Os Irmãos Karamázov

Fiódor Dostoiévski · Capítulo 38 de 50

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Os Irmãos Karamázov

Capítulo 39

Nínotchka chorava mansamente em sua cadeira, e de repente, vendo todos a chorar, a mamãe desatou em lágrimas.

— Iliúcha! Iliúcha! — exclamava ela. Krasótkin desvencilhou-se dos braços de Iliúcha.

— Adeus, meu velho, minha mãe me espera para almoçar — disse ele rapidamente. — Que pena não a haver eu prevenido! Ficará muito inquieta. Mas depois do almoço voltarei para teu lado, até a noite, e terei muita coisa para contar-te. E trarei Carrilhão, agora vou levá-lo, porque ele se poria a uivar na minha ausência e te incomodaria. Até logo!

Correu para o vestíbulo. Não queria chorar, mas não pôde impedir-se disso. Foi nesse estado que o encontrou Aliócha.

— Kólia, deve manter absolutamente sua palavra e voltar, senão experimentará ele violento pesar — disse, com insistência.

— Absolutamente! Oh! quanto me censuro por não ter vindo mais cedo! — murmurou Kólia, chorando francamente.

Naquele momento o capitão surgiu e tornou a fechar logo a porta atrás de si. Tinha o ar desvairado, seus lábios tremiam. Parou diante dos dois jovens e ergueu os braços para o ar.

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— Não quero um bom menino! Não quero outro! — murmurou ele, selvagem, rangindo os dentes, "se me esquecer de ti, Jerusalém, fique pegada minha língua... "

Não terminou, como se lhe faltasse a voz, e deixou-se cair diante de um banco de -madeira. Com a cabeça apertada entre os punhos, pôs-se a soluçar, gemendo, mas baixinho, para que seus gemidos não fossem ouvidos na isbá. Kólia precipitou-se para a rua.

— Adeus, Karamázov, virá também? — perguntou com um ar brusco, zangado, a Aliócha.

— Esta tarde, sem falta.

— Que disse ele a respeito de Jerusalém?... Que era aquilo?

— Tirado da Bíblia: "Se me esquecer de ti, Jerusalém", 39 isto é, se eu esquecer o que tenho de mais precioso, se o trocar por outro amor, então que seja fulminado...

— Compreendo, basta! Venha também! Aqui, Carrilhão! — gritou ele, com raiva, ao cachorro, e afastou-se a grandes passadas.

LIVRO XI

IVA FIÓDOROVITCH

I

EM CASA DE GRÚCHENHKA

Aliócha dirigia-se à praça da igreja, à Casa Morózova, onde residia Grúchenhka. Naquela mesma manhã, havia-lhe ela enviado Fiénia, rogando-lhe insistentemente que fosse à sua casa. Indagando dela, soube Aliócha que sua patroa se achava desde a véspera numa grande agitação.

Durante os dois meses que se haviam seguido à prisão de seu irmão, fora ele muitas vezes à Casa Morózova, espontaneamente ou da parte de Mítia.

Três dias após, caíra Grúchenhka gravemente doente; mantivera-se de 39 Salmos, C. CXXXVI, vs. 5 e 6.

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cama quase cinco semanas, ficando oito dias sem conhecimento. Mudara muito e emagrecera, com a tez amarelecida, embora pudesse sair havia já umas duas semanas. Mas aos olhos de Aliócha o rosto dela tornara-se mais sedutor e gostava ele, ao se aproximar dela, de encontrar-lhe o olhar.

Seus olhos tinham tomado algo de resoluto e de reflexivo; uma decisão calma, mas inflexível, manifestava-se nela. Entre os supercílios cavara-se uma pequena ruga vertical que dava a seu gracioso rosto uma expressão concentrada, quase severa ao primeiro contato. Nenhum traço da frivolidade de outrora. Admirava-se Aliócha de que Grúchenhka tivesse conservado sua alegria de outrora, malgrado a desgraça que a ferira —

noiva de um homem detido quase logo depois por um crime horrível —, apesar da doença e da ameaça de uma condenação quase certa. Nos seus olhos outrora altivos uma espécie de doçura brilhava agora, mas mostravam por vezes um clarão de maldade, quando a retomava uma antiga inquietação que, longe de se acalmar, aumentava em seu coração.

Era a respeito de Catarina Ivânonva, de quem falava mesmo em seu delírio, durante sua doença. Aliócha compreendia que ela estava com ciúme por causa de Mítia, muito embora Catarina não o tivesse visitado uma vez sequer na prisão, como teria podido fazê-lo. Tudo isso embaraçava Aliócha, porque era somente nele que Grúchenhka» confiava, pedindo sem cessar seus conselhos; por vezes não sabia o que dizer-lhe.

Chegou à casa dela, preocupado. Voltara ela da prisão havia meia hora e, apenas pela vivacidade com que se levantou à entrada dele, concluiu que o esperava com impaciência. Em cima da mesa, havia um baralho, sobre o divã de couro arranjado como cama estava semi-estendido Maksímov, doente e enfraquecido, mas sorridente. Aquele velho, sem pouso, que voltara dois meses antes de Mókroie com Grúchenhka, não a deixara mais desde então. Após o trajeto sob a chuva e na lama, todo encharcado e apavorado, sentara-se no divã, olhando-a em silêncio com um sorriso que implorava. Grúchenhka, esmagada de pesar e já presa da febre, esqueceu-o quase a princípio, absorvida por outros cuidados; de repente, olhou-o fixamente; ele mostrou um sorriso lastimoso, embaraçado. Ela chamou Fiénia e ordenou que lhe desse de comer.

Durante o dia inteiro ficou ele quase imóvel no seu lugar. Quando escureceu e fecharam os postigos, Fiénia perguntou à sua patroa:

— Então, senhora, esse senhor vai ficar para dormir?

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— Sim, prepara-lhe um leito no divã — respondeu Grúchenhka. Interrogando-o, soube que não sabia ele para onde ir e que "o Senhor Kolgánov, meu benfeitor, declarou-me francamente que não me receberia mais e me deu 5 rublos". "Pois bem, tanto pior, fica", decidiu Grúchenhka no seu pesar, sorrindo-lhe com compaixão. O velho ficou comovido com aquele sorriso, seus lábios tremeram de emoção. Foi assim que ficou em casa dela na qualidade de parasita errante. Mesmo durante a doença de Grúchenhka, não deixou a casa. Fiénia e a velha cozinheira, sua avó, não o expulsaram, mas continuaram a dar-lhe de comer e a fazer-lhe a cama em cima do divã. Posteriormente, Grúchenhka se habituou mesmo com ele e voltando duma visita a Mítia (a quem visitava ainda convalescente) punha-se a conversar futilidades com Maksímuchka, para esquecer seu pesar. Verificou-se que o velho possuía certo talento de contador, de sorte que se lhe tornou mesmo necessário. Fora Aliócha, que não demorava, aliás, muito tempo, Grúchenhka não recebia quase ninguém. Quanto ao velho comerciante Samsónov, estava então gravemente doente, "ia-se", como diziam na cidade; morreu, com efeito, uma semana depois do julgamento de Mítia. Três semanas antes de sua morte, sentindo chegar o fim, chamou à sua presença seus filhos com suas famílias e ordenou-lhes que não mais o deixassem. A partir daquele momento, deu ordens expressas aos criados para não deixarem entrar Grúchenhka e, se ela se apresentasse, dizer-lhe que "ele lhe desejava que vivesse muito tempo feliz e que o esquecesse completamente". Grúchenhka mandava, no entanto, quase todos os dias saber notícias dele.

— Eis-te afinal! — exclamou ela, largando as cartas e acolhendo alegremente Aliócha. — Maksímuchka me amedrontava dizendo que não virias mais. Ah! quanta necessidade tenho de ti! Senta-te. Queres café?

— Com prazer — disse Aliócha, sentando-se. — Estou com muita fome.

— Fiénia, Fiénia, café! Está pronto desde muito tempo... Traze também uns bolinhos quentes! Sabes, Aliócha, tive uma complicação hoje a respeito desses bolinhos. Levei-os à prisão e, acredita, ele os recusou.

Chegou mesmo a pisar um. "Vou deixá-los com o guarda", disse-lhe eu.

"Se não os queres é que tua maldade te alimenta!" E fui saindo. Brigamos ainda uma vez. É todas as vezes a mesma coisa.

Grúchenhka falava com agitação. Maksímov sorriu timidamente e 575

baixou os olhos.

— A propósito de que, hoje? — perguntou Aliócha.

— Não esperava isso absolutamente. Imagina que está com ciúme de meu "antigo". "Por que lhe dás dinheiro?", diz-me ele. "Puseste-te então a sustentá-lo?" Está com ciúme, da manhã à noite. Uma vez estava com ciúme até mesmo de Kuzmá, na última semana.

— Mas ele conhecia "o antigo"?

— Como não? Sabia de tudo desde o começo, hoje me injuriou. Tenho vergonha de repetir suas palavras. O imbecil! Rakitka chegou, quando eu saía. É talvez ele quem o excita, hein? Que pensas? —

acrescentou ela, com ar distraído.

— Ele te ama muito e agora está nervoso.

— Como não estar nervoso? Julgam-no amanhã. Tinha ido justamente para reconfortá-lo, porque tenho medo, Aliócha, de imaginar o que acontecerá amanhã! Tu dizes que ele está nervoso? E eu então? E ele fala do polonês! Que imbecil! Mas creio que ele não está com ciúme de Maksímuchka.

— Minha mulher também era bastante ciumenta — observou Maksímov.

— De ti!... — disse Grúchenhka, rindo, malgrado seu. — Quem poderia mesmo fazê-la ficar ciumenta?

— As criadas de quarto.

— Cala-te, Maksímuchka, não estou de humor para risadas, a cólera mesmo me domina. Não olhes os bolinhos, não terás deles, far-te-iam mal.

É preciso cuidar também desse; dir-se-ia que minha casa é um asilo. —

Sorriu.

— Não mereço seus benefícios, sou insignificante — disse Maksímov, num tom queixoso. — Prodigalize antes sua bondade com os que são mais úteis do que eu.

— Ora, Maksímuchka, cada qual é útil, como saber qual o mais, qual o menos? Se somente aquele polonês não existisse! Aliócha, ele também imaginou cair doente, hoje. Fui vê-lo igualmente. Vou enviar-lhe de 576

propósito os bolinhos. Não o fiz, mas já que Mítia me acusa disso, enviá-los-ei agora de propósito! Ah! eis Fiénia com uma carta. É isto, são os poloneses pedindo ainda dinheiro!

Pan Mussialóvitch enviava-lhe, com efeito, uma carta bastante longa e empolada, como era seu hábito, em que lhe rogava que lhe emprestasse 3 rublos. Era acompanhada por um recibo com a promessa de pagar dentro de três meses; a assinatura de pan Vrubliévski figurava também.

Grúchenhka já havia recebido de seu "antigo" muitas cartas semelhantes com reconhecimentos de dívidas. Isto datava de sua convalescença, duas semanas antes. Sabia que os dois panówie tinham, contudo, vindo saber notícias dela durante sua doença. A primeira carta, escrita numa folha de grande formato, lacrada com um sinête de família, era longa, bastante obscura e empolada, de modo que Grúchenhka só leu a metade e pô-la de parte sem ter nada compreendido dela. Zombava bem de cartas naquela ocasião. Essa primeira carta foi seguida, no outro dia, de uma segunda, em que pan Mussialóvitch pedia-lhe que lhe emprestasse 2 000 rublos a curto prazo. Grúchenhka deixou-a igualmente sem resposta. Veio em seguida uma série de missivas, igualmente pretensiosas, em que a soma pedida diminuía gradualmente, caindo para 100 rublos, para 25, para 10, e por fim Grúchenhka recebeu uma carta em que os panówie mendigavam 1

rublo somente, com um recibo assinado pelos dois. Tomada de súbita piedade, foi ela mesma, ao crepúsculo, à casa do pan. Encontrou os dois poloneses numa miséria negra, famintos, sem fumo, sem cigarros, devendo à sua locadora. Os 200 rublos ganhos de Mítia tinham desaparecido depressa. Grúchenhka ficou surpresa, contudo, por ser acolhida pretensiosamente pelos panówie, com uma etiqueta majestosa e falas enfáticas. Só fez rir daquilo, deu 10 rublos ao seu "antigo", contou rindo a coisa a Mítia, que não demonstrou nenhum ciúme. Mas depois os panówie agarravam-se a Grúchenhka, bombardeavam-na todos os dias com pedidos de dinheiro, e todas as vezes enviava ela alguma coisa. Eis que hoje Mítia se mostrara ferozmente ciumento.

— Como uma tola, passei em casa dele, quando fui ver Mítia, porque ele também estava doente, o meu antigo pan — continuou Grúchenhka com volubilidade. — Conto isso a Mítia, rindo: "Imagina", digo-lhe, "que meu polonês pôs-se a cantar-me as canções de outrora, acompanhando-se numa guitarra. Pensa enternecer-me"... Então Mítia começou a injuriar-me... De modo que vou enviar bolinhos aos panówie.

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Fiénia, dá 3 rublos à menina que eles mandaram e uma dúzia de bolinhos enrolados num papel. Tu, Aliócha, contarás isto a Mítia.

— Nunca! — disse Aliócha, sorrindo.

— Ora! Pensas que ele se atormenta? É de propósito que se faz de ciumento. No fundo, isto pouco lhe importa — declarou Grúchenhka, com amargura.

— Como, de propósito?

— Como és ingênuo, Aliócha! Não compreendes nada, malgrado toda a tua inteligência. O que me ofende não é o ciúme dele, o contrário é que me teria ofendido. Sou assim. Admito o ciúme, sendo eu mesma ciumenta. Mas o que me ofende é que ele não me ama absolutamente e tem ciúme agora de mim de propósito. Serei uma cega? Põe-se a falar-me de Cátia, de como mandou ela vir de Moscou um médico afamado e o primeiro advogado de Petersburgo para defendê-lo. Ama-a, pois que lhe faz o elogio em minha presença. É culpado para comigo, mas arma brigas contra mim e é o primeiro a acusar-me e a lançar as culpas sobre mim:

"Conheceste o polonês antes de mim; é-me portanto permitido ter agora relações com Cátia". Eis como estão as coisas. Quer lançar sobre mim toda a culpa. É de propósito que provoca essas brigas comigo, digo-te, somente eu...

Grúchenhka não terminou, cobriu os olhos com seu lenço e desatou em lágrimas.

— Ele não ama Catarina Ivânovna — disse, com firmeza, Aliócha.

— Saberei dentro em pouco se ele a ama ou não — disse ela, com uma voz ameaçadora. Seu rosto alterou-se. Aliócha teve pena ao vê-la tomar de súbito um ar sombrio e irritado.

— Basta de tolices! Não foi para isso que te mandei chamar. Meu caro Aliócha, que se passará amanhã? Eis o que me tortura. Sou a única.

Vejo que os outros não pensam nisso, ninguém se interessa. Tu, pelo menos, pensas nisso? É amanhã o julgamento! Dize-me, como vão julgá-lo?

Mas foi o lacaio quem matou, o lacaio! Meu Deus! Será possível que o condenem em lugar dele e que ninguém tome sua defesa? Não incomodaram o lacaio, não é mesmo?

— Interrogaram-no rigorosamente e todos concluíram que não foi 578

ele. Agora está gravemente doente, desde aquela crise. É uma doença séria.

— Senhor! Devias ir à casa daquele advogado e contar-lhe o caso em particular. Parece que mandaram buscá-lo em Petersburgo por 3 000

rublos.

— Sim, fomos nós que fornecemos a quantia, Ivã, Catarina Ivânovna e eu. Ela, sozinha, é que mandou buscar o médico, por 2 000 rublos. O

advogado Fietiukóvitch teria exigido mais; este caso, porém, teve repercussão na Rússia inteira, todos os jornais falam dele, de modo que Fietiukóvitch quis mesmo encarregar-se dele sobretudo por causa da glória, tendo em vista a celebridade do processo. Estive com ele ontem.

— Então, falaste-lhe?

— Escutou sem dizer nada. Sua opinião já está formada, afirmou-me.

No entanto, prometeu levar em consideração minhas palavras.

— Como, em consideração? Ah! os velhacos! Eles o perderão. E o doutor, porque o fizeram vir?

— Como perito. Quer-se estabelecer que Mítia é louco e que matou num acesso de demência — Aliócha sorriu mansamente —, mas meu irmão não consentirá nisso.

— Mas seria a verdade, se ele tivesse matado! Estava louco, então, completamente louco, e a culpa foi minha, minha, miserável! Mas não foi ele. E todo mundo pretende que foi ele o assassino. Até mesmo Fiénia depôs de maneira que parece ele culpado. E na venda, e aquele funcionário, e no botequim, onde o tinham ouvido antes, todos o acusam.

— Sim, os depoimentos multiplicaram-se — notou Aliócha, com ar sombrio.

— E Gregório Vassílievitch persiste em dizer que a porta estava aberta, pretende tê-la visto, e nada o fará mudar de opinião; fui vê-lo, falei-lhe. Pois ainda por cima injuriou-me.

— Sim, é talvez o depoimento mais grave contra meu irmão — disse Aliócha.

— Quanto à loucura de Mítia, ela existe agora mesmo — começou Grúchenhka, com ar preocupado, misterioso. — Sabes, Aliócha, há muito tempo que queria dizer-te: vou vê-lo todos os dias e encho-me de espanto.

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Dize-me: que pensas? De que fala ele sempre, atualmente? Não comprendo nada do que ele diz, pensava que era algo de profundo, acima do meu alcance, tola que sou, mas eis que ele me fala dum nenê: "Por que é ele pobre, o nenê? Por causa dele é que vou agora para a Sibéria, não matei, mas é preciso que eu vá para a Sibéria!" De que se trata? Quem é este nenê? Não compreendi nada disso. Pus-me simplesmente a chorar.

Ele falava tão bem, ambos nós chorávamos, beijou-me e fez sobre mim o sinal-da-cruz. Que é que isso significa, Aliócha, quem é esse nenê?

— Rakítin tomou o hábito de visitá-lo — sorriu Aliócha. — Aliás...

isto não parte de Rakítin. Não o vi ontem, irei vê-lo hoje.

— Não, não é Rakitka, é seu irmão Ivã Fiódorovitch quem o atormenta, quem vai vê-lo... — Grúchenhka interrompeu-se bruscamente.

Aliócha olhou-a, estupefato.

— Como? Ivã vai vê-lo? Mítia mesmo me disse que ele nunca fora lá.

— Pois bem! Pois bem! Eis como sou! Tagarelei! — exclamou Grúchenhka, rubra de confusão. — Enfim, Aliócha, não fales, já que comecei, direi toda a verdade. Ivã foi lá duas vezes vê-lo: a primeira, logo que chegou de Moscou; a segunda, há uma semana. Proibiu Mítia de falar disso. Visitava-o às ocultas.

Aliócha permanecia mergulhado em suas reflexões. Aquela notícia impressionara-o fortemente.

— Ivã não me falou do caso de Mítia. Em geral, conversou pouco comigo; quando eu ia vê-lo, parecia sempre descontente, de modo que há já três semanas que não vou à casa dele. Hum... Se ele esteve lá há oito dias... produziu-se, com efeito, uma mudança em Mítia há uma semana...

— Sim, uma mudança — disse vivamente Grúchenhka. — Eles têm um segredo, o próprio Mítia me falou disso, e um segredo que o atormenta. Antes mostrava-se alegre, e se mostra ainda agora, somente, vês tu, quando começa a mover a cabeça, a andar de lá para cá, a puxar os cabelos das têmporas, sei que está agitado... tenho certeza!... Aliás, ainda hoje estava alegre.

— Tu disseste: nervoso.

— Uma e outra coisa. Fica nervoso por um momento, depois alegre, depois, de repente, nervoso de novo. Na verdade, Aliócha, ele me 580

surpreende; uma tal sorte em perspectiva e acontéce-lhe desatar em gargalhadas por bagatelas; dir-se-ia uma criança.

— É verdade que ele te proibiu de me falares a respeito de Ivã?

— Sim, és tu sobretudo que Mítia teme. Porque há um segredo, ele mesmo mo disse... Aliócha, meu querido, vai pois, trata de saber qual é esse segredo e vem dizer-mo, que eu, desgraçada, conheça enfim minha sorte maldita! Foi por isso que te mandei chamar hoje.

— Pensas que isso diz respeito a ti? Mas então ele não te teria falado!

— Não sei. Talvez não ouse dizer-mo. Está prevenido. O fato é que tem um segredo.

— Mas tu mesma, que pensas disso?

— Penso que tudo está acabado para mim. São três ligados contra mim, Cátia faz parte disso. É dela que provém tudo. Mítia me previne por alusão. Pensa em abandonar-me, eis todo o segredo. Imaginaram isto todos três, Mítia, Cátia e Ivã Fiódorovitch. Ele mo disse, há uma semana, que Ivã está apaixonado por Cátia, por isso vai tanto à casa dela. Aliócha, queria perguntar-te: é verdade ou não? Fala-me em consciência.

— Não mentirei. Ivã não ama Catarina Ivânovna.

— Pois bem! eu também pensei isso então! Ele mente descarada-mente. E faz-se agora ciumento para poder acusar-me em seguida. Mas é um imbecil, não sabe dissimular, é demasiado franco... Pagar-mo-á! "Tu acreditas que eu matei!" Eis o que ele ousa censurar-me! Que Deus lhe perdoe! Espera, essa Cátia terá o que ver comigo no tribunal! Falarei...

Direi tudo!

Pôs-se a chorar.

— Eis o que posso afirmar-te, Grúchenhka — disse Aliócha, levantando-se: — Em primeiro lugar, é que ele te ama, ama-te mais do que a tudo no mundo, e a ti somente, acredita-me. Tenho certeza disto. Em seguida, confesso-te que não irei arrancar seu segredo, mas se ele mo disser, preveni-lo-ei de que te prometi contar-to. Neste caso, voltarei para dizer-to hoje. Somente... parece-me que Catarina Ivânovna nada tem a ver com isso, esse segredo deve referir-se a outra coisa. É certamente isso. Por agora, adeus!

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Aliócha apertou-lhe a mão. Grúchenhka continuava chorando. Via ele bem que não acreditava ela em suas consolações, mas aquela efusão havia-a aliviado. Causava-lhe pena deixá-la naquele estado, mas estava com pressa. Tinha ainda muito que fazer.

II

O PÉ DOENTE

Queria em primeiro lugar ir à casa da Senhora Khokhlakova. Apressava-se para acabar o mais depressa possível, para não chegar demasiado tarde ao encontro com Mítia. Havia três semanas que a Senhora Khokhlakova estava doente; tinha o pé inflamado e, muito embora não estivesse de cama, passava os dias semi-estendida sobre um divã, na sua alcova, em galante traje íntimo, mas decente. Aliócha observara uma vez, sorrindo inocentemente, que a Senhora Khokhlakova tornava-se faceira, malgrado sua doença; enfeitava-se de borlas, fitas, camisetas. Durante os dois últimos meses, o jovem Pierkhótin pusera-se a frequentar-lhe a casa.

Havia quatro dias que Aliócha ali não ia e, assim que entrou, dirigiu-se aos aposentos de Lisa, que lhe mandara dizer na véspera que fosse lá imediatamente vê-la para um negócio muito importante, o que por certas razões o interessava. Mas enquanto a criada de quarto ia anunciá-lo, a Senhora Khokhlakova, informada de sua chegada, chamou-o só por um minuto. Aliócha achou que era melhor satisfazer em primeiro lugar a mamãe, senão ela o mandaria chamar a todo instante. Estava estendida sobre o divã, vestida como para uma festa, e parecia bastante agitada.

Acolheu Aliócha com gritos de entusiasmo.

— Há um século que não o vejo! Uma semana inteira, misericórdia!

Ah! você cá esteve há quatro dias, na quarta-feira passada. Ia aos aposentos de Lisa, estou certa de que queria andar na ponta dos pés, para que eu não o ouvisse. Meu caro Alieksiéi Fiódorovitch, se você soubesse quanto ela me inquieta! Isto é o principal, mas falaremos a respeito depois.

Caro Alieksiéi Fiódorovitch, confio-lhe inteiramente a minha Lisa. Após a morte do stáriets Zósima — paz à sua alma! (ela se benzeu) —, depois dele, considero você um asceta, se bem que lhe assente muito elegantemente seu novo traje. Onde encontrou você aqui um tal alfaiate? Mas não, afinal, isto não tem importância. Perdoe-me chamá-lo por vezes Aliócha, sou 582

uma velha, tudo me é permitido — sorriu faceiramente —, mas isto também virá depois. Sobretudo, não devo esquecer o principal. Rogo-lhe, se divãgar, chame-me a atenção. Depois que Lisa retirou sua promessa —

sua promessa infantil, Alieksiéi Fiódorovitch — de casar com você, deve ter bem compreendido que não era senão o capricho de uma menina doente, que ficou muito tempo na sua poltrona. Deus seja louvado, agora ela já anda. Esse novo médico que Cátia mandou buscar em Moscou para seu infeliz irmão, que amanhã... Que acontecerá amanhã? Morro só de pensar nisso! Sobretudo de curiosidade... Em suma, o tal médico veio ontem e examinou Lisa... Paguei-lhe 50 rublos pela visita. Mas não se trata disto. Está vendo, atrapalho-me. Apresso-me sem saber por quê. Não sei mais onde estou, tudo é para mim como uma meada enredada. Tenho medo de pô-lo em fuga, aborrecendo-o. Só tenho visto você. Ah! meu Deus! Nem pensei nisso, em primeiro lugar, café, Iúlia, Glafira, café!

Aliócha aparessou-se em agradecer, dizendo que acabara de tomar café.

— Em casa de quem?

— Em casa de Agrafiena Alieksándrovna.

— Em casa daquela mulher?! Ah! é ela a causa de tudo, aliás, não sei, dizem que ela procede agora irreprochàvelmente, é um pouco tarde. Teria valido mais antes, quando era preciso, de que serve isso agora? Cale-se, Alieksiéi Fiódorovitch, porque tenho tanto que dizer que não direi nada absolutamente, creio. Esse horrível processo... irei de qualquer forma, preparo-me para isso, levar-me-ão numa cadeira, posso ficar sentada, e você sabe que figuro no rol das testemunhas. Como haverei de falar, como haverei de falar? Não sei o que direi. É preciso prestar juramento, não é?

— Sim, mas penso que a senhora não poderá comparecer.