Os Irmãos Karamázov
Capítulo 23
Imagina que os destinos da humanidade estejam entre tuas mãos e que, para tornar as pessoas definitivamente felizes, proporcionar-lhes afinal a paz e o repouso, seja indispensável torturar um ser apenas, a criança que batia no peito com seu pequeno punho, e basear sobre suas lágrimas a felicidade futura. Consentidas tu, nestas condições, em edificar semelhante felicidade? Responde sem mentir.
— Não, não consentiria.
— Então, podes admitir que os homens consentiriam em aceitar essa felicidade ao preço do sangue dum pequeno mártir?
— Não, não posso admiti-lo, meu irmão — declarou Aliócha, com os olhos cintilantes. — Perguntaste se existe no mundo inteiro um ser que teria o direito de perdoar. Sim, esse ser existe. Pode tudo perdoar, a todos e por tudo, porque foi ele quem verteu seu sangue inocente por todos e por tudo. Tu o esqueceste, é ele a pedra angular do edifício e é a ele que se deve gritar: "Tu tens razão, Senhor Deus, porque tuas vias nos são reveladas".
— Ah! sim, "o único impecável" e "seu sangue". Não, não o esqueci, admirava-me, pelo contrário, de que não o tivesses ainda mencionado, porque nas discussões os vossos começam habitualmente por colocá-lo à frente. Fica sabendo, mas não rias, que compus um poema, há um ano. Se puderes conceder-me ainda dez minutos, recitar-to-ei.
— Escreveste um poema?
— Não — disse Ivã, rindo —, porque jamais compus dois versos sequer em minha vida. Mas sonhei esse poema e lembro-me dele. Serás meu primeiro leitor, isto é, meu ouvinte. Por que não aproveitar tua presença? Queres?
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— Sou todo ouvidos.
— Meu poema intitula-se "O Grande Inquisidor"; é absurdo, mas quero que o fiques conhecendo.
V
O GRANDE INQUISIDOR
— É necessário um preâmbulo do ponto de vista literário. A ação se passa no século XVI. Sabes que nessa época era de uso fazer intervirem nos poemas as potências celestiais. Não falo de Dante. Na França, os clérigos julgadores e os monges davam representações em que se punham em cena Nossa Senhora, os anjos, os santos, o Cristo e Deus Pai. Eram espetáculos ingênuos. Em Notre Dame de Paris, de Vítor Hugo, em honra ao nascimento do Delfim, no reinado de Luís XI, em Paris, é o povo convidado a uma representação edificante e gratuita, Le bon jugement de Ia três
sairite et gracieuse Vierge Marie. 23 Nesse mistério, aparece a Virgem em pessoa para pronunciar o seu bon jugement. Entre nós, em Moscou, antes de Pedro, o Grande, davam-se de tempos em tempos representações desse gênero, tiradas sobretudo do Antigo Testamento. Além disso, circulava uma porção de recitativos e de poemas em que figuravam, de acordo com as necessidades, os santos, os anjos, o exército celeste. Nos nossos mosteiros, traduziam-se, copiavam-se esses poemas, compunham-se mesmo novos, e isto sob a dominação tártara. Por exemplo, existe um pequeno poema monástico, sem dúvida traduzido do grego: La
Vierge chez les damnés, 24 com quadros duma audácia dantesca. A Virgem visita o inferno, guiada por São Miguel Arcanjo. Vê os condenados e seus tormentos. Entre outras, há uma categoria de pecadores num lago de fogo. Alguns afundam-se no lago e não aparecem mais; são esses "esquecidos pelo próprio Deus", expressão duma profundeza e duma energia notáveis. A Virgem, banhada em pranto, cai de joelhos diante do trono de Deus e pede perdão para todos os pecadores que viu no inferno, sem distinção.
Seu diálogo com Deus é de um interesse extraordinário. Suplica, insiste e, 23 O bom julgamento da santíssima e graciosa Virgem Maria.