh! Karamázov, sou profundamente infeliz. Imagino por vezes, Deus sabe por que, que toda gente zomba de mim e estou pronto então a subverter a ordem estabelecida.
— E atormenta o seu meio — sorriu Aliócha.
— É verdade, sobretudo minha mãe. Karamázov, diga, mostro-me agora muito ridículo?
— Não pense nisso, não pense absolutamente! — exclamou Aliócha. — E que é o ridículo? Sabe-se quantas vezes um homem é ou parece ridículo? Além do mais, atualmente, quase todas as pessoas que têm capacidade temem extremamente o ridículo, o que as torna infelizes.
Admiro-me somente de que experimente você isso a tal ponto, se bem que o observe desde muito tempo e não unicamente em sua casa. Atualmente, adolescentes estão atingidos por esse mal. É quase uma loucura. O diabo encarnou-se no amor-próprio, para apoderar-se da geração atual, sim, o diabo — insistiu Aliócha sem sorrir, como pensava Kólia, que o fixava. —
Você é como todos — concluiu ele —, isto é, como muitos, somente não se deve ser como todos.
— Ainda mesmo que todos sejam assim?
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— Sim, ainda mesmo que todos sejam assim. Apenas você não será como eles. Na realidade, você não é como todos; não corou em confessar um defeito e até mesmo um ridículo. Ora, atualmente quem é capaz disso?
Ninguém, não se sente mesmo mais a necessidade de condenar-se a si mesmo. Não seja como todos, ainda que ficasse sozinho.
— Muito bem! Não me enganei a seu respeito. O senhor é capaz de consolar. Oh! quanto me senti atraído para o senhor, Karamázov! Desde muito tempo aspirava por este encontro. Dar-se-ia que também pensasse assim a meu respeito? Ainda há pouco o disse.
— Sim, ouvi falar de você e pensava também em você... e se em parte é o amor-próprio que o fez agora perguntar isso, isso nada quer dizer.
— Sabe, Karamázov, que nossa explicação se assemelha a uma declaração de amor? — declarou Kólia com uma voz fraca e como que envergonhada. — Não é ridículo?
— Absolutamente, e mesmo se fosse ridículo não quereria dizer na-da, porque está bem — afirmou Aliócha, com um claro sorriso.
— Convenha, Karamázov, que o senhor mesmo, agora, tem um pouco de vergonha também... Vejo-o nos seus olhos — e Kólia sorriu com um ar astuto, mas quase feliz.
— Que há de vergonhoso?
— Por que corou?
— Mas foi você que me fez corar! — disse, rindo, Aliócha, que ficara, com efeito, todo vermelho. — Pois bem, sim, tenho um pouco de vergonha, Deus sabe por que, ignoro-o... — murmurou ele, quase constrangido.
— Oh! como gosto do senhor e como o aprecio neste momento, justamente, porque o senhor também tem vergonha comigo! Porque é como eu! — exclamou Kólia, entusiasmado. Tinha as faces vermelhas, seus olhos brilhavam.
— Escute, Kólia, você será muito infeliz na vida — disse de repente Aliócha.
— Sei, sei. Como o senhor adivinha tudo! — confirmou logo Kólia.
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— Mas, no conjunto, abençoará, no entanto, a vida.
— É isto! Viva! O senhor é um profeta! Nós nos entenderemos, Karamázov. Sabe? O que mais me encanta é que o senhor me tratava completamente como a um igual. Ora, nós não somos iguais, o senhor é superior! Mas nos entenderemos. Dizia a mim mesmo há um mês: "Ou seremos imediatamente amigos para sempre, ou nos separaremos como inimigos até a morte!"
— E, ao falar assim, você já gostava de mim, decerto! — E Aliócha soltou uma risada alegre.
— Eu gostava enormemente do senhor, gostava do senhor e pensava no senhor! E como pode o senhor tudo adivinhar? Ora, eis o doutor. Meu Deus, diz alguma coisa, olhe que cara ele tem!
VII
ILIÚCHA
O doutor saía da isbá metido na sua peliça e com seu gorro na cabeça. Tinha o ar quase irritado e cheio de asco, como se receasse sujar-se.
Percorreu com os olhos o vestíbulo, lançando um olhar severo a Aliócha e a Kólia. Aliócha fez sinal ao cocheiro e o carro que havia trazido o doutor avançou para a porta. O capitão saiu precipitadamente atrás dele e, inclinado, desculpando-se quase, deteve-o para uma derradeira palavra. O
rosto do pobre homem estava abatido, seu olhar apavorado.
— Excelência, excelência... será possível? — começou ele, sem terminar, limitando-se a juntar as mãos em seu desespero, se bem que seu olhar implorasse ainda o médico, como se verdadeiramente uma palavra deste pudesse mudar a sorte do pobre menino.
— Que fazer? Não sou Deus — respondeu o doutor num tom displicente, se bem que grave por hábito.
— Doutor... Vossa Excelência... e será em breve, em breve?
— Pre-pa-rem-se para tudo — respondeu o doutor, martelando as palavras e, baixando os olhos, dispunha-se a transpor a soleira para subir no carro.
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— Excelência, em nome de Cristo! — O capitão apavorado deteve-o uma segunda vez. — Excelência... será que na verdade não há nada, nada que possa salvá-lo, agora?
— Isto não de-pen-de de mim, agora — declarou o médico, impaciente —, e, no entanto, hum! — parou de repente — sim, por exemplo, o senhor poderia... en-viar... seu paciente... imediatamente e sem tardar (o doutor pronunciou estas derradeiras palavras quase com cólera, a ponto de fazer o capitão estremecer) a Si-ra-cu-sa, então... em conseqüência das novas condições cli-ma-té-ri-cas fa-vo-rá-veis... poderia, talvez, pro-du-zir-se...
— A Siracusa? — exclamou o capitão, como se não compreendesse ainda.
— Siracusa é na Sicília — explicou Kólia, em voz alta. O doutor olhou para ele.
— Na Sicília? Excelência — disse o capitão transtornado —, o senhor viu! — Juntou as mãos, mostrando o interior de sua casa. — E a mamãe, a família?
— N-ão, sua família não iria à Sicília, mas ao Cáucaso, desde a primavera... e depois que sua esposa tivesse tomado as águas no Cáucaso em vista de seus reumatismos... seria preciso enviá-la imediatamente a Paris, à clínica do a-li-e-nista Le-pel-le-tier. Poderia dar-lhe uma apresentação; e então... poderia talvez produzir-se...
— Doutor, doutor! O senhor está vendo! — E o capitão estendeu de novo os braços, mostrando, no seu desespero, as traves nuas que formavam a parede do vestíbulo.
— Mas isto não é de minha alçada — sorriu o médico. — Disse-lhe simplesmente o que poderia responder a ciência à sua pergunta a respeito dos derradeiros meios, o resto... a meu pesar...
— Não tenha medo, curandeiro, meu cachorro não o morderá —
disse bem alto Kólia, notando que o doutor olhava com alguma inquietação para Carrilhão, que se mantinha na soleira. Um tom colérico ressoava em sua voz. Como o declarou mais tarde, foi de propósito e para insultar o doutor que o chamara de curandeiro.
— Que é? — disse o doutor, fitando Kólia com surpresa. — Quem 570
é? — e dirigiu-se a Aliócha, como para lhe pedir contas.
— É o dono de Carrilhão, curandeiro, não se inquiete a respeito de minha pessoa.
— Carrilhão? — repetiu o doutor, que não tinha compreendido.
— Adeus, curandeiro, tornaremos a ver-nos em Siracusa.
— Quem é, quem é ele? — perguntou o doutor, exasperado.
— É um colegial, doutor, um- brincalhão, não lhe dê atenção —
declarou, rapidamente, Aliócha, franzindo o cenho. — Kólia, cale-se! Não dê atenção — repetiu ele, com alguma impaciência.
— É preciso dar-lhe uma surra, dar-lhe uma surra — disse o doutor furioso, batendo com os pés.
— Sabe, curandeiro, que Carrilhão poderia muito bem morder? —
proferiu Kólia, com voz trêmula e muito pálido, de olhos chamejantes. —
Aqui, Carrilhão!
— Kólia, se você disser ainda uma palavra, romperei com você para sempre! — gritou impetuosamente Aliócha.
— Curandeiro, só há uma criatura no mundo que possa dar ordens a Nikolai Krasótkin, ei-la (designou Aliócha). Submeto-me, adeus.
Abriu a porta e entrou no quarto. Carrilhão lançou-se atrás dele. O
doutor ficou cinco segundos como que petrificado, olhou Aliócha e cuspiu, gritando: "É, é, não sei o quê!" O capitão precipitou-se para ajudá-lo.
Aliócha entrou por sua vez. Kólia já estava à cabeceira de Iliúcha. O
doente segurava-lhe a mão e chamava seu pai. O capitão voltou logo.
— Papai, papai, venha cá... nós... — murmurou Iliúcha superexcitado, mas, não tendo força para continuar, estendeu para a frente seus braços emagrecidos, passou-os em torno de Kólia e de seu pai, que reuniu no mesmo abraço, apertando-se contra eles. O capitão foi sacudido por soluços silenciosos e Kólia estava a ponto de chorar.
— Papai, papai! Quanto dó o senhor me causa, papai! — gemeu Iliúcha.
— Iliúcha... meu querido... o doutor disse... que tu ficarás curado...
seremos felizes...
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— Ah! papai! Sei bem o que o novo doutor lhe disse a meu respeito...
Vi! — exclamou Iliúcha.
Apertou-os de novo com todas as suas forças contra si, ocultando seu rosto no ombro de seu pai.
— Papai! não chore... quando eu morrer, tome um bom menino, outro... escolha o melhor dentre eles, chame-o de Iliúcha e ame-o em lugar de mim...
— Cala-te, meu velho, ficarás bom! — gritou Krasótkin, como que zangado.
— Quanto a mim, papai, não se esqueça nunca de mim — continuou Iliúcha. — Venha a meu túmulo... o senhor sabe, papai, enterre-me junto de nossa grande pedra, lá aonde nós íamos passear, e vá lá com Krasótkin, de tardinha. E Carrilhão... E eu os esperarei... Papai, papai!
Sua voz estrangulou-se, os três mantiveram-se enlaçados, sem falar.